     O ELO DE ALEXANDRIA
      Steve Berry


Traduo de ALVES CALADO


EDITORA RECORD

2008

Para Katie e Kevin
Dois meteoros que retornaram  minha rbita


AGRADECIMENTOS

Os escritores deveriam ter cuidado com a palavra "eu". Um 
livro  um esforo de equipe, e a equipe da qual tenho o 
privilgio de fazer parte  realmente uma maravilha. Assim, 
pela quinta vez, muitos agradecimentos. Primeiro, Pam 
Ahearn, minha agente, que enfrentou uma tempestade 
chamada Katrina, mas sobreviveu. Em seguida, o pessoal 
maravilhoso da Random House: Gina Centrello, editora 
extraordinria e dama extremamente charmosa; Mark 
Tavani, meu editor, agora um homem que continua muito 
mais sbio do que a idade faz aparentar; Cindy Murray, que 
se supera cada vez mais com a publicidade; Kim Hovey, 
cujas habilidades de marketing esto alm de qualquer 
descrio; Beck Stvan, o talentoso artista com olhar 
fantstico para capas; Laura Jorstad, que de novo fez 
copidesque com preciso; Carole Lowenstein, que sempre 
torna as pginas fceis para os olhos; e finalmente todo o 
pessoal de promoo e vendas - absolutamente nada poderia 
ser alcanado sem que eles tivessem dado o mximo de si 
mesmos.
Outro indivduo merece meno especial. Kenneth Harvey. 
Num jantar na Carolina do Sul h alguns anos, Ken me 
direcionou a um erudito libans chamado Kamal Salibi e a 
uma teoria bastante obscura que acabou se transformando 
neste romance. As idias brotam nos momentos mais 
estranhos e a partir das fontes mais inesperadas - a tarefa do 
escritor  reconhec-las. Obrigado, Ken.
Alm disso, tenho na vida uma nova Elizabeth, que 
inteligente, linda e amorosa. Claro, minha filha de 8 anos, 
Elizabeth, continua a trazer apenas alegria. Por fim, este 
livro  para meus dois filhos crescidos, Kevin e Katie, que 
fazem com que eu me sinta ao mesmo tempo velho e 
jovem.


A histria  a destilao de evidncias que sobrevivem ao 
passado.
- OSCAR HANDLIN, Truth in History (1979)


Desde o primeiro Ado que viu a noite, o dia e a forma de 
sua mo, os homens inventaram histrias e gravaram em 
pedra, metal ou pergaminho qualquer coisa que o mundo 
inclua ou os sonhos criem. Eis o fruto de seu trabalho: a 
Biblioteca... Os desprovidos de f dizem que, se ela fosse 
queimada, a histria se queimaria com ela. Esto errados. O 
trabalho humano incessante deu  luz uma infinidade de 
livros. Se, de todos eles, nenhum permanecesse, o homem 
recomearia a produzir cada pgina e cada linha.
- JORGE LUIS BORGES, sobre a Biblioteca de Alexandria

As bibliotecas so a memria da humanidade.
- JOHANN WOLFGANG VON GOETHE


PRLOGO

PALESTINA 
ABRIL DE 1948

A pacincia de George Haddad acabou enquanto olhava 
furioso para o homem amarrado  cadeira. Da mesma forma 
que ele, o prisioneiro tinha pele morena, nariz aquilino e os 
olhos castanhos fundos de um srio ou libans. Mas naquele 
homem havia algo de que Haddad simplesmente no 
gostava.
- S vou perguntar mais uma vez. Quem  voc?
Os soldados de Haddad haviam apanhado o estranho havia 
trs horas, pouco antes do amanhecer. Ele estivera andando 
sozinho, desarmado. O que era idiotice. Desde que, no ms 
de novembro anterior, os ingleses haviam decidido dividir a 
Palestina em dois Estados, um rabe e o outro judeu, a 
guerra entre os dois lados explodira. No entanto, aquele 
idiota havia entrado direto numa fortaleza rabe, sem 
oferecer resistncia, e no tinha dito nada desde que fora 
amarrado  cadeira.
- Ouviu idiota? Eu perguntei quem voc  - disse Haddad em 
rabe, que o sujeito obviamente entendia.
- Sou um Guardio.
A resposta no significou nada.
- O que  isso?
- Somos guardies do conhecimento.
Haddad no estava com clima para charadas. Ainda na 
vspera clandestinos judeus haviam atacado um povoado 
prximo. Quarenta palestinos, homens e mulheres, tinham 
sido arrebanhados at uma pedreira e mortos a tiros. Nada 
incomum. Os rabes estavam sendo sistematicamente 
assassinados e expulsos. A terra que suas famlias haviam 
ocupado por 1.600 anos estava sendo confiscada. A nakba, a 
catstrofe, estava acontecendo. Haddad precisava estar l 
fora, lutando contra o inimigo, e no ouvindo aquele 
absurdo.
- Somos todos guardies de algum tipo de conhecimento - 
deixou claro. - O meu  o de como apagar da face da Terra 
cada sionista que puder encontrar.
- Motivo pelo qual eu vim. A guerra no  necessria. 
Esse sujeito era mesmo idiota.
- Voc  cego? Os judeus esto inundando este lugar. 
Estamos sendo esmagados. Tudo que nos resta  a guerra.
- Voc subestima a deciso dos judeus. Eles sobreviveram 
durante sculos e continuaro sobrevivendo.
- Esta terra  nossa. Vamos vencer.
- H coisas mais poderosas que balas que podem lhes dar a 
vitria.
- Isso mesmo. Bombas. E temos um monte. Vamos esmagar 
cada um de vocs, ladres sionistas.
- No sou sionista.
A declarao veio em voz calma, e ento o homem ficou em 
silncio. Haddad percebeu que precisava acabar com o 
interrogatrio. No havia tempo para becos sem sada.
- Vim da biblioteca para falar com Kamal Haddad - disse o 
homem finalmente.
A fria de George Haddad cedeu  confuso.
-  o meu pai.
- Disseram-me que ele morava neste povoado.
O pai dele havia sido acadmico, formado em histria da 
Palestina, e ensinara na faculdade em Jerusalm. Um 
homem grande na voz e no riso, no corao e na alma, 
recentemente havia atuado como emissrio entre os rabes e 
os ingleses, tentando acabar com a macia imigrao judaica 
e impedir a nakba. Seus esforos tinham fracassado.
- Meu pai morreu.
Pela primeira vez, viu preocupao nos olhos vazios do 
prisioneiro.
- Eu no sabia.
Haddad recuperou uma lembrana que desejaria perder para 
sempre.
- H duas semanas ele ps o cano de um fuzil na boca e 
explodiu a cabea. Deixou um bilhete dizendo que no podia 
ver a destruio de sua ptria. Sentia-se responsvel por no 
ter conseguido impedir os sionistas. - Haddad encostou o 
revlver, que agora segurava, no rosto do guardio.
- Por que voc precisava do meu pai?
-  a ele que minha informao deveria ser passada. Ele  o 
convidado.
A raiva cresceu.
- Do que voc est falando?
- Seu pai era um homem que merecia grande respeito. Era 
culto, tinha o direito de compartilhar nosso conhecimento. 
Por isso vim, para convid-lo a compartilhar.
A voz calma do sujeito acertou Haddad como um balde 
d'gua apagando uma chama.
- Compartilhar o qu?
O guardio balanou a cabea.
- Isso  s para ele.
- Ele morreu.
- O que significa que outro convidado ser escolhido.
Sobre o que aquele sujeito estava arengando? Haddad havia 
capturado muitos prisioneiros judeus - torturando-os para 
descobrir o que podia, depois atirando no que restasse deles. 
Antes da nakba, plantava oliveiras, mas, como o pai, sentia-
se atrado pela academia e queria estudar mais. Agora isso 
era impossvel. O estado de Israel estava sendo estabelecido, 
suas fronteiras escavadas em antiga terra rabe, com os 
judeus aparentemente sendo compensados pelo mundo pelo 
Holocausto. E tudo isso  custa do povo da Palestina.
Aninhou o cano da arma entre os olhos do homem.
- Acabo de me tornar o convidado. Fale sobre seu o 
conhecimento. 
Os olhos do homem pareceram penetrar nele, e por um 
momento uma estranha inquietao o dominou. Aquele 
emissrio claramente j havia enfrentado dilemas. Haddad 
admirava a coragem.
- Vocs travam uma guerra desnecessria, contra um 
inimigo mal-informado - disse o homem.
- Do que, em nome de Deus, voc est falando?
- Isso  para o conhecimento do prximo convidado.
A manh estava chegando ao meio. Haddad precisava 
dormir. Com esse prisioneiro, havia esperado descobrir a 
identidade de algum da clandestinidade judaica, talvez at 
dos monstros que haviam trucidado aquelas pessoas na 
vspera. Os ingleses desgraados estavam fornecendo fuzis e 
tanques aos sionistas. Durante anos os ingleses haviam 
considerado ilegal os rabes possurem armas, o que os havia 
deixado numa sria desvantagem. Certo, os rabes existiam 
em maior nmero, mas os judeus estavam mais bem 
preparados, e Haddad temia que o resultado dessa guerra 
fosse a legitimidade do Estado de Israel.
Olhou de volta para uma expresso dura, inabalvel, olhos 
que jamais se afastavam dos seus, e soube que aquele 
prisioneiro estava preparado para morrer. Matar havia se
tornado muito mais fcil para Haddad nos ltimos meses. As
atrocidades dos judeus ajudavam a aplacar o pouco que 
restava de sua conscincia. Tinha apenas 19 anos, e seu 
corao havia se transformado em pedra.
Mas guerra era guerra.
Por isso puxou o gatilho.


 
UM

COPENHAGUE, DINAMARCA
TERA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO, TEMPO ATUAL
1H45

Cotton Malone olhou direto no rosto da encrenca. Do lado 
de fora da porta aberta de sua livraria estava sua ex-mulher, a 
ltima pessoa que ele esperava ver ali. Registrou 
rapidamente o pnico nos olhos cansados dela, lembrou-se 
das batidas que o haviam acordado alguns minutos antes e 
pensou instantaneamente no filho.
- Onde est Gary? - perguntou.
- Seu filho-da-puta. Eles o pegaram. Por sua causa. Pegaram 
meu filho. - Ela saltou  frente, os punhos fechados se 
chocando contra os ombros dele. - Seu filho-da-puta 
desgraado. - Malone agarrou os punhos da mulher e parou 
o ataque enquanto ela comeava a chorar. - Deixei voc por 
causa disso. Achei que esse tipo de coisa tinha acabado.
- Quem pegou o Gary? - Mais soluos foram a resposta. Ele 
continuou segurando os braos dela. - Pam. Escute. Quem 
pegou o Gary?
Ela o encarou.
- Como, diabos, vou saber?
- O que voc est fazendo aqui? Por que no procurou a 
polcia?
- Porque disseram para no fazer isso. Disseram que, se eu 
chegasse perto da polcia, o Gary estaria morto. Disseram 
que saberiam, e eu acreditei.
- Quem disse?
Ela soltou os braos, o rosto inundado de fria.
- No sei. S disseram para eu esperar dois dias, depois vir 
aqui e lhe dar isto. - Remexeu na bolsa a tiracolo e pegou um 
celular. Lgrimas continuavam a escorrer-lhe pelas 
bochechas. - Disseram para voc se conectar e abrir seu e-
mail.
Ele teria ouvido direito? Se conectar e abrir seu e-mail?
Desdobrou o telefone e verificou a freqncia. Megahertz 
suficientes para torn-lo capaz de conexes mundiais. O que 
o fez pensar. Subitamente se sentiu vulnervel. A Hojbro 
Plads estava silenciosa.  esta hora, ningum andava pela 
praa.
Seus sentidos despertaram.
- Entre. - Puxou-a para a loja e fechou a porta. No havia 
acendido nenhuma luz.
- O que ? - perguntou ela, a voz despedaada pelo medo. 
Ele a encarou.
- No sei, Pam. Diga voc. Nosso filho parece ter sido levado 
por no sei quem, e voc espera dois dias antes de contar a 
qualquer pessoa? No acha isso maluco?
- Eu no iria colocar a vida dele em risco.
- E eu iria? Como  que eu j fiz isso?
- Sendo voc mesmo - disse ela em tom gelado, e ele 
instantaneamente se lembrou do motivo pelo qual no vivia 
mais com a mulher.
Um pensamento lhe ocorreu. Ela nunca estivera na 
Dinamarca.
- Como me encontrou?
- Eles me explicaram.
- Quem, diabos, so eles?
- No sei, Cotton. Dois homens. S um falava. Alto, 
moreno, rosto chato.
- Americano?
- Como  que eu vou saber?
- Como ele falava?
Ela pareceu se controlar.
- No. No era americano. Tinha sotaque. Europeu. 
Ele gesticulou com o telefone.
- O que devo fazer com isto?
- Ele mandou que voc abrisse seu e-mail e tudo seria 
explicado. 
Pam Malone olhou nervosa as estantes ao redor, imersas em 
sombras.
- L em cima, no ?
Gary devia ter dito a ela que ele morava em cima da loja. 
Malone certamente no dissera. Os dois tinham se falado 
apenas uma vez desde que ele sara do Departamento de 
Justia e deixara a Gergia no ano anterior, e havia dois 
meses, em agosto, que ele levara Gary para casa depois da 
visita de vero. Ela lhe dissera friamente que Gary no era 
seu filho biolgico. Que o garoto era produto de um caso 
ocorrido 16 anos antes, como reao dela  infidelidade de 
Malone. Desde ento ele havia lutado com esse demnio e 
ainda no aceitara as implicaes. Uma coisa ele decidira na 
poca: no tinha inteno de falar de novo com Pam 
Malone. Qualquer coisa necessria seria dita entre ele e 
Gary.
Mas aparentemente as coisas haviam mudado.
-  - disse ele. - L em cima.

Entraram no apartamento, e ele se sentou  escrivaninha. 
Ligou o laptop e esperou que os programas rodassem. Pam 
finalmente havia controlado as emoes. Ela era assim. Seu 
humor vinha em ondas. Picos altssimos e abismos 
profundos. Era advogada, como ele, mas, enquanto ele 
trabalhava para o governo, ela cuidava de julgamentos 
arriscados para empresas que saam na Fortune 500, que 
podiam se dar ao luxo de pagar os custos altssimos de seu 
escritrio de advocacia. Quando Pam entrou na faculdade de 
direito, ele pensou que a deciso era um reflexo dele, um 
modo de os dois compartilharem uma vida. Mais tarde 
percebeu que era um modo de ela conquistar in-
dependncia. 
Assim era Pam.
O laptop estava pronto. Ele acessou a caixa de entrada. 
Vazia.
- No tem nada aqui. 
Pam correu para ele.
- Como assim? Ele mandou abrir seu e-mail.
- Isso foi h dois dias. Por sinal, como voc chegou aqui?
- Eles tinham uma passagem, j comprada. 
Malone no pde acreditar no que ouviu.
- Est maluca? O que voc fez foi dar dois dias de vantagem 
a eles.
- Acha que eu no sei? - gritou ela. - Acha que sou uma 
idiota completa? Eles disseram que meus telefones estavam 
grampeados e que eu estava sendo vigiada. Se eu deixasse de 
seguir as instrues, sequer um pouquinho, Gary estaria 
morto. Eles me mostraram uma foto. - Ela se controlou e as 
lgrimas escorreram de novo. - Os olhos dele... ah, os olhos 
dele. - Ela desmoronou outra vez. - Ele estava apavorado.
O peito de Malone latejou e suas tmporas queimaram. 
Intencionalmente ele havia deixado para trs uma vida de 
perigo cotidiano para encontrar algo novo. Ser que essa 
vida agora o perseguia? Segurou a borda da mesa. No 
adiantaria nada os dois desmoronarem. Se eles - quem quer 
que fossem - quisessem Gary morto, o garoto j estaria 
morto. No. Gary era uma moeda de troca, aparentemente 
um modo de obterem a ateno integral de Malone.
O laptop soltou um bipe.
Seu olhar saltou para o canto inferior direito da tela: 
RECEBENDO E-MAIL. Ento viu OL surgir na linha do 
remetente e A VIDA DO SEU FILHO no espao reservado para 
assunto. Manobrou o cursor e abriu o e-mail.

VOC TEM UMA COISA QUE EU QUERO. O ELO DE ALEXANDRIA. 
VOC O ESCONDEU EA NICA PESSOA NA TERRA QUE SABE 
ONDE ENCONTR-LO. VOC TEM 72 HORAS. QUANDO ESTIVER 
COM ELE, APERTE O BOTO NMERO 2 DO TELEFONE. SE EU 
NO TIVER NOTCIAS NO FIM DE 72 HORAS, VOC NO TER 
MAIS FILHO. SE DURANTE ESSE PERODO VOC ME SACANEAR, 
SEU FILHO PERDER UM APNDICE VITAL. 72 HORAS. 
ENCONTRE-O E NEGOCIAREMOS.

Pam estava parada atrs dele.
- O que  o Elo de Alexandria?
Ele no disse nada. No poderia dizer. Na verdade, era a 
nica pessoa no planeta que sabia e dera sua palavra.
- Quem mandou essa mensagem sabe tudo a respeito. O que 
? 
Ele olhou para a tela e soube que no haveria como rastrear 
a mensagem. O remetente, como ele prprio, sabia usar 
buracos negros - servidores de computador que roteavam os 
e-mails aleatoriamente atravs de um labirinto eletrnico. 
No era impossvel de seguir, mas muito difcil.
Levantou-se da cadeira e passou a mo pelo cabelo. Tinha 
pensado em cort-lo na vspera. Afastou o sono dos ombros 
e respirou fundo algumas vezes. Antes havia posto uma 
cala jeans e uma camisa de manga comprida que estava 
aberta, expondo uma camiseta cinza, e de repente sentiu um 
arrepio de medo.
- Droga, Cotton...
- Cale a boca, Pam. Preciso pensar. Voc no est ajudando.
- No estou ajudando? Que diab...
O celular tocou. Pam saltou para o aparelho, mas ele a 
afastou e disse:
- Deixe.
- Como assim? Pode ser o Gary.
- Caia na real.
Ele pegou o telefone depois do terceiro toque e atendeu.
- Demorou bastante - disse a voz masculina em seu ouvido. 
Malone captou um sotaque holands. - E, por favor, nada de 
bravatas do tipo "se voc machucar o garoto eu o mato". 
Nenhum de ns tem tempo para isso. Suas 72 horas j 
comearam.
Malone ficou quieto, mas lembrou-se de algo que havia 
aprendido muito tempo atrs. Nunca deixe o outro lado 
estabelecer a barganha.
- Enfie no seu rabo. No vou a lugar nenhum.
- Voc arrisca muito a vida do seu filho.
- Primeiro eu vejo o Gary. Falo com ele. Depois vou.
- D uma olhada l fora.
Ele correu at a janela. Quatro andares abaixo, a Hojbro 
Plads continuava silenciosa, a no ser por duas figuras 
paradas do lado oposto da rea calada de pedras.
As duas silhuetas tinham armas no ombro.
Lanadores de granadas.
- Acho que no - disse a voz em seu ouvido.
Dois projteis dispararam pela noite e romperam as janelas 
abaixo dele.
Ambos explodiram.


DOIS

VIENA, USTRIA 
2H12

O ocupante da Cadeira Azul ficou olhando enquanto um 
carro deixava duas pessoas sob uma entrada coberta. No era 
uma limusine nem nada explicitamente pretensioso, s um 
sedan europeu de cor discreta, uma viso comum nas 
movimentadas ruas da ustria. O perfeito meio de 
transporte para evitar a ateno de terroristas, criminosos, 
polcia e reprteres curiosos. Mais um carro chegou e deixou 
os passageiros, depois saiu para esperar entre as rvores 
escuras num estacionamento pavimentado. Mais dois 
apareceram dentro de alguns minutos. O Cadeira Azul, 
satisfeito, deixou seu quarto no segundo andar e desceu ao 
trreo.
A reunio acontecia no lugar de sempre.
Cinco cadeiras douradas, de encosto reto, formavam um 
crculo amplo sobre um tapete hngaro. As cadeiras eram 
idnticas, a no ser por uma, que tinha uma echarpe azul-
real no encosto almofadado. Junto a cada cadeira havia uma 
mesa dourada que sustentava um abajur de bronze, um 
bloco de escrever e um sino de cristal.  esquerda do 
crculo ficava uma lareira de pedra acesa, cuja luz danava 
nervosamente nos murais do teto.
Cada cadeira estava ocupada por um homem.
Estavam designados em ordem decrescente de autoridade. 
Dois ainda possuam cabelos e sade. Trs eram carecas e 
frgeis. Todos tinham pelo menos 70 anos e vestiam ternos 
discretos, com os sobretudos escuros e os chapus de feltro 
cinza pendurados em cabides de lato num dos lados. Atrs 
de cada um estava outro homem, mais jovem - o sucessor da 
cadeira, presente para ouvir e aprender, mas no para ser 
ouvido. As regras eram antigas. Cinco Cadeiras, quatro 
Sombras. O Cadeira Azul comandava.
- Peo desculpas pela hora tardia, mas recebemos uma 
informao perturbadora h algumas horas. - A voz do 
Cadeira Azul era tensa e fraca. - Nosso ltimo 
empreendimento pode estar prejudicado.
- Risco de revelao? - perguntou o Cadeira Dois.
- Talvez.
O Cadeira Trs suspirou.
- O problema pode ser resolvido?
- Acho que sim. Mas  necessrio agir imediatamente.
- Alertei dizendo que no deveramos interferir nisso - 
lembrou o Cadeira Dois asperamente, balanando a cabea. - 
As coisas deveriam ter tido permisso de seguir o curso 
natural.
O Cadeira Trs concordou, como havia feito na reunio 
anterior. 
- Talvez isso seja sinal de que deveramos ter deixado em 
paz. Muito pode ser dito sobre a ordem natural das coisas. 
O Cadeira Azul balanou a cabea.
- Nossa ltima votao foi contrria a esse rumo. A deciso 
foi tomada, de modo que devemos segui-la. - Ele fez uma 
pausa. - A situao exige ateno.
- A realizao envolveria tato e habilidade - disse o Cadeira 
Trs. - A ateno indevida derrotaria o objetivo. Se 
pretendemos ir adiante, recomendo darmos autoridade total 
a die Klauen der Adler para agir.
As Garras da guia.
Dois outros assentiram.
- J fiz isso - disse o Cadeira Azul. - Convoquei esta reunio 
porque minha ao anterior, unilateral, exige ratificao. 
Uma moo foi feita, mos se ergueram. 
Quatro a um, o assunto foi aprovado. 
O Cadeira Azul ficou satisfeito.

TRS

COPENHAGUE

O prdio de Malone sacudiu como um terremoto e inchou 
com um jorro de calor que subiu pelo poo da escada. Ele 
mergulhou na direo de Pam e os dois caram num tapete 
pudo que cobria o piso de tbuas. Ele a protegeu enquanto 
outra exploso sacudia os alicerces e mais chamas subiam.
Olhou para a porta.
O incndio grassava l embaixo.
A fumaa se acumulava numa nuvem que escurecia cada vez 
mais.
Levantou-se e correu para a janela. Os dois homens haviam 
sumido. Chamas lambiam a noite. Ele percebeu o que 
acontecera. Eles haviam incendiado os andares de baixo. A 
idia no era mat-los.
- O que est acontecendo? - gritou Pam.
Malone ignorou-a e levantou a janela. A fumaa dominava 
rapidamente o ar do lado de dentro.
- Venha - disse, e correu para o quarto.
Enfiou a mo embaixo da cama e puxou a mochila que 
sempre mantinha pronta, mesmo na aposentadoria, como
havia feito por 12 anos enquanto era agente do Setor
Magalhes. Dentro estava seu passaporte, mil euros, 
documentos de identidade extras, uma muda de roupas e sua 
Beretta com munio. Seu influente amigo Henrik 
Thorvaldsen recentemente havia recuperado a arma com a 
polcia dinamarquesa - confiscada quando Malone se 
envolvera com os Cavaleiros Templrios alguns meses antes.
Ps a mochila no ombro e enfiou os ps num par de tnis de 
corrida. No havia tempo para amarrar os cordes. A fumaa 
consumia o quarto. Abriu as duas janelas, o que ajudou.
- Fique aqui - disse.
Prendeu o flego e correu pelo escritrio at o poo da 
escada. Quatro andares se abriam abaixo. No trreo ficava a 
livraria; o segundo e o terceiro andares eram depsitos, no 
quarto ficava o apartamento. O primeiro e o terceiro andares 
estavam em chamas. O calor queimava seu rosto e o obrigou 
a recuar. Granadas incendirias. Tinha de ser.
Correu de volta para o quarto.
- No h como sair pelas escadas. Eles garantiram isso.
Pam estava encolhida perto da janela, engolindo o ar e 
tossindo. Malone passou por ela e ps a cabea para fora. Seu 
quarto ficava num canto. O prdio ao lado, que abrigava uma 
joalheria e uma loja de roupas, era um andar mais baixo, com 
o telhado plano e cercado de parapeitos de tijolos que, pelo 
que haviam lhe dito, datavam do sculo XVII. Olhou para 
cima. Sobre a janela ficava uma cornija enorme que se 
projetava para fora e envolvia a frente e a lateral do prdio.
Algum certamente devia ter chamado o corpo de 
bombeiros e o esquadro de resgate, mas ele no ficaria 
esperando uma escada.
Pam comeou a tossir com mais fora, e ele tambm estava 
com dificuldade para respirar. Malone virou a cabea dela.
- Olhe ali - disse, apontando para a cornija. - Agarre-se e v 
para a lateral do prdio. Voc pode pular de l para o telhado 
do outro prdio.
Os olhos dela se arregalaram.
- Pirou de vez? Ns estamos no quarto andar.
- Pam, este prdio pode explodir. H tubulaes de gs 
natural. Aquelas granadas so projetadas para criar um 
incndio. Eles no atiraram neste andar porque queriam que 
ns sassemos.
Ela no parecia registrar o que ele estava dizendo.
- Temos de sair antes que a polcia e os bombeiros cheguem.
- Eles podem ajudar.
- Quer passar as prximas oito horas respondendo a 
perguntas? S temos 72.
Ela pareceu compreender instantaneamente a lgica e olhou 
para a cornija.
- No posso, Cotton. - Pela primeira vez, sua voz no tinha 
irritao.
- Gary precisa de ns. Temos de ir. Olhe para mim e faa 
exatamente o que eu fizer.
Ele pendurou a mochila no ombro e saiu pela janela. 
Segurou a cornija, sentindo a pedra spera quente, mas 
suficientemente fina para que seus dedos conseguissem 
agarrar com firmeza. Pendurou-se pelos braos e foi se 
balanando, de mo em mo, at o canto. Mais alguns 
metros depois da esquina, jogou-se no teto plano ao lado.
Voltou correndo  frente do prdio e olhou para cima. Pam 
ainda estava na janela.
- Venha. Como eu fiz. Ela hesitou.
Uma exploso rasgou o terceiro andar. Os vidros das janelas 
choveram sobre a Hojbro Plads. As chamas varreram a 
escurido. Pam se encolheu entrando de novo. Um erro. 
Um segundo depois, sua cabea surgiu e ela tossiu 
violentamente.
- Voc tem de vir agora - gritou ele.
Por fim ela pareceu aceitar que no havia escolha. Conforme 
ele havia feito, passou pela janela e agarrou a cornija. Depois 
colocou o corpo para fora e se pendurou.
Malone viu que os olhos dela estavam fechados.
- Voc no precisa olhar. S mova as mos, uma de cada 
vez. Ela fez isso.
Dois metros e meio de cornija se estendiam entre o lugar 
onde ele estava e onde ela lutava para se mover. Mas Pam 
estava se saindo bem. De mo em mo. At que Malone viu 
as figuras embaixo, na praa. Os dois homens estavam de 
volta, desta vez com fuzis.
Ele arrancou a mochila rapidamente e mergulhou a mo 
dentro, encontrando sua Beretta.
Disparou duas vezes contra as figuras 15 metros abaixo. O 
som ricocheteou nos prdios ao redor da praa, em ecos 
agudos.
- Por que est atirando? - perguntou Pam.
- Continue vindo.
Outro tiro e os homens embaixo se espalharam.
Pam encontrou a esquina. Ele olhou para ela rapidamente.
- D a volta e venha na minha direo.
Examinou a escurido embaixo, mas no viu os homens 
armados. Pam estava manobrando, uma das mos presas  
cornija, a outra tentando encontrar um local para se firmar.
Ento perdeu o apoio.
E caiu.
Ele estendeu a mo, ainda segurando a arma, e conseguiu 
agarr-la. Mas os dois tombaram no telhado. Ela estava 
ofegando. Ele tambm.
O celular tocou.
Malone se arrastou at a mochila, encontrou o telefone e o 
abriu.
- Achou divertido? - perguntou a mesma voz de antes.
- Algum motivo para explodir meu prdio?
- Foi voc que disse que no ia sair.
- Quero falar com o Gary.
- Eu fao as regras. Voc j usou 36 minutos de suas 72 
horas. Se fosse eu, estaria correndo. A vida do seu filho 
depende disso.
A linha ficou muda.
Sirenes se aproximavam. Malone pegou a mochila e saltou 
de p.
- Temos de ir.
- Quem era?
- Nosso problema.
- Quem era?
Uma fria sbita o envolveu.
- No fao idia.
- O que ele quer?
- Uma coisa que no posso dar.
- Como assim, no pode? A vida do Gary depende disso. 
Olhe em volta. Ele explodiu sua loja.
- Nossa, Pam, eu no saberia disso se voc no tivesse 
mostrado. 
Ele se virou para ir embora.
Ela o agarrou.
- Aonde ns vamos?
- Encontrar respostas.

QUATRO

Dominick Sabre estava na extremidade leste da Hojbro 
Plads, olhando a livraria de Cotton Malone queimar. 
Caminhes de bombeiro amarelo-fluorescente j estavam 
posicionados, e a gua era espirrada nas janelas cheias de 
chamas.
At agora, tudo bem. Malone estava em movimento. A 
ordem a partir do caos. Seu lema. Sua vida.
- Eles desceram pelo prdio ao lado - disse a voz em seu 
fone de ouvido.
Para onde foram? - sussurrou ele no microfone de lapela.
- Para o carro de Malone. 
Bem no alvo.
Bombeiros corriam pela praa, arrastando mais mangueiras, 
aparentemente querendo garantir que as chamas no se 
espalhassem. O incndio parecia estar se divertindo. Livros 
raros queimavam com entusiasmo. Logo o prdio de Malone 
se transformaria em cinzas.
- Todo o resto est no lugar? - perguntou ao homem ao lado 
dele, um dos dois holandeses que ele contratara.
- Eu mesmo verifiquei. Prontos para ir.
Um grande planejamento fora feito para o que aconteceria 
em seguida. Ele no sabia sequer se o sucesso seria possvel - 
o objetivo era intangvel, esquivo -, mas se a trilha que 
estava seguindo levasse a algum lugar, ele estaria preparado. 
Mas tudo dependia de Malone.

Seu nome de batismo era Harold Earl, e em nenhum lugar 
do material disponvel havia uma explicao sobre a origem 
do apelido Cotton. Malone tinha 48 anos, 11 a mais do que 
Sabre. Mas, como ele, era americano, nascido na Gergia. 
Sua me era natural do sul; seu pai, um militar de carreira, 
comandante da marinha cujo submarino havia afundado 
quando Malone tinha 10 anos. De modo interessante, 
Malone havia seguido os passos do pai, cursando a Academia 
Naval e a escola de vo, depois mudara abruptamente de 
direo e acabara tirando um diploma de advogado pago pelo 
governo. Foi transferido para a Procuradoria-Geral, onde 
passara nove anos. Treze anos atrs havia mudado de direo 
outra vez e passara para o Departamento de Justia, no 
recm-formado Setor Magalhes, que cuidava de algumas 
das investigaes internacionais mais discretas dos Estados 
Unidos.
Ali permanecera at o ano anterior, aposentando-se com o 
posto de comandante, deixando os Estados Unidos, 
mudando-se para Copenhague e comprando um sebo de 
livros raros.
Crise de meia-idade? Problema com o governo?
Sabre no tinha certeza.
E ento houve o divrcio. Isso Sabre havia estudado. Quem 
sabia? Malone parecia um quebra-cabea. Mesmo sendo um 
biblifilo comprovado, nada nos perfis psicolgicos que 
Sabre havia lido explicava satisfatoriamente todas as 
mudanas radicais.
Outras coisinhas apenas confirmavam a competncia do 
oponente.
Fluncia razovel em vrias lnguas, nenhum vcio ou fobia 
conhecidos e tendncia  automotivao e dedicao 
obsessiva. Malone tambm era abenoado com memria 
idtica, coisa que Sabre invejava.
Competente, experiente, inteligente. Muito diferente dos 
idiotas que ele havia contratado - quatro holandeses com 
pouco crebro, nenhuma, moral e disciplina escassa.

Ficou nas sombras enquanto a Hojbro Plads se apinhava de 
gente vendo o trabalho dos bombeiros. O ar noturno 
pinicava seu rosto. O outono na Dinamarca parecia apenas 
um rpido preldio do inverno, e ele enfiou os punhos 
fechados nos bolsos do palet.
Fora necessrio incendiar tudo que Cotton Malone havia 
trabalhado durante um ano para alcanar. Nada pessoal. 
Apenas negcios. E se Malone no entregasse exatamente o 
que ele queria, Sabre mataria o garoto sem hesitao.
O holands junto dele - que havia telefonado para Malone - 
tossiu, mas continuou em silncio. Uma das regras 
implacveis de Sabre fora deixada clara desde o incio. S 
falem quando eu me dirigir a vocs. No tinha tempo nem 
vontade de bater papo.
Olhou o espetculo por mais alguns minutos. Por fim, 
sussurrou no microfone de lapela:
- Todo mundo fique atento. Sabemos para onde ele foi, e 
vocs sabem o que fazer.

CINCO

4H

Malone parou o carro na frente da Christiangade, a manso 
de Henrik Thorvaldsen, que se erguia na costa leste da 
Zelndia dinamarquesa, adjacente ao mar de Oresund. Ele 
havia dirigido os mais de trs quilmetros ao norte de 
Copenhague no Mazda ltimo modelo que mantinha 
estacionado a alguns quarteires da livraria, perto do 
Christianburg Slot.
Depois de descer do telhado, ficara olhando os bombeiros na 
tentativa de conter o incndio que devastava o prdio. Sabia 
que seus livros estavam perdidos, e se as chamas no 
devorassem cada volume, o calor e a fumaa causariam 
danos irreparveis. Olhando a cena, tinha lutado contra uma 
fria crescente, tentando praticar o que havia aprendido h 
muito tempo. Nunca odeie seu inimigo. Isso atrapalhava o 
julgamento. No. Ele no precisava odiar. Precisava pensar.
Mas Pam estava tornando isso difcil.
- Quem mora aqui? - perguntou ela.
- Um amigo.
Ela havia tentado arrancar informaes dele durante a 
viagem, mas Malone falara pouca coisa, o que s parecia 
alimentar a fria de Pam. Antes de cuidar dela, ele precisava 
se comunicar com outra pessoa.
A casa escura era um exemplar genuno do barroco 
dinamarqus - trs andares, construda com tijolos 
engastados em arenito e coberta por um telhado 
graciosamente curvo feito de cobre. Uma ala era virada para 
o interior e a outra encarava o mar. Trezentos anos antes, 
um Thorvaldsen a havia construdo, depois de converter 
lucrativamente toneladas de turfa sem valor em combustvel 
para produzir vidro. Outros Thorvaldsen mantiveram-na 
amorosamente com o passar dos sculos e acabaram 
transformando a Adelgade Glasvaerker, com seu 
caracterstico smbolo de dois crculos com uma linha 
embaixo, no principal fabricante de vidros da Dinamarca. O 
conglomerado moderno era comandado pelo atual patriarca 
da famlia, Henrik Thorvaldsen, o responsvel por Malone 
estar morando na Dinamarca.
Malone caminhou at a slida porta da frente. Um carrilho 
que lembrava uma igreja de Copenhague ao meio-dia 
anunciou sua presena. Ele apertou o boto de novo e em 
seguida bateu  porta. Uma luz se acendeu numa das janelas 
de cima. Depois outra. Alguns instantes depois, ele ouviu 
trancas sendo liberadas e a porta se abriu. O homem que o 
olhava certamente acabara de acordar, mas seu cabelo cor de 
cobre estava penteado, o rosto era uma mscara de controle 
polido, o roupo de algodo sem qualquer amarrotado.
Jesper. O mordomo de Thorvaldsen.
- Acorde-o - disse Malone em dinamarqus.
- E qual seria o propsito de um ato to radical s 4 horas da 
madrugada?
- Olhe para mim. - Ele estava coberto de suor, sujeira e 
fuligem. -  importante o suficiente?
- Estou inclinado a achar que sim.
- Vamos esperar no escritrio. Preciso do computador dele.

Primeiro Malone encontrou sua conta de e-mail 
dinamarquesa para ver se mais alguma mensagem fora 
mandada, mas no havia nenhuma. Em seguida, acessou o 
servidor seguro do Setor Magalhes, usando a senha que sua 
antiga chefe, Stephanie Nelle, havia lhe dado. Mesmo 
estando aposentado e no fazendo mais parte da folha de 
pagamento do Departamento de Justia, em troca do que 
fizera por Stephanie recentemente na Frana, ela havia lhe 
dado uma linha de comunicao direta. Com a diferena de 
fuso horrio - eram apenas 22h de segunda-feira em Atlanta 
-, sabia ele que sua mensagem seria passada diretamente a 
ela.
Levantou os olhos do computador quando Thorvaldsen 
entrou arrastando os ps na sala. O velho dinamarqus 
aparentemente havia demorado para se vestir. Seu corpo 
baixo e curvo, produto de uma coluna que h muito se 
recusava a ficar reta, estava oculto pelas dobras de um suter 
grande demais, cor de abbora. O cabelo farto e prateado 
estava embolado em um dos lados, as sobrancelhas densas e 
indomadas. Rugas fundas cercavam a boca e a testa, e a pele 
macilenta sugeria que evitava o sol - o que Malone sabia ser 
verdade, j que o dinamarqus raramente se aventurava ao 
ar livre. Num continente onde o dinheiro antigo significava 
bilhes, Thorvaldsen estava no topo de todas as listas dos 
mais ricos.
- O que est acontecendo? - perguntou Thorvaldsen.
- Henrik, esta  Pam, minha ex-mulher. 
Thorvaldsen lanou-lhe um sorriso.
- Prazer em conhec-la.
- No temos tempo para isso - disse ela, ignorando o 
anfitrio. - Precisamos cuidar do que est acontecendo com 
o Gary.
Thorvaldsen encarou Malone.
- Voc est pssimo, Cotton, e ela parece ansiosa.
- Ansiosa? - disse Pam. - Acabo de pular de um prdio em 
chamas. Meu filho est desaparecido. Estou afetada pela 
diferena de fuso horrio e no como h dois dias.
- Vou mandar preparar um pouco de comida. - A voz de 
Thorvaldsen permaneceu inexpressiva, como se esse tipo de 
coisa acontecesse toda noite.
- No quero comida. Quero saber do meu filho.
Malone contou a Thorvaldsen o que havia acontecido em 
Copenhague, depois disse:
- Acho que o prdio j era.
- O que  a menor das nossas preocupaes.
Malone captou a escolha de palavras e quase sorriu. Gostava 
disso em Thorvaldsen. Estava sempre do seu lado, no 
importando o que acontecesse.
Pam andava de um lado para o outro como uma leoa 
enjaulada. Malone notou que ela havia perdido alguns quilos 
desde que tinham se falado pela ltima vez. Ela sempre fora 
magra, com cabelos compridos e ruivos, e o tempo no 
havia escurecido o tom claro de sua pele sardenta. Suas 
roupas estavam to esfrangalhadas quanto os nervos, mas no 
geral ela mostrava a mesma boa aparncia de anos atrs, 
quando ele havia se casado com ela pouco depois de entrar 
para o JAG da Marinha. Esse era o negcio com Pam: era 
fantstica por fora. O problema era por dentro. Mesmo 
agora, seus olhos azuis, avermelhados de chorar, conseguiam 
transmitir uma fria gelada. Era uma mulher inteligente e 
sofisticada, mas no momento estava confusa, atordoada, com 
raiva e medo. Nada disso, segundo as estimativas dele, era 
bom.
- O que voc est esperando? - perguntou ela rispidamente. 
Malone olhou para a tela do computador. O acesso ao 
servidor do Setor ainda no fora liberado. Mas, como ele no 
estava mais na ativa, seu pedido certamente estava sendo 
repassado para a aprovao de Stephanie. Ele sabia que, 
assim que ela soubesse quem estava chamando, iria se 
conectar imediatamente.
- Era isso que voc costumava fazer? - perguntou ela. - Ter 
gente tentando pr fogo em voc? Atirando? Era isso que 
voc fazia? Est vendo onde colocou a gente? Viu onde a 
gente foi parar?
- Sra. Malone - disse Henrik.
- No me chame assim - respondeu ela rispidamente. - Eu 
deveria ter mudado de sobrenome. O bom senso me 
mandou fazer isso no divrcio. Mas no, eu no queria que 
meu nome fosse diferente do nome de Gary. No posso 
dizer absolutamente nada sobre o precioso pai dele. 
Nenhuma palavra. No, Cotton, voc  o cara. Um rei aos 
olhos do garoto. A pior coisa que j vi.
Ela queria uma briga, e ele meio que desejou ter tempo para 
isso. 
O computador soltou um pin. A tela se converteu na pgina 
de acesso do Setor.
Malone digitou a senha, e um instante depois a comunicao 
foi estabelecida. As palavras CAVALEIROS TEMPLRIOS 
apareceram. Era a apresentao em cdigo de Stephanie. Ele 
digitou ABADIA DES FONTAINES, o lugar onde, alguns 
meses antes, ele e Stephanie haviam encontrado os 
remanescentes modernos daquela ordem medieval. Alguns 
segundos depois apareceu:
O que  Cotton?
Ele digitou um resumo do que havia acontecido. Ela 
respondeu:

Tivemos uma invaso aqui. H dois meses. Os arquivos 
confidenciais foram acessados.

Pode explicar isso?

No no momento. Queramos manter isso em segredo. 
Preciso verificar umas coisas. Fique firme e eu volto logo. 
Onde voc est?

Na casa de seu dinamarqus predileto.

Diga a ele que eu o amo.

Malone ouviu Henrik dar um risinho e soube que, como 
dois pais divorciados, Stephanie e Henrik se toleravam 
simplesmente por causa dele.
- S vamos ficar aqui sentados esperando? - perguntou Pam. 
Os dois tinham lido por cima do ombro de Malone.
-  exatamente o que vamos fazer. 
Ela partiu para a porta.
- Voc pode ficar. Eu vou fazer alguma coisa.
- O qu, por exemplo? - perguntou ele.
- Vou  polcia.
Ela abriu a porta. Jesper estava no corredor, bloqueando o 
caminho. Pam olhou para o mordomo.
- Saia da frente. 
Jesper ficou firme.
Ela se virou e olhou Henrik, furiosa.
- Diga ao seu empregado para sair, ou ento eu o tiro da 
frente.
- Pode tentar - disse Thorvaldsen.
Malone ficou feliz por Henrik ter previsto a bobagem dela.
- Pam. Minhas entranhas esto reviradas, assim como as 
suas. Mas a polcia no pode fazer absolutamente nada. 
Estamos lidando com um profissional que est pelo menos 
dois dias  nossa frente. Para fazer o melhor pelo Gary, eu 
preciso de informaes.
- Voc no derramou uma lgrima. Nem a mnima sugesto 
de surpresa, absolutamente nada. Como sempre.
Ele se ressentiu daquilo, em particular vindo de uma mulher 
que apenas dois meses antes havia lhe informado 
calmamente que ele no era pai do filho dos dois. Malone 
havia chegado  concluso de que a revelao no 
significava nada quando se tratava de seu sentimento por 
Gary - o garoto era seu filho e sempre seria -, mas a mentira 
fazia uma diferena gigantesca no que ele pensava sobre a 
ex-mulher. A raiva subiu por seu pescoo.
- Voc j fez besteira. Deveria ter me ligado no segundo em 
que a coisa aconteceu. Voc  to inteligente, deveria ter 
encontrado um modo de fazer contato comigo ou com 
Stephanie. Ela est l em Atlanta mesmo. Em vez disso, deu 
dois dias a esses caras. No tenho tempo nem energia para 
lutar com voc e com eles. Sente esse rabo e cale a boca.
Ela permaneceu imvel como uma pedra, num silncio 
pensativo. Por fim rendeu-se e afundou, largada, num sof 
de couro.
Jesper fechou a porta suavemente e permaneceu do lado de 
fora.
- Diga-me uma coisa - pediu Pam, os olhos fixos no cho, o 
rosto rgido como mrmore.
Ele sabia o que ela queria saber.
- Por que no posso dar o que ele quer? No  to simples 
assim.
- A vida de um garoto est em risco.
- De um garoto, no, Pam. Do nosso filho.
Ela no respondeu. Talvez finalmente tivesse percebido que 
ele estava certo. Antes de agir, precisavam de informaes. 
Ele estava encurralado. Como no dia seguinte s provas da 
faculdade de direito, ou quando requisitou a transferncia da 
Marinha para o Setor Magalhes, ou quando entrou no 
escritrio de Stephanie Nelle e se demitiu.
Espera, anseio, querer, tudo isso combinado com no saber.
Ento ele tambm se perguntou o que Stephanie estaria 
fazendo.

SEIS

WASHINGTON, D.C. 
SEGUNDA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO 
22H30

Stephanie Nelle ficou satisfeita por estar sozinha. A 
preocupao nublava seu rosto, e ela no gostava que 
ningum, em particular os superiores, a vissem preocupada. 
Raramente se permitia ser afetada pelo que acontecia no 
campo, mas o seqestro de Gary Malone a havia afetado 
profundamente. Estava na capital a trabalho e havia acabado 
uma reunio num jantar com o conselheiro de segurana 
nacional. Um Congresso cada vez mais moderado estava 
propondo mudanas em vrias leis ps-11 de setembro. 
Estava crescendo o apoio para permitir que as medidas de 
emergncia fossem deixadas de lado, de modo que a 
administrao se preparava para uma luta. Na vspera, vrias 
altas autoridades haviam feito rodadas em programas de 
entrevistas para censurar os crticos, e os jornais matinais 
tambm tinham publicado matrias mandadas pela mquina 
de publicidade da administrao. Ela fora chamada de 
Atlanta para ajudar a fazer lobby no dia seguinte com 
senadores importantes. A reunio desta noite fora um 
preparativo - um modo, tinha certeza, de todo mundo ficar 
sabendo exatamente o que ela pretendia dizer.


Stephanie odiava poltica.
Havia servido a trs presidentes durante seu tempo no 
Departamento de Justia. Mas a administrao atual fora, 
sem dvida, a mais difcil de ser aplacada. Decididamente  
direita do centro e a cada dia indo mais para este extremo, o 
presidente j obtivera o segundo mandato e lhe restavam 
trs anos no cargo, de modo que estava pensando em seu 
legado, e que epitfio melhor do que o homem que esmagou 
o terrorismo?
Tudo isso no significava nada para ela.
Presidentes iam e vinham.
E como as decises antiterrorismo que estavam em risco j 
haviam se mostrado teis, ela garantira ao conselheiro de 
segurana nacional que seria uma boa menina de manh e 
diria todas as coisas certas no Capitlio.
Mas isso fora antes de o filho de Cotton Malone ter sido 
levado.

O telefone no escritrio de Thorvaldsen tocou com um som 
agudo que chacoalhou os nervos de Malone. Henrik 
atendeu.
-  bom ter notcias suas, Stephanie. E tambm amo voc. - 
O dinamarqus sorriu da prpria ironia. - Sim, Cotton est 
aqui.
Malone pegou o telefone.
- Fale.
- Por volta do Dia do Trabalho ns notamos uma falha no 
sistema, que havia acontecido muito antes. Algum 
conseguiu dar uma olhada nos arquivos confidenciais. Um, 
em particular.
Ele sabia qual era.
- Voc entende que, ao guardar essa informao, colocou 
meu filho em risco?
A outra ponta da linha ficou em silncio.
- Responda, droga.
- No posso, Cotton. E voc sabe por qu. S diga o que vai 
fazer. Ele sabia o que a pergunta realmente significava. Ele 
entregaria o Elo de Alexandria quela voz do telefone 
celular?
- Por que no deveria?
- Voc  o nico que pode responder a essa pergunta.
- O que vale arriscar a vida do meu filho? Preciso entender a 
histria inteira. O que no me disseram h cinco anos.
- Tambm preciso saber disso - respondeu Stephanie. - 
Tambm no fui informada.
Ele j ouvira essa fala.
- No me sacaneie. No estou no clima.
- Desta vez estou sendo sincera. Eles no me contaram nada. 
Voc pediu para entrar, e eu recebi a autorizao para isso. 
Contatei o procurador-geral, de modo que terei respostas.
- Como algum sequer ficou sabendo do elo? Aquela coisa 
toda foi classificada em nveis muito acima de voc. Esse era 
o trato.
- Excelente pergunta.
- E voc ainda no disse por que no me contou sobre o 
vazamento.
- No, Cotton. No disse.
- No lhe ocorreu a idia de que eu era a nica pessoa na 
Terra que sabe sobre aquele elo? Voc no conseguiu ligar os 
pontos?
- Como eu poderia ter previsto tudo isso?
- Com os seus vinte anos de experincia. Porque voc no  
uma imbecil. Porque ns somos amigos. Porque... - A 
preocupao dele estava se derramando num jorro. - Sua 
estupidez pode custar a vida do meu filho.
Ele viu que as palavras haviam abalado Pam, e esperou que 
ela no explodisse.
- Sei disso, Cotton. 
Ele no ia dar moleza.
- Nossa, agora me sinto melhor.
- Vou cuidar disso aqui. Mas posso lhe oferecer uma coisa. 
Tenho um agente na Sucia que pode chegar  Dinamarca 
no meio da manh. Ele vai lhe contar tudo.
- Onde e quando?
- Ele sugeriu a Kronborg Slot. s 11 horas.
Malone conhecia o lugar. No era longe, ficava empoleirado 
numa lngua de terra desnuda que dava para o Oresund. 
Shakespeare havia imortalizado a fortaleza monstruosa 
quando situou Hamlet ali. Agora era a atrao turstica mais 
popular da Escandinvia.
- Ele sugeriu o salo de baile. Imagino que voc saiba onde 
isso tudo fica, no ?
- Estarei l.
- Cotton. Vou fazer todo o possvel para ajudar.
- Para ser sincero,  o mnimo que voc pode fazer. 
E ele desligou.


SETE

WASHINGTON, D.C. 
TERA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO 
4H

Stephanie entrou na casa de O. Brent Green, procurador-
geral dos Estados Unidos. Um carro tinha acabado de lev-la 
a Georgetown. Ela havia telefonado para Green antes da 
meia-noite e pedido o encontro cara a cara, dizendo 
brevemente o que tinha acontecido. Ele quisera um pouco 
de tempo para uma investigao, e ela no tivera escolha 
alm de aceitar.
Green esperava em seu escritrio.
Ele havia servido ao presidente durante todo o primeiro 
mandato e fora um dos poucos membros do gabinete que 
concordara em ficar para o segundo. Era um defensor 
popular de causas crists e conservadoras - um solteiro da 
Nova Inglaterra cujo nome no estava relacionado a 
qualquer sugesto de escndalo e que, mesmo quela hora da 
madrugada, projetava um vigor srio. O cabelo e o 
cavanhaque estavam aparados com preciso e muito bem 
penteados, o corpo magro coberto por um terno de risca de 
giz caracterstico. Tivera seis mandatos no Congresso e era 
governador de Vermont quando foi chamado pelo 
presidente para o Departamento de Justia. Suas palavras 
francas e sua abordagem direta o haviam tornado popular 
com os dois lados da poltica, mas a personalidade distante 
parecia impedi-lo de ascender nacionalmente a um cargo 
mais alto que o de procurador-geral.
Ela nunca estivera dentro da casa de Green e havia esperado 
uma aparncia carrancuda e pouco imaginativa, algo 
parecido com o homem em si. Mas, em vez disso, os 
cmodos eram quentes e aconchegantes - muitos tons de 
castanho-avermelhado, cinza-acastanhado, verde-claro e 
variaes de marrom e laranja -, um efeito Hemingway, 
como anunciava uma rede de lojas de mveis de Atlanta.
- O assunto  incomum, mesmo para voc, Stephanie - disse 
Green ao cumpriment-la. - Mais alguma notcia de Malone?
- Ele estava descansando antes de ir  Kronborg. Com a 
diferena de fuso horrio, deve estar indo para l agora.
Green convidou-a a sentar-se.
- Esse problema parece estar crescendo.
- Brent, j falamos disso antes. Algum no alto da cadeia 
alimentar acessou um banco de dados seguro. Sabemos que 
arquivos sobre o Elo de Alexandria foram copiados.
- O FBI est investigando.
- Isso  piada. O diretor est to enfiado no rabo do 
presidente que no h perigo de algum na Casa Branca ser 
envolvido.
- Observao extica, como sempre, mas exata. Infelizmente 
este  o nico procedimento disponvel a ns.
- Poderamos dar uma olhada.
- O que s provocaria encrenca.
- Coisa com a qual estou acostumada. 
Green sorriu.
-  mesmo. - Ele fez uma pausa. - Estou me perguntando: o 
quanto voc sabe de fato sobre esse elo?
- Quando mandei Cotton para a briga, h cinco anos, foi 
sabendo que eu no precisava saber. O que no  incomum. 
Lido com muitas coisas assim, por isso no me preocupei. 
Mas agora preciso saber.
O rosto de Green mostrou alguma preocupao.
- Provavelmente estou para violar uma infinidade de leis 
federais, mais concordo:  hora de voc saber.

Malone olhou para a elevao rochosa da Kronborg Slot. 
Antigamente, seus canhes eram apontados para navios 
estrangeiros que atravessavam os estreitos indo e vindo do 
Bltico, e as taxas coletadas faziam inchar o tesouro 
dinamarqus. Agora as paredes bege erguiam-se sombrias 
contra um cu azul-claro. No era mais uma fortaleza, 
apenas um prdio da renascena nrdica cheio de torres 
octogonais, pinculos e telhados de cobre pintados de verde 
que mais faziam lembrar a Holanda do que a Dinamarca. O 
que era compreensvel, Malone sabia, j que um holands 
do sculo XVI fora fundamental no projeto do castelo. Ele 
gostava do local. Os lugares pblicos podiam ser os melhores 
pontos para se ficar invisvel. Ele havia usado muitos 
durante o tempo que passara no Setor.
A vinda do norte, de Christiangade, tinha demorado apenas 
15 minutos. A propriedade de Thorvaldsen ficava no meio 
do caminho entre Copenhague e Helsingor, a movimentada 
cidade porturia adjacente  fortaleza. Malone havia visitado 
Kronborg e Helsingor, caminhado pelas praias prximas em 
busca de mbar - um modo relaxado de passar uma tarde de 
domingo. A visita de hoje era diferente. Ele estava tenso. 
Pronto para brigar.
- O que estamos esperando? - perguntou Pam, o rosto fixo 
como uma mscara.
Malone fora obrigado a traz-la. Ela havia insistido com 
veemncia, ameaando causar mais problemas se fosse 
deixada para trs. Ele certamente podia entender a falta de 
vontade dela de apenas esperar com Thorvaldsen. A tenso 
e a monotonia criavam uma mistura voltil.
- O sujeito disse que estaria aqui s 11 horas.
- J perdemos tempo demais.
- Nada que fizemos foi perda de tempo.
Depois do telefonema de Stephanie, ele conseguira dormir 
algumas horas. No faria bem nenhum a Gary se ficasse 
meio acordado. Tambm havia trocado de roupa, vestindo as 
que estavam na mochila. As de Pam foram limpas por 
Jesper. Eles tambm haviam tomado o caf-da-manh.
Portanto, estava pronto.
Olhou o relgio: 10h20.
Carros comeavam a encher os estacionamentos. Logo 
chegariam nibus. Todo mundo queria ver o castelo de 
Hamlet. Ele no poderia se importar menos.
- Vamos.

- O elo  uma pessoa - disse Green. - Seu nome  George 
Haddad. Um erudito palestino, estudioso da Bblia.
Stephanie conhecia o nome. Haddad era amigo pessoal de 
Malone e, havia cinco anos, pedira especificamente a ajuda 
dele.
- O que vale a vida de Gary Malone?
- A biblioteca perdida de Alexandria.

- Voc no pode estar falando srio. 
Green assentiu.
- Haddad achava que a havia localizado.
- Como isso poderia ter qualquer relevncia atualmente?
- Na verdade, poderia ser bem relevante. Essa biblioteca foi a 
maior concentrao de conhecimento no planeta. Ficou de 
p durante seiscentos anos, at meados do sculo VII, 
quando os muulmanos finalmente assumiram o controle de 
Alexandria e expurgaram tudo que fosse contrrio ao 
islamismo. Meio milho de rolos, cdices, mapas, qualquer 
coisa: a biblioteca tinha uma cpia. E at hoje ningum 
encontrou nenhum pedao de pergaminho. 
- Mas Haddad descobriu?
- Foi o que deu a entender. Ele estava trabalhando numa 
teoria bblica. No sei o que era, mas a prova de sua teoria 
supostamente estava contida na biblioteca perdida.
- Como ele sabia disso?
- De novo, no sei, Stephanie. Mas h cinco anos, quando 
nosso pessoal na Cisjordnia, no Sinai e em Jerusalm fez 
alguns pedidos inocentes de vistos, acesso a arquivos, 
escavaes arqueolgicas, os israelenses ficaram loucos. Foi 
ento que Haddad pediu ajuda a Malone.
- Para uma misso cega, da qual no gostei.
Cega significava que Malone recebera ordem de proteger 
Haddad sem fazer nenhuma pergunta. Ela se lembrava que 
Malone tambm no gostara da condio.
- Haddad s confiava em Malone - disse Green. - Motivo 
pelo qual Cotton acabou escondendo-o e  o nico que hoje 
sabe do paradeiro de Haddad. Aparentemente, a 
administrao no pareceu se incomodar em esconder 
Haddad, desde que controlasse o caminho at ele.
- Para qu?
Green balanou a cabea.
- Faz pouco sentido. Mas h uma idia do que pode estar em 
jogo. 
Ela estava escutando.
- Num dos relatrios que eu vi, havia Gnesis 13:14-17 
escrito na margem. Sabe o que ?
- No sou muito boa com a Bblia.
- E disse o Senhor a Abro: Levanta agora os teus olhos e 
olha desde o lugar onde ests para o lado do norte, e do sul, 
e do oriente, e do ocidente, porque toda esta terra que vs, 
hei de dar a ti, e  tua descendncia, para sempre.
Isso ela sabia. Uma aliana que, durante sculos, fora a 
reivindicao bblica dos judeus  Terra Santa.
- Abro removeu sua tenda e viveu na plancie de Mamre, e 
ali construiu um altar ao Senhor - disse Green. - Mamre  
Hebron, hoje na Cisjordnia, a terra que Deus deu aos 
judeus. Abro se tornou Abrao: E essa nica passagem 
bblica est no mago de todas as desavenas no Oriente 
Mdio.
Disso ela tambm sabia. O conflito entre judeus e rabes no 
Oriente Mdio no era uma batalha poltica, como muitos 
percebiam. Em vez disso, era um debate interminvel em 
relao  Palavra de Deus.
- E h mais um fato interessante - disse Green. - Logo depois 
de Malone esconder Haddad, os sauditas mandaram tratores 
para o oeste da Arbia e derrubaram cidades inteiras. A 
destruio prosseguiu por trs semanas. Pessoas foram 
realocadas. Prdios foram arrasados. No restou 
absolutamente nada dessas cidades. Claro que  uma parte 
fechada do pas, de modo que no houve cobertura da 
imprensa, nenhuma ateno foi atrada.
- Por que eles fariam isso? Parece exagerado, at para os 
sauditas.
- Ningum jamais encontrou uma boa explicao. Mas eles 
fizeram isso muito deliberadamente.
- Precisamos saber mais, Brent. Cotton precisa saber. Ele 
tem uma deciso a tomar.
- Verifiquei com o conselheiro de segurana nacional h 
uma hora. Incrivelmente, ele sabe menos sobre isso do que 
eu. Ouviu falar do elo, mas sugeriu que eu conversasse com 
outra pessoa.
Ela sabia.
- Larry Daley.
Lawrence Daley servia como subsecretrio de segurana 
nacional, prximo do presidente e do vice-presidente. Daley 
jamais aparecia no circuito de programas de entrevistas das 
manhs de domingo. Tambm no aparecia na CNN nem na 
Fox News. Era um poderoso ator por trs dos panos. Uma 
ligao entre os altos escales da Casa Branca e o resto do 
mundo poltico. Mas havia um problema.
- No confio no sujeito - disse ela.
Green pareceu captar o algo mais que o tom de voz de 
Stephanie sugeria, mas no disse nada, observando-a com 
penetrantes olhos cinzentos.
- No temos controle sobre Malone - deixou claro 
Stephanie. - Ele far o que tiver de fazer. E neste momento 
est agindo com raiva.
- Cotton  um profissional.
-  diferente quando algum da famlia est correndo perigo. 
- Ela falava por experincia prpria, tendo recentemente 
lutado com fantasmas de seu prprio passado.
Ele  o nico que sabe onde George Haddad est - disse 
Green. - Ele tem todas as cartas do baralho.
- E  exatamente por isso que o esto espremendo. Green 
manteve o olhar fixo nela.
Stephanie sabia que seu dilema certamente estava sendo 
transmitido atravs de uma suspeita que ela no conseguia 
afastar dos olhos.
- Diga, Stephanie, por que no confia em mim?
 
OITO

OXFORDSHIRE, INGLATERRA 
9H

George Haddad estava parado em meio  multido e ouvia os 
especialistas, sabendo que estavam errados. O evento no 
passava de um modo de atrair a ateno da mdia para o 
Museu Thomas Bainbridge e os pouco louvados 
criptoanalistas de Bletchley Park. Certo, aqueles homens e 
mulheres annimos haviam trabalhado em segredo absoluto 
durante a Segunda Guerra Mundial, terminando por decifrar 
o cdigo Enigma da mquina alem e apressando o fim da 
guerra. Mas infelizmente sua histria no seria totalmente 
contada at que a maioria deles estivesse morta ou velha 
demais para se importar. Haddad podia entender a 
frustrao. Ele tambm j havia trabalhado em segredo.
Ele tambm havia descoberto uma grande revelao.
E nem era mais conhecido como George Haddad. Na 
verdade, tinha usado nomes falsos demais para se lembrar de 
todos. Cinco anos antes, fora para a clandestinidade e no 
mantinha contato com ningum. Num aspecto isso era bom. 
Em outro, o silncio abalava seus nervos. Graas a Deus, 
somente um homem sabia que ele estava vivo, e Haddad 
confiava completamente nessa pessoa.
Na verdade, estaria morto, se no fosse ele.
Sair hoje era correr um risco. Mas ele queria ouvir o que os 
supostos especialistas tinham a dizer. Lera sobre o programa 
no Times e tinha de admirar os ingleses. Eles adoravam 
acontecimentos da mdia - a cena estava montada com a 
preciso de um filme de Hollywood. Um monte de ternos e 
rostos sorridentes, uma infinidade de cmeras e gravadores. 
Por isso fez questo de permanecer atrs das lentes. O que 
era fcil, j que o foco da ateno de todo mundo era o 
monumento.
Havia oito espalhados pelo jardim da propriedade, todos 
erguidos em 1784 pelo ento conde, Thomas Bainbridge. 
Haddad conhecia a histria da famlia. Em 1624, os 
Bainbridge haviam comprado a propriedade, oculta num 
recanto de Oxfordshire e rodeada de bosques de btulas, e 
ergueram uma enorme manso jacobina no centro de 240 
hectares. Outros Bainbridge conseguiram manter a 
propriedade at 1848, quando a Coroa adquiriu o ttulo por 
meio de um leilo por falta de pagamento de impostos e a 
rainha Vitria abriu a casa e o terreno como um museu. 
Desde ento os visitantes vinham ver os mveis de poca e 
vislumbrar como era viver no luxo sculos atrs. A 
biblioteca passara a ser considerada uma das melhores em 
obras do sculo XVIII. Mas em anos recentes o lugar era 
mais visitado pelo monumento, j que a Bainbridge Hall 
possua um enigma, e os turistas do sculo XXI adoravam 
segredos.
Ele olhou para o caramancho de mrmore branco.
A imagem de cima, ele sabia, era Les Bergers d'Arcadie II, 
Os pastores da Arcdia II, uma obra sem importncia pintada 
por Nicolas Poussin em 1640, imagem reversa de sua obra 
anterior Os pastores da Arcdia. A cena pastoral 
representava uma mulher olhando, enquanto trs pastores se 
reuniam em volta de um tmulo de pedra, apontando para as 
letras gravadas ET IN ARCDIA EGO. Haddad sabia a 
traduo. E na Arcdia eu. Uma inscrio enigmtica que 
fazia pouco sentido. Embaixo dessa imagem ficava outro 
desafio. Letras aleatrias cinzeladas num padro.

D   O.V.O.S.V.V.A.V.V.   M

Haddad sabia que o pessoal da nova era e os fanticos por 
teorias da conspirao haviam trabalhado durante anos com 
essa combinao de letras, desde que haviam sido 
redescobertas uma dcada antes por um reprter do 
Guardian em visita ao museu.
- A todos vocs aqui hoje - estava dizendo um homem alto e 
corpulento diante dos microfones - ns, da Bainbridge Hall, 
damos as boas-vindas. Talvez agora possamos saber o 
significado da mensagem que Thomas Bainbridge deixou 
neste monumento h mais de duzentos anos.
Haddad sabia que o homem que falava devia ser o curador 
do museu. Duas pessoas flanqueavam o administrador - um 
homem e uma mulher, ambos idosos. Ele vira as fotos dos 
dois no The Sunday Times. Ambos haviam sido 
criptoanalistas de Bletchley Park, convocados para avaliar as 
possibilidades e decifrar qualquer cdigo que o monumento 
supostamente contivesse. E o consenso geral parecia ser que 
o monumento era um cdigo.
O que mais poderia ser? Haviam perguntado muitos.
Haddad ficou ouvindo o curador explicar que fora publicado 
um anncio relativo ao monumento, e 130 solues tinham 
sido oferecidas por uma variedade de criptgrafos, telogos, 
lingistas e historiadores.
- Algumas eram bastante bizarras - disse o curador -, 
implicando OVNIS, o Santo Graal e Nostradamus. Claro, 
essas solues em particular vinham com pouca ou 
nenhuma prova para sustent-las, por isso foram 
rapidamente descartadas. Alguns candidatos achavam que as 
letras eram um anagrama, mas as palavras que eles 
montaram faziam pouco sentido.
Algo que Haddad podia entender muito bem.
- Uma soluo promissora veio de um ex-decifrador de 
cdigos americano. Ele desenhou 82 matrizes de 
decodificao e acabou extraindo as letras SEJ do 
seqenciamento. Revertido, isso vira JES. Aplicando uma 
complexa grade de bandeira, ele extraiu Jesus H Defy. 
Nossos consultores de Bletchley Park acharam que essa era 
uma imagem que negava a natureza divina de Cristo. Esta 
soluo  uma tentativa remota, para dizer o mnimo, porm 
 intrigante.
Haddad sorriu daquele absurdo. Thomas Bainbridge fora um 
homem dedicadamente religioso. No teria negado Cristo.
A senhora idosa ao lado do curador subiu ao pdio. Tinha 
cabelos prateados e usava um conjunto azul-plido.
- Este monumento nos proporcionou uma grande 
oportunidade - disse ela em voz melodiosa. - Quando eu e 
outros trabalhvamos em Bletchley, enfrentamos muitos 
desafios com os cdigos alemes. Eles eram muito difceis. 
Mas, se a mente humana pode conceber um cdigo, 
tambm pode decifr-lo. As letras aqui so mais complexas. 
Pessoais. O que torna sua interpretao difcil. Ns, que 
fomos contratados para estudar todas as 130 solues 
possveis para este quebra-cabea, no pudemos chegar a um 
consenso evidente. Como o pblico, ficamos divididos. Mas 
um significado possvel fazia sentido. - Ela se virou e indicou 
o monumento atrs. - Acho que isto  um bilhete de amor.
Ela parou, aparentemente permitindo que suas palavras 
fizessem efeito.
- OVOSVAVV representa Optimae Uxoris Optimae Sororis 
Viduus Amantissimus Vovit Virtutibus. Isso quer dizer, 
aproximadamente, "um vivo dedicado  melhor das esposas 
e  melhor das irms". Esta no  uma traduo perfeita. Em 
latim clssico, Sororis pode significar "das companheiras" 
alm de "das irms". E vir, esposo, seria melhor do que 
viduus, vivo. Mas o significado  claro.
Um dos reprteres perguntou sobre o D e o M que ladeavam 
o agrupamento de oito letras.
-  bem simples - disse ela. - Dis Manibus. Uma inscrio 
romana. "Aos deuses do outro mundo, salve."  como o 
nosso Descanse em paz. Essas letras encontram-se na 
maioria das lpides romanas.
Ela parecia bastante satisfeita consigo mesma. Haddad queria 
fazer umas poucas perguntas pertinentes que iriam estourar 
a bolha intelectual da mulher, mas no disse nada. 
Simplesmente ficou olhando os dois veteranos de Bletchley 
Park serem fotografados diante do monumento, com uma 
das mquinas alems Enigma, emprestada especialmente 
para a ocasio. Montes de sorrisos, perguntas e comentrios 
elogiosos.
Thomas Bainbridge era de fato um homem brilhante. 
Infelizmente, Bainbridge nunca conseguira transmitir seus 
pensamentos de modo eficaz, ento seu brilho se 
desvaneceu e acabou desaparecendo sem ser apreciado. Para 
a mente do sculo XVIII, ele parecia um fantico. E o 
curioso monumento ali adiante, a imagem reversa de uma 
pintura obscura e um amontoado de letras, fora erguido por 
um motivo.
Um motivo que Haddad conhecia.
No era um bilhete de amor, nem um cdigo, nem uma 
mensagem. Era algo totalmente diferente. 
Um mapa.





NOVE

KRONBORG SLOT 
10H20

Malone pagou as seis coroas para ele e Pam entrarem no 
castelo. Seguiram um grupo que havia sado de um dos trs 
nibus.
Dentro, uma exposio fotogrfica mostrando vislumbres 
das muitas produes de Hamlet recebeu-os. Ele pensou na 
ironia do local. Hamlet era uma pea sobre um filho 
vingando o pai; no entanto, ali estava ele, um pai lutando 
pelo filho. Seu corao doa por Gary. Jamais quisera que o 
garoto ficasse em situao difcil e, durante 12 anos, 
enquanto trabalhava no Setor, sempre mantivera um limite 
claro entre o trabalho e a casa. Mas agora, um ano depois de 
ter se afastado voluntariamente, seu filho estava em 
cativeiro.
- Era isso que voc fazia o tempo todo? - perguntou Pam.
- Em parte.
- Como conseguia viver assim? Minhas entranhas esto 
reviradas. Ainda estou tremendo por causa de ontem  
noite.
- Voc se acostuma. - E ele falava srio, mesmo que h 
muito tempo estivesse cansado de mentiras, meias-verdades, 
fatos improvveis e traidores.
- Voc precisava desse barato, no ?
O corpo dele estava pesado de exausto, e no sentia clima 
para aquela briga familiar.
- No, Pam. Eu no precisava. Mas era o meu trabalho.
- Egosta.  o que voc era. Sempre.
- E voc era simplesmente um raio de sol. A esposa que 
sempre apia, que defende o marido. Tanto que ficou 
grvida de outro homem, teve um filho e me deixou pensar 
que ele era meu durante 15 anos.
- No tenho orgulho do que fiz. Mas no sabemos quantas 
das suas mulheres ficaram grvidas, no ?
Ele parou de andar. Aquilo precisava ter um fim.
- Se voc no calar a boca, vai fazer o Gary ser morto. Eu 
sou a nica esperana dele e, neste momento, no  
produtivo brincar com a minha cabea.
Essa verdade provocou um claro momentneo de 
compreenso nos olhos amargos dela, um instante em que a 
Pam Malone que ele havia amado reapareceu. Malone 
desejou que aquela mulher pudesse permanecer ali, mas, 
como sempre, sua guarda subiu e olhos mortos o encararam 
de volta.
- Mostre o caminho - disse ela.

Entraram no salo de baile.
O espao retangular se estendia por sessenta metros. Janelas 
se enfileiravam dos dois lados, cada uma posta em fundas 
alcovas de alvenaria grossa, com a luz oblqua lanando um 
feitio sutil no piso xadrez. Cerca de uma dzia de visitantes 
se espalhava admirando enormes telas a leo que 
pontilhavam as paredes de um tom amarelo-claro, 
principalmente cenas de batalhas.
Na outra extremidade, diante de uma lareira, Malone viu um 
homem baixo e magro com cabelos castanho-avermelhados. 
Lembrava-se dele, do Setor Magalhes. Lee Durant. Havia 
falado com Durant algumas vezes em Atlanta. O agente viu-
o e desapareceu por uma porta.
Malone foi pelo corredor.
Passaram por uma srie de cmodos, cada um esparsamente 
decorado com mveis da renascena europia e tapearias 
de parede. Durant permanecia cinco metros adiante.
Malone o viu parar.
Ele e Pam entraram na sala identificada como Cmara do 
Canto. Tapearias adornavam as paredes brancas e simples. 
Apenas alguns mveis se espalhavam no piso opaco, em 
preto-e-branco.
Malone apertou a mo de Durant e apresentou Pam.
- Fale o que est acontecendo.
- Stephanie disse para falar com voc, no com ela.
- Por mais que eu quisesse que ela no estivesse aqui, ela 
est; portanto, no embrome.
Durant pareceu pensar na situao, depois disse:
- Tambm recebi ordens para fazer o que voc pedisse.
- Fico feliz em saber que Stephanie foi to solcita.
- V direto ao assunto - disse Pam. - Estamos com prazo 
curto. 
Malone balanou a cabea.
- Ignore-a. Diga o que est acontecendo.
- Obtiveram acesso aos nossos arquivos confidenciais. No 
houve qualquer evidncia de hackers ou de passagem 
forada pelos firewalls, de modo que certamente usaram 
uma senha. A senha  trocada a intervalos regulares, mas 
vrias centenas de pessoas tinham acesso.
- No restaram traos em nenhum computador especfico?
- Zero. E nenhuma digital nos dados. O que indica que 
quem fez isso sabia o que estava fazendo.
- Presumo que algum esteja investigando. 
Durant assentiu.
- O FBI, mas at agora, nada. Cerca de 12 arquivos foram 
vistos, um dos quais era o Elo de Alexandria.
O que, pensou Malone, poderia explicar por que Stephanie 
no o havia alertado imediatamente. Havia outras 
possibilidades.
- Aqui vai a parte interessante. Neste momento, os 
israelenses esto superligados, em particular durante as 
ltimas 24 horas. Nossas fontes dizem que essa informao 
foi descoberta ontem, vinda da Cisjordnia, de um dos 
agentes palestinos deles.
- O que isso tem a ver?
As palavras Elo de Alexandria foram mencionadas.
- O que voc sabe?
- S fiquei sabendo disso h uma hora, por intermdio de 
um dos meus contatos. Ainda no fiz contato integral com 
Stephanie.
- Em que isso ajuda? - perguntou Pam. 
Malone falou com Durant:
- Preciso saber mais.
- Eu lhe fiz uma pergunta - disse Pam, levantando a voz. 
A civilidade de Malone acabou.
- Eu disse para voc me deixar cuidar disso.
- Voc no tem inteno de dar nada a eles, no ? - Seus 
olhos chamejaram e ela pareceu pronta para dar um soco.
- Minha inteno  pegar o Gary de volta.
- Est disposto a arriscar a vida dele? S para proteger uma 
porcaria de arquivo?
Um grupo de visitantes cheios de mquinas fotogrficas 
entrou na sala. Malone viu que Pam teve o bom senso de 
ficar quieta e sentiu-se grato pela interrupo. 
Definitivamente fora um erro traz-la. Teria de larg-la 
assim que sassem de Kronborg, mesmo que isso significasse 
tranc-la numa sala da manso de Thorvaldsen.
Os visitantes saram.
Ele encarou Durant e disse:
- Fale mais do...
Um estouro o espantou, ento a cmera presa ao teto, no 
canto, explodiu num chuveiro de fagulhas. Em seguida 
soaram mais dois estouros. Durant foi jogado para trs 
enquanto rosas de sangue brotavam de furos em seu terno 
cor de azeitona.
Um terceiro tiro soou, e Durant desmoronou no cho.
Malone girou.
Havia um homem a seis metros dali, segurando uma Glock. 
Malone enfiou o brao direito sob o palet para encontrar 
sua arma.
- No precisa - disse o homem calmamente, e jogou a arma. 
Malone pegou-a. Segurou o cabo da pistola, dedo no gatilho, 
apontou e disparou.
A resposta foi apenas um clique. 
Seu dedo apertou de novo o gatilho. 
Mais cliques. 
O homem sorriu.
- Voc no acha que eu iria entreg-la carregada. 
Ento o atirador saiu correndo da sala.

DEZ

WASHINGTON 
4H40

Stephanie pensou na pergunta de Brent Green - Por que no 
confia em mim? - e decidiu ser direta com o chefe.
- Todo mundo nesta administrao quer que eu v embora. 
No sei por que ainda estou aqui. De modo que, no 
momento, no confio em ningum.
Green balanou a cabea diante da suspeita dela.
- Aqueles arquivos foram acessados por algum que tinha 
uma senha - acrescentou ela. - Claro, eles examinaram uma 
dzia, ou mais, porm ns dois sabemos atrs de qual 
estavam. Apenas alguns de ns sabem do Elo de Alexandria. 
Eu nem conheo os detalhes, s que enfrentamos um monte 
de problemas por uma coisa aparentemente insignificante. 
Muitas perguntas. Nenhuma resposta. Ora, Brent. Ns dois 
no somos exatamente unha e carne, ento por que eu 
deveria confiar em voc agora?
- Sejamos claros. Eu no sou seu inimigo. Se fosse, no 
estaramos tendo esta conversa.
- Tenho amigos neste negcio que me disseram isso muitas 
vezes, e no falavam nem um pouco a srio.
- Os traidores so assim. 
Ela decidiu test-lo mais.
- Voc no acha que deveramos trazer mais pessoas para o 
crculo?
- O FBI j est dentro.
- Brent, estamos atuando no escuro. Precisamos saber o que 
George Haddad sabe.
- Ento est na hora de lidarmos com Larry Daley, na Casa 
Branca. Qualquer estrada que pegarmos vai dar direto nele.  
melhor irmos  fonte.
Ela concordou.
E Green pegou o telefone.

Malone ouviu a pessoa que acabara de assassinar Lee Durant 
gritar que l dentro havia um homem com uma arma, que 
havia atirado em algum.
E ele ainda estava segurando a Glock.
- Ele est morto? - murmurou Pam.
Pergunta idiota. Mas ficar com a arma do crime na mo era 
mais idiota ainda.
- Venha.
- No podemos simplesmente deix-lo.
- Ele est morto.
A histeria encheu os olhos dela. Malone se lembrou da 
primeira vez em que tinha visto algum morrer, por isso no 
pegou pesado.
- Voc no deveria ter visto isso. Mas precisamos ir.
O som de passos correndo no piso ecoou fora da sala. Era a 
segurana, presumiu ele. Segurou a mo de Pam e puxou-a 
para a extremidade oposta da Cmara do Canto.
Passaram por mais salas, cada uma igual  outra, 
esparsamente mobiliadas com peas de poca, iluminadas 
pela fraca luz da manh. Notou mais cmeras e soube que 
teria de evit-las. Enfiou a Glock no bolso do palet e pegou 
a Beretta.
Entraram numa sala identificada como Cmara da Rainha.
Escutou vozes atrs. Aparentemente o corpo fora 
encontrado. Mais gritos e passos correndo, vindo na direo 
deles.
A Cmara da Rainha era um apartamento. Trs portas 
levavam para fora. Uma para uma escada para cima, a outra 
para uma escada para baixo, e a ltima passagem era para 
outra sala. Nenhuma cmera de segurana  vista. Examinou 
a decorao, tentando decidir o que faria. Um grande 
armrio erguia-se encostado na parede externa.
Decidiu se arriscar.
Correu para o armrio e segurou as maanetas de ferro da 
porta dupla. Dentro era espaoso e estava vazio. Grande o 
suficiente para os dois. Sinalizou para Pam. Pela primeira vez 
ela veio sem comentar.
- Entre - sussurrou ele.
Antes de entrar, entreabriu as duas sadas para as escadas. 
Depois entrou no armrio e fechou as portas, esperando que 
os perseguidores presumissem que haviam subido, descido 
ou retornado ao castelo.

Stephanie ouviu enquanto Brent Green informava o 
acontecido a Larry Daley. No conseguia deixar de imaginar 
se aquele escroto arrogante do outro lado da linha j no 
saberia de cada detalhe, e mais ainda.
- Conheo o Elo de Alexandria - disse Daley pelo viva-voz.
- Poderia nos contar? - perguntou Green.
- Desejaria poder.  confidencial.
- Para o procurador-geral e a chefe de uma das nossas mais 
importantes agncias de informao?
- S est disponvel para um grupo muito seleto. 
Infelizmente nenhum de vocs dois se qualifica.
- Ento, como foi que outra pessoa conseguiu dar uma 
espiada? - perguntou Stephanie.
- Voc ainda no deduziu?
- Talvez tenha deduzido.
O silncio penetrou na sala. Aparentemente, Daley havia 
recebido a mensagem.
- No fui eu.
- O que mais voc diria? - perguntou ela.
- Cuidado com a boca. 
Stephanie ignorou a cutucada.
- Malone vai entregar o elo a eles. Ele no vai arriscar o 
filho.
- Ento ter de ser impedido - disse Daley. - No vamos 
entregar isso a ningum.
Ela captou o significado.
- Voc quer s para voc, no ?
- Est certssima.
Stephanie no conseguiu acreditar no que ouvia.
- A vida de um garoto pode estar em risco.
- O problema no  meu - declarou Daley.
Ligar para Daley tinha sido um erro, e ela podia ver que 
agora Green tambm percebia isso.
- Larry - disse Green. - Vamos ajudar o Malone. E no 
tornar a tarefa dele mais difcil.
- Brent, esta  uma questo de segurana nacional, e no um 
caso de caridade.
-  interessante - disse Stephanie - como voc no est nem 
um pouco preocupado porque algum acessou nossos 
arquivos confidenciais e ficou sabendo tudo sobre esse 
secretssimo Elo de Alexandria, uma suposta questo de 
segurana nacional.
- Voc informou esse vazamento h mais de um ms. O FBI 
est cuidando da situao. O que voc est fazendo a 
respeito, Stephanie?
- Disseram para eu no fazer nada. O que voc fez, Larry? 
Um suspiro veio pelo alto-falante.
- Voc  mesmo um p no saco.
- Mas ela trabalha para mim - esclareceu Green.
- Acho o seguinte - disse Stephanie. - O que quer que seja 
esse elo, de algum modo tem a ver com o que vocs, gnios 
da Casa Branca, conceberam como poltica externa. Na 
verdade, voc gosta do fato de os arquivos terem sido 
violados e de algum ter essa informao. O que significa 
que vai deixar que essas pessoas faam seu trabalho sujo.
- Algumas vezes, Stephanie, os inimigos podem ser amigos. 
- A voz de Daley havia baixado at um sussurro. - E vice-
versa.
Um n se formou na garganta dela. Agora suas suspeitas 
eram fato.
- Voc vai sacrificar o filho de Malone em nome do legado 
de seu presidente?
- Eu no comecei isso - respondeu Daley. - Mas pretendo 
us-lo.
- No se eu puder evitar.
- Se interferir, voc ser demitida. No por voc, Brent, mas 
pelo prprio presidente.

- Isso poderia se tornar um problema - disse Green. 
Ela captou a ameaa na voz dele.
- Est dizendo que ficaria do lado dela? - perguntou Daley.
- Sem dvida.
Ela sabia que essa era uma ameaa que Daley no poderia 
ignorar. A administrao possua algum controle sobre as 
aes de Green como procurador-geral. Mas se ele se 
demitisse, ou fosse demitido, estaria aberta a temporada de 
caa na Casa Branca.
O viva-voz ficou mudo. Ela imaginou Daley sentado em seu 
escritrio, pensando na encrenca.
- Estarei na sua casa em trinta minutos.
- Por que precisamos nos encontrar? - perguntou Green.
- Garanto, vai valer a pena. 
A linha estalou e ficou muda.

Malone ficou parado dentro do armrio, ouvindo passos que 
entravam correndo na Cmara da Rainha. Pam estava 
aninhada ao seu lado, o mais perto que haviam ficado em 
anos. Um cheiro familiar subia dela, como baunilha doce, 
um cheiro que ele recordava com uma mistura de alegria e 
agonia. Engraado como os cheiros disparavam as 
lembranas.
Ainda segurava a Beretta e esperava no ter de us-la. Mas 
no tinha inteno de ser preso, principalmente quando 
Gary precisava dele. Sem dvida um dos motivos para matar 
Durant era isol-los. Outro fora impedir que soubessem de 
qualquer informao til. Mas ele se perguntava como 
algum teria sabido do encontro. No haviam sido seguidos a 
partir de Christiangade, disso tinha certeza. O que 
significava que os telefones de Thorvaldsen deviam estar 
monitorados. O que significava que sua ida direto a 
Christiangade fora prevista.
No podia ver Pam, mas sentia o desconforto dela. 
Considerando toda a intimidade que haviam compartilhado, 
agora eram simplesmente estranhos.
Talvez at inimigos.
Vozes agarraram seus pensamentos. Os passos ficaram mais 
fracos, depois se perderam no silncio. Ele esperou, dedo no 
gatilho, o suor brotando nas palmas das mos.
Mais silncio.
No havia como enxergar nada sem abrir as portas do 
armrio. O que poderia ser desastroso se algum 
permanecesse na sala. 
Mas no poderia ficar ali para sempre.
Entreabriu a porta, com a arma preparada. 
A Cmara da Rainha estava vazia.
- Vamos descer a escada - murmurou, e os dois passaram 
pela porta aberta e desceram uma escada circular junto  
parede externa do castelo. No trreo, chegaram a uma porta 
de metal que ele esperava no estar trancada.
O trinco cedeu.
Saram para uma manh luminosa. Um mar de grama 
brilhante cheia de cisnes se estendia das paredes do castelo 
at o mar. A Sucia pairava no horizonte, 5 quilmetros do 
outro lado da gua cinza-amarronzada.
Malone enfiou a Beretta sob o palet.
- Temos de sair daqui - disse ele. - Mas devagar. No atraia 
ateno. - Dava para ver que ela ainda estava abalada pelo 
assassinato, por isso sugeriu: - Voc vai ficar vendo a coisa 
repetidamente no crebro, mas isso vai passar.
- Sua preocupao  tocante. - De novo a voz dela estava 
cheia de ameaa.
- Ento engula o seguinte: provavelmente essa no  a 
ltima pessoa que vai morrer antes que isto acabe.
Malone foi na frente, pelas fortificaes diante do estreito. 
Havia poucos visitantes por perto. Chegaram a um local que 
ele sabia que era a Bateria Principal, onde canhes antigos j 
haviam ficado e onde Shakespeare permitira que Hamlet 
encontrasse o fantasma do pai. Uma muralha se erguia do 
mar. Ele jogou a Glock na gua turbulenta.
Sirenes uivavam ao longe.
Foram lentamente at a entrada principal. Ao ver luzes 
piscando e mais policiais correndo para o terreno, Malone 
decidiu esperar antes de sair. Era improvvel que algum 
tivesse uma descrio deles, e duvidava que o atirador 
tivesse ficado para d-la. A idia certamente no era que eles 
fossem presos.
Por isso se misturou  multido. 
Depois viu o atirador.
A 50 metros dali, indo direto para o porto principal, 
caminhando, para no atrair ateno. 
Pam tambm o viu.
-  aquele cara.
- Eu sei.
Ele comeou a avanar.
- Voc no vai - pediu ela.
- No pode me impedir.

ONZE

VIENA, USTRIA 
11H20

O Cadeira Azul se perguntou se o Crculo havia se 
comprometido com o rumo adequado. Por oito anos, die 
Klauen der Adler, o Garras da guia, havia levado adiante as 
tarefas devidas. Certo, eles o tinham contratado 
coletivamente, mas numa base cotidiana Dominick Sabre 
trabalhava diretamente sob o controle do Cadeira Azul, o 
que significava que ele havia passado a conhec-lo muito 
melhor do que os outros.
Sabre era americano, nascido e criado l - a primeira vez que 
isso acontecera no Crculo. Eles sempre haviam empregado 
europeus, mas uma vez um sul-africano lhes servira bem. 
Cada um daqueles homens, inclusive Sabre, fora escolhido 
no somente por sua capacidade individual, mas tambm 
pela mediocridade fsica. Todos tinham altura, peso e feies 
medianos. A nica caracterstica notvel em Sabre eram as 
marcas no rosto, resqucios de um surto de catapora. O 
cabelo preto de Sabre era cortado reto e sempre mantido 
grudado por gel que lhe acrescentava brilho. A barba 
crescida costumava cobrir parcialmente as bochechas; o 
Cadeira Azul sabia que era para esconder as cicatrizes, mas 
tambm para desarmar as pessoas ao redor.
Sabre mantinha uma aparncia relaxada e geralmente usava 
roupas de um tamanho maior que o ideal, que escondiam 
um corpo magro e musculoso - certamente tambm no 
esforo de ser constantemente subestimado.
A partir de um perfil psicolgico que Sabre teve de fazer 
antes de ser contratado, o Cadeira Azul ficou sabendo que 
havia algo que atraa o americano para o desafio  
autoridade. Mas esse mesmo perfil tambm revelou que, 
quando ele recebesse uma tarefa, se ficasse sabendo do 
resultado pretendido e fosse deixado em paz, sempre 
cumpriria o trabalho.
E era isso que importava.
Ele e os Cadeiras no poderiam se importar menos com o 
modo como determinada tarefa era feita, s que o resultado 
desejado fosse alcanado. Assim, a ligao deles com Sabre 
fora frutfera. No entanto, um homem sem moral e com 
pouco respeito pela autoridade precisava ser vigiado.
Em especial quando a aposta era alta.
Como agora.
Assim, o Cadeira Azul pegou o telefone e digitou.

Sabre atendeu ao celular, esperando que o telefonema fosse 
de seu homem na Kronborg Slot. Em vez disso, a voz tensa 
do outro lado pertencia ao patro.
- Como o Sr. Malone recebeu seu cumprimento inicial? - 
perguntou o Cadeira Azul.
- Bem. Ele e a ex-mulher saram pela janela.
- Como voc previu. Mas ser que no estamos atraindo 
ateno desnecessria?
- Mais do que eu gostaria, mas foi necessrio. Ele tentou 
pagar para ver, por isso teve de notar que no est no 
comando. Mas daqui em diante serei mais discreto.
- Faa isso. No precisamos que a polcia fique muito 
envolvida. - Ele fez uma pausa. - Pelo menos no mais do 
que j est.
Sabre estava escondido numa casa alugada no lado norte de 
Copenhague, a alguns quarteires do Amalienborg, o palcio 
real junto ao mar. Havia trazido Gary Malone da Gergia at 
ali com o falso argumento de que o pai dele corria perigo, e 
o garoto havia acreditado graas a uma identificao falsa do 
Setor Magalhes que Sabre lhe mostrara.
- Como est o garoto? - perguntou o Cadeira Azul. 
- Ansioso, mas acha que esta  uma operao do governo 
dos Estados Unidos. De modo que permanece calmo, por 
enquanto.
Eles haviam aterrorizado Pam Malone com uma foto do 
filho. O rapaz tambm havia cooperado com isso, pensando 
que estavam produzindo credenciais de segurana.
- O garoto no est perto demais do Malone?
- Ele no teria ido voluntariamente a nenhum outro local. 
Sabe que o pai est perto.
- Sei que voc tem isso sob controle. Mas seja cuidadoso. 
Malone pode surpreend-lo.
- Por isso temos o filho dele. Ele no vai prejudicar o garoto.
- Precisamos do Elo de Alexandria.
- Malone vai nos levar diretamente para l.
Mas o telefonema do homem em Kronborg ainda no havia 
chegado. Para que tudo desse certo, era fundamental que seu 
agente atuasse exatamente segundo as instrues.
- Tambm precisamos que isso seja resolvido nos prximos 
dias.
- Ser.
- Pelo que voc me contou - disse o Cadeira Azul -, esse tal 
de Malone  um esprito livre. Tem certeza de que ele ficar 
devidamente motivado?
- No se preocupe. Neste momento, estamos fornecendo 
motivao mais do que suficiente.
Malone saiu do terreno da Kronborg Slot e viu o homem 
caminhando calmamente para Helsingor. Ele adorava a 
praa do mercado da cidade, os becos elegantemente 
antiquados e as construes de tijolos e madeira. Mas nada 
desse sabor renascentista importava hoje. 
Mais sirenes uivavam  distncia.
Ele sabia que assassinatos eram algo raro na Dinamarca. 
Como este havia acontecido num Stio Histrico Nacional, 
certamente sairia em todos os noticirios. Precisava notificar 
Stephanie de que um de seus agentes fora morto, mas no 
havia tempo. Presumia que Durant estivesse viajando com o 
nome verdadeiro - esse era um padro no Setor -, de modo 
que, assim que as autoridades locais percebessem que a 
vtima trabalhava para o governo americano, as pessoas 
certas seriam contatadas. Pensou em Durant. Era uma pena. 
Mas havia muito tempo que Malone aprendera a no 
desperdiar emoes com coisas que no podia mudar.
Diminuiu o passo e puxou Pam para o lado.
- Precisamos ficar afastados. Ele no est prestando ateno, 
mas ainda pode nos ver.
Atravessaram a rua e ficaram grudados a uma bela fileira de 
prdios diante de um caminho estreito junto ao mar. O 
atirador estava 30 metros  frente. Malone observou 
enquanto ele virava uma esquina.
Chegaram  mesma esquina e espiaram. O homem 
caminhava por uma rua de pedestres ladeada de lojas e 
restaurantes. Havia muitas pessoas por ali, por isso ele 
decidiu arriscar.
Foram atrs.
- O que estamos fazendo? - Perguntou Pam.
- A nica coisa que podemos fazer.
- Por que simplesmente no d o que eles querem?
- No  to simples assim.
- Claro que .
Ele manteve o olhar adiante.
- Obrigado pelo conselho.
- Voc  um escroto.
- Tambm amo voc. Agora que estabelecemos isso, vamos 
nos concentrar no que estamos fazendo.
O objetivo deles virou  direita e desapareceu.
Malone avanou rapidamente, olhou ao redor da esquina e 
viu o atirador se aproximar de um cup Volvo sujo. Esperava 
que ele no estivesse indo embora. No haveria como segui-
lo. Seu carro estava muito longe. Ficou olhando o homem 
abrir a porta do motorista e jogar alguma coisa dentro do 
carro. Em seguida fechou a porta e voltou na direo dos 
dois.
Malone e Pam se enfiaram numa loja de roupas no 
momento em que o atirador passou em frente, voltando na 
direo de onde tinham vindo. Malone se esgueirou at a 
porta e viu o homem entrar num caf.
- O que ele est fazendo? - perguntou Pam.
- Esperando a agitao diminuir. No forar a barra. 
Simplesmente ficar firme, se misturar. Ir embora mais tarde.
- Isso  loucura. Ele matou um homem.
- E s ns sabemos disso.
- Por que mat-lo, afinal?
- Para abalar nossos nervos. Silenciar qualquer fluxo de 
informao. Um monte de motivos.
- Esse  um negcio nojento.
- Por que acha que eu sa? - Ele decidiu usar o interldio em 
vantagem prpria. - V at o carro e traga-a at aqui. - Em 
seguida apontou para um beco na estao de trem junto ao 
mar. - Estacione e me espere. Quando ele sair, ter de ir 
naquela direo.  o nico caminho para fora da cidade.
Entregou-lhe as chaves e, por um instante, lembranas de 
outras ocasies em que lhe dera chaves de carro 
chacoalharam em seu crebro. Pensou no passado. Saber 
que ela e Gary estavam em casa, depois de uma misso, 
sempre lhe trouxera algum conforto. E por mais que 
nenhum dos dois quisesse admitir, um dia eles haviam sido 
bons um para o outro. Lembrava-se do sorriso dela, de seu 
toque. Infelizmente, a mentira de Pam sobre Gary agora 
coloria todas essas coisas agradveis com suspeita. Fazia-o 
pensar. Questionar se toda a vida deles juntos no fora uma 
iluso.
Ela pareceu sentir seus pensamentos e suavizou o olhar, 
como a Pam anterior ao tempo em que coisas ruins 
mudaram os dois. Por isso ele disse:
- Vou achar o Gary. Juro. Ele vai ficar bem.
Na verdade queria que ela respondesse, mas Pam no disse 
nada. 
E o silncio feria. 
Por isso ele se afastou.

DOZE

OXFORDSHIRE, INGLATERRA 
10H30

George Haddad entrou na Bainbridge Hall. Nos ltimos trs 
anos, fora um visitante freqente, desde que se convencera 
de que a resposta ao seu dilema estava dentro daquelas 
paredes.
A casa era uma obra-prima de pisos de mrmore, tapearias 
Mortlake e enfeites ricamente coloridos. A grande escadaria, 
com painis florais elaboradamente esculpidos, datava da 
poca de Carlos II. Os tetos de gesso eram da dcada de 
1660. Os mveis e os quadros, dos sculos XVIII e XIX. 
Tudo era uma demonstrao do estilo rural ingls.
Mas era tambm muito mais. 
Um enigma.
Assim como o monumento do caramancho branco no 
jardim, onde membros da imprensa ainda estavam reunidos, 
ouvindo os supostos especialistas. Assim como o prprio 
Thomas Bainbridge, o desconhecido conde ingls que vivera 
no final do sculo XVIII.
Haddad conhecia a histria da famlia.
Bainbridge nascera num mundo de privilgios e grandes 
expectativas. Seu pai havia servido como principal nobre de 
Oxfordshire. Ainda que sua posio na sociedade tivesse sido 
fixada pela riqueza e pela tradio da famlia, Thomas 
Bainbridge no cumpriu o servio militar tradicional e 
voltou a ateno para os estudos acadmicos - 
principalmente histria, lnguas e arqueologia. Quando o pai 
morreu, ele herdou o ttulo de conde e passou dcadas 
viajando pelo mundo, sendo um dos primeiros ocidentais a 
explorar intimamente o Egito, a Terra Santa e a Arbia, 
documentando suas experincias numa srie de dirios 
publicados.
Aprendeu sozinho o hebraico antigo, lngua em que o 
Velho Testamento foi escrito originalmente. Um tremendo 
feito, considerando que o dialeto era principalmente oral e 
consonantal e que desaparecera do uso comum por volta do 
sculo VI antes de Cristo. Escreveu um livro publicado em 
1767 que desafiava as tradues conhecidas do Velho 
Testamento, questionando boa parte do conhecimento 
convencional de seu tempo; passou o final da vida 
defendendo suas teorias, morrendo amargo e falido, sem a 
fortuna da famlia.
Haddad conhecia bem aquele texto, tendo estudado cada 
pgina em detalhes. Podia entender os problemas de 
Bainbridge. Ele tambm questionara o conhecimento 
convencional, com conseqncias desastrosas.
Gostava de visitar a casa, mas, infelizmente, boa parte da 
moblia original fora h muito perdida para os credores, 
inclusive a impressionante biblioteca de Bainbridge. S nos 
ltimos cinqenta anos parte da moblia fora encontrada. A 
vasta maioria dos livros continuava desaparecida, indo de 
colecionadores para vendedores e da para o lixo, o que 
parecia o destino de boa parte do conhecimento registrado 
da humanidade. No entanto, Haddad conseguira localizar 
alguns volumes, passando o tempo remexendo na infinidade 
de sebos de livros raros espalhados por Londres.
E na internet.
Que tesouro incrvel! O que eles poderiam ter feito na 
Palestina, sessenta anos antes, com essa rede de informaes 
instantnea!
Ultimamente, pensava muito em 1948.
Quando havia segurado um fuzil e matado judeus durante a 
nakba. A arrogncia da gerao atual sempre o espantava, 
considerando os sacrifcios feitos pelos predecessores. 
Oitocentos mil rabes postos no exlio. Na poca ele estava 
com 19 anos, lutando na resistncia palestina - era um dos 
lderes de campo -, mas tudo fora intil. Os sionistas 
prevaleceram. Os rabes estavam derrotados. Os palestinos 
se tornaram prias.
Mas a lembrana permanecia.
Haddad tentara esquecer. Realmente queria esquecer. Mas 
matar tinha conseqncias. E para ele fora uma vida inteira 
de arrependimento. Tornou-se acadmico, abandonou a 
violncia e se converteu ao cristianismo, mas nada disso o 
livrou da dor. Ainda podia ver os rostos mortos. Em especial 
um. O homem que se chamava de Guardio.
Vocs travam uma guerra desnecessria, contra um inimigo 
mal-informado.
Essas palavras haviam se gravado a fogo em sua memria 
naquele dia de abril de 1948, e o impacto delas acabou 
mudando-o para sempre.
Somos guardies do conhecimento. Da biblioteca.
Aquela observao havia mapeado sua vida.
Continuou andando pela casa, pensando nos bustos e nas 
pinturas, nas gravuras, nos dourados exticos e nos lemas 
enigmticos. Caminhando contra uma corrente de recm-
chegados, acabou entrando na sala de estar, onde toda a 
antiga gravidade de uma biblioteca de faculdade se misturava 
com graa e inteligncia femininas. Concentrou-se nas 
estantes, que um dia haviam mostrado o conhecimento 
variado de muitas eras. E nas pinturas, que lembravam 
pessoas que tinham moldado particularmente o rumo da 
histria.
Thomas Bainbridge fora um convidado, assim como o pai de 
Haddad. No entanto, o Guardio chegara  Palestina duas 
semanas tarde demais para entregar o convite, e uma bala da 
arma de Haddad havia silenciado o mensageiro.
Encolheu-se diante da lembrana. 
A impetuosidade da juventude.
Sessenta anos haviam se passado, e agora ele via o mundo 
com Olhos mais pacientes. Se ao menos esses mesmos olhos 
tivessem encarado o Guardio em abril de 1948, ele poderia 
ter encontrado mais cedo o que procurava.
Ou talvez no.
Aparentemente, o convite precisava ser merecido. 
Mas como? Seu olhar revirou a sala. 
A resposta estava ali.

TREZE

WASHINGTON, D.C. 
5H45

Stephanie ficou olhando enquanto Larry Daley 
desmoronava numa das poltronas do escritrio de Brent 
Green. Fiel  sua palavra, o vice-conselheiro de segurana 
nacional havia chegado em menos de meia hora.
- Belo lugar - disse Daley a Green.
-  meu lar.
- Voc sempre foi um homem de poucas slabas, no ?
- As palavras, como os amigos, devem ser escolhidas com 
cuidado. O sorriso amigvel de Daley desapareceu.
- Eu esperava que no partssemos to cedo para a garganta 
um do outro.
Stephanie estava ansiosa.
- Faa esta visita valer a pena, como voc disse ao telefone. 
As mos de Daley seguraram os braos estofados da 
poltrona.
- Espero que vocs dois sejam razoveis.
- Isso depende - disse ela.
Daley passou a mo pelo cabelo curto e grisalho. Sua boa 
aparncia projetava uma sinceridade juvenil que poderia 
facilmente deixar as pessoas desarmadas, por isso Stephanie 
ficou alerta para manter a concentrao.
- Presumo que voc no v nos dizer o que  o elo, no ? - 
perguntou ela.
- No quero ser indiciado por violar a Lei de Segurana 
Nacional.
- Desde quando violar leis o incomoda?
- Desde agora.
- Ento, o que est fazendo aqui?
- Quanto vocs sabem? - perguntou Daley. - E no digam 
que no sabem de nada, porque eu ficaria realmente 
desapontado.
Green repetiu o pouco que j havia relatado sobre George 
Haddad. 
Daley assentiu.
- Os israelenses piraram de vez por causa do Haddad. Depois 
os sauditas entraram em cena. Isso nos chocou. Geralmente 
eles no se incomodam com coisa alguma que seja bblica ou 
histrica.
- Quer dizer que mandei Malone s cegas para aquele 
atoleiro h cinco anos? - perguntou Stephanie.
- O que, acredito,  a funo de seu cargo.
Ela se lembrou de como a situao havia deteriorado.
- E quanto ao atentado a bomba?
- Foi a que a merda acertou no ventilador.
Um carro-bomba havia destrudo um caf de Jerusalm com 
Haddad e Malone dentro.
- A exploso era para Haddad - disse Daley. - Claro, como 
era uma misso s cegas, Malone no sabia. Mas conseguiu 
tirar o sujeito inteiro.
- Sorte nossa - observou Green com sarcasmo.
- No venha com essa merda. Ns no matamos ningum. A 
ltima coisa que queramos era que Haddad morresse.
A raiva de Stephanie estava crescendo.
- Voc colocou a vida de Malone em risco.
- Ele  profissional. Isso faz parte do trabalho.
- No mando meus agentes para misses suicidas.
- Caia na real, Stephanie. O problema no Oriente Mdio  
que a mo esquerda nunca sabe o que a direita est fazendo. 
O que aconteceu  tpico. Os militantes palestinos 
simplesmente escolheram o caf errado.
- Ou talvez no - disse Green. - Talvez os israelenses ou os 
sauditas tenham escolhido o certo, no?
Daley sorriu.
- Voc est ficando bom nisso. Foi exatamente por isso que 
concordamos com os termos de Haddad.
- Ento diga: por que  necessrio que o governo americano 
encontre a biblioteca perdida de Alexandria?
Daley aplaudiu baixinho.
- Bravo. Muito bem, Brent. Imaginei que, se suas fontes 
sabiam sobre Haddad, tambm diriam essa parte.
- Responda  pergunta - disse Stephanie.
-Algumas vezes, coisas importantes so mantidas nos lugares 
mais estranhos.
- Isso no  resposta.
-  s isso que vocs tero.
- Voc est de conluio com o que acontece l - declarou ela.
- No, no estou. Mas no vou negar que h outros na 
administrao que esto interessados em usar isso como a 
rota mais rpida para resolver um problema.
- E qual  o problema? - perguntou Green.
- Israel. Um punhado de idealistas arrogantes que no 
ouvem uma palavra que os outros dizem. Mas num instante 
mandam tanques ou helicpteros para aniquilar tudo e 
todos, em nome da segurana. O que aconteceu h alguns 
meses? Eles comearam a bombardear a Faixa de Gaza, uma 
das bombas saiu do caminho, e toda uma famlia que fazia 
piquenique na praia foi morta. O que eles disseram? 
Desculpe. Foi mal. - Daley balanou a cabea. - Se apenas 
mostrassem um pouquinho de flexibilidade, um grama de 
boa vontade, as coisas poderiam ser alcanadas. No.  do 
jeito deles ou de jeito nenhum.
Slephanie sabia que, ultimamente, o mundo rabe vinha 
sendo muito mais conciliador do que Israel - certamente 
como resultado do que acontecera no Iraque, onde a deciso 
americana foi demonstrada em primeira mo. A simpatia 
mundial pelos palestinos vinha crescendo constantemente, 
alimentada por uma alterao de liderana, por uma 
moderao nas polticas militantes e pela idiotice dos linha-
duras israelenses. Ela se lembrava de ter visto nos noticirios 
a nica sobrevivente daquela famlia na praia, uma menina, 
chorando ao ver o pai morto. Negcio forte. Mas se 
perguntava o que poderia ser feito, realisticamente.
- Como eles planejam fazer alguma coisa em relao a Israel? 
-Ento a resposta lhe veio. - Vocs precisam do elo para 
isso?
Daley ficou quieto.
- Malone  o nico que sabe onde est - esclareceu ela.
- Um problema. Mas no intransponvel.
- Voc queria que Malone agisse. S no sabia como obrig-
lo.
- No vou negar que isso  uma espcie de oportunidade.
- Seu filho-da-puta - cuspiu ela.
- Olhe, Stephanie. Haddad queria desaparecer. Ele confiava 
em Malone. Os israelenses, os sauditas e at os palestinos 
pensavam que Haddad havia morrido na exploso. Assim, 
fizemos o que o sujeito queria, depois apoiamos a idia toda 
e passamos para outras coisas. Mas agora o interesse de todo 
mundo est instigado de novo, e ns queremos Haddad.
Ela no ia lhe permitir nenhuma satisfao.
- E quanto a quem mais possa estar atrs dele?
- Vou cuidar deles como qualquer poltico faria. 
O rosto de Green ficou sombrio de raiva.
- Vai fazer um acordo?
Stephanie precisava descobrir mais.
- O que poderia ser descoberto em documentos de dois mil 
anos de idade? E isso presumindo que os manuscritos 
tenham sobrevivido, o que  improvvel.
Daley olhou de lado. Stephanie percebeu que ele viera para 
impedir que ela e Green interferissem - de modo que talvez 
fizesse um agrado aos dois.
- A Septuaginta.
Ela achou difcil esconder a perplexidade.
- No sou especialista - disse Daley -, mas, pelo que me 
disseram, uns duzentos anos antes de Cristo, eruditos da 
Biblioteca de Alexandria traduziram as escrituras hebraicas, 
nosso Velho Testamento, para o grego. Um negcio 
fantstico para a poca. Essa traduo  tudo que 
conhecemos do texto original em hebraico, j que ele 
sumiu. Haddad afirmou que a traduo, bem como todas as 
outras que se seguiram, tinha erros fundamentais. Disse que 
os erros mudaram tudo e que poderia provar isso.
- E da? - perguntou ela. - Como isso mudaria alguma coisa?
- No sei dizer.
- No sabe ou no quer?
- Nesta circunstncia,  a mesma coisa.
- Ele se lembra da Sua aliana para sempre - sussurrou Green 
-, da palavra que Ele prescreveu para mil geraes, da aliana 
que Ele fez com Abrao e Seu juramento a Isaac. Ento Ele 
confirmou a Jac por estatuto, e a Israel como aliana 
eterna, dizendo: "A vs darei a terra de Cana como parte de 
vossa herana."
Ela viu que aquelas palavras comoviam genuinamente o 
sujeito.
- Uma promessa importante - disse Green. - Uma das muitas 
do Velho Testamento.
- Ento voc entende nosso interesse? 
Green assentiu.
- Entendo, mas questiono a possibilidade de isso ser 
provado.
Ela tambm no entendeu isso, mas quis saber.
- O que voc est fazendo, Larry? Perseguindo fantasmas? 
Isso  loucura.
- Garanto que no .
Rapidamente as implicaes ficaram reais. Malone estivera 
certo em censur-la. Ela deveria ter lhe contado 
imediatamente sobre a invaso aos computadores. E agora o 
filho dele estava correndo riscos, graas ao governo 
americano, que aparentemente estava disposto a sacrificar o 
garoto.
- Stephanie - disse Daley. - Conheo essa expresso. O que 
voc est planejando?
De jeito nenhum ela diria alguma coisa quele demnio. Por 
isso engoliu a humilhao, sorriu e disse:
- Exatamente o que voc quer, Larry. Absolutamente nada.






QUATORZE

COPENHAGUE 
12H15

Dominick Sabre sabia que a prxima hora seria crtica. J 
havia assistindo aos relatos do assassinato na Kronborg Slot 
pelas estaes de televiso de Copenhague. O que significava 
que Malone e sua ex-mulher estavam agora em movimento. 
Finalmente tivera notcias do homem que havia despachado 
ao castelo e ficou feliz ao ver que ele tinha seguido as 
ordens.
Olhou o relgio, depois saiu da sala da frente para o quarto 
dos fundos, onde Gary Malone estava sendo mantido. Eles 
haviam conseguido pegar o garoto na escola, usando 
credenciais oficiais e conversa dura, tudo supostamente em 
nome do governo dos Estados Unidos. Dentro de duas horas 
tinham sado de Atlanta num vo fretado. Pam Malone fora 
abordada enquanto estavam viajando e recebera ordens 
precisas. Todos os relatrios a descreviam como uma mulher 
difcil, mas uma foto e os pensamentos de danos causados ao 
filho haviam garantido que ela fizesse exatamente o que eles 
desejavam.
Ele abriu a porta do quarto e ps um sorriso no rosto. 
- Queria dizer que tivemos notcias de seu pai.
O garoto estava sentado junto  janela, lendo um livro. Na 
vspera havia pedido vrios volumes, que Sabre obtivera. O 
rosto jovem se iluminou ao ouvir falar do pai.
- Ele est legal?
- Numa boa. E agradeceu ao saber que voc estava conosco. 
Sua me tambm est com ele.
- Mame est aqui?
Outra equipe a trouxe.
- Isso  novidade. Ela nunca veio aqui. - O garoto fez uma 
pausa. - Ela e meu pai no se do bem.
Conhecendo a histria conjugal de Malone, Sabre sentiu 
alguma bisa.
- Como assim?
- Divrcio. Eles esto separados h um bom tempo.
- Isso  difcil para voc?
Gary pareceu pensar a respeito. Era alto para a idade, magro, 
com cabelos castanho-avermelhados. Cotton Malone era um 
contraste total. Pele clara, membros grossos, cabelos claros. 
Por mais que tentasse, Sabre no podia encontrar nada do 
pai nas feies do filho.
- Seria melhor se eles ficassem juntos. Mas entendo por que 
no esto.
-  bom que voc entende. Voc tem cabea boa. 
Gary sorriu.
-  o que meu pai sempre diz. Voc conhece meu pai?
- Ah, conheo. Ns trabalhamos juntos durante anos.
- O que est acontecendo aqui? Por que estou correndo 
perigo?
- No posso falar disso. Mas uns caras muito ruins esto atrs 
do seu pai e iam tentar pegar voc e sua me, por isso 
entramos no caminho para proteger os dois. - Ele podia ver 
que a explicao no era totalmente satisfatria.
- Mas meu pai no trabalha mais para o governo.
- Infelizmente os inimigos dele no se importam com isso. 
S querem machuc-lo.
- Isso tudo  bem esquisito. 
Sabre forou um sorriso.
- Faz parte do negcio, infelizmente.
- Voc tem filhos? 
Ele pensou no interesse do garoto.
- No. Nunca me casei.
- Voc parece um cara legal.
- Obrigado. Estou fazendo o meu trabalho. - Ele fez um 
gesto e perguntou: - Voc malha?
- Jogo beisebol. A temporada acabou h um tempo. Mas eu 
gostaria de bater uma bola.
- Na Dinamarca isso  difcil. O beisebol no  o passatempo 
nacional aqui.
- J vim aqui nos dois ltimos veres. Gosto um bocado.
-  o tempo que voc passa com seu pai? 
Gary assentiu.
- Praticamente a nica chance que temos de ficar juntos. 
Mas tudo bem. Acho bom ele morar aqui. Ele fica feliz.
Sabre pensou ter sentido alguma coisa de novo.
- Isso deixa voc feliz?
- s vezes. Em outras eu gostaria que ele estivesse mais 
perto.
- J pensou em morar com ele? 
O rosto do garoto se franziu de preocupao.
- Isso mataria minha me. Ela no iria querer.
- s vezes voc tem de fazer o que  necessrio.
- J pensei nisso. 
Sabre riu.
- No pense demais. E tente no ficar chateado.
- Sinto falta da minha me e do meu pai. Espero que eles 
estejam bem.
Sabre j ouvira o bastante. O garoto estava calmo. No 
causaria problema, pelo menos na prxima hora, que era 
tudo de que ele precisaria.
Depois disso, no importaria o que Gary Malone fizesse. 
Assim, foi para a porta e disse:
- No se preocupe. Tenho certeza de que tudo isso vai 
acabar logo.

Malone estava parado na Rua de Helsingor vigiando o caf. 
Um fluxo constante de fregueses havia entrado e sado. Seu 
alvo estava sentado o uma mesa perto da janela, bebericando 
numa caneca. Presumiu que Pam estaria com o carro, 
estacionado na estao de trem, esperando. Era melhor que 
estivesse. Quando esse cara agisse, ele s teria uma chance. 
Se seus adversrios estivessem em algum lugar perto, e ele 
acreditava firmemente nisso, esta poderia ser sua nica rota 
para chegar a eles.
O surgimento de Pam na Dinamarca o havia incomodado. 
Mas ela sempre havia causado esse efeito. Um dia, o amor e 
o respeito os haviam ligado, ou pelo menos era o que ele 
pensava; agora, somente Gary os unia.
Sua mente repassou o que ela havia dito em agosto. Sobre 
Gary.

- Depois de anos mentindo para mim, voc quer ser justa?
- Voc tambm no foi santo h alguns anos, Cotton.
- E por causa disso voc tornou minha vida um inferno. 
Ela deu de ombros.
- Eu tambm tive uma aventura. Achei que voc no iria se 
importar, pensando bem.
- Eu lhe contei tudo.
- No, Cotton. Eu peguei voc.
- Mas voc deixou que eu pensasse que o Gary era meu.
- E . Em todos os sentidos, menos no sangue.
-  assim que voc racionaliza a coisa?
- No preciso racionalizar. S achei que voc deveria saber a 
verdade. Eu deveria ter contado no ano passado, quando nos 
divorciamos.
- Como voc sabe que ele no  meu filho?
- Cotton, faa exames. No me importo. S saiba que voc 
no  o pai do Gary. Faa o que quiser com a informao.
- Ele sabe?
- Claro que no. Isso  entre vocs dois. Ele nunca saber 
por mim.

Malone ainda podia sentir a raiva que o havia inundado 
enquanto Pam continuava calma. Os dois eram muito 
diferentes, o que tambm poderia explicar por que no 
estavam mais juntos. Ele havia perdido o pai na juventude, 
mas fora criado por uma me que o adorava. A infncia de 
Pam havia sido apenas tumulto. Sua me era uma mulher 
volvel com emoes conflitantes, que cuidava de uma 
creche. Ela havia acabado com as economias da famlia no 
apenas uma, mas duas vezes. Os astrlogos eram seu ponto 
fraco. Jamais conseguia resistir a eles, ouvindo ansiosa 
enquanto lhe diziam exatamente o que ela queria escutar. O 
pai de Pam era igualmente perturbado, uma alma distante 
que se importava muito mais com aeromodelos do que com 
a mulher e os trs filhos. Havia trabalhado por quarenta anos 
numa fbrica de sorvete, empregado assalariado que nunca 
fora mais que gerente intermedirio. Lealdade misturada 
com uma falsa sensao de contentamento - assim fora o 
sogro de Malone at o momento em que o vcio de trs 
maos de cigarro por dia finalmente parou seu corao.
At eles se encontrarem, Pam conhecera pouco amor ou 
segurana. Avarenta com as emoes, mas exigindo 
dedicao, sempre dera muito menos do que exigia. E 
chamar a ateno para essa realidade s provocava raiva. O 
erro dele com outras mulheres, no incio do casamento, 
apenas provava o ponto de vista dela: que no era possvel 
contar com coisa alguma nem ningum.
Nem mes, nem pais, nem irmos, nem maridos.
Todos fracassavam.
E ela tambm fracassara.
Ter um filho fora do casamento e jamais contar ao marido 
que ele no era o pai. Ela ainda parecia estar pagando o 
preo desse fracasso.
Malone deveria lhe dar uma folga. Mas eram necessrios 
dois para fazer um trato, e ela no estava disposta - pelo 
menos por enquanto.
O atirador desapareceu da janela.
A ateno de Malone voltou rapidamente para o caf.
Viu o homem sair do prdio e ir para o carro estacionado, 
entrar e ir embora. Abandonou seu posto, correu pelo beco 
e viu Pam.
Atravessou a rua e pulou no banco do carona.
- Ligue e fique preparada.
- Eu? Por que voc no dirige?
- No temos tempo. A vem ele.
Malone viu o Volvo virar a esquina pela rua paralela ao mar 
e passar rapidamente.
- V - ordenou. 
E ela foi atrs.

George Haddad entrou em seu apartamento em Londres. A 
viagem a Hainbridge Hall havia gerado a frustrao de 
sempre, por isso ignorou o computador que sinalizava a 
existncia de e-mails no lidos e sentou-se  mesa da 
cozinha.
Durante cinco anos havia ficado morto. Saber, mas no 
saber. Entender, mas ao mesmo tempo estar confuso.
Balanou a cabea.
Que dilema.
Olhou em volta. A magia calma e limpa do apartamento no 
existia mais. Sem dvida era hora. Outros deviam saber. Ele 
devia essa revelao a cada alma destruda na nakba, cuja 
terra foi roubada, cuja propriedade foi tomada. E devia isso 
aos judeus.
Todo mundo tinha direito  verdade.
A primeira vez, havia meses, parecia no ter dado certo. Por 
isso no dia anterior pegara o telefone de novo.
Agora, pela terceira vez, digitou uma ligao internacional.

Malone olhava a estrada adiante enquanto Pam acelerava 
pela rodovia litornea, indo para Copenhague, no sul. O 
Volvo estava oitocentos metros  frente. Ele havia permitido 
que vrios carros passassem, o que proporcionava alguma 
segurana, mas tinha alertado, mais de uma vez, para ela no 
ficar muito atrs.
- No sou agente secreto - disse Pam, os olhos grudados no 
pra-brisa. - Nunca fiz isso antes.
- Eles no ensinam isso na faculdade de direito?
- No, Cotton. Ensinaram a voc na escola de espionagem.
- Gostaria que existisse uma escola de espionagem. 
Infelizmente tive de aprender no servio.
O Volvo acelerou e Malone se perguntou se teriam sido 
vistos. Mas ento percebeu que o carro estava simplesmente 
ultrapassando outro. Notou que Pam comeava a 
acompanhar o ritmo.
- No. Se ele estiver olhando, isso  um truque para 
descobrir se tem companhia. Eu posso v-lo; portanto, fique 
onde est.
- Eu sabia que a formao no Departamento de Justia daria 
frutos.
Frivolidade. Isso era raro nela. Mas Malone apreciou o 
esforo. Esperava que a perseguio valesse a pena. Gary 
tinha de estar por perto, e ele s precisava de uma chance 
para pegar o garoto.
Chegaram aos arredores da capital. O trnsito diminuiu de 
velocidade at se arrastar. Estavam quatro carros atrs 
quando o Volvo manobrou pelo Charlottenlund Slotspark, 
entrou a norte de Copenhague e virou para o sul entrando 
na cidade. Pouco antes do palcio real, o Volvo virou para 
oeste e serpenteou entrando num bairro residencial.
- Cuidado - disse Malone. - Aqui  fcil sermos vistos. Fique 
para trs.
Pam deixou mais espao. Malone conhecia essa parte da 
cidade. A Kosenborg Slot, onde as jias da coroa 
dinamarquesa eram expostas, ficava a alguns quarteires dali, 
e o jardim botnico era perto.
- Ele est indo para algum lugar especfico. Todas essas casas 
so parecidas, de modo que  preciso saber aonde se vai.
Mais duas viradas, e o Volvo seguiu por uma rua ladeada de 
rvores. Malone mandou que ela parasse na esquina e viu o 
homem virar numa entrada de veculos.
- V at o meio-fio - disse, indicando.
Enquanto ela estacionava, ele pegou a Beretta e abriu a 
porta.
- Fique aqui. E estou falando srio. Isso pode ficar feio, e no 
posso encontrar Gary e cuidar de voc ao mesmo tempo.
- Acha que ele est aqui?
- H uma boa chance.
Malone esperava que ela no dificultasse as coisas.
- Certo. Vou esperar.
Ele comeou a saltar do carro. Ela segurou seu brao. O 
aperto era firme, mas no hostil. Um jorro de emoo o 
atravessou. 
Ele a encarou e viu claramente o medo nos olhos de Pam.
- Se ele estiver l, traga-o de volta.






QUINZE

WASHINGTON, D.C. 
7H20

Stephanie ficou feliz por Larry Daley ter ido embora. 
Gostava menos do sujeito a cada vez que ficavam perto um 
do outro.
- O que voc acha? - perguntou Green.
- Uma coisa est clara. Daley no faz idia do que  o Elo de 
Alexandria. S sabe sobre George Haddad e espera que o 
sujeito saiba alguma coisa.
- Por que diz isso?
- Se soubesse, no perderia tempo conosco.
- Ele precisa de Malone para encontrar Haddad.
- Mas quem diz que ele precisa de Haddad para conectar 
alguma coisa? Se os arquivos confidenciais estivessem 
inteiros, ele no perderia tempo com Haddad. Simplesmente 
contrataria alguns crebros, deduziria o que  e partiria da. - 
Ela balanou a cabea. - Daley  um artista da embromao, 
e ns acabamos de ser embromados. Ele precisa de Cotton 
para encontrar Haddad porque no sabe porcaria nenhuma. 
Espera que Haddad tenha todas as respostas.
Green se recostou na cadeira com uma ansiedade sincera. 
Ela estava comeando a pensar que havia julgado mal esse 
sujeito da Nova Inglaterra. Ele ficara ao lado dela contra 
Daley, chegando a deixar claro que se demitiria se a Casa 
Branca a demitisse.
- A poltica  um negcio nojento - murmurou Green. - O 
presidente  um incapaz. Sua agenda parou. O tempo est 
acabando. Ele est definitivamente procurando um legado, 
seu lugar nos livros de histria, e homens como Daley 
acham que tm o dever de proporcionar isso. Concordo 
com voc. Ele est jogando verde. Mas no imagino como 
isso pode ser til.
- Parece que  uma coisa suficientemente poderosa para 
fazer com que os sauditas e os israelenses agissem h cinco 
anos.
- E isso  significativo. Os israelenses no tendem a ser 
melindrosos. Algo fez com que quisessem Haddad morto.
- Cotton est numa tremenda encrenca. O filho dele corre 
risco e ele no vai receber nenhuma ajuda nossa. Na 
verdade, oficialmente vamos nos recostar e olhar, depois 
nos aproveitar dele.
- Acho que Daley est subestimando a oposio. Houve 
muito planejamento.
Ela concordou.
- Esse  o problema dos burocratas. Acham que tudo  
negocivel. 
O celular no bolso de Stephanie assustou-a com a vibrao. 
Ela havia deixado ordens para no ser perturbada a no ser 
que fosse algo vital. Atendeu, ouviu por um momento e 
depois desligou.
- Acabo de perder um agente. O homem que mandei para se 
encontrar com Malone. Foi morto no castelo de Kronborg.
Green ficou quieto.
A dor cresceu em Stephanie
- Lee Durant tinha mulher e filhos.
- Alguma notcia do Malone? 
Ela balanou a cabea.
- No ouviram falar nada.
- Talvez voc estivesse certa, antes. Talvez devssemos 
envolver outras agncias.
A garganta dela apertou.
- No daria certo. Temos de cuidar disso de outro modo.
Green ficou imvel, lbios apertados, olhos fixos, como se 
soubesse o que precisava ser feito.
- Pretendo ajudar Cotton - disse ela.
- E o que poderia fazer? Voc no  agente de campo. 
Stephanie se lembrou de como Malone lhe dissera a mesma 
coisa, no muito tempo atrs, na Frana, mas ela se sara 
muito bem.
- Vou arranjar ajuda. Pessoas em quem confio. Tenho 
muitos amigos que me devem favores.
- Eu tambm posso ajudar.
- No quero que voc se envolva.
- Mas j estou envolvido.
- No h nada que voc possa fazer.
- Voc pode se surpreender.
- E o que Daley faria, ento? No temos idia de quem so os 
aliados dele.  melhor eu fazer isso discretamente. Fique de 
fora.
O rosto de Green no registrou nada.
- E quanto  reunio de hoje no Capitlio?
- Farei isso. Desse modo, Daley pode ser acalmado.
- Vou lhe dar toda a cobertura que eu puder.
Um sorriso dobrou os cantos da boca de Stephanie.
- Sabe, talvez estas tenham sido as melhores horas que j 
passamos juntos.
- Lamento que no tenhamos passado mais tempo desse 
jeito.
- Eu tambm - disse ela. - Mas tenho um amigo que precisa 
de mim.

DEZESSEIS

Malone deixou o carro e se aproximou da casa onde o Volvo 
estava estacionado. No podia chegar pela frente - havia 
janelas demais, muito pouca cobertura -, por isso entrou 
num beco coberto de grama, adjacente  casa vizinha, e se 
aproximou pelos fundos. As moradias nessa parte de 
Copenhague eram como seu bairro em Atlanta - ruas 
sombreadas, com compactas residncias de tijolos rodeadas 
por quintais igualmente compactos na frente e atrs.
Escondeu a Beretta na lateral do corpo e usou as folhagens 
para esconder seu avano. At agora no tinha visto 
ningum. Uma cerca viva que chegava  altura dos ombros 
separava um quintal do outro. Com movimentos 
estratgicos, posicionou-se onde podia enxergar por cima da 
cerca e viu a porta dos fundos da casa na qual o atirador 
havia entrado. Antes que pudesse decidir alguma coisa, a 
porta dos fundos se abriu e dois homens saram.
O atirador de Kronborg e outro homem, baixo, atarracado e 
sem pescoo.
Os dois estavam conversando e rodearam a casa at a porta 
da frente. Malone obedeceu aos seus instintos e saiu 
rapidamente do esconderijo, entrando no quintal dos fundos 
por uma abertura na cerca. Correu direto para a porta dos 
fundos e, com a arma preparada, entrou.
A casa de um andar estava silenciosa. Dois quartos, uma sala 
ntima, cozinha e banheiro. A porta de um dos quartos 
estava fechada. Examinou rapidamente os cmodos. Vazios. 
Aproximou-se da porta fechada. Sua mo esquerda segurou a 
maaneta, a direita estava com a arma, o dedo no gatilho. 
Girou a maaneta lentamente, depois empurrou a porta. 
E viu Gary.
O garoto estava sentado numa cadeira, ao lado da janela, 
lendo. Levou um susto, levantou o olhar das pginas, em 
seguida seu rosto se iluminou ao perceber quem estava ali.
Malone tambm sentiu um jorro de exultao.
- Papai. - Ento Gary viu a arma e perguntou: - O que est 
acontecendo?
- No posso explicar. Mas temos de ir.
- Eles disseram que voc estava encrencado. Os homens que 
esto tentando machucar mame e eu esto aqui?
Malone assentiu enquanto o pnico o dominava.
- Esto. Temos de ir.
Gary levantou-se da cadeira, e Malone no conseguiu se 
conter. Abraou o filho com fora. O filho era seu - em 
todos os sentidos. Pam que se fodesse.
- Fique atrs de mim. Faa exatamente o que eu disser. 
Entendeu?
- Vai haver problema?
- Espero que no.
Retornou pelo mesmo caminho at a porta dos fundos e 
olhou para fora. O quintal estava vazio. S precisaria de um 
minuto para escaparem.
Saiu com Gary junto aos calcanhares.
A abertura na cerca viva ficava a uns cinco metros.
Posicionou Gary  sua frente, j que, quando vira pela ltima 
vez, os dois homens estavam indo para a rua. Com a arma a 
postos, correu direto para o quintal vizinho. Mantinha a 
ateno no flanco, deixando Gary ir na frente.
Passaram pela abertura.
- Que previsvel!
Malone girou e se imobilizou.
Parados a seis metros dele estava o Sem Pescoo, segurando 
Pam e uma Glock com silenciador encostada no pescoo 
dela. O atirador de Kronborg se encontrava ao lado, a arma 
apontada diretamente para Malone.
- Encontrei sua ex-mulher vindo para c. - Disse o Sem 
Pescoo, com sotaque holands. - Presumo que voc tenha 
dito para ela ficar no carro, no ?
O olhar de Malone se grudou ao de Pam. Os dela 
imploravam que ele a perdoasse.
- Gary - disse ela, incapaz de se mexer.
- Mame.
Malone captou o desespero na voz dos dois. Posicionou 
Gary de novo atrs dele.
- Vejamos o que voc fez, Malone. Seguiu meu homem do 
castelo at a cidade, esperou que ele sasse e foi atrs, 
pensando que seu garoto estaria aqui.
Definitivamente era a voz do celular na noite anterior.
- E tudo estava certo.
O outro homem no se abalou. Uma sensao enjoativa 
invadiu o estmago de Malone. 
Ele fora induzido.
- Tire o pente dessa Beretta e jogue-o longe.
Malone hesitou, depois decidiu que no tinha escolha. 
Obedeceu.
- Agora vamos negociar. Eu lhe dou sua ex e voc me d o 
garoto.
- E se eu disser para voc ficar com a ex? 
O homem deu um risinho.
- Tenho certeza de que no quer que seu filho fique olhando 
enquanto eu estouro o crebro da me dele, que  
exatamente o que eu vou fazer, porque realmente no quero 
ficar com ela.
Os olhos de Pam se arregalaram diante da perspectiva do que 
sua idiotice havia provocado.
-        Papai, o que est acontecendo? - perguntou Gary.
-        Filho, voc ter de ir com ele...
-        No - gritou Pam. - No.
-        Ele vai matar voc - deixou claro Malone.
O dedo do Sem Pescoo estava firme no gatilho da Glock, e 
Malone torceu para que Pam ficasse imvel. Olhou para 
Gary.
- Voc tem de fazer isso pela sua me. Mas vou voltar para 
pegar voc. Juro. Pode contar com isso. - E abraou o garoto 
de novo. - Eu amo voc. Seja forte por mim. Certo?
Gary assentiu, hesitou por um momento e foi na direo do 
Sem Pescoo, que soltou Pam. Ela abraou Gary 
instantaneamente e comeou a chorar.
-        Voc est bem? - perguntou Pam.
-        Estou.
-        Deixe-me ficar com ele - disse ela. - No vou causar 
nenhum problema. Cotton pode encontrar o que vocs 
querem e seremos bonzinhos. Prometo.
-        Cale a boca - respondeu Sem Pescoo.
-        Juro. No vou causar problema. 
Ele apontou a arma para a testa dela.
-        Tire esse rabo daqui e feche a matraca.
-        No o pressione - disse Malone a ela.
Pam deu mais um abrao em Gary, depois recuou 
lentamente na direo dele.
Sem Pescoo deu um risinho.
- Boa escolha.
Malone olhou para o adversrio de cima a baixo.
Subitamente a arma do sujeito girou para a direita e trs balas 
se cravaram sem som no atirador do Kronborg. O corpo se 
desequilibrou, depois caiu de costas no cho.
A mo de Pam cobriu a boca.
- Meu Deus.
Malone viu a expresso chocada nos olhos de Gary. 
Nenhuma criana de 15 anos deveria ser forada a ver 
aquilo.
-        Ele fez exatamente o que mandei. Mas eu sabia que voc ia 
segui-lo. Ele no. Na verdade, me disse que no tinha sido 
seguido. No tenho tempo para idiotas. Esse pequeno 
exerccio foi para tirar sua bravata. Agora v pegar o que eu 
quero. - Sem Pescoo apontou a Glock para a cabea de 
Gary. - Temos de sair sem que voc interfira.
-        Todas as balas da minha arma foram jogadas fora.
Malone olhou para Gary. Era interessante, mas o rosto do 
garoto no demonstrava qualquer ansiedade. Nem pnico. 
Nem medo. Apenas deciso.
Sem Pescoo e Gary comearam a se afastar.
Malone segurava a arma junto ao corpo, sua mente 
revirando possibilidades. Seu filho estava a apenas alguns 
centmetros de uma Glock carregada. Ele sabia que, assim 
que Gary tivesse ido, no teria escolha alm de entregar o 
elo. Durante o dia todo tinha evitado essa deciso 
desagradvel, j que ela geraria enormes dilemas. Sem 
Pescoo havia claramente previsto o que ele faria desde o 
incio, sabendo que todos terminariam ali mesmo.
Seu sangue pareceu virar gelo e uma sensao perturbadora 
o atravessou.
Desconfortvel.
Mas familiar.
Manteve os movimentos naturais. Esta era a regra. Sua antiga 
profisso tinha a ver com chances. Avaliar as possibilidades. 
O sucesso sempre fora um fator de dividir as chances pelos 
riscos. Sua prpria pele estivera muitas vezes na reta, e em 
trs situaes o risco fora maior que as chances e ele fora 
parar num hospital.
Isto era diferente. Seu filho estava em jogo.
Graas a Deus todas as chances eram a seu favor.
Sem Pescoo e Gary se aproximaram da abertura na cerca 
viva.
- Com licena - disse Malone.
Sem Pescoo virou.
Malone disparou a Beretta e a bala encontrou o peito do 
homem. Ele pareceu no saber o que havia acontecido - seu 
rosto era uma mistura de perplexidade e dor. Finalmente o 
sangue escorreu dos cantos de sua boca e seus olhos se 
renderam.
Ele caiu como uma rvore sob a fora de um machado, 
estremeceu por um momento e parou.
Pam correu at Gary e o envolveu nos braos.
Malone baixou a arma.

Sabre ficou olhando enquanto Malone matava seu ltimo
agente. Estava parado na cozinha de uma casa que dava para
os fundos da moradia onde Gary Malone fora mantido nos 
ltimos trs dias. Quando alugara aquela casa, tambm 
alugara esta. 
Sorriu.
Malone era esperto, e seu agente era a incompetncia em 
pessoa. O fato de jogar o pente fora havia esvaziado as balas 
da arma, menos a que j estava na cmara. Qualquer bom 
agente, como Malone, sempre mantinha uma bala na 
cmara. Lembrou-se da poca de seu treinamento nas foras 
especiais do exrcito, quando um recruta havia atirado na 
prpria perna depois de supostamente descarregar a arma - 
esquecendo-se da bala na cmara.
Ele havia esperado que, de algum modo, Malone suplantasse 
seus contratados. Essa era a idia. E a oportunidade viera 
assim que ele vira Pam Malone indo para a casa. Havia se 
comunicado por rdio com o lacaio e dito para usar o 
descuido dela com o objetivo de deixar as coisas ainda mais 
claras para Malone, subornando o sujeito com a promessa de 
um bnus para que atirasse no outro.
Felizmente Malone havia garantido que o pagamento jamais 
fosse feito.
O que tambm significava que no restava ningum vivo 
para conectar Sabre a qualquer coisa.        
Melhor ainda, Malone estava com o filho de volta, o que 
deveria acalmar os instintos mais perigosos do inimigo.
Mas isso no significava que sua tarefa estivesse completa.
De jeito nenhum.
Na verdade, s agora ela poderia finalmente comear.

 

DEZESSETE



QUARTA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO
VIENA, USTRIA
13H30

Sabre freou diante do porto e baixou a janela do lado do 
motorista. No mostrou qualquer identificao, mas o guarda 
o fez passar imediatamente. O enorme castelo ficava 50 
quilmetros a sudoeste do centro da cidade, em meio a 
florestas conhecidas simplesmente como os Bosques de 
Viena. Com trs sculos de idade e construdo por aristo-
cratas, suas paredes cor de mostarda, de esplendor barroco, 
abrigavam 75 cmodos espaosos, tudo isso encimado por 
ngremes telhados de ardsia alpina.
Um sol luminoso atravessava o pra-brisa escuro do Audi, e 
Sabre observou que a pista asfaltada e os estacionamentos 
laterais estavam todos vazios. S os guardas no porto da 
frente e alguns jardineiros cuidando dos caminhos 
perturbavam a paisagem tranqila.
Aparentemente seria uma discusso particular.
Parou sob uma entrada coberta e saiu numa tarde agradvel. 
Imediatamente abotoou o palet Burberry e seguiu um 
caminho de pedras at a schmetterlinghaus, um enclave de 
ferro e vidro cerca de 100 metros ao sul da construo 
principal. Pintada de um verde sem adornos, com paredes 
forradas por centenas de painis de vidro hngaro, a 
imponente estrutura do sculo XIX se misturava facilmente 
 floresta ao redor. Dentro, o solo fortificado sustentava uma 
variedade de plantas exticas, mas a construo tinha seu 
nome - schmetterling - devido s centenas de borboletas 
que voavam livres.
Ele abriu uma precria porta de madeira e entrou num 
saguo com piso de terra. Uma cortina de couro mantinha o 
ar mido e quente l dentro.
Passou por ela.
Borboletas danavam no ar acompanhadas por uma msica 
instrumental suave. Bach, se no estava enganado. Muitas 
plantas estavam florindo, e a cena tranqila fazia um 
contraste espantoso com as imagens ntidas do outono 
delineadas pelo vidro coberto de umidade.
O dono da construo, o Cadeira Azul, estava sentado em 
meio s folhagens. Possua o rosto de algum que trabalhava 
demais, dormia de menos e no se importava nada com a 
alimentao. O velho usava um terno de tweed por cima de 
um suter de cardig. O que certamente era desconfortvel, 
pensou Sabre. No entanto, notou em silncio, as criaturas de 
sangue frio precisavam de muito calor.
Tirou o palet e se aproximou de uma cadeira vazia.
- Guten morgen, Herr Sabre.
Sabre sentou e respondeu ao cumprimento. Aparentemente, 
o alemo seria a lngua do dia.
- Plantas, Dominick. Nunca perguntei, mas o que voc sabe 
sobre elas?
- S que produzem oxignio a partir do dixido de carbono. 
O velho sorriu.
- Voc no diria que elas fazem muito mais que isso? E a cor, 
o calor, a beleza?
Sabre olhou para a floresta tropical transplantada, viu as 
borboletas e escutou a msica pacfica. No se importava 
nada com a esttica tranqilizante, mas sabia que era melhor 
no expressar essa opinio, por isso disse simplesmente:
-        Essas coisas tm seu lugar.
-        Sabe alguma coisa sobre borboletas?
Um prato de porcelana coberto de bananas enegrecidas 
estava no colo do velho. Insetos com asas de safira, carmim 
e marfim devoravam, ansiosos, a oferenda.
- O odor as atrai. - O velho acariciou gentilmente as asas de 
uma. - Criaturas realmente lindas. Pedras preciosas aladas, 
explodindo no mundo com um jorro de cor. Infelizmente 
vivem apenas algumas semanas antes de se juntarem de 
novo  cadeia alimentar.
Quatro borboletas de um ouro esverdeado chegaram para o 
banquete.
- Esta espcie  bastante rara. Papilio dardanus. Cauda-de-
andorinha. Importo as crislidas diretamente da frica.
Sabre odiava insetos, mas tentou parecer interessado e 
esperou. 
Por fim, o velho perguntou:
-        Foi tudo bem em Copenhague?
-        Malone est a caminho de encontrar o elo.
-        Como voc previu. Como sabia?
-        Ele no tem escolha. Para proteger o filho, precisa expor o 
elo, de modo a no ficar mais vulnervel. Um homem assim 
 fcil de prever.
-        Ele pode perceber que foi manipulado.
-        Tenho certeza de que sim, mas ele realmente acha que, no 
final, conseguiu se dar bem. Duvido que presuma que eu 
quisesse aqueles dois homens mortos.
Uma ruga de diverso tomou o rosto do velho.
-        Voc gosta desse jogo, no ?
-        Tem alguns aspectos satisfatrios. - Sabre parou antes de 
acrescentar: - Quando bem jogado.
Mais algumas borboletas se juntaram s que estavam no 
prato.
- Na verdade,  muito parecido com estas preciosas criaturas 
- disse o Cadeira Azul. - Elas se empanzinam, atradas pela 
comida fcil. - Dedos nodosos seguraram uma pelas asas, 
com o espirculo escuro e as pernas minsculas se 
retorcendo enquanto o inseto tentava se libertar. - Eu 
poderia facilmente matar este espcime. Isso seria difcil?
O Cadeira Azul soltou o inseto. Asas laranja e amarelas 
bateram e se sustentaram no ar.
-        Mas poderia, com a mesma facilidade, deix-la ir. - O velho 
se concentrou em Sabre, os olhos cheios de satisfao. - Use 
os instintos de Malone a nosso favor.
-        Esse  o plano.
-        O que voc far quando o elo for encontrado? - Perguntou 
o Cadeira Azul.
-        Depende.
-        Malone ter de ser morto.
-        Posso cuidar disso.
O velho lanou-lhe um olhar.
-        Pode ser um desafio.
-        Estou preparado.
-        H um problema.
Sabre se perguntou por que fora chamado a Viena.
- Os israelenses foram alertados. Parece que George Haddad 
deu outro telefonema para a Cisjordnia, e espies judeus na 
Autoridade Palestina informaram o contato dele em Tel 
Aviv. Eles sabem que ele est vivo, e presumo que tambm 
saibam onde est.
Isso era realmente um problema.
- Os outros diretores sabem disso e ratificaram a autoridade 
que eu lhe dei para cuidar do assunto como achar melhor.
Coisa que ele planejava fazer, de qualquer modo.
- Como voc sabe, os israelenses tm motivaes muito 
diferentes das nossas. Ns queremos o elo. Querem que ele 
desaparea.
Sabre assentiu.
-        Eles bombardearam seu prprio povo naquele caf s para 
matar Haddad.
-        Os judeus so um problema - declarou o Cadeira Azul 
baixinho. - Sempre foram difceis. Ser diferente e obstinado 
produz um orgulho sem limites.
Sabre decidiu deixar o comentrio sem resposta.
-        Pretendemos ajudar a acabar com o problema judaico.
-        Eu no sabia que havia um problema.
-        No para ns, mas para nossos amigos rabes. De modo que 
voc deve ficar  frente dos israelenses. Eles no podem 
interferir.
-        Ento preciso ir embora.
-        Para onde Malone foi?
-        Londres.
O Cadeira Azul ficou quieto, concentrado nos insetos que 
adejavam sobre seu colo. Por fim, espantou as borboletas.
-        No caminho para Londres, h uma parada que voc tem de 
fazer.
-        H tempo para isso?
-        No temos escolha. Outro contato com o governo 
israelense tem informaes que s revelar, pessoalmente, a 
voc, e ele quer ser pago.
-        No  o que todos querem?
-        Ele est na Alemanha. Isso no deve demorar muito. Use 
um dos jatos da companhia. Disseram que esse homem foi 
descuidado. Est exposto, mas no sabe. Resolva nossa conta 
com ele.
Sabre entendeu.
-E no preciso dizer que haver outros l, vigiando. Por 
favor, torne o show memorvel. Os israelenses precisam 
entender que, nesse caso, as apostas so altas. - O velho se 
remexeu na cadeira, depois virou o nariz fino como estilete 
na direo do prato. - Alm disso, voc sabe o que ocorre 
neste fim de semana?
- Claro.
- Preciso de um dossi financeiro sobre um certo indivduo. 
At sexta-feira. Pode ser feito?
Ele sabia a resposta certa, mas tambm no tinha tempo para 
isso.
- Certamente.
O Cadeira Azul disse o nome a ser investigado, depois falou:
- Faa com que a informao seja entregue aqui. Enquanto 
isso, faa o que faz melhor.
DEZOITO
WASHINGTON, D.C. 
7H30
Stephanie decidiu ficar na capital. Todos os principais 
envolvidos estavam ali, e se quisesse ajudar Malone, 
precisaria ficar muito perto de um deles. Estava ligada a 
Atlanta e  sede do Setor Magalhes atravs do laptop e do 
celular, e no momento tinha trs agentes indo  Dinamarca. 
Outros dois j se encontravam em Londres, e mais um 
estava indo para Washington. Seu quarto de hotel, por 
enquanto, seria o comando central.
Estivera esperando durante os ltimos vinte minutos, e 
quando o telefone sobre a mesa finalmente tocou, ela sorriu. 
Uma coisa em relao a Thorvaldsen: ele era pontual. 
Levantou o fone.
-        Sim, Henrik.
-        Tinha tanta certeza que era eu?
-        Bem na hora.
-        Atrasar  grosseria.
-        Concordo totalmente. O que descobriu?
-        O bastante para saber que temos um problema.
No dia anterior, Thorvaldsen havia despachado um 
esquadro de investigadores para rastrear os movimentos dos 
dois homens mortos. Como um deles havia matado um 
agente federal, ela tambm pde pedir ajuda  Europol.
- J ouviu falar da der Orden des Goldenen Vliesses? A 
Ordem do Velo de Ouro?
-         um cartel econmico europeu. Sei sobre ele.
-        Preciso de uma conexo com seu laptop pela internet.
-        Isso  confidencial - disse ela em tom leve.
-        Garanto que, com o que sei, tenho toda a permisso de que 
preciso. Ela disse qual era o endereo de roteamento. Um 
minuto depois, cinco fotografias se materializaram em sua 
tela. Trs eram fotos de rosto; duas, de corpo inteiro. Os 
cinco homens tinham mais de 70 anos, rostos como 
caricaturas, cheios de ngulos opacos, frios e inexpressivos, 
todos com um verniz de sofisticao - a postura aristocrtica 
de homens acostumados a ter o que queriam.
- A Ordem do Velo de Ouro foi formada de novo no fim dos 
anos 1940, logo depois da socializao comunista da 
indstria austraca. Foi organizada em Viena, e a participao 
inicial era restrita a um seleto grupo de industriais e 
financistas. Nos anos 1950 se diversificou, acrescentando 
magnatas de outros ramos, inclusive minerao, junto com 
mais financistas.
Ela puxou um bloco de anotaes e clicou uma esferogrfica.
-        Como assim, formada de novo?
-        O nome vem de uma ordem medieval francesa que Filipe, 
o duque de Borgonha, criou em 1430. Mas aquele grupo de 
cavaleiros durou apenas algumas dcadas. Durante os sculos 
surgiram reencarnaes, e uma Ordem Social do Velo de 
Ouro ainda existe na ustria. Mas  o cartel econmico de 
mesmo nome que representa ameaa.
Os olhos dela estavam grudados na tela, a memria 
absorvendo os rostos srios.
- Um grupo interessante - disse Thorvaldsen. - Um rgido 
cdigo de estatutos governa os negcios da Ordem. A 
participao  restrita a 71 pessoas. Um crculo de cinco 
diretores comanda. O que  chamado de Cadeira Azul 
preside tanto o Crculo quanto a Ordem. Essas pessoas usam 
mantos carmim e penduram medalhes de ouro no pescoo. 
Cada medalho  forjado com a imagem de adagas de fogo e 
pederneiras emitindo lnguas de chama ao redor de um velo 
de ouro. Bastante dramtico. Ela concordou.
- Voc precisa saber sobre os cinco que esto na sua tela. O 
rosto na esquerda superior  de um industrial austraco, 
Alfred Hermann. No momento ele ocupa a Cadeira Azul. 
Multibilionrio,  dono de fbricas de ao na Europa, minas 
na frica, plantaes de borracha no Extremo Oriente e tem 
investimentos bancrios em todo o mundo.
Thorvaldsen explicou sobre os outros quatro. Um possua 
participao majoritria no banco VRN, que tinha influncia 
nacional na ustria, na Alemanha, na Sua e na Holanda, 
alm de empresas farmacuticas e automobilsticas. Outro 
dominava os mercados de seguros na Europa e possua 
empresas de investimentos que cuidavam de carteiras para 
muitas naes da Unio Europia. O terceiro era o nico 
dono de duas empresas francesas e uma belga que, fora dos 
Estados Unidos, eram as principais produtoras de aeronaves. 
O ltimo se designava "rei do concreto", j que suas 
empresas eram as principais produtoras na Europa, na frica 
e no Oriente Mdio.
- Um grupo formidvel - disse ela.
- Para dizer o mnimo. Um ntido sabor ariano permeia os 
diretores, e sempre permeou, j que scios alemes, suos e 
austracos dominam. Os diretores so eleitos pelos scios e 
tm cargos vitalcios. Simultaneamente  escolhido um 
Sombra, que pode imediatamente substitu-lo em caso de 
morte. O Cadeira Azul  eleito pelos diretores e tambm 
tem cargo vitalcio.
- Demnios eficientes.
- Eles se orgulham disso. Todos os scios se renem duas 
vezes por ano numa assemblia formal, uma no fim da 
primavera e a outra pouco antes do inverno, numa 
propriedade de 160 hectares que pertence a Alfred 
Hermann, perto de Viena. No resto do ano, os negcios so 
conduzidos pelos diretores ou por meio de comisses. H 
um chanceler, um tesoureiro e um secretrio, alm de uma 
equipe de apoio que trabalha perto do castelo de Hermann. 
A organizao  intencionalmente formada por poucas 
pessoas. Para no haver atrasos parlamentares 
desnecessrios.
Ela fez anotaes no bloco.
- O Cadeira Azul no tem direito a voto, seja no Crculo ou 
na Assemblia, a no ser que haja empate. Os nmeros 
mpares, de 71 scios e cinco diretores, cria a possibilidade.
Ela teve de admirar os esforos investigativos de 
Thorvaldsen.
- Fale dos scios.
- A maioria  de europeus, mas quatro americanos, dois 
canadenses, trs asiticos, um brasileiro e um australiano 
esto entre os atuais 71. Homens e mulheres. Elas foram 
aceitas h dcadas. A substituio  apenas ocasional, mas 
uma lista de espera garante que os 71 sempre sero 
mantidos.
Ela estava curiosa.
-        Por que a sede  na ustria?
-        Pelo mesmo motivo pelo qual muitos de ns tm dinheiro 
l. Uma determinao expressa na constituio do pas 
probe violaes do sigilo bancrio. O dinheiro  difcil de 
ser rastreado. A Ordem  bem financiada. Os scios so 
avaliados igualmente, a partir de um oramento projetado. O 
do ano passado ultrapassou 150 milhes de euros.
-        E em que eles gastam esse dinheiro?
-        No que as pessoas procuram h sculos: influncia poltica, 
principalmente em relao aos esforos da Comunidade 
Europia para centralizar a moeda e reduzir as barreiras 
comerciais. O crescimento da Europa Oriental tambm 
interessa a eles. Reconstruir a infra-estrutura da Repblica 
Tcheca, da Eslovquia, da Hungria, da Romnia e da Polnia 
 um grande negcio. Por meio de algumas contribuies 
cuidadosamente feitas, os scios obtiveram mais do que seria 
justo nos contratos.
- Mesmo assim, Henrik, 150 milhes de euros no podem 
ser gastos simplesmente para garantir contratos e subornar 
polticos.
-        Voc est certa. H um objetivo maior no que o grupo faz. 
Ela estava ficando impaciente.
-        Estou esperando.
-        O Oriente Mdio.  a maior prioridade deles.
-        Como, afinal, voc sabe de tudo isso? 
O silncio veio do outro lado da linha. 
Ela esperou.
-        Eu sou scio.

DEZENOVE

LONDRES 
12H30
Malone desceu a rampa junto com Pam, desembarcando do 
vo da British Airways. Haviam passado a noite em 
Christiangade, depois voado juntos de Copenhague  
Inglaterra: Pam faria uma parada curta no retorno  Gergia, 
Malone teria l seu destino final. Gary fora deixado com 
Thorvaldsen. O garoto conhecia o dinamarqus devido aos 
dois ltimos veres que passara com o pai. At que pudesse 
determinar exatamente o que estava acontecendo, Malone 
achava que Christiangade era o lugar mais seguro para Gary. 
Como medida extra, Thorvaldsen contratara um grupo de 
seguranas particulares para patrulhar a propriedade. Pam 
no ficara muito feliz com a deciso, e os dois haviam 
discutido. Por fim, ela havia entendido a sensatez, em 
especial considerando o que havia acontecido em Atlanta. 
Com o fim da crise, ela precisava retornar ao trabalho. Havia 
partido rapidamente, sem avisar ao escritrio. Deixar Gary 
no era o que ela desejava, mas por fim admitiu que Malone 
poderia proteg-lo melhor que ela.
-        Espero que eu ainda tenha um emprego - disse.
-        Imagino que suas horas extras sejam suficientes para 
garantir o perdo. Vai contar a eles o que aconteceu?
-        Terei de contar.
-        Tudo bem. Diga o que for preciso.
-        Por que voc est continuando com isso? Por que no 
deixa para l?
Ele notou que ela parecia ter abandonado boa parte do mau 
humor durante o sono. Havia se desculpado repetidamente 
pelo dia anterior e ele tinha dito que no era nada. Na 
verdade, no queria conversar com ela e, graas a terem 
feito as reservas na ltima hora, no tiveram de sentar juntos 
durante o vo. O que era bom. Ainda havia coisas que 
precisavam ser ditas sobre Gary. Coisas desagradveis. Mas 
agora no era hora.
-  o nico modo de garantir que a coisa no acontea de 
novo - disse ele. - Se eu no for o nico a saber sobre o elo, 
no serei mais um alvo. Alis, nem voc e o Gary.
-        O que voc planeja fazer? 
Ele realmente no sabia.
-        Vou descobrir quando chegar l.
Abriram caminho pelo salo apinhado em direo ao 
terminal, com o silncio e os passos pensativos dos dois 
sinalizando que era melhor ficarem separados. Sentidos 
adormecidos, afinados pelos 12 anos como agente do 
Departamento de Justia, estavam alertas de novo. Ele havia 
notado uma coisa no avio. Um homem. Sentado trs fileiras 
 frente, do lado oposto da cabine. Havia entrado em 
Copenhague, e algo nele chamara a ateno de Malone. 
Nada durante o vo tinha representado problema. Mas, 
apesar de o homem ter desembarcado antes deles, agora 
estava posicionado atrs dos dois.
E isso parecia um problema.
-        Voc atirou naquele homem ontem sem a mnima 
sugesto de remorso - disse Pam. - Isso  assustador, Cotton.
-        A segurana do Gary estava em risco.
-        Era isso que voc costumava fazer?
-        O tempo todo.
-        J vi mais morte do que desejaria. Ele tambm.
Continuaram andando. Malone podia ver que ela estava 
pensando. Sempre soubera quando o crebro dela 
borbulhava.
- No falei ontem - disse ela -, com tudo que aconteceu, mas 
h um novo homem na minha vida.
Ele ficou satisfeito, mas se perguntou por que ela estaria 
contando.
-        Faz muito tempo que a gente no se preocupa com a vida 
um do outro.
-        Eu sei. Mas ele  meio especial. - Ela levantou o brao e 
mostrou o pulso. - Me deu este relgio.
Ela parecia orgulhosa, por isso Malone foi indulgente.
-        Um TAG Heuer. Nada mau.
-        Foi o que pensei, tambm. Quase me matou de surpresa.
-        Ele trata voc bem?
Ela confirmou com a cabea.
- Gosto de ficar com ele. Malone no sabia o que dizer.
- S falei para voc saber que talvez seja a hora de fazermos 
as pazes.
Entraram no terminal apinhado. Era hora de se separarem.
- Posso ir com voc? - perguntou ela. - Meu avio para 
Atlanta s sai daqui a sete horas.
Na verdade, ele estivera ensaiando a despedida, pretendendo 
faz-la de modo casual.
- No  boa idia. Preciso fazer isso sozinho. - Ele no 
precisava dizer o que os dois estavam pensando. 
Especialmente depois de ontem.
Ela assentiu.
- Entendo. S achei que seria um bom modo de passar a 
tarde. Ele ficou curioso.
-        Por que voc gostaria de ir comigo? Achei que queria ficar 
longe de tudo isso.
-        Quase fui morta por causa desse tal elo, por isso fiquei 
curiosa. E, alm do mais, o que vou fazer no aeroporto?
Malone teve de admitir que a aparncia dela era fantstica - 
cinco anos mais nova que ele, mas parecia mais jovem ainda. 
E a expresso estava muito parecida com a da antiga Pam, ao 
mesmo tempo desamparada, independente e bonita, para 
que ele agisse de modo irreverente. O rosto sardento e os 
olhos azuis lanavam um jorro de lembranas pelo seu 
crebro, lembranas que ele havia lutado com fora para 
reprimir, em especial a partir de agosto, quando ficara 
sabendo que no era o pai de Gary.
Ele e Pam haviam sido casados por muito tempo. Tinham 
compartilhado uma vida. Boa e ruim. Ele estava com 48 
anos, divorciado h mais de um, separado h quase seis.
Talvez fosse hora de superar isso. O que passou passou, e ele 
no fora nenhum anjo.
Mas a negociao das pazes teria de esperar, por isso disse 
simplesmente:
-        Volte para Atlanta e fique longe de encrenca, certo? 
Ela sorriu.
-        Eu poderia lhe dizer o mesmo.
- Isso  impossvel para mim. Mas tenho certeza de que o 
novo homem da sua vida gostaria de ter voc em casa.
- Ainda precisamos conversar, Cotton. Ns dois evitamos o 
assunto.
- Vamos conversar, mas depois de tudo isso. Que tal uma 
trgua at l?
- Certo.
- Aviso a voc sobre como as coisas esto andando, e no se 
preocupe com o Gary. Henrik vai cuidar dele. O garoto vai 
estar bem protegido. Voc tem o nmero do telefone, pode 
falar com ele quando quiser.
Deu um aceno animado para ela, acompanhando o sorriso, 
depois foi na direo da sada do terminal para pegar um 
txi. No tinha trazido bagagem. Dependendo de quanto 
tempo fosse ficar, compraria algumas coisas mais tarde, 
depois de encontrar o elo.
Mas antes de sair do prdio precisava verificar mais uma 
coisa.
Junto  porta de sada, aproximou-se de um balco de 
informaes e pegou um mapa da cidade. Virou-se e 
examinou-o de modo casual, permitindo que o olhar fosse 
do mapa para o fluxo de pessoas que passavam pelo amplo 
terminal.
Tinha esperado que o sujeito estivesse aguardando sua sada, 
se de fato o estivesse seguindo.
Em vez disso, seu problema seguiu Pam.
Agora ele estava preocupado.
Jogou o mapa no balco e atravessou o terminal. Pam entrou 
num dos muitos cafs, aparentemente decidida a passar o 
tempo com uma refeio ou um caf. O sujeito assumiu 
posio num free shop de onde podia observar claramente o 
lugar.
Interessante. Aparentemente, Malone no era o prato do 
dia.
Ele tambm entrou no caf.
Pam estava sentada num reservado, e ele foi at l. A 
surpresa inundou o rosto dela.
-        O que est fazendo aqui?
-        Mudei de idia. Por que no vem comigo?
-        Eu realmente gostaria.
-        Com uma condio.
-        Sei. Minha boca fica fechada.

Stephanie deixou as palavras de Thorvaldsen passarem de 
novo por sua mente. Depois perguntou com calma:
- Voc  scio da Ordem do Velo de Ouro?
-        H trinta anos. Sempre achei que no passava de um modo 
de pessoas com dinheiro e poder se misturarem.  o que 
fazemos na maior parte do tempo...
-        Quando no esto pagando polticos nem subornando para 
obter contratos.
-        Qual , Stephanie. Voc sabe como  o mundo. Eu no 
fao as regras. S jogo pelas que esto estabelecidas.
-        Diga o que sabe, Henrik. E, por favor, sem embromar.
-        Meus investigadores rastrearam os dois homens que 
morreram ontem e descobriram que so de Amsterd. Um 
tem uma amante. Ela disse que o amante trabalhava 
regularmente para outro homem. Ela conseguiu v-lo uma 
vez e, pela descrio, acho que tambm o vi.
Ela esperou mais.
-        De modo interessante, j h muitos anos, nas reunies da 
Ordem, ouvi falar um bocado sobre a biblioteca perdida de 
Alexandria. O ocupante da Cadeira Azul, Alfred Hermann,  
obcecado pelo assunto.
-        Voc sabe por qu?
-        Ele acredita que podemos aprender muito com os antigos. 
Disso ela duvidava, mas precisava saber:
-        Qual  a ligao entre os dois homens mortos e a Ordem?
- O homem que a mulher descreveu esteve presente em 
reunies da Ordem. No  scio.  empregado. Ela no 
ouviu o nome dele, mas o namorado usou um termo que j 
escutei antes, tambm. Die Klauen der Adler.
Ela traduziu em silncio. Garras da guia.
-        Voc vai me contar mais?
-        Que tal quando eu tiver certeza?
No ms de junho anterior, quando Stephanie havia 
conhecido Thorvaldsen, ele no fora muito aberto, o que s 
havia alimentado o atrito que j existia entre os dois. Mas 
desde ento ela aprendera a no subestimar o dinamarqus.
-        Certo. Voc disse que o interesse principal da Ordem era o 
Oriente Mdio. Como assim?
-        Agradeo por no me pressionar.
-        Em algum momento tenho de comear a cooperar com 
voc. Alm disso, voc no iria me contar mesmo.
Thorvaldsen deu um risinho.
-        Somos muito parecidos.
-        Bom, isso me deixa apavorada.
-        No  muito ruim. Mas, respondendo  sua pergunta sobre 
o Oriente Mdio, infelizmente os rabes s respeitam a 
fora. Mas tambm sabem negociar e tm muito com que 
barganhar, em especial o petrleo.
Ela no podia questionar essa concluso.
-        Quem  o inimigo nmero um dos rabes? - perguntou 
Thorvaldsen. - Os Estados Unidos? No. Israel.  o espinho 
no p deles. E fica l. Bem no meio do mundo deles. Um 
Estado judeu. Separado em 1948, quando quase um milho 
de pessoas, se voc acreditar no que dizem os rabes, foram 
retiradas  fora. Terras que palestinos, egpcios, 
jordanianos, libaneses e srios reivindicaram durante sculos 
foram simplesmente entregues pelo mundo aos judeus. A 
nakba, a catstrofe, como eles chamam. Um nome 
adequado. - Thorvaldsen fez uma pausa. - Para os dois lados.
-        E a guerra irrompeu imediatamente - disse Stephanie. - A 
primeira de muitas.
-        Cada uma delas, felizmente, vencida por Israel. Nos 
ltimos sessenta anos, os israelenses se agarraram  terra 
deles, e tudo porque Deus disse a Abrao que seria assim.
Ela se lembrou da passagem que Brent Green havia citado. E 
disse o Senhor a Abro: Levanta agora os teus olhos, e olha 
desde o lugar onde ests, para o lado do norte, e do sul, e do 
oriente, e do ocidente, porque toda esta terra que vs, hei de 
dar a ti, e  tua descendncia, para sempre.
-        A promessa de Deus a Abrao  um dos motivos pelos 
quais a Palestina foi dada aos judeus - disse Henrik. - 
Supostamente era a ptria ancestral deles, legada pelo 
prprio Deus. Quem pode argumentar contra isso?
-        Pelo menos um erudito palestino, que eu saiba.
-        Cotton me falou sobre George Haddad e a biblioteca.
-        Ele no deveria ter contado.
- No creio que Cotton ligue a mnima para as regras neste 
momento, e, atualmente, voc tambm no  uma das 
pessoas prediletas dele. Ela merecia isso.
- Minhas fontes em Washington dizem que a Casa Branca 
quer encontrar Haddad. Presumo que voc saiba disso.
Ela no respondeu.
- Imaginei que voc no fosse confirmar ou negar. Mas h 
algo acontecendo aqui, Stephanie. Um acontecimento 
importante. Homens de poder geralmente no perdem 
tempo com bobagens.
Ela concordava.
-        Voc pode explodir as pessoas. Aterroriz-las a cada dia. 
Isso no resolve nada. Mas quando possui o que seu inimigo 
quer, ou que no quer que os outros tenham, voc possui 
poder verdadeiro. Eu conheo a Ordem do Velo de Ouro. 
Influncia.  isso que Alfred Hermann e a Ordem querem.
-        E o que faro com ela?
-        Se ela atacar o corao de Israel, como  bem possvel, o 
mundo rabe negociaria para obt-la. Todo mundo na 
Ordem pode lucrar a partir de relaes amigveis com os 
rabes. Somente o preo do petrleo basta para atrair a 
ateno deles, mas novos mercados para seus produtos e 
servios...  um preo ainda maior. Quem sabe? A 
informao pode at mesmo questionar o Estado judeu, o 
que poderia aliviar uma infinidade de feridas abertas. A 
defesa de Israel por parte dos Estados Unidos, to antiga,  
cara. Quantas vezes isso j aconteceu? Uma nao rabe 
afirma que Israel deveria ser destrudo. A ONU avalia a 
situao. Os Estados Unidos so contra. Todo mundo fica 
com raiva. Espadas so empunhadas. Ento concesses e 
dlares tm de ser distribudos para aplacar os nimos. Se 
isso no fosse mais necessrio, imagine como o mundo... e 
os Estados Unidos... poderiam ser muito mais conciliadores.
E este poderia ser o legado que Larry Daley queria para o 
presidente. Mas ela precisava perguntar:
- O que poderia ser to poderoso assim?
- No sei. Mas h alguns meses voc e eu lemos um 
documento antigo que mudava fundamentalmente tudo. 
Algo de poder igual poderia estar presente aqui tambm.
Ele estava certo, mas a realidade era:
-        Cotton precisa dessa informao.
-        E vai t-la, mas primeiro precisamos saber de toda a 
histria.
-        E como voc planeja fazer isso?
- A Ordem ter seu encontro de inverno neste fim de 
semana. Eu no ia, mas agora vou.

VINTE
LONDRES 
13H20
Malone desceu do txi e examinou a rua calma. Um monte 
de fachadas com telhados de duas guas, postes laterais finos 
e floreiras nas janelas. Cada uma das pitorescas casas 
georgianas parecia um sereno lar de antiguidade, um lugar 
que naturalmente abrigaria traas de livros e acadmicos. 
George Haddad devia se sentir em casa.
-  aqui que ele mora? - perguntou Pam.
- Espero que sim. No tenho notcias dele h quase um ano. 
Mas este  o endereo que recebi h trs anos.
A tarde estava fresca e seca. Mais cedo, ele havia lido no The 
Times que a Inglaterra ainda estava no meio de uma 
incomum seca de outono. O homem do aeroporto no os 
havia seguido, mas talvez algum tivesse assumido a tarefa, 
j que o sujeito estava claramente em comunicao com 
outros. Mas no havia nenhum outro txi  vista. Era 
estranho ainda estar com Pam, mas ele merecia a sensao 
de incmodo. Tinha pedido isso ao insistir para que ela 
viesse.
Subiram os degraus e entraram no prdio. Malone se 
demorou no saguo, longe das vistas, vigiando a rua.
Mas nenhum carro ou pessoa apareceu.
A campainha do apartamento no terceiro andar tilintou 
discretamente. O homem de pele cor de azeitona que 
atendeu  porta era baixo e de corpo ligeiramente cheio, 
com cabelo branco-acinzentado e rosto quadrado. Os olhos 
castanhos ficaram vvidos quando ele viu quem era, e 
Malone notou um instante de empolgao reprimida no 
largo riso de boas-vindas.
- Cotton! Que surpresa. Estive pensando em voc outro dia 
mesmo. 
Os dois apertaram as mos calorosamente e Malone 
apresentou Pam. Haddad convidou os dois a entrar. A luz do 
dia era diminuda pelas grossas cortinas de renda e Malone 
absorveu rapidamente a decorao, que parecia uma mistura 
intencional: havia um piano, vrios aparadores, poltronas, 
abajures adornados com cpulas de seda xadrez e uma mesa 
de carvalho, onde um computador era tragado por livros e 
papis.
Haddad balanou o brao como se quisesse abarcar o 
atulhamento.
- Meu mundo, Cotton.
As paredes eram cheias de mapas, tantos que o papel verde-
slvia era praticamente invisvel. O olhar de Malone 
percorreu-os, e ele notou que representavam a Terra Santa, a 
Arbia e o Sinai, com a linha temporal variando dos dias 
atuais at a antiguidade. Alguns eram fotocpias, outros 
originais, todos interessantes.
- Mais da minha obsesso - disse Haddad.
Depois de uma afvel troca de amenidades, Malone decidiu 
ir ao ponto.
- As coisas mudaram. Por isso estou aqui. - E explicou o que 
havia acontecido no dia anterior.
- Seu filho est bem? - perguntou Haddad.
- Est. Mas h cinco anos eu no fiz perguntas porque essa 
coisa era parte do meu trabalho. No  mais; portanto, quero 
saber o que est acontecendo.
- Voc salvou minha vida.
- O que deveria me comprar a verdade.
Haddad levou-os  cozinha, onde se sentaram ao redor de 
uma mesa oval. O ar tpido pendia quente com um leve 
perfume de vinho  tabaco.
-         complicado, Cotton. Eu mesmo s entendi nos ltimos 
anos.
-        George, preciso saber de tudo.
Uma compreenso inquieta passou entre os dois. Velhas 
amizades podiam se atrofiar. As pessoas mudavam. O que 
um dia era apreciado entre duas pessoas se tornava 
desconfortvel. Mas Malone sabia que Haddad confiava 
nele, e queria retribuir a confiana. Por fim, o velho falou. 
Malone ouviu enquanto Haddad lhes contava sobre 1948, 
quando, aos 19 anos, havia lutado na resistncia palestina, 
tentando impedir a invaso sionista.
- Atirei em muitos homens - disse Haddad. - Mas houve um 
que nunca esqueci. Ele foi procurar meu pai. Infelizmente 
aquela alma abenoada j havia se matado. Ns capturamos o 
homem, pensando que ele era sionista. Eu era jovem, cheio 
de dio, sem pacincia, e ele falava absurdos. Por isso atirei 
nele. - Os olhos de Haddad se umedeceram. - Era um 
Guardio e eu o matei, de modo que no fiquei sabendo de 
nada. - O palestino fez uma pausa. - At que, cerca de 
cinqenta anos depois, incrivelmente, outro Guardio me 
visitou.
Malone se perguntou sobre a importncia daquilo.
-        Ele apareceu na minha casa e parou no escuro, dizendo a 
mesma coisa que aquele primeiro homem havia dito em 
1948.
-        SOU um Guardio.
Ser que Haddad tinha ouvido direito? A pergunta se formou 
imediatamente em sua cabea.
-        Da biblioteca? Vai me oferecer um convite?
-        Como sabe disso?
Ele contou ao homem o que acontecera havia muito tempo. 
Enquanto falava, Haddad tentou avaliar o visitante. Era 
magro, com cabelos totalmente pretos, bigode grosso e pele 
queimada de sol com textura de couro curtido. Bem vestido, 
mas com discrio, e modos igualmente discretos. No 
diferente do primeiro emissrio.
O homem ficou em silncio e Haddad decidiu que, desta 
vez, ele tambm seria paciente. Por fim, o Guardio disse:
- Ns estudamos seus escritos e suas pesquisas publicadas. 
Seu conhecimento do texto antigo da Bblia  
impressionante, assim como sua capacidade de interpretar o 
hebraico antigo. E seus argumentos sobre as tradues 
aceitas so convincentes.
Ele apreciou o elogio - que costumavam ser poucos e 
escassos na Cisjordnia.
- Somos um grupo antigo. H muito tempo, os primeiros 
Guardies salvaram boa parte da biblioteca de Alexandria da 
destruio. Um grande esforo. De vez em quando, 
oferecemos um convite para aqueles que, como o senhor, 
podem se beneficiar.
Muitas questes se formaram na mente de Haddad, mas ele 
perguntou:
-        O Guardio que eu matei disse que a guerra que estvamos 
travando no era necessria. Que h coisas mais poderosas 
do que balas. O que ele quis dizer?
-        No sei. Obviamente seu pai no conseguiu aparecer na 
biblioteca, de modo que jamais se beneficiou de nosso 
conhecimento, e ns no nos beneficiamos do dele. 
Esperamos que o senhor consiga.
-        Como assim, no conseguiu aparecer?
-        Para ter o direito de usar a biblioteca, a pessoa deve passar 
pela saga do heri. - O homem pegou um envelope. -
Interprete estas palavras com sabedoria e eu o verei na 
entrada, onde terei a honra de permitir que entre na 
biblioteca.
Ele aceitou o envelope.
- Sou um velho. Como poderia fazer uma jornada longa?
-        O senhor encontrar a fora. 
-        Por que deveria?
-        Porque na biblioteca o senhor encontrar respostas.

- O meu erro - disse Haddad - foi contar s autoridades 
palestinas sobre essa visita. Mas falei a verdade. No podia 
fazer a jornada. Quando informei o que havia acontecido, 
pensei que estava falando com amigos na Cisjordnia. Mas 
espies de Israel ouviram tudo, e pouco depois voc e eu 
estvamos naquele caf que explodiu.
Malone se lembrou do dia. Um dos mais apavorantes de sua 
vida. Ele mal conseguira sair e tirar Haddad.
-        O que vocs estavam fazendo l? - perguntou Pam, com 
preocupao na voz.
-        George e eu nos conhecamos havia anos. Compartilhamos 
um interesse por livros, em especial a Bblia. - Ele apontou. - 
Este homem  um dos maiores especialistas do mundo. 
Gosto de revirar o crebro dele.
- Eu nunca soube que voc era interessado por isso - disse 
Pam. 
- Aparentemente, havia muita coisa que nenhum de ns 
sabia sobre o outro. - Malone viu que ela havia registrado o 
que ele realmente quisera dizer, por isso deixou a verdade 
pairar e disse: - Quando George sentiu que havia problema e 
no confiou nos palestinos, pediu minha ajuda. Stephanie 
me mandou para descobrir o que estava acontecendo. Assim 
que aquela bomba explodiu, George quis ir embora. Todo 
mundo presumiu que ele havia morrido na exploso. Por 
isso eu o fiz desaparecer.
- Com o codinome de Elo de Alexandria - disse Pam. 
- Algum obviamente descobriu a meu respeito - declarou 
Haddad. 
Malone assentiu.
-        Os arquivos de computador foram invadidos. Mas no h 
qualquer meno de onde voc mora, s que eu sou o nico 
que sabe de seu paradeiro. Por isso foram atrs do Gary.
-        E lamento realmente. Eu jamais desejaria colocar seu filho 
em perigo.
- Ento diga, George, por que h pessoas querendo voc 
morto?
- Na poca em que o Guardio me visitou, eu estava 
trabalhando numa teoria relativa ao Velho Testamento. 
Anteriormente havia publicado vrios estudos sobre a 
situao atual desse texto sagrado, mas estava formulando 
mais uma coisa.
As rugas nos cantos dos olhos de Haddad se aprofundaram, e 
Malone ficou olhando o amigo lutar com os pensamentos.
- Os cristos tendem a se concentrar no Novo Testamento - 
disse Haddad. - Os judeus usam o Velho. Ouso dizer que a 
maioria dos cristos entende pouco o Velho Testamento, 
alm de pensar que o Novo  uma realizao das profecias 
do Antigo. Mas o Velho Testamento  importante, e h 
muitas contradies no texto, contradies que poderiam 
facilmente questionar sua mensagem.
Malone j ouvira Haddad falar sobre isso, mas desta vez 
sentiu uma nova urgncia.
- Os exemplos abundam. O Gnesis d duas verses 
conflitantes sobre a criao. Duas genealogias diferentes da 
prole de Ado so apresentadas. Depois o dilvio. Deus diz a 
No para trazer vrios pares de animais limpos e um par de 
no-limpos. Em outra parte do Gnesis  apenas um par de 
cada. Num versculo, No solta um corvo para procurar 
terra, mas em outro  uma pomba. At a extenso da 
enchente  contraditria. Quarenta dias e quarenta noites ou 
360? Os dois nmeros so usados. Para no mencionar as 
dzias de parelhas ou trios contidos nas narrativas, como os 
diferentes nomes usados para descrever Deus. Uma parte 
cita YHWH, Yav, outra diz Elohim. Voc no acha que 
pelo menos o nome de Deus deveria ser coerente?
A lembrana de Malone recuou alguns meses, at a Frana, 
onde ouvira reclamaes semelhantes sobre os quatro 
Evangelhos do Novo Testamento.
- Atualmente, a maioria dos estudiosos concorda que o 
Velho Testamento foi composto por vrios escritores 
durante um perodo de tempo extremamente longo - disse 
Haddad. - Uma hbil compilao de fontes variadas, feita por 
escribas compiladores. Essa concluso  absolutamente clara 
e no  nova. Um filsofo espanhol do sculo XII foi um dos 
primeiros a notar que o texto em Gnesis 12:6, naquela 
poca os cananeus estavam na terra, no poderia ter sido 
escrito por Moiss. E como Moiss poderia ser o autor dos 
Cinco Livros, j que o ltimo descreve em detalhes o 
momento preciso e as circunstncias de sua morte?
"E os muitos apartes literrios. Por exemplo, quando antigos 
topnimos so usados, o texto observa que esses lugares 
ainda so visveis hoje em dia. Isso aponta absolutamente 
para influncias posteriores moldando, expandindo e 
elaborando o texto.
-        E a cada vez que uma dessas redaes ocorria - disse 
Malone - mais do significado original era perdido.
-        Sem dvida. A melhor estimativa  que o Velho 
Testamento foi composto entre 1000 e 586 a.C. 
Composies posteriores surgiram por volta de 500 a 400 
a.C. Ento o texto pode ter sido mexido at 300 a.C. 
Ningum tem certeza. S sabemos que o Velho Testamento 
 uma colcha de retalhos, cada segmento escrito sob 
circunstncias histricas e polticas diferentes, expressando 
diferentes pontos de vista religiosos.
-        Aprecio tudo isso - disse Malone, pensando nas 
contradies do Novo Testamento discutidas na Frana. - 
Acredite, aprecio mesmo. Mas nada disso  revolucionrio. 
Ou as pessoas acreditam que o Velho Testamento  a Palavra 
de Deus ou acreditam que  uma coletnea de narrativas 
antigas.
-        Mas e se as palavras foram alteradas a ponto de a 
mensagem original no estar mais l? E se o Velho 
Testamento, como conhecemos, no , e nunca foi, o Velho 
Testamento de sua poca original? Bom, isso poderia mudar 
muita coisa.
- Estou ouvindo.
-  disso que gosto em voc - disse Haddad, sorrindo. -  
um tremendo ouvinte.
Pela expresso de Pam, Malone podia ver que ela no 
concordava necessariamente, mas, mantendo a promessa, 
ficou quieta.
- Voc e eu j conversamos sobre isso - disse Haddad. - O 
Velho Testamento  fundamentalmente diferente do Novo. 
Os cristos aceitam o texto do Novo literalmente, a ponto de 
consider-lo histrico. Mas as histrias dos Patriarcas, do 
xodo e da conquista de Cana no so histria. So uma 
expresso criativa da reforma religiosa que aconteceu h 
muito tempo num lugar chamado Jud. Certo, h ncleos de 
verdade nos relatos, mas eles so muito mais narrativa do 
que fato.
"Caim e Abel so um bom exemplo. Na poca da narrativa 
havia apenas quatro pessoas na terra. Ado, Eva, Caim e 
Abel. No entanto, Gnesis 4:17 diz Caim se deitou com sua 
mulher e ela engravidou. De onde veio a mulher? Seria Eva? 
Sua me? Isso no seria estranho? Ento, ao narrar a 
linhagem sangunea de Ado, Gnesis 5 diz que Mahalale 
viveu 895 anos. Jared, oitocentos anos e Enoque, 365 anos. 
E Abrao. Supostamente estava com 100 anos quando Sara 
deu  luz Isaque, e ela estava com 90.
-        Ningum aceita isso literalmente - disse Pam.
-        Os judeus devotos diriam o contrrio.
-        O que voc quer dizer, George? - perguntou Malone.
-        O Velho Testamento que conhecemos agora  resultado de 
tradues. A linguagem hebraica do texto original perdeu o 
uso por volta de 500 a.C. Assim, para entender o Velho 
Testamento, devemos aceitar as interpretaes judaicas 
tradicionais ou procurar orientao dos dialetos modernos 
que descendem dessa lngua hebraica perdida. No podemos 
usar o primeiro mtodo porque os eruditos judeus que inter-
pretaram originalmente o texto, entre 500 e 900 d.C., mil 
anos ou mais depois de terem sido escritos, nem conheciam 
o hebraico antigo, por isso basearam sua reconstruo em 
adivinhaes. O Velho Testamento, que muitos reverenciam 
como a Palavra de Deus, no passa de uma traduo 
aleatria.
- George, ns dois j discutimos isso antes. Os eruditos 
debateram o assunto durante sculos. No  nada novo.
Haddad lanou-lhe um sorriso torto.
- Mas no terminei de explicar

VINTE E UM
VIENA, USTRIA 
14H45

O castelo de Alfred Hermann lhe proporcionava uma 
atmosfera que lembrava um tmulo. Sua solido s era 
interrompida quando a Assemblia da Ordem se reunia ou 
quando os diretores se encontravam.
Nenhuma das duas coisas acontecia hoje.
E ele ficou satisfeito.
Estava enfurnado em seu apartamento particular, uma srie 
de cmodos espaosos no segundo andar do castelo, cada 
cmodo fluindo naturalmente para o outro, no estilo francs 
sem corredores. A sesso de inverno da 49a Assemblia 
comearia em menos de dois dias, e ele ficou satisfeito ao 
saber que todos os 71 scios da Ordem estariam presentes. 
At Henrik Thorvaldsen, que a princpio dissera que no 
iria, agora tinha confirmado. Os scios no haviam 
conversado coletivamente desde a primavera; portanto, ele 
sabia que as discusses nos dias seguintes seriam rduas. 
Como Cadeira Azul, sua tarefa era garantir que os 
procedimentos fossem produtivos. Os funcionrios da 
Ordem j estavam trabalhando, preparando o salo de 
reunies do castelo - e tudo estaria pronto quando os scios 
chegassem para o fim de semana -, mas ele no estava 
preocupado com a Assemblia. Em vez disso, seus 
pensamentos se fixavam em descobrir a Biblioteca de 
Alexandria. Algo com que ele sonhava havia dcadas. 
Atravessou a sala.
A maquete, que havia encomendado anos atrs, ocupava o 
canto norte do aposento, uma espetacular miniatura do que 
deveria ter sido a Biblioteca de Alexandria na poca de 
Csar. Puxou uma cadeira para perto, os olhos absorvendo os 
detalhes, a mente vagueando.
Duas colunatas dominavam. Ambas, ele sabia, seriam cheias 
de esttuas, os pisos cobertos de tapetes, as paredes com 
tapearias penduradas. Nos muitos bancos encostados nos 
corredores, estudiosos discutiam o significado de uma 
palavra ou a cadncia de um verso, ou entravam em alguma 
controvrsia custica sobre uma nova descoberta. As duas 
cmaras cobertas se abriam para salas laterais, onde papiros, 
rolos de pergaminhos e cdices posteriores estavam 
guardados em caixas, empilhados frouxamente, marcados 
para indexao ou guardados em prateleiras. Em outras salas, 
copistas trabalhavam para produzir rplicas que eram 
vendidas. Os membros desfrutavam um alto salrio e iseno 
de impostos e recebiam alimentao e alojamento. Havia 
sales de palestras, laboratrios, observatrios - at mesmo 
um zoolgico. Gramticos e poetas recebiam os postos mais 
prestigiosos - mdicos, matemticos e astrnomos tinham os 
melhores equipamentos. A arquitetura era decididamente 
grega, e a coisa toda fazia lembrar um templo elegante.
Que lugar, pensou ele.
Que poca!
Em apenas dois perodos a histria humana teve o 
conhecimento radicalmente expandido em escala global. 
Um aconteceu durante a renascena e continua at o 
presente, e o outro foi durante o sculo IV a.C., quando a 
Grcia dominava o mundo.
Pensou na poca, trezentos anos antes de Cristo, e na morte 
sbita de Alexandre, o Grande. Seus generais brigaram pelo 
grande imprio, que acabou sendo dividido em trs. E teve 
incio a Era Helenstica, um perodo de domnio grego 
mundial. Um desses teros do imprio foi reivindicado por 
um macednio que pensava longe, Ptolomeu, que se 
declarou rei do Egito em 304 a.C., fundando a dinastia 
ptolomaica, cuja capital era Alexandria.
Os Ptolomeus eram intelectuais. Ptolomeu I era historiador. 
Ptolomeu II, zologo; Ptolomeu III, patrono da literatura. 
Ptolomeu IV era dramaturgo. Cada um deles escolheu 
grandes eruditos e cientistas como tutores dos filhos e 
encorajava grandes mentes a viverem em Alexandria.
Ptolomeu I fundou o museu, um local onde homens de 
estudo podiam se reunir e compartilhar conhecimento. Para 
ajudar nas tarefas, ele tambm estabeleceu a biblioteca. Na 
poca de Ptolomeu III, em 246 a.C., havia dois locais: a 
biblioteca principal, perto do palcio real, e outra, menor, no 
santurio do deus Serpis, conhecida como Serapeu.
Os Ptolomeus eram grandes colecionadores de livros, 
despachando agentes por todo o mundo conhecido. 
Ptolomeu II trouxe toda a biblioteca de Aristteles. 
Ptolomeu III ordenou que todos os navios no porto de 
Alexandria fossem revistados. Caso fossem encontrados li-
vros, eles seriam copiados, as cpias seriam devolvidas aos 
donos e os originais, guardados na biblioteca. Os gneros 
iam desde poesia e histria at retrica, filosofia, religio, 
medicina, cincia e leis. Cerca de 43 mil rolos de 
pergaminho acabaram sendo abrigados no Serapeu, 
disponveis ao pblico em geral, e mais 500 mil ficavam no 
museu, restritos aos eruditos.
O que aconteceu com tudo isso?
Uma verso dizia que tudo foi queimado quando Jlio Csar 
lutou contra Ptolomeu XIII em 48 a.C. Csar havia ordenado 
que a frota real fosse incendiada, mas o fogo se espalhou pela 
cidade e pode ter consumido a biblioteca. Outra verso 
culpava os cristos, que supostamente destruram a 
biblioteca principal em 272 d.C. e o Serapeu em 391, parte 
de seu esforo para livrar a cidade de todas as influncias 
pags. Um ltimo relato creditou a destruio da biblioteca 
aos rabes depois de terem conquistado Alexandria em 642. 
O califa Omar, quando perguntado sobre livros no tesouro 
imperial, teria dito: Se o que est escrito concorda com o 
Livro de Deus, no  necessrio. Se discorda, no  desejado. 
Destrua-os. Assim, por seis meses, os pergaminhos teriam 
alimentado os banhos de Alexandria.
Hermann sempre se encolhia diante desse pensamento - o 
modo como uma das maiores tentativas que a humanidade 
fez para colecionar conhecimento poderia simplesmente ter 
queimado.
Mas o que realmente aconteceu?
Certamente, quando o Egito enfrentou inquietao 
crescente e agresses estrangeiras, a biblioteca se tornou 
vtima de perseguio, violncia da turba e ocupao militar, 
no desfrutando mais de privilgios especiais.
Quando havia finalmente desaparecido? 
Ningum sabia.
E a lenda seria verdade? Dizia-se que um grupo de 
entusiastas havia conseguido retirar um rolo depois do outro, 
copiando alguns, roubando outros, metodicamente 
preservando o conhecimento. Cronistas haviam sugerido sua 
existncia durante sculos.
Os Guardies.
Ele gostava de imaginar o que aqueles entusiastas dedicados 
poderiam ter preservado. Obras desconhecidas de Euclides? 
Aristteles? Agostinho? Junto com incontveis outros 
homens que mais tarde seriam considerados pais de seus 
respectivos campos de conhecimento.
Era impossvel dizer.
E era isso que tornava a busca to fascinante.
Para no mencionar as teorias de George Haddad, que 
ofereciam a Hermann um modo de levar adiante os 
objetivos da Ordem. O Comit Poltico j havia determinado 
como a desestabilizao de Israel poderia ser manipulada 
para se obter lucro. O plano de negcios era ambicioso e 
vivel. Desde que a pesquisa de Haddad pudesse ser provada.
Cinco anos antes, Haddad havia informado a visita de 
algum conhecido como Guardio. Os espies de Israel 
haviam dado essa informao a Tel Aviv. Os judeus tinham 
reagido com exagero, como sempre, e imediatamente 
tentaram matar Haddad. Felizmente os americanos tinham 
intervindo, e Haddad ainda estava entre os vivos. Hermann 
sentia-se igualmente agradecido porque suas fontes polticas 
americanas agora eram negociveis, tendo recentemente 
confirmado esses fatos e acrescentado mais, motivo pelo 
qual Sabre agira contra Cotton Malone.
Mas quem sabia alguma coisa? Talvez Sabre descobrisse mais 
com o israelense corrupto que esperava na Alemanha. 
A nica certeza era George Haddad. 
Ele precisava ser encontrado.



VINTE E DOIS
ROTHENBURG, ALEMANHA
15H30

Sabre caminhava pela rua calada de pedras. Rothenburg
ficava 100 quilmetros ao sul de Wursburg, era uma cidade 
murada, cercada por fortificaes de pedra sadas 
diretamente da Idade Mdia. Dentro, ruas estreitas 
serpenteavam entre construes de madeira, tijolos e pedra. 
Sabre procurava uma em particular.
A Baumeisterhaus ficava perto da praa do mercado, 
pertinho da antiga torre do relgio. Uma placa de ferro 
anunciava que a construo fora feita em 1596, mas no 
ltimo sculo a estrutura de trs andares havia abrigado um 
hotel e restaurante.
Passou pela porta e foi recebido pelo cheiro doce de po e 
ma com canela. Um estreito salo de jantar no trreo dava 
num ptio interno de dois andares, com as paredes brancas 
cheias de galhadas de cervos.
Um dos contatos da Ordem esperava num reservado de 
carvalho, uma figura pequena e insignificante conhecida 
somente como Jonah. Sabre foi at l e entrou no reservado. 
A mesa estava coberta por um refinado tecido cor-de-rosa. 
Uma xcara de loua cheia de caf preto estava diante de 
Jonah, com um bolinho doce meio comido.
-        Coisas estranhas esto acontecendo - disse Jonah em 
ingls.
-        O Oriente Mdio  assim.
-        Mais estranhas que o normal.
O homem era ligado ao Ministrio do Interior de Israel, fazia 
parte da misso alem.
- Voc pediu que eu ficasse atento a qualquer coisa sobre 
George Haddad. Parece que ele ressuscitou dos mortos. 
Nosso pessoal est no maior tumulto.
Sabre fingiu ignorncia.
-        Qual  a fonte dessa revelao?
-        Ele ligou para a Palestina nos ltimos dias. Quer contar 
alguma coisa a eles.
Sabre j havia se encontrado trs vezes com Jonah. Homens 
como ele, que colocavam os euros acima da lealdade, eram 
teis, mas ao mesmo tempo exigiam cautela. Os traidores 
sempre so trados.
- Que tal pararmos de embromar e voc me dizer o que quer 
que eu saiba?
O homem saboreou um gole de caf.
- Antes de desaparecer h cinco anos, Haddad recebeu a 
visita de algum que se dizia um Guardio.
Sabre j sabia disso, mas no falou nada.
- Ele recebeu algum tipo de informao. A coisa  meio 
estranha, mas fica mais estranha ainda.
Sabre nunca havia apreciado o sentido de drama que Jonah 
gostava de invocar.
- Haddad no  o primeiro a ter essa experincia. Eu vi um 
dossi. Houve outros trs, desde 1948, que receberam visitas 
semelhantes de algum que se dizia Guardio. Israel sabia 
sobre todas elas, mas todos esses homens morreram dias ou 
semanas depois da visita. - Jonah fez uma pausa. - Se voc se 
lembra, Haddad quase morreu, tambm.
Ele comeou a entender.
-        Seu povo est guardando alguma coisa?
-         o que parece.
-        Em que perodo de tempo essas visitas aconteceram?
-         intervalos de cerca de vinte anos, nos ltimos sessenta, 
aproximadamente. Todos eram acadmicos; um israelense e 
trs rabes, inclusive Haddad. Todos os assassinatos foram 
feitos pelo Mossad.
Ele precisava saber.
-        E como voc conseguiu descobrir isso?
-        Como falei, os dossis. - Jonah ficou em silncio. - Um 
comunicado veio h algumas horas. Haddad est morando 
em Londres.
-        Preciso do endereo. 
Jonah deu, depois disse:
-        Homens foram mandados. Do esquadro de assassinatos.
-        Por que matar Haddad?
- Fiz a mesma pergunta ao embaixador. Ele j foi do Mossad 
e me contou uma histria interessante.
-        Presumo que seja por isso que estou aqui, no? 
Jonah lhe deu um sorriso.
-        Eu sabia que voc era um homem inteligente.

David Ben-Gurion percebeu que sua carreira poltica estava 
encerrada. Desde os dias em que era uma criana frgil na 
Polnia, ele havia sonhado que os judeus receberiam sua 
ptria bblica. Por isso tornou-se pai da nao de Israel e 
guiou-a pelos anos tumultuados de 1948 a 1963, co-
mandando suas guerras e sendo estadista.
Trabalho difcil para algum que, na verdade, queria ser 
intelectual.
Devorou livros de filosofia, estudou a Bblia, flertou com o 
budismo, at mesmo aprendeu um pouco de grego antigo 
para ler Plato no original. Possua uma curiosidade 
implacvel pelas cincias naturais e detestava fico. A 
batalha verbal, e no o dilogo hbil, era seu modo predileto 
de comunicao.
No entanto, no era um pensador abstrato.
Em vez disso, era um homem duro, de feies marcadas, 
com um halo de cabelos prateados, maxilar que projetava 
fora de vontade e temperamento vulcnico.
Havia proclamado a independncia de Israel em maio de 
1948, ignorando advertncias de ltimo minuto de 
Washington e passando por cima das previses de juzo final 
feitas por seus auxiliares mais prximos. Lembrava-se de 
como, faltando horas para a sua declarao, as foras 
militares de cinco naes rabes invadiram Israel, juntando-
se s milcias palestinas numa tentativa aberta de destruir os 
judeus. Ele havia liderado pessoalmente o exrcito, e um por 
cento da populao judia acabara morrendo, assim como 
milhares de rabes. Mais de meio milho de palestinos 
perderam suas casas. No fim, os judeus prevaleceram, e 
muitos passaram a consider-lo uma mistura de Moiss, 
Davi, Garibaldi e Deus Todo-poderoso.
Durante mais 15 anos liderou seu pas. Mas agora era 1965, e 
ele estava com quase 80 anos e sentia-se exausto.
Pior ainda, estivera errado.
Olhou para a impressionante biblioteca. Tanto 
conhecimento. O homem que havia se chamado de 
Guardio dissera que a busca seria um desafio, mas que, se 
ele conseguisse ter sucesso, as recompensas seriam 
incalculveis.
E o enviado estivera certo.
Um dia ele havia lido que a medida de uma idia era como 
ela era relativa no somente ao seu tempo, mas tambm aos 
outros.
Seu tempo havia produzido o moderno Estado de Israel, 
mas, ao fazer isso, milhares de pessoas haviam morrido - e 
ele temia que muitas outras fossem perecer nas dcadas 
seguintes. Judeus e rabes pareciam destinados a lutar. Ele 
achara que seu objetivo era digno, que a causa era justa, mas 
no achava mais.
Estivera errado.
Em relao a tudo.
Com cuidado folheou de novo o pesado volume aberto 
sobre a mesa. Trs tomos assim haviam estado esperando 
quando ele chegara. O Guardio que o visitara seis meses 
antes ficara parado  entrada, com um riso largo no rosto 
enrugado.
Jamais Ben-Gurion havia sonhado com a existncia de um 
lugar de conhecimento como aquele, e sentia-se grato 
porque sua curiosidade lhe permitira reunir coragem para a 
busca.
-        De onde veio tudo isso? - perguntou ao entrar.
-        Do corao e da mente de homens e mulheres.
Uma charada, mas tambm uma verdade, e o filsofo que 
havia nele entendeu.

- Ben-Gurion contou essa histria em 1973, dias antes de 
morrer - disse Jonah. - Alguns dizem que ele estava 
delirando. Outros que sua mente vagueava. Mas o que quer 
que possa ter descoberto na tal biblioteca, ele guardou para si 
mesmo. Porm um fato  claro. A poltica e a filosofia de 
Ben-Gurion mudaram drasticamente depois de 1965. Ele se 
tornou menos militante, mais conciliador. Pediu concesses 
para os rabes. Muitos atriburam isso  idade avanada, mas 
o Mossad achava que havia mais coisas. Tanto que Ben-
Gurion passou a ser suspeito. Por isso nunca teve a 
permisso de um retorno poltico. Pode imaginar? O pai de 
Israel mantido a distncia.
- Quem  esse tal Guardio? 
Jonah deu de ombros.
- Os dossis no dizem. Mas, de algum modo, o Mossad 
ficou sabendo de cada um dos quatro que receberam visitas 
e agiu rapidamente. Quem quer que sejam, Israel no quer 
que ningum fale com eles.
-        Ento seus colegas planejam eliminar Haddad? 
Jonah assentiu.
-        Enquanto estamos conversando.
Sabre j ouvira o suficiente, por isso saiu do reservado.
- E o meu pagamento? - perguntou Jonah rapidamente. 
Sabre tirou um envelope do bolso e jogou-o sobre a mesa.
- Isso deve acertar nossas contas atuais. Avise quando 
houver mais a dizer.
Jonah embolsou o suborno.
- Voc ser o primeiro.
Sabre ficou olhando o contato se levantar e ir no para a 
porta da frente, mas para uma alcova onde ficavam os 
banheiros. Decidiu que esta oportunidade era to boa quanto 
qualquer outra e foi atrs.
 porta do banheiro, hesitou.
O restaurante estava ocupado pela metade, pouco iluminado 
e ruidoso, com os ocupantes das mesas distrados, 
conversando em vrias lnguas.
Entrou, trancou a porta e examinou rapidamente o local. 
Dois cubculos, uma pia e um espelho, luz mbar de 
luminrias incandescentes. Jonah ocupava o primeiro 
cubculo, o outro estava vazio. Sabre pegou um punhado de 
toalhas de papel e esperou at ouvir a descarga, depois tirou 
uma faca do bolso.
Jonah saiu do cubculo fechando o zper da cala.
Sabre virou e mergulhou a faca no peito dele, girando-a para 
cima, depois, com a outra mo, apertou as toalhas de papel 
no ferimento. Ficou olhando o rosto do israelense encher-se 
primeiro de choque, depois ficar vazio. Manteve as toalhas 
no lugar enquanto tirava a faca.
Jonah tombou no cho.
Sabre recuperou o envelope no bolso do sujeito e em 
seguida limpou o metal na cala de Jonah. Rapidamente 
segurou os braos do morto e arrastou o corpo que sangrava 
para dentro do cubculo, sentando o cadver no vaso 
sanitrio.
Em seguida, fechou a porta do cubculo e saiu.
L fora, acompanhou uma guia que liderava um grupo 
visitando a rathaus da cidade. A mulher idosa apontou para a 
antiga prefeitura e falou sobre a longa histria de 
Rothenburg.
Ele hesitou e ouviu. Sinos anunciaram as 16 horas.
- Olhem para o relgio e prestem ateno s duas janelas 
redondas dos dois lados do mostrador.
Todo mundo virou enquanto os painis se abriam. Um 
homem mecnico apareceu e bebeu uma caneca de vinho 
enquanto outra figura olhava. A guia falou sobre o 
significado histrico. Mquinas fotogrficas clicaram. 
Fumadoras zumbiram. O acontecimento durou cerca de dois 
minutos. Enquanto Sabre caminhava para longe, vislumbrou 
um turista que habilmente afastou uma lente da torre do 
relgio e focalizou sua retirada.
Ele sorriu.
A exposio era sempre um risco quando a traio se 
tornava meio de vida. Por sorte, descobrira com Jonah tudo 
que queria saber, o que explicava por que esse ponto fraco 
fora permanentemente suprimido. Mas agora os israelenses 
sabiam quem era o contato de Jonah. O Cadeira Azul parecia 
no se importar e havia instrudo especificamente que ele 
fizesse "um bom show".
E ele havia feito.
Para os israelenses e para Alfred Hermann.
VINTE E TRS
LONDRES 
14H30
  
Malone esperou que George Haddad terminasse de explicar. 
Seu velho amigo estava divagando.
- Escrevi um texto h seis anos - disse Haddad. - Abordava 
uma teoria na qual eu estivera trabalhando, uma teoria 
falando de como o Velho Testamento foi originalmente 
traduzido do hebraico antigo.
Haddad contou sobre a Septuaginta, criada entre os sculos 
III a.C. e I a.C., a traduo mais antiga e mais completa do 
Velho Testamento para o grego, feita na Biblioteca de 
Alexandria. Ento descreveu o Cdice Sinatico, um 
manuscrito do sculo IV do Velho e do Novo Testamentos 
usado por estudiosos posteriores para confirmar outros 
textos bblicos, mesmo que nenhum soubesse se ele era 
correto. E a Vulgata Latina, completada mais ou menos na 
mesma poca por So Jernimo, a primeira traduo direta 
do hebraico para o latim, na qual foram feitas grandes 
revises nos sculos XVI, XVIII e XX.
- At Martinho Lutero - disse Haddad - mexeu na Vulgata 
Latina, retirando partes para sua f luterana. Todo o 
significado daquela traduo  turvo. Muitas mentes 
alteraram a mensagem.
"A Bblia do rei Jaime. Muitos acham que ela apresenta as 
palavras originais, mas foi criada no sculo XVII a partir de 
uma traduo da Vulgata para o ingls. Aqueles tradutores 
jamais viram o original em hebraico e, se viram,  
improvvel que tenham entendido. Cotton, a Bblia que 
conhecemos hoje est a cinco idiomas de distncia da pri-
meira que foi escrita. A Bblia do rei Jaime se proclama 
como autorizada e original. Mas isso no significa que seja 
genuna, autntica ou mesmo verdadeira.
- Existe alguma Bblia hebraica? - perguntou Pam. 
Haddad assentiu.
- A mais antiga que sobrevive  o Cdice Alepo, salvo da 
destruio na Sria em 1948. Mas esse  um manuscrito do 
sculo X d.C., produzido quase dois mil anos depois do texto 
original de sabe-se l quem.
Malone vira o pergaminho quebradio e creme daquele 
manuscrito, com tinta marrom desbotada, na Biblioteca 
Judaica Nacional de Jerusalm.
-        No meu artigo - disse Haddad -, levantei a hiptese de 
como alguns manuscritos poderiam resolver essas questes. 
Sabemos que o Velho Testamento foi estudado por filsofos 
antigos na Biblioteca de Alexandria. Por homens que 
entendiam o hebraico antigo. Tambm sabemos que eles 
escreveram sobre suas idias. H referncias a essas obras, 
citaes e trechos, em manuscritos que sobreviveram, mas 
infelizmente os textos originais sumiram. Alm disso, pode 
haver textos judaicos antigos; sabemos que a biblioteca 
acumulou muitos desses. A destruio em massa dos escritos 
judaicos se tornou comum mais tarde, em especial do Velho 
Testamento em hebraico. Somente a Inquisio queimou 12 
mil cpias do Talmud. Estudar apenas uma delas poderia ser 
decisivo para resolver qualquer dvida.
-        Em que isso importa?
-        Importa muito - disse Haddad. - Especialmente se ele 
estiver errado.
-        Em que sentido? - perguntou Malone, ficando impaciente.
-        Moiss dividindo o mar Vermelho. O xodo. Gnesis. Davi 
e Salomo. Desde o sculo XVIII, arquelogos escavaram a 
Terra Santa feito loucos, tudo para provar que a Bblia narra 
fatos histricos. No entanto, nem um fiapo de evidncias 
fsicas foi desenterrado confirmando qualquer coisa do 
Velho Testamento. O xodo  um bom exemplo. Supos-
tamente milhares de israelitas caminharam pela pennsula do 
Sinai. Acamparam em locais identificados especificamente 
na Bblia, locais que ainda podem ser encontrados hoje. Mas 
nenhuma lasca de cermica, nem uma pulseira, nem nada 
desse perodo jamais foi encontrado para confirmar o xodo. 
O mesmo vcuo de provas esteve presente quando a 
arqueologia tentou corroborar outros acontecimentos 
bblicos. Vocs no acham isso estranho? No haveria restos 
de pelo menos um incidente relatado no Novo Testamento 
em algum lugar naquela terra?
Malone sabia que, como muitas pessoas, Haddad considerava 
que a Bblia tinha pouca histria. Essa escola de pensamento 
acreditava que havia alguma verdade nela, mas no muita. 
Malone tambm tinha dvidas. Por suas prprias leituras, 
chegara  concluso de que os que defendiam a narrativa 
como histria formavam suas concluses muito mais por 
consideraes teolgicas do que cientficas.
Mas, mesmo assim, e da?
- George, voc j disse tudo isso antes, e concordo. Preciso 
saber o que  to importante para sua vida estar em risco.
Haddad levantou-se da mesa e levou-os at onde os mapas 
adornavam as paredes.
-        Passei os ltimos cinco anos colecionando isto. No foi 
fcil. Sinto vergonha de dizer que, na verdade, tive de 
roubar alguns.
-        De onde? - perguntou Pam.
-        Bibliotecas, principalmente. A maioria no permite 
fotocpias de livros raros. E, alm disso, perdem-se detalhes 
em cpias, e so os detalhes que importam.
Haddad parou diante de um mapa que representava o 
moderno Estado de Israel.
- Quando a terra foi dividida em 1948 e os sionistas 
receberam sua parte, falou-se muito da aliana de Abrao. A 
palavra de Deus de que essa regio - Haddad apertou o dedo 
no mapa -, esta terra exata, era supostamente de Abrao.
Malone observou as fronteiras.
- Ser capaz de entender o hebraico antigo me permitiu 
algumas idias. Talvez demais. H cerca de trinta anos, notei 
algo interessante. Mas, para avaliar essa revelao,  
importante avaliar Abrao.
Malone conhecia a histria.
- O Gnesis - disse Haddad - registra um acontecimento que 
afetou profundamente a histria do mundo. Pode ser o dia 
mais importante de toda a histria humana.
Malone ouviu enquanto Haddad falava de Abro, que viajou 
da Mesopotmia at Cana, caminhando em meio  
populao, seguindo fielmente as ordens de Deus. Sua 
mulher, Sarai, continuava estril e acabou sugerindo que 
Abro copulasse com sua criada predileta, uma escrava 
egpcia chamada Agar, que havia ficado com eles desde que 
o cl fora expulso do Egito pelo fara.
-        O nascimento de Ismael - disse Haddad -, o primeiro filho 
de Abro com Agar, torna-se fundamental no sculo VII 
d.C., quando uma nova religio se formou na Arbia: o 
islamismo. O Alcoro chama Ismael de apstolo e profeta. 
Ele era muito aceitvel  vista de seu Senhor. O nome de 
Abro aparece em 21 dos 114 captulos do Alcoro. At 
hoje Ibrahim e Isma'il so nomes comuns para os 
muulmanos. O prprio Alcoro ordena aos muulmanos 
que sigam a religio de Abrao.
-        Ele no era judeu nem cristo; mas era sincero na f e no 
juntava nenhum deus a Deus.
-        Bom, Cotton, vejo que andou estudando o Alcoro desde 
que conversamos pela ltima vez.
Cotton sorriu.
-        Li uma ou duas vezes. Material fascinante.
-        O Alcoro deixa claro que Abrao e Isma'il ergueram os 
alicerces da Casa.
-        A Caaba - disse Pam. - O templo mais sagrado do 
islamismo. Malone ficou impressionado.
-        Quando foi que voc aprendeu sobre o islamismo?
-        No aprendi. Mas assisto ao History 
Channel. Ele captou o riso dela.
- A Caaba fica em Meca. Os muulmanos adultos tm de 
fazer uma peregrinao at l. O problema  que, quando se 
renem a cada ano, so tantas pessoas, que vrias centenas 
morrem pisoteadas. Isso sai no noticirio o tempo todo.
- Os rabes, particularmente os rabes muulmanos, 
remontam sua origem a Ismael - disse Haddad.
Malone sabia o que vinha em seguida. Treze anos depois do 
nascimento de Ismael, Deus disse a Abro que ele seria pai 
de uma infinidade de naes. Primeiro recebeu a ordem de 
mudar seu nome para Abrao e o de Sarai para Sara. Ento 
Deus anunciou que Sara daria  luz um filho. Nem Sara nem 
Abrao acreditaram em Deus, mas dentro de um ano nasceu 
Isaque.
- O dia desse nascimento pode ser o mais importante da 
histria humana - disse Haddad. - Depois disso, tudo mudou. 
A Bblia e o Alcoro discordam em muitos pontos relativos a 
Abrao. Cada um narra uma histria separada. Mas, segundo 
a Bblia, o Senhor disse a Abrao que toda a terra ao redor, a 
terra de Cana, pertencia a Abrao e seu herdeiro, Isaque.
Malone sabia o resto. Deus apareceu a Jac, filho de Isaque, 
e repetiu a promessa da terra, dizendo que por intermdio 
de Jac viria um povo a quem a terra de Cana pertenceria 
para sempre. Jac recebeu a ordem de mudar seu nome para 
Israel. Os 12 filhos de Jac criaram tribos separadas, reunidas 
pela aliana entre Deus e Abrao, e cada um estabeleceu sua 
famlia, as 12 tribos de Israel.
- Abrao  o pai de trs das principais religies do mundo - 
disse Haddad. - O islamismo, o judasmo e o cristianismo 
tm razes nele, ainda que a histria de sua vida seja 
diferente em cada uma delas. Todo o conflito do Oriente 
Mdio, que dura milhares de anos,  simplesmente um 
debate sobre qual relato  correto, qual religio tem o direito 
divino sobre a terra. Os rabes por meio de Ismael. Os 
judeus por meio de Isaque. Os cristos com Cristo.
Malone lembrou-se da Bblia e disse:
-        O Senhor disse a Abro: sai da tua terra, de teu povo e da 
casa de teu pai e vai  terra que te mostrarei. E far-te-ei uma 
grande nao, e abenoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; 
e tu sers uma bno. Abenoarei os que te abenoarem e 
amaldioarei os que te amaldioarem; e em ti sero benditas 
todas as famlias da terra.
-        Voc fala as palavras com tanta convico - disse Pam.
-        Elas tm significado - observou Haddad. - Os judeus 
acreditam que so elas que lhes do a propriedade exclusiva 
da Palestina. Passei a maior parte de minha vida adulta 
estudando a Bblia.  um livro incrvel. E o que a separa de 
todas as outras narrativas picas  simples. Nada mstico nem 
mgico. Em vez disso, o foco  a responsabilidade humana.
- Voc acredita? - perguntou Pam. 
Haddad balanou a cabea.
- Na religio? No. Vi com muita clareza as manipulaes 
dela. Em Deus? Isso  outra coisa. Mas vi a negligncia d'Ele. 
Nasci muulmano. Meu pai era muulmano, assim como o 
pai dele. Mas, depois da guerra em 1948, algo me tomou. Foi 
quando a Bblia se tornou minha paixo. Eu queria l-la em 
sua forma original. Saber o que ela realmente significava.
-        Por que os israelenses querem voc morto? - perguntou 
Malone.
- Eles so descendentes de Abrao. Aqueles que Deus disse 
que iria abenoar... e seus inimigos eram aqueles que Ele iria 
amaldioar. Milhes de pessoas morreram no correr dos 
sculos, milhares nos ltimos cinqenta anos, simplesmente 
para provar essas palavras. Recentemente, Cotton, fui 
envolvido num debate. Um homem particularmente 
arrogante num bar me disse que Israel possua o direito 
absoluto de existir. Deu-me seis motivos, que dependiam 
separadamente da arqueologia, da histria, da questo 
prtica, da humanidade, da defesa e, para ele o mais 
importante, da autorizao. - Haddad parou. -A autorizao, 
Cotton. A autorizao bblica. A aliana de Abrao. A terra 
de Deus dada ao povo de Israel, proclamada em toda a sua 
glria nas palavras do Gnesis.
Malone esperou.
- E se entendemos tudo errado? - Haddad olhou com 
irritao para o mapa de Israel ao lado de outro mapa da 
Arbia Saudita.
- Continue - disse uma nova voz. 
Todos se viraram.
Parado junto  porta da frente estava um homem baixo, com 
culos e ficando careca. Ao seu lado estava uma mulher de 
30 e poucos anos, pequena e compacta, morena. Ambos 
seguravam armas com silenciadores. Malone registrou 
imediatamente a marca e o modelo das armas e soube para 
quem os dois trabalhavam.
Para Israel.
VINTE E QUATRO
WASHINGTON 
9H50
  
Stephanie terminou o caf-da-manh e sinalizou para o 
garom, pedindo a conta. Estava num restaurante perto do 
Dupont Circle, no longe de seu hotel. Todo o Setor 
Magalhes fora mobilizado e sete de seus 12 advogados 
estavam ajudando-a diretamente. O assassinato de Lee 
Durant dera motivao a todos, mas havia riscos associados 
aos seus esforos. Outras agncias de informao 
descobririam rapidamente o que ela estava fazendo, o que 
significava que Larry Daley no estaria muito atrs. Para o 
diabo com eles. Malone precisava de Stephanie, e ela no ia 
deix-lo na mo. De novo.
Pagou a conta e parou um txi que, 15 minutos depois, 
deixou-a na Rua 17, ao lado do parque National Mali. O dia 
estava claro e ensolarado, e a mulher para quem ela havia 
ligado duas horas antes ocupava um banco  sombra, no 
muito longe do Memorial da Segunda Guerra Mundial. Era 
uma loura de pernas compridas, corpo forte e, Stephanie 
sabia, uma astcia que exigia que ela fosse tratada com 
cautela. Stephanie conhecia Heather Dixon havia quase uma 
dcada. Usando o sobrenome de casada, de um 
relacionamento com vida curta, Dixon era cidad israelense 
ligada  misso Washington, parte do contingente do 
Mossad nos Estados Unidos. As duas haviam trabalhado jun-
tas e uma contra a outra, o que era comum quando se tratava 
dos israelenses. Stephanie esperava que hoje fosse um 
encontro amigvel.
-  bom ver voc - disse, enquanto se sentava.
Dixon estava vestida com elegncia, como sempre, com 
cala de xadrez em relevo marrom e dourado, camisa social 
branca e colete de bucl preto.
- Voc parecia preocupada ao telefone.
-E estou. Preciso saber sobre o interesse de seu governo por 
George Haddad.
O olhar vazio de oficial de informaes desapareceu do rosto 
atraente de Dixon.
- Voc andou ocupada.
- Assim como vocs. Houve muita conversa sobre Haddad 
nos ltimos dias. - Na verdade, Stephanie estava em 
desvantagem, porque Lee Durant fora seu ponto de contato 
com os israelenses, e ele no tivera chance de informar tudo 
que descobrira.
- Qual  o interesse americano? - perguntou Dixon.
-        H cinco anos, um dos meus agentes quase morreu por 
causa de Haddad.
-        E ento vocs esconderam o palestino. Guardaram-no para 
vocs. E no se incomodaram em contar ao aliado.
Agora estavam chegando ao cerne da questo.
-        E vocs no se incomodaram em nos contar que tinham 
tentado explodir o sujeito, junto com meu agente.
-        Disso no sei nada. Estou muito fora do crculo. Mas sei 
que Haddad reapareceu, e ns o queremos.
-        Assim como ns.
-        O que h de to importante do lado de vocs?
Ela no conseguiu decidir se Dixon estava jogando verde ou 
embromando.
- Diga voc, Heather. Por que os sauditas arrasaram 
povoados inteiros no oeste da Arbia h cinco anos? Por que 
o Mossad est concentrado em Haddad?
Stephanie cravou o olhar na amiga.
- Por que ele precisava morrer?

Um fatalismo calmo dominou Malone. Uma regra que todo 
mundo no servio de espionagem respeitava era: no se 
meta com os israelenses. Malone tinha violado esse 
conhecimento ao permitir que Israel acreditasse que Haddad 
havia morrido no caf bombardeado. Agora sabia que eles 
sabiam. Lee Durant dissera que os israelenses estavam 
agitados, mas no havia mencionado nada sobre a violao 
do segredo de Haddad. Caso contrrio, Malone nunca teria 
permitido a vinda de Pam.
-        Voc realmente deveria trancar a porta - declarou o 
intruso. -Todo tipo de gente pode entrar.
-        Voc tem um nome? - perguntou Malone.
-        Pode me chamar de Ado. Ela  Eva.
-        Nomes interessantes para um esquadro de assassinos 
israelenses.
- Como assim? - perguntou Pam. - Assassinos? 
Ele a encarou.
-        Eles vieram terminar o que comearam h cinco anos. - 
Em seguida, virou-se para Haddad, que no dava a mnima 
impresso de medo. - O que eles querem manter escondido?
-        A verdade - respondeu Haddad.
-        No sei nada sobre isso - disse Ado. - No sou poltico. S 
um funcionrio contratado. Minhas ordens so eliminar. 
Voc entende isso, Malone. J esteve nesse negcio.
, ele podia entender. Mas Pam era outra coisa.
- Todos vocs esto pirados - disse ela. - Falam sobre matar 
como se isso fizesse parte do trabalho.
- Na verdade - disse Ado -, esse  o meu nico trabalho. 
Quando comeara a trabalhar no Setor Magalhes, Malone 
havia aprendido que, muitas vezes, a sobrevivncia dependia 
de saber quando se conter e quando agir. Enquanto olhava 
para o velho amigo, um guerreiro da antiga, viu que Haddad 
sabia que havia chegado o momento de escolher.
- Sinto muito - sussurrou Malone.
- Eu tambm, Cotton. Mas tomei minha deciso quando dei 
os telefonemas.
Ser que ele ouvira direito?
-        Telefonemas?
-        Um h algum tempo, os outros dois recentemente. Para a 
Cisjordnia.
-        Isso foi idiotice, George.
-        Talvez. Mas eu sabia que voc viria.
- Fico feliz em saber que voc sabia, porque eu no. 
O olhar de Haddad ficou mais tenso.
- Voc me ensinou muita coisa. Lembro-me de cada lio, e 
at alguns dias atrs eu as segui rigidamente. Mesmo aquelas 
sobre salvaguardar o que realmente importa. - A voz havia 
ficado opaca e montona.
-        Voc deveria ter me ligado primeiro. 
Haddad balanou a cabea.
-        Devo isso ao Guardio em quem atirei.  o pagamento da 
dvida.
-        Que coisa contraditria! - disse Ado. - Um palestino com 
honra.
- E um israelense que assassina - disse Haddad. - Mas ns 
somos o que somos.
A mente de Malone estava registrando as possibilidades. 
Precisava fazer alguma coisa, mas Haddad pareceu sentir seu 
raciocnio.
- Voc fez tudo o que podia. Por enquanto, pelo menos. - 
Haddad fez um gesto. - Cuide dela.
-        Cotton, voc no pode deixar que eles o matem - sussurrou 
Pam, com desespero na voz.
-        Pode sim - disse Haddad, com um toque de amargura. 
Depois o palestino olhou irritado para Ado. - Posso fazer 
uma ltima prece?
Ado sinalizou com a arma.
- Quem sou eu, para negar um pedido to razovel?
Haddad foi na direo de um dos bas junto  parede e 
estendeu a mo para uma gaveta.
- Tenho aqui uma almofada sobre a qual me ajoelho. Posso? 
Ado deu de ombros.
Haddad abriu lentamente a gaveta e usou as duas mos para 
pegar uma almofada vermelha. Em seguida, o velho se 
aproximou de uma das janelas e Malone ficou olhando a 
almofada cair no cho.
Uma arma surgiu.
Presa firmemente na mo direita de Haddad.
Stephanie esperou uma resposta  pergunta.
- Haddad  uma ameaa  segurana de Israel - disse Dixon. 
- Era h cinco anos e continua sendo.
-        Pode explicar?
-        Por que no pergunta isso ao seu pessoal?
Ela esperara evitar essa linha de questionamento, mas 
decidiu ser honesta.
-        H uma diviso.
-        E onde voc est, nessa diviso?
-        Tenho um ex-agente em situao difcil. Pretendo ajud-lo.
- Cotton Malone. Sabemos. Mas Malone sabia em que estava 
entrando quando escondeu Haddad.
- O filho dele no sabia. 
Dixon deu de ombros.
-        Vrios dos meus amigos morreram nas maos de terroristas.
-        Uma certa hipocrisia de sua parte, no?
-        No acho. Os palestinos nos deixam pouca opo quanto ao 
modo de lidar com eles.
Stephanie no pde resistir:
- Eles no esto fazendo nada diferente do que os judeus 
fizeram em 1948.
Dixon deu um risinho.
- Se eu soubesse que teramos essa discusso de novo, no 
teria vindo.
Stephanie sabia que Dixon no queria ouvir falar do 
terrorismo do fim dos anos 1940, que teve origem muito 
mais judaica do que rabe. Mas no daria folga  amiga.
- Podemos falar de novo sobre o Hotel Rei David, se voc 
quiser. 
O lugar em Jerusalm havia servido como quartel-general 
militar e de investigaes criminais para os ingleses. Depois 
de uma agncia judaica local ter sido atacada e documentos 
importantes terem sido levados para o hotel, militantes 
retaliaram com uma bomba em julho de 1946. Noventa e 
um mortos, 45 feridos. Quinze dos mortos eram judeus.
-        Os ingleses foram alertados - disse Dixon. - No foi nossa 
culpa se optaram por ignorar.
-        O que importa se eles receberam o aviso? Foi um ato de 
terrorismo dos judeus contra os ingleses, um modo de levar 
adiante os objetivos de vocs. Os judeus queriam que os 
ingleses e os rabes sassem da Palestina e usaram qualquer 
ttica que funcionasse. Assim como os palestinos tentaram 
durante dcadas.
Dixon balanou a cabea.
- Estou enjoada de ouvir essa merda. A nakba  uma piada. 
Os rabes fugiram da palestina nos anos 1940 por conta 
prpria, porque estavam morrendo de medo. Os ricos 
entraram em pnico; o resto partiu depois que os lderes 
rabes pediram. Todos acreditavam honestamente que 
seramos esmagados em algumas semanas. Os que ficaram 
viajaram apenas alguns quilmetros para Estados rabes 
vizinhos. E ningum, inclusive vocs, jamais fala sobre 
todos os judeus que foram obrigados a sair daqueles mesmos 
Estados rabes. - Dixon deu de ombros. -  tipo: E dai? 
Quem se importa com eles? Mas coitadinhos dos rabes. 
Que tragdia!
-        Tome a terra de um homem, e ele lutar contra voc para 
sempre.
-        Ns no tomamos nada. Compramos a terra, e a maior 
parte consistia em pntanos sem cultivo e solo ruim que 
ningum queria. E, por sinal, oitenta por cento dos rabes 
que partiram eram camponeses, nmades ou bedunos. Os 
donos de terras, os que criaram tanto estardalhao, moravam 
em Beirute, no Cairo e em Londres.
Stephanie j ouvira isso.
-        A fala partidria israelense nunca muda.
-        Tudo o que os rabes tinham de fazer - disse Dixon - era 
aceitar a resoluo da ONU de 1947, invocando dois 
Estados, um rabe e outro judeu, e todo mundo teria 
vencido. Mas no. Absolutamente no. Nada de acordo. A 
repatriao sempre foi e ainda  um pr-requisito funda-
mental para qualquer discusso, e isso no vai acontecer. 
Israel  uma realidade que no desaparecer.  doentio o 
modo como todo mundo se sente em relao aos rabes. 
Eles vivem em campos, como refugiados, porque a liderana 
rabe gosta que seja assim. Se no gostasse, teria feito algo a 
respeito. Em vez disso, usa os acampamentos e as zonas de 
moradia designadas como modo de desconcertar o mundo 
pelo que fez em 1948. Mas ningum, inclusive os Estados 
Unidos, jamais os censura.
-        Neste momento, Heather, s estou interessada no filho de 
Cotton Malone e em George Haddad.
- Assim como a Casa Branca. Nosso pessoal disse que vocs 
estavam interferindo na questo de Haddad. Larry Daley diz 
que voc  um p no saco.
-        Ele realmente deve achar isso.
-        Tel Aviv no quer interferncias.
De repente, Stephanie se arrependeu da deciso de se 
encontrar com Dixon. Mas ainda precisava perguntar:
-        O que h de to importante? Diga, e eu posso ficar de fora. 
Dixon deu um risinho.
-        Essa  boa. Algum j caiu?
- Achei que poderia funcionar aqui. - Ela esperava que a 
amizade das duas significasse alguma coisa. - Conosco.
Dixon olhou os caminhos de concreto ao redor. Pessoas 
andavam pelo parque, aproveitando o dia.
-        Isto  srio, Stephanie.
-        At que ponto?
As mos de Dixon foram s costas e reapareceram com uma 
arma.
- At este ponto.

VINTE E CINCO

LONDRES 
Malone viu a arma na mo de Haddad e soube que o amigo 
havia decidido que esta seria sua ltima tentativa. No queria 
mais se esconder. Era hora de encarar seus demnios.
Haddad disparou primeiro, a bala se cravou no peito de Eva 
e fez a jovem saltar, com um ferimento jorrando sangue.
Ado disparou e Haddad gritou de agonia quando a bala 
rasgou sua camisa e estourou sua coluna, cobrindo os mapas 
atrs dele com manchas vermelhas.
As pernas de Haddad se dobraram, sua boca ficou 
escancarada, mas nenhum som escapou enquanto o velho 
despencava no cho.
Pam gritou, um falsete lancinante.
O ar pareceu ter sado da sala. Malone sentiu-se  merc de 
um corao amargo.
Encarou Ado, que baixou a arma.
- Eu vim mat-lo, s isso - disse Ado, j sem amabilidade na 
voz. - Meu governo no tem problema com voc, Malone, 
ainda que tenha nos enganado. Mas esse era o seu trabalho. 
Ento vamos deixar para l.
-  muita gentileza sua.
-        No sou criminoso, s um assassino profissional.
-        E ela? - perguntou Malone, apontando para o corpo de Eva.
-        No posso fazer nada. Assim como voc no pode fazer 
nada por ele. H um preo a se pagar pelos erros.
Malone no disse nada, mas estava meio enlouquecido de 
terror e angstia. Sem dvida os tiros tinham sido ouvidos e 
a polcia fora chamada. 
O israelense virou-se e desapareceu. 
Passos recuaram escada abaixo.
Pam parecia congelada, olhando incrdula para o cadver de 
Haddad, cuja boca ainda estava aberta num protesto final. Os 
dois trocaram olhares, mas no palavras. Malone quase podia 
entender o pensamento do israelense. Ele era, de fato, um 
assassino pago, empregado por um listado soberano, com 
autorizao para matar. Mas, mesmo assim, o filho-da-puta 
era um criminoso.
George Haddad estava morto.
E havia um preo a ser pago por isso tambm.
Pensamentos sombrios o arrastaram. Ele se abaixou e pegou 
a arma de Haddad, depois se levantou e foi em direo  
porta.
-        Fique aqui - disse a Pam.
-        O que voc vai fazer?
-        Matar o filho-da-puta.
         
Stephanie estava muito mais perplexa do que amedrontada 
com a viso de uma arma.
-        Aparentemente, Heather, as regras mudaram. Achei que 
ramos aliadas.
-        Isto  engraado nas relaes entre os Estados Unidos e 
Israel. s vezes  difcil dizer de que lado estamos.
-        E aparentemente vocs sentem uma certa liberdade desde 
que a Casa Branca ligou.
-         sempre bom quando os americanos esto em conflito.
-        Larry Daley quer Haddad para si mesmo. Voc sabe, no ? 
Isto  uma distrao para ocupar seu tempo enquanto nossos 
agentes o encontram.
- Boa sorte. S ns e Malone sabemos onde ele est. 
Stephanie no gostou do que ouviu. Isso precisava acabar. 
Desde que havia se sentado, os dedos de sua mo direita 
estavam pousados na perna, com as pontas em cima do 
controlador de rdio aninhado dentro da cala larga.
-        Isso depende de a espionagem americana ter ou no uma 
fonte dentro da sua organizao.
-        Esta operao  mantida muito fechada, por isso duvido 
que haja algum vazamento. Alm disso, Haddad 
provavelmente j est morto. Nossos agentes foram 
mandados h horas.
A mo esquerda de Stephanie foi na direo da arma 
enquanto a direita permanecia na perna.
-        Qual  o sentido desta demonstrao?
-        Infelizmente, voc se tornou um problema para o nosso 
governo.
-        Nossa, achei que minha demisso bastaria.
- No mais. Acredito que voc tenha sido alertada para ficar 
fora disso, mas mobilizou todo o Setor. Contrariamente, 
claro, s ordens que recebeu.
-        Larry Daley no me d ordens.
-        Mas o chefe dele d.
-        Stephanie percebeu rapidamente que, se agora ela era um 
alvo, Brent Green tambm podia ser. Porm a morte do 
procurador-geral implicaria problemas logsticos bem 
maiores do que a dela. Aparentemente, a Casa Branca havia 
concludo que os cadveres nunca apareciam nos noticirios 
das manhs de domingo. Seus dedos se prepararam para 
apertar o boto de pnico.
- Voc est aqui para fazer o trabalho sujo do Daley?
-        Digamos, apenas, que nossos interesses so semelhantes. 
Alm disso, gostamos quando a Casa Branca fica nos 
devendo.
-        Est planejando atirar em mim aqui?
-        No preciso. Tenho alguns colegas dispostos a isso.
-        Seu pessoal?
Ela balanou a cabea.
- Espantosamente, Stephanie, voc conseguiu fazer o que os 
polticos tentaram durante sculos. Os sauditas esto 
trabalhando conosco neste caso. Aparentemente, temos um 
objetivo comum, de modo que todas as diferenas foram 
postas de lado. - Dixon deu de ombros. - S desta vez.
- E isso tambm elimina o problema de Israel matar uma 
americana. Dixon franziu o rosto fingindo pensar.
-        Est vendo os benefcios? Ns encontramos o problema, 
eles o eliminam. Todo mundo ganha.
-        Menos eu.
-        Voc conhece as regras. Seu amigo de hoje pode ser seu 
inimigo de amanh, e vice-versa. Israel tem poucos amigos 
neste mundo, mas as ameaas vm de toda parte. Fazemos o 
que  preciso.
Stephanie havia encarado uma arma pela primeira vez 
enquanto procurava os Cavaleiros Templrios com Malone. 
Tambm havia testemunhado a morte na ocasio. 
Felizmente havia planejado tudo.
- Faa o que tiver de fazer.
Seu dedo indicador direito ativou o sinal que alertaria os 
agentes, a menos de um minuto de distncia, para virem. S 
precisava embromar.
Subitamente, os olhos de Heather Dixon viraram para o alto, 
depois se fecharam quando sua cabea tombou para a frente 
e seu corpo ficou frouxo.
A arma caiu na grama.
Stephanie segurou Dixon, que tombou em sua direo. 
Depois viu. Um dardo com penas se projetava do pescoo de 
Dixon. J vira um antes.
Calmamente, ela se virou.
Parada a pouco mais de um metro atrs do banco estava uma 
mulher. Alta, a pele da cor de um riacho lamacento, cabelo 
preto comprido. Usava um caro casaco de cashmere sobre 
jeans baixos, e toda a roupa justa enfatizava um corpo 
esguio, em forma. Segurava uma pistola de ar Magnum na 
mo esquerda.
- Agradeo o auxlio - disse Stephanie, tentando mascarar a 
surpresa.
- Foi para isso que vim. 
E Cassiopeia Vitt sorriu.
Malone desceu correndo a escada em direo ao trreo. No 
seria fcil matar Ado. Com os profissionais, nunca era.
Continuou descendo de dois em dois degraus e verificou o 
pente da arma. Restavam sete balas. Disse a si mesmo para 
ter cuidado. Sem dvida o israelense sabia que iria atrs dele. 
Na verdade, tinha solicitado o desafio, j que, antes de sair, 
no confiscara a arma de Haddad. Os profissionais nunca 
deixavam esse tipo de oportunidade. E a frase sobre cortesia 
profissional no fazia sentido. Os assassinos no se 
importavam nem um pouco com protocolo. Eram os 
faxineiros do servio de espionagem. Mandados 
exclusivamente para limpar a sujeira. As testemunhas faziam 
parte dessa sujeira. Assim, por que no limpar tudo? Talvez 
Ado quisesse um confronto. Matar um agente americano, 
aposentado ou no, tinha conseqncias. Mas se o agente 
atacasse primeiro, era outra coisa.
Afastou a confuso da mente enquanto chegava ao trreo. 
Seu indicador se aninhou no gatilho e ele se preparou para 
uma luta.
Sentimentos familiares retornaram. Sentimentos que, como 
ele aprendera alguns meses antes, simplesmente faziam 
parte de sua psique. Na Frana, ele fizera as pazes com esses 
demnios ao perceber que era um jogador e sempre seria, 
independentemente de ter se aposentado. Na vspera, na 
Kronborg Slot, Pam o havia censurado dizendo que ele 
precisava daquele barato - que ela e Gary nunca haviam 
bastado. Ele havia se ressentido do insulto porque no era 
verdade. Ele no precisava do barato, mas certamente podia 
enfrent-lo.
Saiu ao sol de outubro, que parecia forte depois da semi-
escurido do prdio, e desceu com calma a pequena escada 
da frente. Ado estava a 15 metros dali, caminhando pela 
calada.
Malone foi atrs.
Havia filas de carros estacionados dos dois lados da rua 
estreita. De avenidas movimentadas, nas duas extremidades 
do quarteiro, vinha o rugido contnuo do trfego. Algumas 
pessoas caminhavam pela calada oposta.
Falar seria perda de tempo.
Por isso levantou a arma.
Mas Ado virou-se.
Malone mergulhou na calada.
Uma bala passou zumbindo, ricocheteando num carro. Ele 
rolou e disparou na direo de Ado. O israelense tivera a 
esperteza de abandonar a calada, agora usando como 
cobertura os carros estacionados.
Malone rolou para a rua, entre dois carros.
Equilibrou-se nos joelhos e espiou atravs do pra-brisa, 
procurando o alvo. Ado estava entocado dez veculos 
adiante. Os pedestres na outra calada se espalharam.
Ento ele ouviu um gemido.
Virou-se e viu Pam cada na escada que levava ao prdio de 
George Haddad.
Seu brao esquerdo era uma massa de sangue.

VINTE E SEIS

WASHINGTON, D.C.

Stephanie ficou feliz de ver Cassiopeia Vitt. Na ltima vez 
em que havia trabalhado com a moura misteriosa, estavam 
nos Pirinus franceses, emboladas num dilema diferente.
- Deite-a e vamos sair daqui - disse Vitt.
Stephanie levantou-se do banco e permitiu que a cabea de 
Heather Dixon batesse nas ripas de madeira.
-        Isso vai deixar um galo feio - disse Vitt.
-        Como se eu me importasse. Ela estava prestes a me matar. 
Quer dizer por que voc est aqui?
-        Henrik achou que talvez voc precisasse de ajuda. Ele no 
gostou da sensao que lhe causaram os contatos em 
Washington. Eu estava nas imediaes, em Nova York, por 
isso ele perguntou se eu poderia ficar de olho em voc.
-        Como me achou?
-        No foi difcil.
-        Lembre-me de inclu-lo na minha lista de cartes de Natal. 
Cassiopeia sorriu.
-        Ele pode gostar disso. 
-        Stephanie indicou Dixon.
- Tremenda frustrao. Eu achava que ela era minha amiga.
-        No seu negcio, isso  meio difcil.
-        Cotton est numa tremenda encrenca.
-        Henrik acha a mesma coisa. Ele esperava que voc 
ajudasse.
-        No momento, sou um alvo.
-        O que nos leva ao nosso outro problema. 
Ela no gostou dessas palavras.
- A Sra. Dixon no veio sozinha. - Cassiopeia apontou para o 
Monumento a Washington. - Dois homens num carro 
naquela colina. E no parecem israelenses.
- So sauditas.
- Ora, isso  um tremendo feito. Como foi que voc 
conseguiu enfurecer todo mundo?
Dois homens vinham pela crista do morro, na direo delas.
- No tenho tempo de explicar. Vamos?
As duas foram rapidamente na direo oposta, 15 metros  
frente dos perseguidores, o que no significava nada, se eles 
decidissem atirar.
- Presumo que voc tenha planos para essa contingncia - 
disse Stephanie.
- No totalmente. Mas posso improvisar.
         
Malone esqueceu Ado e saiu de sua posio segura atrs do 
carro estacionado e foi at onde Pam estava sangrando. A 
poeira da rua se grudava na sua roupa. Ele se virou por um 
instante e captou um vislumbre do israelense correndo para 
longe.
-        Voc est bem? - perguntou a ela.
-        Di - disse Pam num sussurro estrangulado.
-        Deixe-me ver.
Ela balanou a cabea.
- Segurar... ajuda.
Malone comeou a afastar a mo dela. Os olhos de Pam se 
arregalaram de dor e raiva. 
- No.
- Preciso ver.
Ele no precisou dizer o que os dois estavam pensando. Por 
que ela no ficou l em cima?
Pam cedeu, retirou os dedos ensangentados, e Malone viu 
o que suspeitava. A bala havia meramente acertado de 
raspo. Um ferimento na carne. Qualquer coisa pior j 
estaria evidente. As pessoas que levam tiros entram em 
choque. O corpo se desliga.
- Foi s de raspo - disse ele.
A mo dela apertou de novo o ferimento.
-        Obrigada pelo diagnstico.
-        Tenho alguma experincia em levar 
tiros. Os olhos dela se suavizaram  
constatao.
-        Temos de ir - disse ele.
O rosto de Pam se franziu de dor.
-        Estou sangrando.
-        No h escolha. - E ajudou-a a ficar de p.
-        Droga, Cotton.
-        Sei que di. Mas se voc tivesse ficado l em cima como eu 
falei... 
Sirenes uivaram a distncia.
-        Temos de ir. Mas primeiro h mais uma coisa.
Ela pareceu recuperar a compostura, decidida a manter a 
calma e permanecer lcida, por isso ele a guiou para dentro 
do prdio.
- Continue apertando - disse, enquanto subiam a escada at 
o apartamento de Haddad. - O sangramento deve parar. No 
 to fundo assim.
As sirenes estavam chegando mais perto.
- O que estamos fazendo? - perguntou ela enquanto 
chegavam ao terceiro andar.
Ele se lembrou do que Haddad havia dito pouco antes dos 
tiros. Voc me ensinou muita coisa. Lembro-me de cada 
lio, e at alguns dias atrs eu as segui rigidamente. Mesmo 
aquelas sobre salvaguardar o que realmente importa. Quando 
havia escondido Haddad, ele ensinara o palestino a manter 
as coisas mais importantes prontas para ir embora a qualquer 
instante. Era hora de descobrir se Haddad havia falado srio.
Entraram no apartamento.
- V at a cozinha e arranje uma toalha - disse Malone - 
enquanto eu cuido disso.
Eles deviam ter uns dois ou trs minutos.
Ele correu at o quarto. O espao apertado no era muito 
maior que seu apartamento em Copenhague. Pilhas de livros 
e papis largados havia muito tempo se espalhavam pelo 
cho, a cama estava desfeita, as mesinhas-de-cabeceira e a 
penteadeira, atulhadas como mesas de brechs. Notou mais 
mapas nas paredes. Israel, no passado e no presente. No 
havia tempo para olhar.
Ajoelhou-se ao lado da cama e esperou que seus instintos 
estivessem certos.
Haddad havia ligado para o Oriente Mdio sabendo que 
aconteceria um confronto. Quando o conflito inevitvel 
chegou, no fugiu da luta; em vez disso, partiu para a 
ofensiva, sabendo que perderia. Mas o que seu amigo havia 
dito? Eu sabia que voc viria. Idiota desgraado. No 
houvera necessidade de Haddad se sacrificar. A culpa em 
relao ao homem que ele assassinara dcadas antes 
aparentemente havia girado na cabea do velho durante 
muito tempo.
Devo isso ao Guardio em quem atirei.  o pagamento da 
dvida.
Isso Malone podia entender.
Sondou debaixo da cama e sentiu alguma coisa. Segurou e 
puxou uma mochila de couro, abrindo as fivelas 
rapidamente. Dentro havia um livro, trs cadernos em 
espiral e quatro mapas dobrados. De todas as informaes 
espalhadas no apartamento, ele esperava que aquelas fossem 
as mais importantes.
Precisavam ir.
Voltou correndo ao escritrio. Pam saiu da cozinha com 
uma toalha apertando o brao.
- Cotton? - chamou ela.
Ele ouviu a pergunta na voz.
- Agora, no.
Com a mochila na mo, empurrou-a pela porta, mas no 
antes de pegar um xale no encosto de uma cadeira. 
Desceram rapidamente.
- Como est o sangramento? - perguntou enquanto 
chegavam  calada.
- Vou sobreviver. Cotton?
As sirenes estavam a menos de um quarteiro dali. Ele 
enrolou o xale nos ombros dela para esconder o ferimento. 
Andaram de modo casual.
- Mantenha a toalha no brao - disse ele.
A uns 30 metros, encontraram um bulevar, e mergulharam 
num mar de rostos desconhecidos, resistindo  tentao de 
apressar o passo. Ele olhou para trs.
Luzes piscantes apareceram na outra extremidade do 
quarteiro e pararam diante da casa de Haddad.
-        Cotton?
-        Eu sei. S vamos sair daqui.
Malone sabia o que ela queria. Quando haviam retornado ao 
apartamento, ele tambm tinha notado. No havia sangue na 
parede. Nem no cho. Nenhum fedor sufocante de morte.
E os corpos de Eva e George Haddad haviam sumido.

VINTE E SETE

VALE DO RENO, ALEMANHA 
17H15
         
Sabre olhou para os morros altos que envolviam a beira do 
rio. Margens ngremes e escarpadas seguiam dos dois lados 
da fenda estreita. Florestas de folhas efmeras abundavam, as 
laterais dos morros substitudas apenas por esparso mato 
verde e videiras magras. Durante quase setecentos anos, as 
elevaes maiores haviam sustentado florestas com nomes 
como Rheinstein, Sooneck e Pfalz. Rodeando a curva 
traioeira do Loreley, onde antigamente navios afundavam 
devido s rochas e corredeiras, muito acima da margem leste 
do rio, viu a fortificao redonda do Burg Katz. Mais adiante 
ficava Stolzenfels, com a cor castanha de seu calcrio de dois 
sculos pouco discernvel. A marca final de sua jornada 
apareceu alguns minutos depois. A silhueta inconfundvel 
de Marksburg.
Tinha deixado Rothenburg havia duas horas e seguido a 
auto-estrada em direo ao norte, mantendo constantes 150 
quilmetros por hora, reduzindo apenas nos arredores de 
Frankfurt, onde havia encontrado o incio do trnsito 
pesado do fim de tarde. De l, duas rotas serpenteavam para 
o norte at Colnia: a A60 e a que seguia o Reno pela N9, de 
duas pistas. Ele havia decidido que a primeira metade da 
viagem seria por aqui, ao longo do rio, mas o resto teria de 
ser pela auto-estrada. Por isso saiu lentamente do vale antigo 
e seguiu as placas azuis at a A60.
Uma rampa de entrada apareceu e ele acelerou entrando na 
auto-estrada. Acelerou o BMW alugado e se acomodou na 
pista mais  esquerda. Uma colcha de retalhos de colinas, 
florestas e pastos rolava de cada lado.
Olhou pelo retrovisor.
Continuava sendo seguido pelo Mercedes prateado.
A uma distncia respeitvel e protegido por trs carros, o 
Mercedes poderia facilmente ter passado despercebido. Mas 
Sabre estivera esperando, e eles no o desapontaram, 
seguindo-o desde que deixara Ro-thenburg. Imaginou se o 
corpo na Baumeisterhaus teria sido achado. Matar Jonah 
provavelmente havia economizado o trabalho dos israelen-
ses - a traio custava muito caro no Oriente Mdio -, mas 
os judeus tambm haviam perdido a oportunidade de 
interrogar um traidor, o que podia ter azedado o humor 
deles.
Sabre amava as superauto-estradas alems - trs pistas largas, 
poucas curvas, raras sadas. Perfeitas para velocidade e 
privacidade. Uma placa informou que Colnia ficava a 82 
quilmetros. Ele sabia de sua posio. Logo ao sul de 
Koblenz, 15 quilmetros a leste do Reno, com o rio Mosela 
se aproximando rapidamente.
Trocou de pista.
Mais atrs, depois do Mercedes, notou outros quatro 
veculos. Bem na hora.
Durante nove anos estivera procurando a Biblioteca de 
Alexandria, e tudo em nome do Cadeira Azul. O velho era 
obcecado por encontrar o que quer que houvesse l, e 
inicialmente Sabre achara a busca ridcula. Mas  medida que 
descobriu mais, passou a perceber que o objetivo no era to 
despropositado quanto pensara a princpio. Ultimamente 
comeara a pensar que talvez at houvesse algo a ser 
encontrado. Os israelenses certamente estavam interessados. 
Alfred Hermann parecia concentrado. Sabre descobrira 
muitas coisas. Agora era hora de usar esse conhecimento. 
Para si mesmo.
Meses antes havia sentido que esta poderia ser sua 
oportunidade. S poderia esperar que Cotton Malone fosse 
bom a ponto de evitar o que quer que os israelenses 
aprontassem para ele em Londres. Eles haviam se movido 
depressa. Sempre agiam assim. Mas, por tudo que Sabre sabia 
e pelo que havia testemunhado, Malone era um especialista, 
ainda que fora de forma. Deveria ser capaz de cuidar da 
situao.
O viaduto apareceu  frente.
Viu o primeiro dos quatro sedans passar pelo Mercedes 
prateado, trocar de pista e se posicionar abruptamente na 
frente.
Mais dois carros ficaram rapidamente paralelos ao Mercedes 
pela pista da esquerda.
Outro se grudou ao pra-choque.
Todos iam rapidamente para a ponte.
O vo se estendia por mais de 800 metros, com o rio Mosela 
serpenteando para o leste 120 metros abaixo. Na metade, 
exatamente como Sabre havia instrudo, o carro da frente 
freou e o Mercedes prateado reagiu, freando todo o possvel.
No momento em que isso aconteceu, os dois carros 
adjacentes bateram do lado do motorista e o carro de trs 
abalroou o pra-choque.
A combinao de golpes, junto com a velocidade, forou o 
Mercedes para a direita, contra a murada de proteo.
Num instante o carro voou.
Sabre imaginou o que estaria acontecendo.
O torque da acelerao foraria os ocupantes contra os 
bancos. Eles provavelmente tentariam soltar os cintos de 
segurana, mas jamais teriam essa chance. E, se tivessem, 
aonde iriam? A queda de 120 metros demoraria alguns 
segundos, e o choque do piso do carro batendo no rio seria 
como atingir concreto. Nada sobreviveria. A gua gelada 
penetrando na cabine mandaria rapidamente o carro para o 
fundo lamacento, onde a correnteza acabaria por arrast-lo 
para o leste, na direo do Reno que corria ainda mais 
rpido. Pronto.
Os quatro carros passaram e o motorista do veculo de trs 
acenou para ele. Sabre retribuiu o gesto. Aqueles homens 
tinham custado caro, j que o acordo fora de ltima hora, 
mas valeram cada euro.
Continuou acelerando para o norte em direo a Colnia.
Os israelenses demorariam alguns dias para determinar o que 
havia acontecido. Um problema estava morto em 
Rothenburg e a equipe de campo deles estava sumida. Sabre 
se perguntou se fora identificado. Provavelmente no. Se 
eles conheciam sua identidade, por que perder tempo 
tirando fotos? No. Ele ainda era uma mercadoria 
desconhecida.
A confuso reinava. Em Israel e, logo, na ustria.
Gostou daquilo.
Era hora de converter esse caos em ordem.

VINTE E OITO

WASHINGTON, D.C.
         
Stephanie se perguntou o que sua nova companheira havia 
planejado. Cassiopeia Vitt era inteligente, rica e ousada, uma 
mulher que podia se virar em situaes difceis. Essa no era 
uma combinao ruim. Desde que ela tivesse planejado 
tudo.
- Como vamos sair daqui? - perguntou enquanto desciam 
correndo pelo parque.
- Tem alguma idia?
Na verdade, Stephanie tinha, mas no disse.
-        Foi voc que apareceu do nada. 
Cassiopeia sorriu.
-        No precisa bancar a engraadinha.
- Estamos sendo arrebanhadas. Presumi que voc soubesse 
disso.
O Memorial de Lincoln ficava adiante, na extremidade oeste 
do parque. O Reflecting Pool bloqueava qualquer retirada 
para o sul. Ao norte, rvores altas ladeavam um bulevar 
movimentado.
-        Contrariamente ao que voc e Henrik acreditam - disse ela 
-no estou desamparada. Tenho dois agentes na Constitution 
Avenue. Tinha acabado de apertar o boto de pnico quando 
voc apareceu.
-        M notcia. Aqueles dois homens sumiram.
-        Como assim?
-        Logo depois de voc se sentar com Dixon. Eles foram 
embora. O parque terminava na base do Memorial de 
Lincoln. Ela olhou para trs. Os dois perseguidores haviam 
parado.
- Aparentemente, estamos onde eles querem.
Um txi veio rugindo na direo delas, vindo da 
Independence Avenue.
- J era hora - disse Cassiopeia, balanando um leno preto. 
O carro parou e elas pularam para dentro.
- Liguei h alguns minutos. - Cassiopeia bateu a porta traseira 
e disse ao motorista: - S ande por a. Vou dizer quando 
deve nos deixar.
O txi acelerou.
Stephanie enfiou a mo no bolso e encontrou o celular. 
Digitou o nmero dos agentes que havia posicionado como 
apoio. Dois homens que logo seriam demitidos.
- Quer dizer por que me deixaram aqui? - perguntou 
calmamente ao telefone.
-        Recebemos ordem de ir embora - respondeu o homem.
-        Eu sou sua chefe. Quem me contradisse?
-        O seu chefe. Incrvel.
-        Qual?
- O procurador-geral. O prprio Brent Green veio e disse 
para irmos embora.
         
Malone jogou a mochila de George Haddad na cama. Ele e 
Pam estavam num hotel no muito longe do Hyde Park, um 
local familiar que ele havia escolhido porque vivia cheio e 
porque, como tinha aprendido, no h melhor lugar para se 
esconder do que no meio de uma multido. Alm disso, 
gostava da farmcia ao lado. L comprou gaze, antisptico e 
curativos.
-        Tenho de cuidar desse brao - disse ele.
-        Como assim? Vamos achar um hospital.
-        Eu gostaria que fosse simples assim. 
Sentou-se ao lado dela.
-        Vai ser simples assim. Quero um mdico.
-        Se voc tivesse ficado l em cima como eu disse, nada teria 
acontecido.
-        Achei que voc precisava de ajuda. Voc ia matar aquele 
homem.
-        Voc no entende, Pam? No bastou ter visto o George 
morrer? Aqueles FDPs esto falando srio. Vo mat-la 
assim que a virem.
-        Eu fui ajudar - disse ela, baixinho.
E Malone viu nos olhos dela algo que no via desde muitos 
anos. Sinceridade. O que levantou um monte de perguntas 
que ele no queria fazer. E, tinha certeza, ela no queria 
responder.
-        Mdicos envolveriam polcia, e isso  um problema. - Ele 
respirou fundo algumas vezes. Estava desgastado pelo 
cansao e pela preocupao. - Pam, h um monte de 
envolvidos aqui. No foram os israelenses que pegaram o 
Gary...
-        Como voc sabe?
-        Pode chamar de instinto. Minhas entranhas dizem que eles 
no fizeram isso.
-        Sem dvida eles mataram o velho.
-        Motivo pelo qual eu o havia escondido.
-        Haddad ligou para eles, Cotton. Voc ouviu. Ele ligou, 
sabendo que eles viriam.
-        Ele estava cumprindo uma penitncia. Matar tem 
conseqncias. George encarou a dele hoje. - E o 
pensamento no amigo morto voltou com uma pontada 
renovada de arrependimento. - Preciso cuidar desse 
ferimento.
Tirou o xale dos ombros dela e notou que a toalha estava 
pegajosa de sangue.
-        Abriu de novo? 
-        Ela assentiu.
-        No caminho para c. 
-        Malone tirou a compressa.
-        O que quer que esteja acontecendo  complicado. George 
morreu por um motivo...
-        O corpo dele sumiu, Cotton. Junto com o da mulher.
-        Parece que os israelenses limparam a sujeira depressa. - Ele 
examinou cuidadosamente o brao e viu que o corte era 
mesmo superficial. - O que s prova o que estou dizendo. 
H diversos envolvidos. Pelo menos dois, talvez trs, 
possivelmente quatro. Israel no tem o hbito de matar 
agentes americanos. Mas as pessoas que assassinaram Lee 
Durant no parecem se importar.  quase como se 
estivessem procurando encrenca. E isso os israelenses nunca 
fazem.
Malone se levantou e entrou no banheiro. Quando voltou, 
abriu um vidro de anti-sptico e entregou uma toalha limpa 
a ela.
- Morda isto.
Um ar perplexo surgiu no rosto de Pam.
-        Por qu?
-        Preciso desinfetar o ferimento e no quero que ningum 
escute voc gritar.
Os olhos dela se arregalaram.
-        Esse negcio di?
-        Mais do que voc pode imaginar.

Stephanie desligou o celular. O prprio Brent Creen veio e 
disse para irmos embora. O choque enrijeceu sua coluna, 
mas dcadas no negcio de espionagem no permitiram que 
nada em suas feies demonstrasse a surpresa.
Encarou Cassiopeia do outro lado do banco.
-        Acho que, no momento, voc  a nica pessoa em quem 
posso confiar.
-        Voc parece desapontada.
-        No a conheo.
-        No  verdade. Na Frana voc me verificou.
Cassiopeia estava certa - ela fora investigada, e Stephanie 
ficara sabendo que a beldade morena havia nascido em 
Barcelona, 37 anos antes. Meio muulmana, mas no 
considerada devota, Cassiopeia possua diplomas em 
engenharia e histria medieval. Era a nica acionista e dona 
de um conglomerado multicontinental com sede em Paris, 
envolvido num amplo espectro de empreendimentos 
internacionais valendo vrios bilhes de dlares. Seu pai 
mouro havia fundado a empresa e ela herdara o controle, 
mas envolvia-se pouco com o funcionamento cotidiano. 
Alm disso, era presidente de uma fundao holandesa que 
trabalhava junto com as Naes Unidas na luta contra a Aids 
e a fome no mundo, em particular na frica. Stephanie 
sabia, por experincia prpria, que Vitt evitava pouca coisa e 
era capaz de usar um fuzil com a preciso de um atirador de 
elite. s vezes ousada demais para seu prprio bem, 
Cassiopeia tivera ligaes com o falecido marido de 
Stephanie e sabia mais sobre a vida pessoal de Stephanie do 
que esta gostaria que qualquer pessoa soubesse. Mas confiava 
na mulher. Sem qualquer dvida. Thorvaldsen havia 
escolhido com sabedoria ao mand-la.
-        Tenho um problema srio.
-        Isso j sabemos.
-        E Cotton est encrencado.  imperativo que eu faa 
contato com ele.
-        Henrik no teve notcias dele. Malone disse que ligaria 
quando estivesse pronto, e voc o conhece melhor que 
ningum.
-        E o Gary?
-         como o pai. Duro. Est em segurana com Henrik.
-        Onde est Pam?
-Voltando para a Gergia. Foi com Malone para Londres e 
viajaria a partir de l.
-        Os israelenses tambm esto em Londres. Um esquadro 
de assassinos.
-        Cotton  adulto. Pode cuidar disso. Temos de decidir o que 
fazer com o seu problema.
Stephanie tambm estivera pensando nessa questo. O 
prprio Brent Green veio e disse para irmos embora. O que 
poderia explicar por que a Polcia do Capitlio no havia 
aparecido. Em geral ela estava em toda parte. Olhou para 
fora do txi e viu que estavam perto do Dupont Circle e de 
seu hotel.
- Temos de garantir que no fomos seguidas.
-        O metr poderia ser um modo melhor de ir. 
Ela concordou.
-        Para onde vamos? - perguntou Cassiopeia.
Stephanie olhou para a pistola de ar enfiada sob o casaco de 
Cassiopeia.
-        Voc tem mais dardos que pem as pessoas para dormir?
-        Um monte.
-        Ento sei exatamente aonde precisamos ir.

VINTE E NOVE

LONDRES 
19H30
         
Malone ficou olhando Pam dormir. Estava afundado numa 
poltrona ao lado da janela do quarto do hotel. A mochila de 
George Haddad estava em seu colo. Ele estivera certo em 
relao ao anti-sptico: Pam havia mordido com fora a 
toalha enquanto ele o passava no ferimento. Lgrimas 
cresceram em seus olhos, mas ela havia sido forte. Nenhum 
som demonstrou sua agonia. Sentindo-se mal por causa dela, 
Malone lhe trouxera uma blusa nova da butique do saguo.
Ele tambm estava cansado, mas seus "nervos do Setor", 
como ele os chamava, forneciam energia interminvel aos 
msculos. Podia se lembrar de ocasies em que passava dias 
sem comer, o corpo carregado de adrenalina, o foco fixo em 
permanecer vivo e fazer o servio. Pensara que aquela 
empolgao era coisa do passado. Algo que nunca mais 
experimentaria.
E aqui estava.
No olho do furaco.
As ltimas horas poderiam ter sido um pesadelo horrendo, 
s que, de um jeito nada onrico, os acontecimentos se 
repassavam com clareza em sua mente. Seu amigo George 
Haddad fora morto bem diante de seus olhos. Pessoas com 
objetivos estavam atrs de alguma coisa. Nada disso seria de 
sua conta num outro momento. Mas algumas daquelas 
pessoas haviam seqestrado seu filho e explodido sua 
livraria. No. Isso era pessoal.
Malone devia a eles.
E, como Haddad, pretendia pagar as dvidas. 
Mas precisava saber mais.
Haddad fora enigmtico em seus comentrios tanto antes 
quanto depois do aparecimento dos israelenses. Pior ainda, 
no terminara de explicar o que havia notado anos antes - o 
que, exatamente, motivava Israel a mat-lo. Esperando que a 
mochila de couro em seu colo contivesse as respostas, 
desafivelou as correias e tirou um livro, trs cadernos e 
quatro mapas.
O livro era um volume do sculo XVIII, com capa de couro 
trabalhado e quebradia como pele seca ao sol. Nada do 
ttulo era legvel, por isso ele abriu cuidadosamente a capa e 
leu a folha de rosto.
Jornada de um heri, de Eusebius Hieronymus Sophronius.
Examinou as pginas.
Um romance escrito havia mais de duzentos anos, num 
estilo pouco imaginativo e pedante. Malone se perguntou 
sobre a importncia daquilo e torceu para que os cadernos 
explicassem.
Folheou cada um deles.
A letra apertada era de Haddad, escrita em ingls. Leu com 
ateno.

... As pistas que foram deixadas pelo Guardio se mostraram 
perturbadoras. A saga do heri  difcil. Acho que fui o 
idiota. Mas no o primeiro. Thomas Bainbridge tambm foi 
um homem tolo. Na ltima parte do sculo XVIII, ele 
aparentemente recebeu um convite para a biblioteca e 
completou a saga do heri. Uma condio para o convite 
deve ser que a visita fique em segredo. Os Guardies no 
passaram dois milnios protegendo seu tesouro s para que 
ele fosse revelado por um convidado. Mas Bainbridge violou 
a confiana e escreveu sobre sua experincia. Num esforo 
para aliviar a traio, fez sua narrativa em forma de fico 
intitulada, de modo pouco curioso, Jornada de um heri. 
O livro foi publicado em edio limitada e mal foi percebido. 
Na poca de Bainbridge, o mundo estava atulhado de 
narrativas fantsticas (romances que recebiam pouco 
respeito), assim, a jornada do protagonista a uma biblioteca 
mtica foi recebida com pouco entusiasmo. Encontrei um 
exemplar h trs anos, que roubei de uma propriedade em 
Gales. Sua leitura oferece poucas idias. Mas Bainbridge no 
pde resistir a uma ltima violao da confiana que lhe foi 
dedicada pelos Guardies. Nos anos anteriores  sua morte, 
ergueu um caramancho no jardim de sua manso em 
Oxfordshire. No mrmore gravou a imagem de uma pintura 
e letras romanas. A pintura, de Nicolas Poussin, era 
conhecida originalmente como A felicidade vencida pela 
morte, mas o nome, mas comum hoje em dia  Os pastores 
da Arcdia II.

Malone conhecia pouco sobre Poussin, mas j ouvira o 
nome. Felizmente, num dos cadernos, Haddad havia dado 
alguns detalhes.
Poussin era uma alma perturbada, parecida com Bainbridge. 
Nasceu na Normandia em 1594 e os primeiros trinta anos de 
sua vida foram de sofrimentos e atribulaes. Sofreu com a 
falta de patronos, com corteses que no apreciavam seu 
trabalho, sade ruim e dvidas. At mesmo o trabalho no 
teto da Grande Galeria do Louvre o deixou pouco inspirado. 
S quando trocou a Frana pela Itlia em 1642 aconteceu 
uma mudana. A viagem, que normalmente demoraria 
algumas semanas, custou a Poussin quase seis meses. Assim 
que chegou a Roma, comeou a pintar com novo estilo e 
confiana, um estilo que no passou despercebido e 
rapidamente lhe rendeu o rtulo do mais celebrado artista de 
Roma. Muitos especularam que, em algum ponto de sua 
viagem, Poussin ficou  par de um grande segredo. De modo 
interessante, quando Os pastores da Arcdia foi terminado, o 
patrono que havia encomendado o quadro, o cardeal 
Rospigliosi, mais tarde papa Clemente IX, optou por no 
expor a obra, mantendo-a em seu apartamento particular. 
Rospigliosi era um homem artstico, com interesse nas 
coisas ocultas e esotricas. Possua uma notvel biblioteca 
particular e, com o tempo, os historiadores o rotularam de "o 
papa livre-pensador".
Uma pista do que Poussin pode ter experimentado 
pessoalmente pode ser encontrada numa carta escrita seis 
anos depois de terminado Os pastores da Arcdia. O homem 
que a escreveu, um padre, irmo do ministro das finanas de 
Lus XIV, achava que o que ficara sabendo com Poussin 
poderia ser do interesse da monarquia francesa. Encontrei a 
carta h alguns anos, em meio aos arquivos da famlia Coss-
Brissac:

Ele e eu discutimos certas coisas, que com calma poderei 
explicar-lhe em detalhes - coisas que lhe daro, por 
intermdio do monsieur Poussin, vantagens que at mesmo 
reis teriam grande dificuldade para retirar dele, e que, 
segundo ele,  possvel que mais ningum descubra nos 
prximos sculos. E mais, essas so coisas to difceis de 
descobrir que nada atualmente nesta terra pode ser mais 
afortunado nem igual.

Tremenda declarao - e enigmtica, tambm. Mas o que 
Bainbridge ergueu em seu jardim  mais enigmtico ainda. 
Depois de terminar Os pastores da Arcdia, por algum 
motivo inexplicvel, Poussin pintou a imagem reversa do 
quadro no que foi rotulado de Os pastores da Arcdia II. Foz 
isso que Thomas Bainbridge escolheu para seu baixo-relevo 
em mrmore. No o original, mas a contrapartida. 
Bainbridge era inteligente, e durante duzentos anos seu 
monumento, cheio de simbolismos, ficou na obscuridade.

Malone continuou lendo, a mente perdida num labirinto de 
possibilidades. Infelizmente, Haddad no revelou muito 
mais. O resto das anotaes abordava o Velho Testamento, 
suas tradues e as incoerncias narrativas. Nenhuma 
palavra sobre o que Haddad poderia ter notado e que gerara 
tamanho interesse. Nem havia qualquer mensagem de um 
Guardio, nenhum detalhe de qualquer saga de heri, apenas 
uma rpida referncia no fim de um dos cadernos.

Na sala de estar da manso de Bainbridge h mais da 
arrogncia do proprietrio. O ttulo  mais particularmente 
reflexivo. A epifania de So Jernimo. Fascinante e 
adequado, j que grandes sagas geralmente comeam com 
uma epifania.

Era um pouco mais, mas mesmo assim restavam muitas 
perguntas sem respostas. E Malone havia aprendido que 
lutar com perguntas que no possuam respostas era o modo 
mais rpido de imobilizar o crebro.
- O que est lendo?
Ele levantou os olhos. Pam ainda estava deitada na cama, a 
cabea no travesseiro, os olhos abertos.
- O que George deixou.
Ela sentou-se lentamente, afastou o sono dos olhos e olhou 
o relgio.
-        Quanto tempo fiquei apagada?
-        Cerca de uma hora. Como est o brao?
-        Doendo.
-        Vai doer durante alguns dias. 
Ela esticou as pernas.
-        Quantas vezes voc levou tiros, Cotton? 
Trs? Ele assentiu.
-        No se pode esquecer de nenhum deles.
-        Nem eu. No sei se lembra, mas eu cuidei de voc. Tinha 
cuidado mesmo.
- Eu amava voc - disse ela. - Sei que pode no acreditar. 
Mas eu amava.
-        Deveria ter me contado sobre o Gary.
-        Voc me magoou com o que fez. Nunca entendi por que 
teve de me trair. Por que eu no bastava.
-        Eu era jovem. Idiota. Cheio de mim. Faz vinte anos, pelo 
amor de Deus. E depois disso me arrependi. Tentei ser um 
bom marido. Tentei mesmo.
- Quantas mulheres houve? Voc nunca disse. Ele no ia 
mentir.
- Quatro. Todas duraram apenas uma noite. - Agora ele 
queria saber. - E voc?
-        S um. Mas me encontrei com ele durante vrios meses. 
Aquilo doeu.
-        Voc o amava?
- Tanto quanto uma mulher casada pode amar algum que 
no  o marido.
Ele entendeu o argumento.
-        Gary resultou disso. - Ela parecia estar lutando com um 
ponto de interrogao que ficava retornando do passado. - 
Quando olho para o Gary, parte de mim fica com raiva do 
que eu fiz, que Deus me ajude, mas parte de mim agradece, 
tambm. Gary estava sempre presente. Voc ia e vinha.
-        Eu amava voc, Pam. Queria ser seu marido. Estava 
realmente arrependido do que havia feito.
-        Isso no bastou - murmurou ela, os olhos no cho. - Eu 
no sabia na poca, mas acabei percebendo que nunca 
bastaria. Por isso ficamos separados cinco anos antes de nos 
divorciarmos. Eu queria o nosso casamento, mas ao mesmo 
tempo no queria.
-        Voc me odiava tanto assim?
- No. Eu odiava a mim mesma, pelo que eu havia feito. 
Demorei anos para perceber isso. Oua quem sabe das 
coisas: uma pessoa que se odeia tem um problema enorme. 
Simplesmente no percebe isso.
-        Por que no me contou sobre o Gary quando tudo 
aconteceu?
-        Voc no merecia a verdade. Pelo menos era o que eu 
pensava. S no ltimo ano percebi o erro. Voc me traiu, eu 
tra voc, mas fiquei grvida. Voc est certo. Eu deveria ter 
contado h muito tempo. Mas isso  a maturidade falando e, 
como voc disse, ns dois ramos jovens e idiotas.
Ela ficou quieta. Ele no se intrometeu.
- Por isso fico com raiva de voc, Cotton. No posso me 
amaldioar. Mas tambm foi por isso que finalmente contei 
sobre o Gary. Voc sabe que eu no precisava dizer uma 
palavra e voc nunca saberia de nada, no ? Mas eu queria 
consertar. Queria fazer as pazes com voc...
-        E com voc mesma. 
Ela assentiu devagar.
-        Acima de tudo. - Sua voz ficou embargada.
-        Por que voc foi atrs de mim quando sa da casa do 
Haddad? Voc sabia que haveria um tiroteio.
-        Digamos que foi outro gesto idiota.
-        Mas ele sabia que no era isso. Estava na hora de dizer a 
verdade.
- Voc no pode voltar para Atlanta. Um homem a estava 
seguindo no aeroporto. Por isso voltei.
O rosto dela estava fixo num olhar pensativo.
-        Voc deveria ter me contado.
-        , deveria.
-        Por que algum me seguiria?
-        Esto se preparando para outra oportunidade. Talvez uma 
ponta solta que precise ser amarrada.
-        Malone viu que ela havia entendido.
-        Eles querem me matar? 
Malone deu de ombros.
-        No fao idia. Esse  o problema. Estamos tentando 
adivinhar.
Ela se deitou na cama, aparentemente cansada, dolorida e 
perplexa demais para discutir.
-        O que voc vai fazer? Haddad est morto. Os israelenses 
deveriam ir embora.
-        Isso nos d um campo aberto para descobrir o que George 
estava procurando. Aquela saga do heri. Ele deixou este 
material de propsito. Queria que fssemos l.
Ela acomodou a cabea no travesseiro.
-        No. Ele queria que voc fosse. 
Malone viu-a se encolher de dor.
-        Deixe eu arranjar um pouco de gelo para esse brao. Vai 
ajudar.
-        No vou discutir.
Ele se levantou, pegou o balde vazio e foi at a porta.
- Eu gostaria de saber por quais coisas vale a pena morrer - 
disse ela.
Malone parou.
- Voc ficaria surpresa ao ver como pode ser uma coisa 
pequena. -Acho que vou ligar para o Gary enquanto voc 
estiver fora. Quero ver se ele est bem.
-        Diga que sinto falta dele.
-        Ele est bem, l?
-        Henrik vai cuidar bem do garoto. No se preocupe.
-        Ento onde vamos comear a procurar?
Boa pergunta. Mas quando olhou para o contedo da 
mochila do outro lado do quarto, soube que s havia uma 
resposta.

TRINTA
LONDRES 
21H
         
Sabre olhou para a noite do outro lado da janela. Sua agente, 
que estivera esperando a chegada de Malone no aeroporto 
de Heathrow, havia seguido o ex-agente at esse 
apartamento, que ficava num slido quarteiro de 
construes com telhados triangulares que certamente 
abrigavam vidas organizadas, boa ordem e privacidade 
cuidadosa. Tipicamente ingls.
Sua agente tambm tinha ouvido tiros dentro do prdio e 
assistido a um tiroteio que ocorrera em seguida entre 
Malone e outro homem, e a ex-mulher de Malone fora 
acertada de raspo por uma bala. Em seguida, o atacante 
havia fugido, e Malone durante o qual a ex-mulher haviam 
retornado ao prdio, antes de sarem com uma mochila de 
couro.
Isso havia sido horas antes, e Sabre no tivera notcias da 
agente desde ento. Claro que ele estivera num vo de 
Colnia para Londres durante a maior parte desse tempo, 
mas mesmo assim ela j deveria ter informado alguma coisa.
Estava exausto mas energizado,  medida que seu objetivo se 
aproximava cada vez mais.
Havia conseguido entrar facilmente no apartamento de 
George Haddad, perguntando a si mesmo se Haddad estaria 
l, mas no havia ningum. Mapas cobriam as paredes. Com 
sua microlanterna, Sabre examinara aquele material variado, 
mas as localizaes - no Oriente Mdio - no eram 
surpreendentes. Muitos livros e pilhas de papis 
desorganizados tambm abordavam o assunto do dia.
A Biblioteca de Alexandria.
Durante uma hora havia examinado o material na plida 
penumbra da microlanterna. Pensou no destino de Haddad. 
O sujeito que Cotton Malone havia enfrentado na rua 
certamente era israelense. Em Rothenburg, Jonah tinha 
deixado claro que havia um esquadro de assassinos indo 
para Londres. Ser que Malone teria interrompido o trabalho 
deles? Ser que eles tinham terminado a tarefa? Ou ser que 
Haddad havia fugido e se escondido? Impossvel saber, j 
que sua agente, sensata, havia seguido Malone.
Nenhum sentimento de triunfo o dominou, ainda que ele 
tivesse conseguido localizar Haddad exatamente de acordo 
com o plano. S podia esperar que sua agente tivesse feito o 
trabalho igualmente bem.
Ele havia deixado para o final, mas o prximo objetivo era o 
computador. Assim, ligou a mquina e examinou a tela.
Apesar de toda a baguna no apartamento, Haddad parecia 
ser um meticuloso organizador eletrnico.
Sabre abriu alguns arquivos e olhou.
Haddad havia pesquisado a Biblioteca de Alexandria em 
grandes detalhes. Mas, de modo interessante, tambm havia 
estudado os Guardies. Alfred Hermann contara sobre eles a 
Sabre. Jonah preenchera algumas lacunas. Mas um dos 
arquivos de Haddad oferecia mais ainda.

... Suas origens so desconhecidas, perdidas devido ao 
absurdo de homens antigos que, sem impunidade, apagaram 
a memria humana.
No sculo II, o homem havia dominado as artes da guerra e 
da tortura. Em muitas partes do mundo imprios haviam 
sido formados, o que gerou leis e uma certa segurana. Mas 
nenhum desses conceitos protegeu as pessoas de suas 
prprias regras. A religio se formou e os sacerdotes se 
tornaram aliados voluntrios dos dspotas. O Egito foi um 
dos lugares onde aconteceu essa situao grotesca. Mas em 
algum ponto do sculo II, surgiu uma ordem religiosa 
egpcia que cultuava no o poder, mas sim a preservao do 
conhecimento.
Uma forma grosseira de vida monstica havia comeado, 
onde homens de mentes e objetivos parecidos se reuniam. 
Esses locais eram intencionalmente isolados e notoriamente 
evitados. Este grupo em particular teve sorte. Seus membros 
trabalhavam na Biblioteca de Alexandria como escriturrios 
e guardas. A partir desses postos de servio era possvel o 
acesso a tudo, e  medida que a raa humana prosperava e 
aprendia mais sobre como aniquilar uns aos outros, esse 
grupo se recolheu em si mesmo.
Originalmente apenas copiavam textos, mas com o tempo 
passaram a roubar. O simples acervo da biblioteca (vrias 
centenas de milhares de manuscritos) obrigava a decises, 
mas nos trezentos anos seguintes,  medida que a biblioteca 
ia perdendo a importncia para os poderosos, roubar textos 
ficou mais fcil, em particular porque no existiam inven-
trios precisos. Na poca da invaso muulmana no sculo 
VII, os Guardies possuam boa parte da Biblioteca de 
Alexandria. Foi ento que eles desapareceram, ressurgindo 
de tempos em tempos, oferecendo convites a alguns para se 
unirem a eles e aprenderem.

Sabre continuou lendo, imaginando como George Haddad 
havia conseguido obter essas informaes detalhadas. 
Aquele palestino parecia cheio de surpresas.
Um movimento no canto do olhar ps seus sentidos em 
alerta. As sombras se tornaram vivas. Uma forma escura se 
esgueirou para perto.
Suas mos saram do teclado. Infelizmente ele no portava 
uma arma. Virou-se, pronto para lutar.
Uma mulher se materializou na luz da tela do computador. 
Sua agente.
-        Esse tipo de idiotice pode deixar voc machucada - disse 
ele.
-        No estou no clima.
Sabre a empregava regularmente para ajudar em toda a 
Inglaterra. Ela possua ossos esguios e feies finas. Hoje, 
seu cabelo preto estava bem escovado e preso numa trana 
grossa.
-        Onde voc esteve? - perguntou ele.
-        Seguindo Malone. Eles esto num hotel perto do Hyde 
Park.
-        E Haddad?
Ela balanou a cabea.
- No sei. Fiquei com Malone. Ele se arriscou ao voltar aqui 
em cima, j que a polcia estava chegando, e foi embora com 
a tal mochila.
Sabre admirou os instintos dela.
-        Ainda precisamos achar o palestino.
-        Ele vai voltar, se j no estiver morto. Voc parece 
diferente.
Os caracis escuros e brilhantes e as roupas largas haviam 
sumido. Em vez disso, o cabelo estava curto, batido pelo 
vento, e de um castanho-claro. Sabre estava bem vestido, 
com jeans e uma camisa de algodo sob uma jaqueta de 
pano. Antes de sair da Alemanha, havia informado ao 
Cadeira Azul o que havia descoberto, depois feito a mudana 
fsica - tudo parte de seu plano cuidadosamente concebido, 
do qual Alfred Hermann sabia muito pouco.
- Voc aprova? - perguntou ele.
-        Gostava do outro jeito. 
Ele deu de ombros.
-        Talvez da prxima vez. O que est acontecendo?
- Pedi a uma pessoa para vigiar o hotel. Vai ligar se Malone 
fizer alguma coisa.
-        Nada mais sobre os israelenses?
-        O homem deles saiu correndo daqui.
Sabre olhou ao redor. Talvez fosse simplesmente esperar a 
volta de Haddad. Parecia o caminho mais fcil. 
Definitivamente precisava de tudo que estava no 
computador de Haddad, mas no queria levar a mquina. Era 
um trambolho. Uma cpia seria melhor, e ele notou um pen 
drive no meio do entulho. Pegou o aparelho e conectou 
numa porta USB vazia.
Verificou o drive. Vazio.
Alguns cliques do mouse, e ele havia copiado todos os 
arquivos do disco rgido.
Depois notou outra coisa, atrs do monitor. Uma minscula 
luz vermelha.
Olhou mais perto, em meio  confuso de papis, e viu um 
gravador de bolso sobre a mesa. Levantou-o e no notou 
diferena na cobertura de poeira que havia sobre a mesa. O 
que significava que o aparelho fora posto ali recentemente. 
A fita havia acabado, mas a energia continuava ligada.
Apertou o boto de rebobinar.
Sua agente ficou em silncio.
Apertou o PLAY.
Todo o encontro entre Malone, Haddad e, depois, os 
israelenses fora gravado. Ele ouviu, pasmo, o assassinato de 
Haddad. A ltima coisa que escutou foi a declarao de 
Cotton Malone de que pretendia matar o filho-da-puta.
Desligou o aparelho.
-        Haddad est morto? - perguntou a mulher. - Foi morto 
aqui? Por que no h uma cena de crime?
-        Presumo que os israelenses tenham feito uma limpeza 
antes da chegada da polcia.
-        E agora?
-        Temos Malone. Vejamos aonde ele nos leva.

TRINTA E UM

Malone saiu do quarto e andou pelo corredor. Antes havia 
notado uma mquina de gelo, o que era surpreendente. Mais 
e mais convenincias americanas pareciam estar invadindo 
os hotis europeus.
Sentia raiva de si mesmo por ter posto Pam em perigo. Mas 
que escolha tinha na ocasio? No poderia deix-la em 
Heathrow sendo seguida por um homem. E quem era? 
Estaria envolvido com os que haviam seqestrado Gary? 
Parecia lgico. Mas ele ainda sabia muito pouca coisa.
Os israelenses haviam reagido prontamente ao sinal de 
Haddad de que estava vivo. No entanto, Pam estava certa. 
Com Haddad morto, os interesses deles estavam protegidos, 
seu problema estava resolvido. Mesmo assim, Pam  que 
fora seguida. No ele.
Por qu?
Encontrou a mquina de gelo e descobriu que no estava 
funcionando. Ainda que o compressor fizesse barulho, no 
havia gelo dentro. Bem parecido com os Estados Unidos 
tambm, pensou.
Empurrou a porta da escada e desceu um andar.
Ali, a mquina estava cheia de gelo. Ficou parado num 
cubculo junto ao corredor e encheu o balde.
Ouviu a porta de um dos quartos se fechar com estrondo e, 
em seguida, vozes. Ainda estava pegando o gelo quando dois 
homens passaram pelo cubculo, falando empolgados. 
Virou-se para ir embora e viu o perfil de um dos homens, 
junto com o corpo magro e a pele queimada de sol. O sujeito 
de Heathrow.
Aqui, um andar abaixo de onde eles estavam hospedados. 
Recuou para o cubculo e espiou pela porta, vendo os dois 
homens entrarem no elevador. Subindo.
Correu para a escada e subiu aos saltos. Abriu a porta no 
instante em que o elevador soltava um pin e os homens 
saam.
Passou pela porta e espiou cuidadosamente o corredor. Viu 
um dos homens pegar uma bandeja usada de servio de 
quarto no tapete e equilibr-la na mo. O outro pegou um 
revlver de cano curto. Iam direto para o quarto onde Pam 
estava.
Malone xingou-se.
A arma de Haddad estava na mesa do quarto. Ele no a havia 
trazido. Isso  que era esperteza. Teria de improvisar.
Os homens pararam junto  porta. O que estava com a arma 
bateu, depois ficou de lado. O outro fingiu que era garom, 
com a bandeja equilibrada numa das mos.
Outra batida.
Talvez Pam ainda estivesse ao telefone com Gary. O que lhe 
daria o momento de que precisava.
- Servio de quarto - ouviu o homem dizer. Diferentemente 
dos hotis americanos, nos quais os olhos mgicos eram 
padro, os ingleses geralmente no os tinham, e este hotel 
no era exceo. Malone s podia esperar que Pam no fosse 
idiota o bastante para virar a maaneta.
- Tenho um pedido de comida para entregar - disse o 
homem em voz alta.
Pausa.
- Um cavalheiro fez o pedido.
Droga. Pam poderia acreditar que ele havia feito o pedido 
enquanto ela estava dormindo. Precisava agir. Levantou o 
balde de gelo para esconder o rosto e comeou a andar pelo 
corredor.
- A comida  para este quarto - estava explicando o sujeito. 
Ele ouviu a tranca sendo aberta.
Espiando ao redor do balde levantado, viu o homem armado 
not-lo. A arma foi escondida imediatamente. Malone usou 
esse instante de relaxamento e jogou o balde de gelo contra 
o rosto do homem armado, depois mandou o punho direito 
contra o queixo do que estava com a bandeja. Sentiu o osso 
estalar e o sujeito caiu no tapete, espalhando a bandeja e o 
contedo.
O do gelo se recuperou do choque inicial e estava 
levantando a arma quando Malone lhe deu dois socos na 
cabea e uma joelhada no peito.
O sujeito despencou e ficou imvel. A porta do quarto se 
abriu. Pam olhou para ele.
-        Por que voc ia abrir a porta? - perguntou ele.
-        Achei que voc tinha pedido comida. 
Ele pegou a arma e enfiou-a no cinto.
- E eu no teria lhe avisado? 
- Em seguida, revistou rapidamente os homens, mas no 
encontrou qualquer identificao.
-        Quem so eles? - perguntou Pam.
-        Este  o que estava seguindo voc no aeroporto.
Malone agarrou os braos do sujeito e o arrastou para o 
quarto. Depois segurou as pernas do outro e puxou-o para 
dentro.
-        Voc  uma mulher teimosa. - E chutou a porta, fechando-
a.
-        Eu estava com fome.
-        Como est o Gary?
-        Bem. Mas no consegui falar muita coisa.
Um dos homens comeou a gemer. Eles logo ficariam 
conscientes. Malone pegou a mochila de couro e a arma de 
Haddad.
- Vamos embora.
- Vamos?
- A no ser que voc queira estar por aqui quando eles 
acordarem. Malone viu que essa perspectiva no a agradava.
- Voc tem uma arma - lembrou ela.
- Que no quero usar. Isto aqui no  o velho oeste. Estamos 
num hotel, com pessoas. Ento vamos fazer o que  
inteligente e ir embora. H muitos hotis nesta cidade.
Ela pegou o xale e envolveu os ombros com cuidado. 
Deixaram o quarto e pegaram rapidamente o elevador. 
Embaixo, saram numa noite glida. Ele examinou os 
arredores e concluiu que seria difcil saber se estavam sendo 
seguidos. Simplesmente havia muita coisa para olhar. A 
estao de metr mais prxima ficava a dois quarteires dali, 
por isso foi naquela direo, decidido a permanecer alerta.
Sua mente borbulhava.
Como o homem de Heathrow os havia encontrado? Mais 
perturbador ainda: como o sujeito que fingia ser garom 
sabia que ele no estava no quarto?
Um cavalheiro fez o pedido.
Encarou Pam enquanto andavam.
- Voc disse ao sujeito do outro lado da porta que no tinha 
pedido nada?
Ela assentiu.
- Foi ento que ele disse que voc pediu.
O que no estava totalmente correto. Ele dissera que um 
cavalheiro tinha feito o pedido.
Mas mesmo assim. Estaria adivinhando? De jeito nenhum.

TRINTA E DOIS

WASHINGTON, D.C. 
21H

Stephanie guiou Cassiopeia pelo bairro silencioso. Nas 
ltimas horas, tinham ficado escondidas no subrbio. Ela 
dera um telefonema para a sede do Setor de um telefone 
pblico num restaurante Cracker Barrei e ficara sabendo que 
Malone no fizera contato. O mesmo no podia ser dito em 
relao  Casa Branca. Haviam ligado trs vezes do escritrio 
de Larry Daley. Ela havia dito a seus funcionrios que faria 
contato com ele na primeira oportunidade. Era uma coisa 
irritante, sabia. Mas que Daley ficasse imaginando que da 
prxima vez em que visse o rosto jovial de Stephanie, seria 
ao vivo pela CNN. Esse medo deveria bastar, por enquanto, 
para conter o subconselheiro de segurana nacional. Mas 
Heather Dixon e os israelenses eram outra histria.
- Aonde vamos? - perguntou Cassiopeia.
- Cuidar de um problema.
O bairro era cheio de arquitetura beaux arts que estivera na 
moda, percebeu ela, entre os industriais do sculo XIX que 
haviam residido primeiro naquelas avenidas arborizadas. As 
fileiras de casas coloniais e as caladas revestidas de pedra s 
faziam aumentar a sensao de riqueza no ar da noite.
- No sou uma de suas agentes - disse Cassiopeia. - Gosto de 
saber em que estou entrando.
- Pode ir embora quando quiser.
- Bela tentativa. No vai se livrar de mim to facilmente.
- Ento pare de fazer perguntas. Voc interroga o 
Thorvaldsen assim?
- Por que no gosta dele? Na Frana voc ficou discutindo o 
tempo todo com o sujeito.
- Olhe onde estou, Cassiopeia. Cotton est encrencado. Meu 
prprio pessoal me quer morta. Os israelenses e os sauditas 
esto atrs de mim. Voc acha que  sensato eu gostar de 
algum?
- Isso no  resposta  minha pergunta.
No, no era. Mas ela no podia verbalizar a verdade. Que 
por causa da ligao de Thorvaldsen com seu falecido 
esposo, ele passara a conhecer seus pontos fortes e fracos, e 
perto dele ela se sentia vulnervel.
- Digamos que ele e eu nos conhecemos bem demais.
- Henrik est preocupado com voc. Por isso pediu que eu 
viesse. Ele pressentiu encrenca.
- E agradeo por isso. Mas no significa que eu tenha de 
gostar dele.
Ela viu a casa, outra das muitas residncias simtricas de 
tijolos com relevos, um prtico de entrada e um teto de 
mansarda. S havia luzes acesas nas janelas do trreo. 
Examinou a rua.
Ainda silenciosa.
- Siga-me.
Alfred Hermann raramente dormia. Havia condicionado a 
mente, muito tempo antes, a funcionar com menos de trs 
horas de descanso.
No era velho o bastante para ter vivido pessoalmente a 
Segunda Guerra Mundial, mas guardava ntidas memrias de 
infncia dos nazistas desfilando nas ruas de Viena. Nas 
dcadas posteriores, havia lutado ativamente contra os 
soviticos e desafiado seus regimes-marionetes que haviam 
dominado a ustria. O dinheiro de Hermann datava dos 
Habsburgos e conseguira sobreviver a dois sculos de 
polticas volteis. Nos ltimos cinqenta anos, a fortuna da 
famlia havia decuplicado, e boa parte desse sucesso poderia 
ser ligado  Ordem do Velo de Ouro. Estar intimamente 
associado a um grupo to seleto de pessoas de todo o mundo 
trazia vantagens que seu pai e seu av jamais haviam 
desfrutado. Mas estar no comando... isso proporcionava 
benefcios ainda maiores.
Porm, seu mandato estava chegando ao fim.
Depois de sua morte, a filha herdaria tudo. E o pensamento 
no era reconfortante. Certo, ela era como ele em alguns 
pontos. Ousada e decidida, apreciava o passado e cobiava, 
com um entusiasmo semelhante ao dele, a mais preciosa 
mercadoria humana: o conhecimento. Mas permanecia sem 
polimento. Era uma obra inacabada. Uma obra que ele temia 
jamais ficar pronta.
Olhou para a filha que, como ele, dormia pouco. Havia lhe 
dado o nome de Margarete, o mesmo de sua me. Ela estava 
examinando a maquete da Biblioteca de Alexandria.
- Podemos encontr-la? - perguntou ela em voz baixa. Ele 
chegou mais perto.
- Acredito que Dominick esteja perto. Ela o avaliou com 
astutos olhos cinzentos.
- No se pode confiar em Sabre. No se pode confiar em 
nenhum americano.
Eles haviam tido essa discusso antes.
- No confio em ningum.
- Nem em mim?
Ele riu. Haviam tido essa discusso antes, tambm.
- Nem mesmo em voc.
- Sabre tem liberdade demais.
- Por que pegar no p dele? Ns lhe damos tarefas difceis. 
No  possvel fazer isso e esperar que ele trabalhe do jeito 
que ns quisermos.
- Ele  um problema, mesmo com a engenhosidade 
americana e coisa e tal. Voc simplesmente no sabe.
- Ele  um homem voluntarioso. Precisa de um objetivo. 
Ns lhe damos isso. Em troca, ele realiza nossos objetivos.
- Senti mais coisas nele ultimamente. Ele tenta mascarar a 
ambio, mas ela est ali. Voc s precisa ficar atento.
Hermann pensou em provoc-la.
- Ser que voc se sente atrada por ele? Ela zombou da 
pergunta.
- Isso nunca acontecer. Na verdade, vou demiti-lo assim 
que voc se for.
Hermann pensou na suposio dela, de que herdaria tudo.
- No h garantia de que voc ser o Cadeira Azul. Essa 
escolha  feita entre os diretores.
- Eu estarei no Crculo. Garanto. Da  um passo simples at 
onde voc est.
Mas Hermann no tinha tanta certeza. Sabia dos contatos 
dela com os outros quatro diretores. Na verdade, os havia 
encorajado, como um teste. Sua riqueza ultrapassava em 
muito a dos outros em idade, volume e amplitude. As 
instituies financeiras que ele controlava estavam 
tremendamente emaranhadas com outros scios, inclusive 
trs dos Cadeiras. Jamais algum deles ia querer que os outros 
soubessem dessa vulnerabilidade, e o preo do silncio de 
Hermann era a lealdade deles. Ele havia manipulado suas 
fraquezas durante dcadas, mas as tentativas da filha haviam 
sido dbeis. De modo que era necessria uma palavra de 
cautela.
- Assim que eu tiver morrido,  verdade, Dominick ter de 
lidar com voc, assim como voc com ele. Mas no seja to 
rpida. Voc pode descobrir que homens com ele, com 
pouca emoo, sem moral, de corao ousado, so valiosos.
Esperava que ela estivesse escutando, mas temia, como 
sempre, que seus ouvidos permanecessem filtrados. A me 
de Margarete havia morrido quando ela estava com 8 anos e, 
em sua juventude, a filha parecera um produto dele - da 
costela, como ela costumava dizer -, mas a idade no havia 
amadurecido aquelas promessas antigas. Sua educao 
comeara na Frana, continuara na Inglaterra e fora 
terminada na ustria, e sua experincia nos negcios 
crescera nas diretorias das vrias corporaes de Hermann.
Mas os relatrios no haviam sido encorajadores.
- O que voc faria se encontrasse a biblioteca? - perguntou 
ela. Hermann escondeu a diverso. Aparentemente, ela no 
queria mais falar de Sabre e de si mesma.
- Nem d para imaginar os grandes pensamentos que 
existem l.
- Ontem ouvi voc falando sobre isso. Diga mais.
- Ah, o mapa de Piri Reis, de 1513, encontrado em 
Istambul. Eu estava falando disso. No sabia que voc estava 
escutando.
- Sempre escuto.
Ele riu da observao. Os dois sabiam que no era assim.
- Eu estava dizendo ao chanceler que o mapa foi desenhado 
numa pele de gazela por um almirante turco que havia sido 
pirata. Cheio de detalhes incrveis. O litoral da Amrica do 
Sul est l, mas os navegadores europeus ainda no haviam 
mapeado aquela regio. O continente antrtico tambm  
mostrado, muito antes de ser coberto de gelo. S 
recentemente, usando radares de solo, pudemos determinar 
o contorno daquele litoral. Mas a representao de 1513  
to boa quanto a nossa. Na face do mapa, o cartgrafo 
anotou que usou mapas desenhados nos dias de Alexandre, 
senhor dos Dois Chifres. Pode imaginar? Talvez navegadores 
da antiguidade tenham visitado a Antrtida milhares de anos 
atrs, antes de o gelo se acumular, e registrado o que viram.
A mente de Hermann redemoinhou com o que mais 
poderia ter se perdido nos campos da matemtica, 
astronomia, geometria, meteorologia e medicina.
- O conhecimento no registrado  esquecido ou se torna 
turvo a ponto de no ser possvel reconhec-lo. Voc sabe 
sobre Demcrito? Ele concebeu a idia de que todas as 
coisas so feitas de um nmero finito de pequenas partculas. 
Hoje ns as chamamos de tomos, mas ele foi o primeiro a 
reconhecer sua existncia e a formular a teoria atmica. 
Escreveu setenta livros, sabemos disso a partir de outras 
referncias, mas nenhum sobreviveu. E sculos se passaram 
antes que outros homens, em outros tempos, pensassem a 
mesma coisa.
"No resta quase nada do que Pitgoras escreveu. Maneto 
registrou a histria do Egito. A obra desapareceu. Galeno, o 
grande mdico romano? Escreveu quinhentos tratados de 
medicina. Restam apenas fragmentos. Aristarco achava que 
o sol, e no a Terra, era o centro do universo. Mas 
Coprnico, que viveu setecentos anos depois,  o homem a 
quem a histria credita essa revelao.
Ele pensou em mais coisas. Eratstenes e Strabo, gegrafos. 
Arquimedes, fsico e matemtico. Zendoto e sua gramtica. 
Calmaco, o poeta. Tales, o primeiro filsofo.
Todas as idias deles se foram.
- Sempre foi assim - disse ele. - O conhecimento  a 
primeira coisa erradicada quando se obtm o poder. A 
histria provou isso repetidamente.
- Ento o que Israel teme?
Hermann sabia que ela acabaria chegando ao assunto.
- Talvez seja mais temor do que realidade - observou ela. - 
Mudar o mundo  difcil.
-        Mas pode ser feito. Os homens... - ele fez uma pausa -... 
e as mulheres fizeram isso durante sculos. E a violncia 
nem sempre provocou as mudanas mais monumentais. 
Freqentemente foram meras palavras. A Bblia mudou 
fundamentalmente a humanidade. O Alcoro tambm. A 
Carta Magna. A constituio americana. Bilhes de pessoas 
governam suas vidas segundo essas palavras. A sociedade foi 
alterada por elas. No so tanto as guerras, mas os tratados 
que vm em seguida, que realmente alteram o curso da 
histria. O plano Marshall mudou o mundo mais 
expressamente do que a Segunda Guerra Mundial em si. As 
palavras so, de fato, as verdadeiras armas de destruio em 
massa.
- Voc evitou minha pergunta - disse ela em tom 
brincalho, que o fez lembrar da esposa morta havia muito.
- O que Israel teme? - repetiu ele.
- Por que no me diz?
- Talvez eu no saiba.
- Duvido.
Ele pensou em lhe contar tudo. Mas no havia sobrevivido 
sendo idiota. A lngua solta fora a queda de muitos homens 
de sucesso.
- Digamos simplesmente que a verdade sempre  difcil de 
aceitar. Para as pessoas, para as culturas e at para as naes.
Stephanie foi na frente at o jardim dos fundos e ficou 
espantada por sua aparncia bem cuidada. Havia flores em 
abundncia. steres coloridas, campnulas, varas-de-ouro, 
amores-perfeitos e crisntemos. Um terrao formava uma 
pennsula, o piso de pedras repleto de mveis de ferro 
fundido e mais flores brotando em vasos decorativos.
Guiou Cassiopeia at o grosso tronco de um bordo alto, uma 
das trs rvores frondosas que havia no jardim.
Olhou o relgio: 21h43.
Ela as levara to longe devido a uma combinao de raiva e 
curiosidade, mas o passo seguinte era, irrefutavelmente, 
atravessar um limite.
- Esteja com a pistola preparada - sussurrou.
Cassiopeia enfiou um dardo no cano.
- Espero que voc note minha obedincia cega a essa 
idiotice. Stephanie pensou no prximo passo.
Invadir a casa certamente era uma opo. Cassiopeia possua 
as habilidades necessrias. Mas simplesmente bater  porta 
tambm funcionaria. Na verdade, ela gostava dessa 
abordagem. Mas o rumo foi determinado instantaneamente 
quando a porta dos fundos se abriu e uma forma preta 
caminhou para fora, em meio s pilastras esguias que 
sustentavam uma colunata estreita. O homem alto usava um 
roupo amarrado  cintura, os ps calados com chinelos 
que faziam barulho no terrao.
Ela sinalizou para a arma, depois para a forma. Cassiopeia 
apontou e atirou.
Um estalo suave, depois um chiado acompanhou o vo do 
dardo. A ponta encontrou o homem, que gritou enquanto a 
mo ia at o ombro. Ele pareceu mexer no dardo, depois 
ofegou e caiu. Stephanie correu at l.
- Esse negcio funciona rpido.
- A idia  essa. Quem  ele?
As duas olharam para o homem.
- Parabns. Voc acaba de atirar no procurador-geral dos 
Estados Unidos. Agora me ajude a arrast-lo para dentro de 
casa.

TRINTA E TRS

QUINTA-FEIRA, 6 DE OUTUBRO
LONDRES
3H15

Sabre examinou o laptop. Nas ltimas trs horas, estivera 
estudando o que havia baixado do computador de George 
Haddad. E estava pasmo.
As informaes certamente eram o que ele teria arrancado 
do prprio palestino, e sem o agravante de obrigar o rabe a 
falar. Aparentemente, Haddad passara anos pesquisando a 
Biblioteca de Alexandria, alm dos mticos Guardies, 
assimilando uma quantidade impressionante de dados.
Toda uma srie de artigos se referia a um conde ingls 
chamado Thomas Bainbridge, de quem ele ouvira Alfred 
Hermann falar. Segundo Haddad, no final do sculo XVIII, 
Bainbridge visitou a Biblioteca de Alexandria, depois 
escreveu um romance sobre a experincia que, de acordo 
com as anotaes, continha pistas para a localizao da 
biblioteca.
Ser que Haddad havia encontrado um exemplar?
Seria isso que Malone havia levado?
E havia a antiga propriedade de Bainbridge a oeste de 
Londres. Aparentemente, Haddad a visitara vrias vezes e 
acreditava que havia mais pistas l, em especial num 
caramancho de mrmore e em algo chamado A epifania de 
So Jernimo. Mas nenhum detalhe explicava o significado 
das duas coisas. E havia a saga do heri.
Uma hora antes, ele havia encontrado um relato do que 
acontecera cinco anos antes na casa de Haddad, na 
Cisjordnia. Ele havia lido as anotaes com interesse, e 
agora reorganizou os acontecimentos na mente, com a 
empolgao aumentada.
- Est dizendo que a biblioteca ainda existe? - perguntou 
Haddad ao Guardio.
- Ns a protegemos durante sculos. Salvamos o que se 
perderia devido  ignorncia e  cobia.
Hadad fez um gesto com o envelope que o visitante lhe 
havia entregado.
- Esta saga do heri mostra o caminho? 
O homem assentiu.
- Para os que entendem, o caminho ser bvio. 
 E se eu no entender?
- Ento nunca mais nos veremos. Ele pensou nas 
possibilidades e disse:
- Temo que o que desejo descobrir ficar melhor se 
permanecer escondido.
- Por que diz isso? O conhecimento jamais deveria ser 
temido. Conheo seu trabalho. Tambm estudo o Velho 
Testamento. Por isso fui escolhido como seu Guardio. - O 
rosto do sujeito se iluminou. - Temos fontes que o senhor 
nem pode imaginar. Textos originais. Correspondncias. 
Anlises. De homens do passado distante, que sabiam muito 
mais que o senhor ou eu. Meu domnio do hebraico antigo 
no est no seu nvel. Veja bem, para um Guardio, h 
nveis de progresso, e o nico modo de ascender  por meio 
da realizao. Como o senhor, sou fascinado pela 
interpretao crist do Velho Testamento, como ele foi 
manipulado. Quero aprender mais, e o senhor pode me 
ensinar.
- E aprender o ajudar a ascender?
- Provar sua teoria seria uma grande realizao para ns dois. 
Ento ele abriu o envelope.

Sabre rolou a imagem na tela at achar o contedo do 
envelope. Aparentemente, Haddad havia escaneado o 
documento. As palavras eram escritas em letra masculina, 
em ngulo inclinado, em latim. Por sorte, Haddad havia 
traduzido a mensagem. Sabre leu a saga do heri, o suposto 
caminho para a Biblioteca de Alexandria.

Como so estranhos os manuscritos, grande viajante do 
desconhecido. Eles aparecem separadamente, mas para os 
que sabem, parece que as cores do arco-ris se tornam uma 
nica luz branca. Como encontrar esse raio nico?  um 
mistrio, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belm, 
dedicada ao nosso santo padroeiro. Comece a viagem nas 
sombras e termine na luz, onde uma estrela que se retira 
encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte 
prata em ouro. Encontre o lugar que forma um endereo 
sem lugar, onde  encontrado outro lugar. Depois, como os 
pastores do pintor Poussin, perplexos com o enigma, voc 
ser inundado pela luz da inspirao. Junte de novo as 14 
pedras, depois trabalhe com esquadro e bssola para 
encontrar o caminho. Ao meio-dia, sinta a presena da luz 
vermelha, veja o rolo interminvel da serpente vermelha de 
raiva. Mas cuidado com as letras. O perigo ameaa quem 
chega com grande velocidade. Se seu caminho permanecer 
fiel, a rota ser segura.

Sabre balanou a cabea. Charadas. No eram seu ponto 
forte. E ele no tinha tempo para lutar com elas. Havia 
examinado cada arquivo do computador, mas Haddad no 
decifrara a mensagem.
E isso era um problema.
Ele no era historiador, lingista ou erudito bblico. Alfred 
Hermann era o suposto especialista, mas Sabre se perguntou 
o quanto o austraco realmente sabia. Os dois eram 
oportunistas, tentando aproveitar ao mximo uma situao 
nica.
Mas por motivos diferentes.
Hermann estava tentando forjar um legado, colocar sua 
marca na Ordem do Velo de Ouro. Talvez at aplainar a 
ascenso de Margaret ao poder. Deus sabia que ela precisava 
de ajuda. Sabre sabia que ela seria eliminada assim que 
Hermann morresse. Mas se ele pudesse se antecipar a ela, 
ficar um passo adiante, fora do alcance, poderia ter sucesso. 
Ele queria um passe direto para o topo, com todas as 
despesas pagas. Um assento  mesa. Barganhando o poder 
para se tornar scio integral da Ordem do Velo de Ouro. Se a 
biblioteca perdida de Alexandria contivesse o que Alfred 
Hermann lhe dissera que poderia conter, possu-la valeria 
mais do que qualquer fortuna familiar.
O celular tocou.
A tela de cristal lquido indicou que era sua agente. J estava 
na hora. Atendeu.
- Malone est em movimento - disse ela. - Cedo demais. O 
que voc quer que eu faa?
- Aonde ele foi?
- Pegou um nibus para a estao de Paddington, depois um 
trem para o oeste.
- Oxfordshire fica na linha?
- Passa direto l.
Aparentemente, Malone tambm estava curioso.
- Voc arranjou aquela ajuda extra que eu pedi?
- Eles esto aqui.
- Espere na estao de Paddington. Estou indo.
Ele desligou o telefone.
Hora de comear a prxima fase.

Stephanie jogou uma jarra de gua no rosto de Brent Green. 
As duas haviam arrastado seu corpo frouxo para a cozinha e 
o amarrado numa cadeira com uma fita adesiva que 
Cassiopeia achou numa gaveta. O procurador-geral 
estremeceu voltando  conscincia, sacudindo a cabea para 
tirar a umidade dos olhos.
- Dormiu bem? - perguntou ela.
Green ainda estava voltando a si, por isso ela o ajudou com 
outro jorro d'gua.
- J chega - disse Green, as plpebras totalmente abertas, o 
rosto e o roupo encharcados. - Presumo que haja um bom 
motivo para voc ter decidido violar tantas leis federais. - As 
palavras saram com a velocidade de melao e o tom de um 
animador de enterros, ambas as coisas normais para Green. 
Jamais ela o ouvira falar rpido ou alto.
- Diga voc, Brent. Para quem est trabalhando?
Green olhou para as fitas que prendiam seus pulsos e 
tornozelos.
- E eu achava que estvamos fazendo progresso no nosso 
relacionamento.
- Estvamos, at que voc me traiu.
- Stephanie, h anos me dizem que voc  uma bomba 
prestes a explodir, mas sempre admirei essa caracterstica. 
Porm, estou comeando a entender a reclamao dos 
outros.
Ela chegou perto.
- Eu no confiava em voc, mas voc enfrentou o Daley, e 
eu achei que talvez, apenas talvez, eu estivesse errada.
-Tem alguma idia do que aconteceria se meu pessoal da 
segurana viesse ver como estou? O que, por sinal, eles 
fazem toda noite.
- Bela tentativa. Voc os descartou h meses. Disse que no 
eram necessrios a no ser que o nvel de ameaa se 
elevasse, coisa que no est acontecendo neste momento.
- E como sabe que no apertei o boto de pnico antes de ir 
para o terrao?
Ela tirou do bolso o transmissor.
- Eu apertei o meu, Brent, l no parque, e sabe o que 
aconteceu? Absolutamente nada.
- Aqui pode ser diferente.
Ela sabia que Green, como todos os altos funcionrios 
administrativos, portava um boto de pnico. O aparelho 
informava instantaneamente sobre algum problema a uma 
equipe de segurana prxima ou ao centro de comando do 
Servio Secreto. Tambm podia servir como rastreador.
- Eu olhei suas mos - disse ela. - As duas estavam vazias. 
Estava ocupado demais tentando descobrir o que o acertou.
O rosto de Green se enrijeceu e ele olhou para Cassiopeia.
- Voc atirou em mim?
Ela fez uma reverncia graciosa.
- Ao seu dispor.
- Qual  a substncia qumica?
- Um agente de ao rpida que encontrei no Marrocos. 
Rpido, indolor e de ao curta.
- Posso atestar tudo isso. - Green virou-se de novo para 
Stephanie. - Esta deve ser Cassiopeia Vitt. Ela conhecia Lars, 
seu marido, antes de ele se matar.
- Como  que voc sabe disso? - Stephanie no havia 
contado a ningum deste lado do Atlntico o que havia 
acontecido. S Cassiopeia, Henrik Thorvaldsen e Malone 
sabiam.
- Pergunte o que veio perguntar - disse Green com deciso 
calma.
- Por que afastou meu pessoal de segurana? Voc me 
deixou de bunda de fora para os israelenses. Diga que fez 
isso.
- Fiz.
A admisso a surpreendeu. Ela estava acostumada demais a 
mentiras.
- Sabendo que os sauditas tentariam me matar?
- Eu sabia disso tambm.
A raiva cresceu por dentro e ela lutou contra a nsia de 
atacar, dizendo apenas:
- Estou esperando.
- Srta. Vitt - disse Green. - Est disponvel para ficar de olho 
nessa mulher at que tudo isso acabe?
- Por que se importa? - explodiu Stephanie. - Voc no  
meu guardio.
- Algum tem de ser. Ligar para Heather Dixon no foi 
inteligente. Voc no est raciocinando.
- E preciso de voc para me dizer isso?
- Olhe para si mesma. Aqui est voc, agredindo a principal 
autoridade mantenedora da lei nos Estados Unidos a partir 
de pouca ou nenhuma informao. Seus inimigos, por outro 
lado, tm acesso a uma abundncia de informaes que esto 
usando com vantagem integral.
- O que, diabos, voc est arengando? E no respondeu  
pergunta.
- Verdade. No respondi. Voc queria saber por que tirei 
seus seguranas. A resposta  simples. Me pediram, e eu fiz.
- Quem pediu?
Os olhos de Green a examinaram com a expresso inabalvel 
de um Buda.
- Henrik Thorvaldsen.


TRINTA E QUATRO

BAINBRIDGE HALL, INGLATERRA 
5H20

Malone admirou o caramancho de mrmore no jardim. 
Tinham pegado um trem em Londres e viajado 20 
quilmetros para o norte, depois entraram num txi na 
estao de trem na cidade prxima e foram para Bainbridge 
Hall. Ele havia lido todas as anotaes de Haddad que 
estavam na mochila e folheado o romance, tentando 
entender o que estava acontecendo, lembrando-se de tudo o 
que ele e Haddad haviam discutido no correr dos anos. Mas 
havia chegado  concluso de que o velho amigo havia 
levado as coisas mais importantes para a sepultura.
Acima se estendia um cu de veludo. Um frio vento 
noturno o enregelou. A grama bem aparada se estendia do 
jardim at um mar cor de estanho, com os arbustos 
formando ilhas de sombras. A gua danava numa fonte 
prxima. Ele havia se decidido por uma visita antes do 
amanhecer como o melhor modo de descobrir qualquer 
coisa e conseguira uma lanterna com o recepcionista do 
hotel.
O terreno no era cercado e, pelo que podia ver, no tinha 
alarmes. A casa em si, presumiu, seria outra coisa. Pelo que 
lera nas anotaes de Haddad, a propriedade era um 
pequeno museu, dentre as centenas pertencentes  coroa 
britnica. Vrias salas do trreo da manso estavam 
iluminadas, e ele viu, atravs das janelas sem cortinas, o que 
parecia ser uma equipe de limpeza.
Voltou a ateno de novo para o caramancho.
O vento farfalhou nas rvores e depois subiu para varrer as 
nuvens. O luar desapareceu, mas os olhos dele estavam 
totalmente acostumados  escurido fantasmagrica.
- Voc planeja me contar que negcio  esse? - perguntou 
Pam. Ela estivera num silncio pouco caracterstico durante 
toda a viagem.
Malone direcionou a luz para a imagem gravada no 
mrmore.
- Isto  de uma pintura chamada Os pastores da Arcdia II. 
Thomas Bainbridge teve um bocado de trabalho para fazer 
com que ela fosse esculpida.
E contou o que Haddad havia escrito sobre a imagem, depois 
usou o facho da lanterna para acompanhar as letras embaixo.

D  O.V.O.S.A.V.V.  M

- O que ele disse sobre isso? - perguntou Pam.
- Nem uma nica palavra. S que era uma mensagem e que 
h outras dentro da casa.
- O que certamente explica por que estamos aqui s 5 horas 
da manh.
Ele captou a irritao.
- No gosto de multides.
Pam aproximou o olhar do mrmore.
- Por que ser que ele separou o D e o M desse jeito?
Malone no fazia idia. Mas havia uma coisa que ele 
compreendia. A cena de Os pastores da Arcdia II mostrava 
uma mulher olhando, enquanto trs pastores se reuniam ao 
redor de um tmulo de pedra, cada um apontando para as 
letras gravadas. ET IN ARCADIA EGO. Ele sabia a traduo.
E na Arcdia eu.
Uma inscrio enigmtica que fazia pouco sentido. Mas eleja 
vira essas palavras. Na Frana. Contida num cdice do sculo 
XVI descrevendo o que os cavaleiros templrios haviam 
realizado em segredo nos meses anteriores  sua priso em 
massa em outubro de 1307.
Et in arcadia ego.
Um anagrama para I tego arcana dei. 
Eu escondo os segredos de Deus. 
Contou a Pam sobre a frase.
- Voc no pode estar falando srio - disse ela. 
Malone deu de ombros.
- S estou dizendo o que sei.
Precisavam explorar a casa. De uma distncia segura no 
jardim, em meio a cintures de altos cedros, ele examinou o 
trreo. Luzes se acendiam e apagavam enquanto o pessoal da 
limpeza trabalhava. As portas para o terrao dos fundos 
estavam abertas, apoiadas por cadeiras. Viu um homem sair 
carregando dois sacos de lixo, que jogou numa pilha, e 
depois desaparecer de novo l dentro.
Malone olhou o relgio. 5h40.
- Eles tero de terminar logo - disse. - Assim que sarem, 
devemos ter umas duas horas antes que algum chegue para 
trabalhar. Este lugar s abre s 10h. - Ele ficara sabendo 
disso numa placa no porto principal.
- No preciso dizer como isso  idiota.
- Voc sempre quis saber o que eu fazia para viver, e nunca 
pude contar. Altamente secreto e aquela baboseira toda. Est 
na hora de descobrir.
- Eu gostava mais quando no sabia.
- No acredito. Lembro como voc ficava chateada.
- Pelo menos eu no tinha nenhum ferimento de bala.
Ele sorriu.
- Seu rito de passagem. - Depois sinalizou para ela ir. - 
Primeiro as damas.

Sabre ficou olhando as formas sombreadas de Cotton 
Malone e sua ex-mulher fundindo-se com as rvores atrs da 
Bainbridge Hall. Malone viera direto a Oxfordshire. timo. 
Tudo se encaixava em sua curiosidade. Sua agente tambm 
fizera o servio direito. Havia contratado os trs homens 
extras que ele pedira e lhe entregado uma arma.
Respirou fundo algumas vezes e gostou do ar frio da noite, 
depois removeu a Sig Sauer do bolso da jaqueta.
Hora de se encontrar com Cotton Malone.
Malone se aproximou da porta dos fundos, que estava aberta, 
ficou de lado, abraando as sombras, e espiou para dentro.
O cmodo do outro lado era uma elegante sala ntima. Uma 
luz brilhante cascateava do teto abobadado, iluminando a 
moblia dourada e as paredes forradas de madeira, animadas 
por tapearias e pinturas. No havia ningum  vista, mas ele 
escutou o zumbido de uma enceradeira e o som de um rdio 
do outro lado dos arcos.
Fez um gesto e os dois entraram.
Ele no sabia nada sobre a geografia da casa, mas uma placa 
lhe disse que estava na Sala Apolo. Lembrou-se do que 
Haddad havia escrito. Na sala de estar da Bainbridge Hall h 
mais da arrogncia de Bainbridge. O ttulo  particularmente 
reflexivo. A epstola de So Jernimo. Fascinante e 
adequado, j que as grandes sagas costumam se iniciar com 
uma epifania.
Portanto, eles precisavam encontrar a sala de estar.
Levou Pam para uma das sadas que davam num saguo com 
as linhas majestosas de um transepto de catedral, arcos 
eloqentemente empilhados um sobre o outro. Interessante 
a mudana abrupta de estilo e arquitetura. Uma luz mais 
fraca suavizava as silhuetas dos mveis em sombras 
cinzentas. Num dos arcos ele viu um busto.
Esgueirou-se pelo piso de mrmore, tendo cuidado com as 
solas de borracha, e descobriu a figura de Thomas 
Bainbridge. O rosto de meia-idade era repleto de sulcos e 
curvas, o maxilar apertado, o nariz parecendo um bico, os 
olhos frios e meio franzidos. Pelo que lera nas anotaes de 
Haddad, Bainbridge aparentemente fora um homem culto 
em cincia e literatura, alm de colecionador - adquiria arte, 
livros e esculturas com avaliao calculada. Tambm fora um 
aventureiro, viajando  Arbia e ao Oriente Mdio numa 
poca em que os dois lugares eram to familiares para os 
ocidentais quanto a lua.
- Cotton - disse Pam em voz baixa.
Ele se virou. Ela havia ido at uma mesa onde havia 
brochuras empilhadas.
- A planta da casa.
Malone chegou perto e pegou uma. Rapidamente encontrou 
o rtulo SALA DE ESTAR. Orientou-se.
- Por ali.
A enceradeira e o rdio continuavam o duelo no andar de 
cima. Saram do saguo mal iluminado e seguiram 
serpenteando por amplos corredores at entrar num salo 
iluminado.
- Uau - disse Pam.
Ele tambm estava impressionado. O espao grandioso 
lembrava o vestbulo do palcio de um imperador romano. 
Outro contraste espantoso com o resto da casa.
- Este lugar parece o Epcot - disse ele. - Cada sala  de um 
tempo e de um pas diferente.
O brilho intenso de um lustre iluminava a escadaria de 
mrmore branco, em cujo centro corria uma passadeira 
marrom e felpuda. Os degraus subiam direto at um peristilo 
de colunas jnicas afiladas. As curvas e espirais da 
balaustrada de ferro preto ligavam as colunas de mrmore 
rosa. Nichos nos dois andares emolduravam bustos e esttuas 
como numa galeria de museu. Malone olhou para cima. O 
teto no ficaria deslocado dentro da catedral de St. Paul. 
Balanou a cabea.
Nada no exterior da manso sugeria tamanha opulncia.
- A sala de estar fica no alto daquela escada - disse ele.
- Parece que vamos encontrar a rainha.
Seguiram pela elegante passadeira escada acima. Uma porta 
dupla no topo se abria para uma sala escurecida. Ele apertou 
um interruptor e outro lustre, feito com presas de animais, 
se iluminou, mostrando um salo atulhado, usado e 
confortvel, as paredes cobertas de veludo cor de sopa de 
ervilha.
- No esperaria muito menos que isso - disse Malone -, 
depois daquela entrada.
Ele fechou a porta.
- O que estamos procurando? - perguntou Pam.
Malone examinou as pinturas nas paredes, na maioria 
retratos de figuras dos sculos XVI e XVII. Nenhuma que 
ele reconhecesse. Estantes de madeira de bordo se 
enfileiravam sob os retratos. Seu olhar de biblifilo notou 
rapidamente que os volumes eram incuos, s para 
decorao, sem qualquer valor histrico ou literrio. Bustos 
de bronze ficavam em cima das estantes. De novo, 
nenhuma imagem familiar.
- A epifania de So Jernimo - disse ele. - Talvez seja um 
daqueles retratos.
Pam circulou pela sala, examinando cada imagem. Contou-
as. Quatorze. A maioria era de mulheres, vestidas 
elaboradamente, ou de homens adornados com perucas e 
mantos fartos, comuns trezentos anos antes. Dois sofs e 
quatro poltronas formavam um U diante de uma lareira de 
pedra. Malone imaginou que era ali que Thomas Bainbridge 
devia passar um bocado de tempo.
- Nenhum desses tem nada a ver com So Jernimo - disse 
Pam. Ele estava perplexo.
- George disse que estava aqui.
- Podia estar. Mas no est mais.





TRINTA E CINCO

WASHINGTON, D.C.

Stephanie olhou para Brent Green e sua expresso 
impassvel deu lugar a um ar de perplexidade.
- Thorvaldsen disse para retirar meu pessoal de apoio? Como 
voc conhece o sujeito?
- Conheo muita gente. - Brent indicou as fitas que o 
prendiam. - Se bem que, no momento, estou  sua merc.
- Tirar a proteo foi idiotice - disse Cassiopeia. - E se eu no 
estivesse l?
- Henrik disse que voc estava e que podia cuidar da 
situao. Stephanie se esforou para controlar a fria.
- O rabo era meu.
- E voc o colocou na reta, feito uma imbecil.
- Eu no tinha idia de que Dixon ia me atacar.
- Exatamente o que quero dizer. Voc no est pensando. - 
De novo Green indicou as amarras com a cabea. - Este  
outro exemplo de idiotice. Contrariamente ao que voc 
possa pensar, uma equipe de segurana vai chegar aqui em 
pouco tempo. Ela sempre vem. Eu posso gostar de 
privacidade, mas, diferentemente de voc, no sou 
imprudente.
- O que voc est fazendo? Por que est metido nisso? Est 
trabalhando com Daley? Aquele negcio todo entre vocs 
dois hoje cedo foi s um show de circo para me embromar?
- No tenho tempo nem pacincia para shows de circo. 
Stephanie no ficou impressionada.
- J estou cheia de mentiras. O filho de Malone foi 
seqestrado por minha causa. Cotton est em Londres agora 
mesmo, com um esquadro israelense de assassinos. No 
consigo encontr-lo, de modo que no posso alert-lo. A 
vida de George Haddad pode estar correndo risco. Ento 
fico sabendo que meu chefe me deixou de bunda ao vento, 
sabendo que os sauditas querem me matar? O que eu deveria 
pensar?
- Que seu amigo, Henrik Thorvaldsen, se preocupou a ponto 
de mandar ajuda. Que seu outro amigo, eu, decidiu que a 
ajudante precisava trabalhar sozinha. Que tal? Faz sentido?
Ela pensou nas palavras.
- E outra coisa - disse Green. Ela o encarou, irritada.
- Este amigo se preocupa particularmente com o que 
acontece com voc.

Malone estava aborrecido. Viera  Bainbridge Hall com a 
esperana de encontrar respostas. As anotaes de Haddad 
lhe haviam apontado diretamente para ali. E, no entanto, 
nada.
- Talvez haja outra sala de estar, no? - disse Pam.
Mas ele verificou a brochura e viu que esse era o nico 
espao que tinha esse nome. O que estaria deixando de ver? 
Ento notou uma coisa. Adjacente  alcova de uma das 
janelas, onde elaborados painis de vitral esperavam o sol da 
manh, um trecho da parede brilhava nu. Retratos enchiam 
todos os outros espaos disponveis. Mas ali no. E a leve 
silhueta de um retngulo aparecia clara na cobertura da 
parede.
Ele correu at l.
- Um dos quadros sumiu.
- Cotton, no estou tentando ser difcil, mas essa pode ter 
sido uma busca infrutfera.
Ele balanou a cabea.
- George queria que vissemos aqui.
Ele andou pela sala, pensando, e percebeu que no poderiam 
se demorar. Algum da equipe de limpeza poderia vir 
naquela direo. Mesmo estando com as armas de Haddad e 
do perseguidor do aeroporto, ele no queria usar nenhuma 
das duas.
Pam estava examinando as mesas atrs dos dois sofs. Livros 
e revistas se empilhavam decorativamente em meio a 
esculturas e vasos de plantas. Estava examinando um dos 
pequenos bronzes - um homem idoso, a pele envelhecida, o 
corpo musculoso, usando um pano amarrado  cintura. A 
figura estava sobre uma pedra, o rosto barbudo concentrado 
num livro.
- Voc precisa ver isto - disse ela.
Ele se aproximou e viu o que estava gravado na base da 
esttua.

SO JERNIMO
DOUTOR DA IGREJA

Ele estivera to ocupado tentando encontrar peas 
complicadas que o bvio havia lhe escapado. Pam indicou 
um livro embaixo da escultura.
- A epifania de So Jernimo - disse ela. Ele examinou a 
lombada.
- Que olho bom. Ela sorriu.
- Posso ser til.
Ele segurou o bronze pesado e o levantou.
- Ento seja til e pegue o livro.
Stephanie no tinha certeza de como entender a observao 
de Brent Green.
- Como assim? Este amigo em particular?
-  meio difcil falar disso no momento.
E ela viu algo curioso nos olhos de Green. Ansiedade. 
Durante cinco anos, ele fora o buldogue da administrao 
em muitas batalhas com o Congresso, a imprensa e grupos 
de interesses especiais. Era um profissional consumado. Um 
advogado que defendia a administrao num palco nacional. 
Mas tambm era profundamente religioso e, que ela 
soubesse, jamais sequer uma sugesto de escndalo fora 
ligada a seu nome.
- Digamos - disse Green num meio sussurro - que eu no 
gostaria que os sauditas matassem voc.
- Para mim, isso no  um grande conforto neste momento.
- E a equipe de segurana dele? - perguntou Cassiopeia. - 
Tenho a sensao de que ele no est blefando nesse 
sentido.
- Verifique a frente e fique de olho na rua - disse ela, 
deixando claro, pelo olhar, que queria um momento a ss 
com Green.
Cassiopeia saiu da cozinha.
- Certo, Brent. O que voc tem a dizer que no podia falar 
na frente dela?
- Quantos anos voc tem, Stephanie, 61?
- No falo minha idade.
- Seu marido est morto h 12 anos. Isso deve ser difcil. Eu 
nunca me casei, de modo que no sei como  perder um 
cnjuge.
- No  fcil. O que isso tem a ver?
- Sei que voc e Lars estavam afastados quando ele morreu. 
Est na hora de voc comear a confiar em algum.
- Nossa, vou lhe dizer uma coisa. Vou marcar entrevistas, e 
todo mundo, inclusive os que esto tentando me matar, ter 
a chance de me convencer que  digno de confiana.
- Henrik no est tentando matar voc. Cassiopeia no est. 
Cotton Malone no est. - Ele fez uma pausa. - Eu no estou.
- Voc mandou minha equipe de apoio embora, sabendo 
que eu estava encrencada.
- E o que aconteceria se eu no tivesse mandado? Seus dois 
agentes teriam aparecido bruscamente, aconteceria um 
tiroteio, e o que seria resolvido?
- Eu teria Heather Dixon sob custdia.
- E de manh ela estaria solta, depois que o secretrio de 
Estado e provavelmente o prprio presidente interferissem. 
Ento voc seria demitida e os sauditas iriam mat-la quando 
quisessem. E sabe por qu? Porque ningum se importaria.
As palavras dele faziam sentido. Desgraado.
- Voc agiu depressa demais e no pensou direito. - Os olhos 
de Green haviam se suavizado, e ela viu outra coisa que 
nunca tinha visto antes.
Preocupao.
- Mais cedo eu ofereci ajuda. Voc recusou. Agora vou dizer 
o que voc no sabe. O que no contei na hora.
Ela esperou.
- Eu deixei que o dossi sobre o Elo de Alexandria fosse 
violado.

Malone abriu o livro sobre So Jernimo, um volume fino, 
com apenas 73 folhas amareladas, com data de publicao 
de 1845. Folheou e absorveu alguns detalhes.
Jernimo viveu de 342 a 420 d.C. Era fluente em latim e 
grego e, na juventude, fez pouco esforo para conter seus 
instintos amantes do prazer. Batizado pelo papa em 360, 
dedicou-se a Deus. Nos sessenta anos seguintes, viajou, 
escreveu tratados, defendeu a f e tornou-se pai 
reconhecido da religio crist. Traduziu o Novo Testamento 
pela primeira vez nessa poca, perto do fim de sua vida, 
traduziu o Antigo diretamente do hebraico para o latim, 
criando a Vulgata Latina, que o Conclio de Trento, 1.100 
anos mais tarde, proclamou como sendo o texto autorizado 
da Igreja catlica.
Trs palavras atraram o olhar de Malone.
Eusebius Hieronimus Sophronius.
O nome de nascimento de Jernimo.
Pensou no romance que estava na mochila de couro. A 
jornada de um heri, de Eusebius Hieronimus Sophronius.
Aparentemente, Thomas Bainbridge havia escolhido com 
grande cuidado seu pseudnimo.
- Alguma coisa? - perguntou Pam.
-Tudo. - Mas a empolgao dele enfraqueceu, substituda 
pelo frio de uma percepo desagradvel. - Precisamos sair 
daqui.
Correu at a porta, apagou as luzes e abriu-a. O salo de 
mrmore estava silencioso. O rdio continuava a tocar em 
algum cmodo distante, agora narrando algum tipo de 
esporte, com a multido e o comentarista fazendo barulho. 
A enceradeira estava silenciosa.
Levou Pam at o topo da escada.
Trs homens entraram rapidamente no salo embaixo, com 
armas na mo.
Um levantou a dele e atirou. Malone empurrou Pam no 
cho.
A bala ricocheteou na pedra. Ele rolou com Pam para trs de 
uma coluna e viu-a fazer uma careta de dor.
- Meu brao - disse ela.
Mais trs balas tentaram encontr-los atravs do mrmore. 
Malone pegou a automtica de Haddad e se preparou. At 
agora, nenhum tiro fora acompanhado por um som alto - 
apenas estalos, como travesseiros sendo afofados. 
Silenciadores. Pelo menos ele estava no lugar mais alto. De 
seu ponto de vista, percebeu dois atiradores avanando para 
o lado direito do piso inferior enquanto o outro permanecia 
 esquerda. No podia deixar que os dois assumissem aquela 
posio - eles poderiam atirar ao redor da coluna - por isso 
disparou.
A bala errou, mas sua proximidade fez com que os atacantes 
hesitassem, o bastante para Malone ajustar a mira e acertar o 
homem da frente, que gritou e caiu no cho. O outro saltou 
em busca de cobertura, mas Malone conseguiu dar mais um 
tiro, que fez o perseguidor correr de volta para a entrada do 
salo. O sangue escorria do homem cado, formando um 
lago vermelho-vivo no mrmore branco.
Mais tiros vieram na direo deles. O ar fedia a plvora.
Restavam cinco balas na arma de Haddad, mas Malone ainda 
estava com a que havia tirado do sujeito do aeroporto. 
Talvez mais cinco tiros. Registrou o medo nos olhos de Pam, 
mas, considerando tudo, ela continuava calma.
Pensou em recuar para a sala de estar. A porta dupla, se ele 
fizesse uma barricada de mveis, poderia lhes garantir alguns 
minutos para escapar por uma janela. Mas estavam no 
segundo andar, o que certamente implicaria mais obstculos. 
Mesmo assim, esse poderia ser o nico plano, a no ser que 
os homens l embaixo quisessem se expor e lhe garantir uma 
linha de tiro limpa.
O que no era provvel.
Um dos homens foi at a base da escada. O outro cobriu seu 
avano com quatro tiros que ricochetearam na parede atrs 
de Malone e Pam. Malone precisava economizar munio e 
no podia atirar at que achasse que valia a pena.
Ento percebeu o que eles estavam fazendo.
Para que ele disparasse contra um, teria de se expor ao outro 
na borda da coluna. Por isso fez o inesperado, ignorando o 
lado esquerdo e se enrolando em volta do direito, acertando 
uma bala na passadeira vermelha  frente do sujeito que 
avanava.
O homem saltou da escada e procurou cobertura.
Pam levou a mo ao brao e Malone viu sangue. O 
ferimento havia se aberto de novo. Muitos movimentos 
bruscos. Os olhos azuis dela o encaravam de volta, cheios de 
medo.
Dois tiros ressoaram no salo.
Sem silenciador. De alto calibre.
Depois, silncio.
- Ol - gritou uma voz de homem.
Malone olhou ao redor da coluna. Abaixo estava um homem 
alto, com cabelo louro-claro. Tinha testa alta, nariz curto e 
queixo redondo. Era atarracado e vestia jeans e uma camisa 
de algodo sob uma jaqueta de couro.
- Parecia que voc precisava de ajuda - disse o homem, com 
a arma do lado direito do corpo.
Os dois atacantes estavam no cho, o sangue escorrendo no 
mrmore. Aparentemente, o sujeito era bom atirador, 
tambm. Malone recuou de novo para trs da coluna.
- Quem  voc?
- Um amigo.
- Desculpe se sou ctico.
- Eu no o culparia. Fique a e espere a polcia. Voc pode 
explicar esses trs cadveres. - Malone ouviu passos 
recuando. - E, por sinal, de nada.
Algo lhe ocorreu.
- E a equipe de limpeza? Por que no est correndo para c? 
Os passos pararam.
- Esto inconscientes, l em cima.
- Voc fez isso?
- Eu no.
- Qual  o seu interesse?
- O mesmo de muitos que vieram aqui no meio da noite. 
Estou procurando a Biblioteca de Alexandria.
Malone no disse nada.
- Vou lhe contar uma coisa. Estou hospedado no Savoy, 
quarto 453. Tenho informaes que duvido que voc 
possua, e voc pode ter algumas que no conheo. Se quiser 
conversar, venha me ver. Se no, provavelmente vamos nos 
encontrar de novo pelo caminho. A escolha  sua. Mas 
juntos talvez possamos acelerar o processo. Voc  que sabe.
Saltos de sapatos ecoaram no piso, com passo firme, 
afastando-se pela casa.
- Que diabo foi aquilo? - perguntou Pam.
- O modo de ele se apresentar?
- Ele matou dois homens.
- E agradeo por isso.
- Cotton, temos de sair daqui.
- Nem diga. Mas, primeiro, precisamos saber quem so 
aqueles homens.
Malone saiu de trs da coluna e desceu correndo a escada de 
mrmore. Pam foi atrs. Ele revistou os trs corpos, mas no 
encontrou nenhuma identificao.
- Pegue as armas - disse, enfiando no bolso seis pentes extras 
apanhados nos corpos. - Esses caras vieram preparados para 
uma luta.
- Na verdade, estou me acostumando a ver sangue.
- Eu disse que ia ficar mais fcil.
Malone pensou mais no sujeito. Savoy. Quarto 453. O modo 
como tinha dito pode confiar em mim. Pam ainda estava 
segurando o livro sobre So Jernimo e ele levava a mochila 
de couro tirada do apartamento de Haddad.
Pam virou-se para ir embora.
- Aonde voc vai? - perguntou ele.
- Estou com fome. Imagino que o Savoy tenha um caf-da-
manh excelente.
Ele riu.
Ela entendia rpido.
TRINTA E SEIS

WASHINGTON, D.C.

Stephanie no tinha certeza se conseguia agentar muito 
mais. Seu olhar se grudou em Brent Green.
- Explique-se.
- Ns permitimos que os arquivos fossem violados. H um 
traidor, e ns o queremos.
- Ns quem?
- O Departamento de Justia.  uma investigao altamente 
secreta. S eu e dois outros sabemos. So meus dois 
assessores mais prximos, e eu colocaria minha vida nas 
mos deles.
- Os mentirosos no dariam a mnima para a sua f.
- Concordo. Mas o vazamento no est na Justia.  mais 
alto. Fora do departamento. Ns jogamos uma isca, e ela foi 
mordida.
Stephanie no podia acreditar no que estava escutando.
- E, no processo, vocs arriscaram a vida de Gary Malone.
- Ningum poderia ter previsto isso. No tnhamos idia de 
que algum, alm dos israelenses e dos sauditas, dava a 
mnima para George Haddad. O vazamento que estamos 
tentando fechar leva direto a eles, e a mais nenhum lugar.
- Que voc saiba. - Os pensamentos dela se inundaram com 
a Ordem do Velo de Ouro.
- Se eu tivesse qualquer pista de que a famlia de Malone 
estava em perigo, nunca teria permitido essa ttica.
Ela queria acreditar.
- Na verdade, achamos que o paradeiro de Haddad era uma 
informao relativamente inofensiva. Permitir que os 
israelenses soubessem que Haddad estava vivo no pareceu 
to arriscado, em especial porque no havia nada no dossi 
que indicasse onde ele estava escondido.
- A no ser uma trilha que levava direto a Cotton.
- E ns presumimos que, se fosse desafiado, Malone saberia 
o que fazer.
- Ele est fora, Brent - disse ela quase gritando. - No 
trabalha mais para ns. E no colocamos ex-agentes em 
perigo, em especial sem que eles saibam.
- Ns avaliamos esses riscos e decidimos que, para descobrir 
o vazamento, eles valiam a pena. O garoto ser seqestrado 
mudou tudo. Fico feliz porque Cotton conseguiu recuper-
lo.
- Isso  maravilhoso da sua parte. Vai ter sorte se ele no 
quebrar seu nariz.
- Essa Casa Branca  uma abominao - murmurou Green. - 
Um monte de sacanas hipcritas e corruptos.
Ela nunca ouvira Green falar assim.
- Eles vivem dizendo como so cristos, como so 
americanos, mas s tm alianas consigo mesmos. E com o 
dlar. Uma deciso tem sido tomada depois da outra, cada 
uma delas envolta na bandeira americana, e no servem para 
nada alm de engordar os bolsos das grandes corporaes, 
entidades que colaboraram pesadamente para a causa do 
partido deles. Isso me deixa enojado. Participo de reunies 
nas quais a poltica  decidida em termos do que aparece 
bem na televiso, e no do que  bom para o pas. Fico 
quieto. No digo nada. Jogo na equipe.
Mas isso no significa que eu v deixar que este pas se 
prejudique. Fiz um juramento, e, diferentemente de muitos 
nesta administrao, o meu significa alguma coisa.
- Ento, por que no revelar o que eles so?
- At agora, no tenho informaes de que algum tenha 
violado a lei. Nojentos, imorais, gananciosos? J vi de tudo, 
mas no so ilegais. Garanto que se algum, at o presidente, 
tivesse atravessado essa linha, eu teria agido. Mas ningum 
foi to longe assim.
- A no ser o responsvel pelo vazamento.
- Exatamente por isso estou to interessado. Uma represa 
tem de rachar antes de desmoronar.
Ela no se deixou enganar.
- Vamos encarar os fatos, Brent, voc gosta de ser o 
principal mantenedor da lei, e no duraria muito se fosse 
atrs de um deles e fracassasse.
Grent a avaliou, com preocupao nos olhos.
- Gosto mais de voc, viva. 
Ela afastou a preocupao.
- Voc descobriu o responsvel pelo vazamento?
- Acredito que ns...
Cassiopeia voltou correndo  cozinha.
- Temos companhia. Dois homens acabaram de virar a 
esquina. Ternos e fones de ouvido. Servio secreto.
- Meu pessoal - disse Green. - Vindo verificar se tudo est 
bem para a noite.
- Temos de ir - deixou claro Cassiopeia.
- No - disse Green. - Soltem-me e eu cuido deles. 
Cassiopeia foi at a porta dos fundos.
Stephanie tomou uma deciso, do tipo que tomara cem mil 
vezes. E mesmo tendo claramente feito escolhas pssimas 
durante o dia, como seu pai costumava dizer: Certo, errado, 
no importa. S faa alguma coisa.
- Espere.
Foi at a bancada e abriu algumas gavetas at encontrar uma 
faca.
- Vamos solt-lo. - Em seguida, se aproximou de Green e 
disse: - Espero que eu saiba o que estou fazendo.

Sabre correu pela floresta de Oxfordshire at onde havia 
deixado o carro. O amanhecer estava chegando ao interior 
ingls. A nvoa amortalhava o campo ao redor e o ar frio 
estava mido. Sentia-se satisfeito com seu primeiro encontro 
com Cotton Malone. S o bastante para aguar a curiosidade 
do americano, ao mesmo tempo que satisfazia qualquer 
parania. Matar os homens que ele contratara para atacar 
Malone havia parecido a apresentao perfeita. Ele teria 
matado os trs, se Malone no tivesse acabado com um.
Sem dvida Malone havia revistado os corpos depois de sua 
sada, mas Sabre se certificara de que nenhum homem 
usasse identificaes. Suas instrues haviam sido para 
confrontarem Malone e o prenderem. Mas assim que 
Malone eliminou o primeiro, o jogo havia mudado. Ele no 
ficou surpreso. Em Copenhague, Malone havia provado que 
sabia se virar.
Felizmente havia encontrado o gravador no apartamento de 
Haddad. Isso, combinado com as informaes do 
computador, havia garantido informaes suficientes para 
atrair a confiana de Malone. Agora s precisava retornar ao 
Savoy e esperar.
Malone iria.
Saiu da floresta e viu seu carro. Outro veculo estava parado 
atrs, e ele viu sua agente andando de um lado para o outro.
- Seu filho-da-puta - gritou ela. - Voc matou aqueles 
homens.
- E qual  o problema?
- Eu os contratei. Quantos outros voc acha que posso 
empregar se ficarem sabendo que a gente mata nosso 
pessoal?
- Quem saberia disso, alm de voc e eu?
- Seu escroto. Eu fiquei olhando de fora. Voc atirou neles 
pelas costas. Eles no viram nada. Era o que voc pretendia 
o tempo todo.
Sabre chegou ao carro.
- Voc sempre foi inteligente.
Foda-se, Dominick. Aqueles homens eram meus amigos. 
Agora ele estava curioso.
- Voc dorme com algum deles?
- No  da sua conta. Ele deu de ombros.
- Est certa.
- Estou cheia de voc. Acabou. Arranje outra ajudante. - Ela 
foi irritada at seu carro.
- Acho que no - gritou ele.
Ela virou-se para encar-lo, esperando uma bronca. Os dois 
j haviam discutido. Mas, desta vez, Sabre atirou em seu 
rosto.
Nada, nem ningum, iria interferir. Muito esforo fora posto 
no que ele havia planejado. Estava para trair um dos cartis 
econmicos mais poderosos do planeta. O fracasso teria 
conseqncias srias. Por isso no iria fracassar. No restaria 
nenhuma pista levando a ele.
Abriu a porta do carro e entrou.
Restava apenas Cotton Malone para cuidar.

Stephanie estava na cozinha, com Cassiopeia ao lado, e 
ouviu quando Brent Green atendeu  porta da frente e falou 
com os dois agentes do servio secreto. Ou ela havia 
adivinhado certo ou as duas logo seriam presas.
- Isso  idiotice - sussurrou Cassiopeia.
-  idiotice minha, e eu no pedi que voc nem Henrik se 
envolvessem.
- Voc  uma vaca teimosa.
- Olha quem est falando. Voc poderia ter ido embora. Eu 
diria que voc tambm  meio teimosa.
Ouviu Green conversar amenidades sobre o tempo e dizer 
que tinha derramado um copo d'gua no roupo. Ela havia 
libertado Green da cadeira e olhado, com diverso, enquanto 
ele tirava a fita adesiva dos pulsos e tornozelos. O que os 
comediantes dos programas de fim de noite no dariam para 
v-lo se encolher enquanto os plos dos braos e das pernas 
saam a cada puxo. Mas o sujeito da Nova Inglaterra havia 
alisado imediatamente o cabelo molhado e sado da cozinha.
Ela ouviu de novo o que Green dissera com convico 
genuna: Este amigo se preocupa particularmente com o que 
acontece com voc.
- Se ele nos entregar, estamos ferradas - sussurrou 
Cassiopeia.
- Ele no far isso.
- O que faz voc ter tanta certeza?
- Vinte anos de erros.
Finalmente, Green deu boa-noite aos agentes. Ela abriu a 
porta de vaivm e ficou observando enquanto Green olhava 
uma ltima vez pela veneziana. Ele se virou e disse:
- Satisfeita?
- Certo, Brent. E agora?
- Juntos vamos salvar sua pele e ao mesmo tempo fechar o 
vazamento.
- Por sinal, voc no disse quem  o responsvel.
- No. No disse. Porque no sei.
- Achei que voc tinha dito que havia identificado a pessoa.
- O que comecei a dizer foi que acredito que podemos ter 
identificado o problema.
- Estou esperando.
- Voc no vai gostar disso.
- Experimente.
- No momento, o principal elo dos israelenses  Pam 
Malone.

 
TRINTA E SETE

7H40

Henrik Thorvaldsen odiava viajar de avio, motivo pelo qual 
nenhuma de suas empresas possua aeronaves. Para aliviar 
parte do desconforto, sempre ia de primeira classe e voava 
de manh cedo. Os bancos maiores, as amenidades e a hora 
do dia aplacavam sua fobia. Gary Malone, por outro lado, 
parecia adorar a experincia. O garoto havia comido todo o 
desjejum servido pela aeromoa e a maior parte do de 
Henrik.
- Vamos pousar logo - disse ele a Gary.
- Fantstico. Em qualquer outra ocasio, eu estaria na escola. 
Agora estou na ustria.
Ele e Gary haviam se tornado mais prximos nos ltimos 
dois anos. Quando visitava Malone nas frias de vero, Gary 
havia ficado muitas noites em Christiangade. Pai e filho 
gostavam de velejar no barco de quarenta ps que ficava 
atracado no cais da propriedade, comprado havia muito 
tempo para viagens pelo Oresund at a Noruega e a Sucia, 
mas que agora quase nunca era usado. Quando era vivo, Cai, 
o filho de Thorvaldsen, adorava a gua. O velho sentia uma 
falta tremenda do rapaz. Morto havia quase dois anos. 
Derrubado a tiros na Cidade do Mxico por motivos que 
Thorvaldsen jamais ficara conhecendo.
Malone estava l, numa misso, e fizera todo o possvel, o 
que acabou levando os dois a se conhecerem. Mas 
Thorvaldsen no esquecia o que havia acontecido l. Com o 
tempo descobriria a verdade sobre a morte do filho. Dvidas 
assim sempre eram pagas. Mas passar tempo com Gary lhe 
trazia parte da alegria que a vida lhe negara cruelmente.
- Fico feliz porque voc veio - disse ele. - No queria deix-
lo na casa.
- Nunca estive na ustria.
-  um lugar lindo. Florestas densas. Montanhas nevadas. 
Lagos alpinos. Cenrio espetacular.
Thorvaldsen ficara observando atentamente durante o dia 
anterior e parecia que Gary estava se saindo bem naquela 
situao difcil, em especial considerando que vira dois 
homens serem mortos a tiros. Quando Malone e Pam foram 
para a Inglaterra, Gary havia entendido por que eles 
precisavam ir. Sua me tinha de retornar ao trabalho e o pai 
precisava descobrir por que Gary corria perigo. 
Christiangade era um lugar familiar, e Gary havia ficado de 
boa vontade. Mas na vspera, depois de ter falado com 
Stephanie, Thorvaldsen soube o que deveria ser feito.
- Esta reunio  qual voc tem de ir - perguntou Gary -  
importante?
- Pode ser. Terei de comparecer a vrias sesses, mas vamos 
encontrar coisas para voc fazer enquanto eu estiver l.
- E meu pai? Sabe que estamos fazendo isso? Eu no contei  
mame.
Pam Malone havia telefonado algumas horas antes e falado 
brevemente com Gary. Mas havia desligado antes que 
Thorvaldsen pudesse falar com ela.
- Tenho certeza de que um deles vai ligar de volta, e Jesper 
dir onde estamos.
Ele estava se arriscando ao trazer Gary, mas havia decidido 
que era um gesto inteligente. Se Alfred Hermann estivesse 
por trs do seqestro original, coisa em que Thorvaldsen 
acreditava com firmeza, ter Gary na Assemblia, cercado de 
homens e mulheres influentes de todo o mundo, cada um 
com seus assessores e seguranas, parecia o caminho mais 
garantido. Pensou no seqestro. Pelo pouco que sabia sobre 
Dominick Sabre, o americano era um profissional, que no 
tendia a empregar auxiliares to incompetentes como os trs 
holandeses que haviam atrapalhado o seqestro de Gary. 
Algo no estava certo. Malone era bom, isso ele tinha de 
admitir, mas as coisas haviam se desdobrado com preciso 
espantosa. Ser que aquilo tudo fora encenado para Malone? 
Um modo de instig-lo? Nesse caso, Gary realmente no 
corria mais perigo.
- Lembre-se do que falamos - disse a Gary. - Cuidado com 
suas palavras. H muitos ouvidos.
- Entendi. 
Thorvaldsen sorriu.
- Excelente.
Agora s podia esperar que tivesse entendido Alfred 
Hermann corretamente.
 
TRINTA E OITO

VIENA 
8H

Hermann empurrou de lado o caf-da-manh. Detestava 
comer, em particular no meio de uma multido, mas adorava 
o salo de jantar do castelo. Havia escolhido pessoalmente a 
decorao neogtica, com os caixilhos das janelas e os 
caixotes do teto mostrando brases de ilustres Cruzados, as 
paredes cobertas por telas que representavam a captura de 
Jerusalm pelos cristos.
O caf-da-manh estava espetacular, como sempre, e um 
bando de garons vestidos de branco atendia aos 
convidados. Sua filha estava sentada  outra extremidade da 
mesa comprida, e os outros 12 lugares eram ocupados por 
um grupo seleto de scios da Ordem - o Comit Poltico - 
que havia chegado no dia anterior para a Assemblia do fim 
de semana.
- Espero que todos estejam aproveitando bem - disse 
Margarete. Grupos de pessoas eram o que ela dominava 
melhor.
Hermann notou-a franzindo a testa para seu prato intocado, 
mas a filha no disse nada. Sua censura seria particular - 
como se o apetite, por si s, trouxesse vida longa e boa 
sade. Se ao menos fosse to fcil!
Vrios membros do comit falavam sem parar sobre o 
castelo e seus mveis exticos, notando algumas mudanas 
que ele havia feito desde a primavera anterior. Mesmo que 
fossem homens e mulheres abastados, juntos no tinham 
sequer um quarto da fortuna de Hermann. Mas cada um era 
til de algum modo. Assim, ele agradeceu por terem notado 
e esperou. Finalmente, disse:
- Estou interessado no que o Comit Poltico planeja dizer  
Assemblia sobre o Conceito 1223.
Essa iniciativa, adotada trs anos antes na Assemblia da 
primavera, implicava um plano complexo para a 
desestabilizao de Israel e da Arbia Saudita. Ele havia 
abraado o conceito, motivo pelo qual cultivara fontes 
dentro dos governos israelense e americano - fontes que 
inesperadamente o levaram a George Haddad.
- Antes de fazermos isso - disse o chefe do comit -, pode 
nos dizer se seus trabalhos esto rendendo frutos? Nossos 
planos tero de ser alterados se voc no tiver sucesso.
Ele assentiu.
- Os acontecimentos esto se desdobrando. E rapidamente. 
Mas se eu tiver sucesso, j foi garantido um mercado para a 
informao?
Outro membro do comit assentiu.
- Fizemos indagaes na Jordnia, na Sria, no Egito e no 
Imen. Todos esto interessados, pelo menos em agendar 
conversas.
Ele ficou satisfeito. Havia aprendido que o entusiasmo de 
um Estado rabe - fosse em mercadorias, servio ou terror - 
aumentava na proporo direta do interesse do vizinho.
-  arriscado ignorar os sauditas - disse outro. - Eles tm 
ligaes com muitos dos nossos scios. A retaliao poderia 
custar caro.
- Seus negociadores - respondeu ele - tero de garantir que 
eles fiquem calmos at que seja vantagem nossa lidar com 
eles.
- No  hora de nos dizer exatamente o que est envolvido? 
- perguntou um dos membros do comit.
- No. Ainda no.
- Voc est nos envolvendo profundamente numa coisa 
que, francamente, Alfred, me enche de dvidas.
- Qual  a sua dvida?
- O que poderia ser to atraente para a Jordnia, a Sria, o 
Egito e o Imen, e no para a Arbia Saudita?
- A eliminao de Israel. Um silncio dominou o salo.
- Certo, esse  um objetivo comum para todas aquelas 
naes, mas tambm  impossvel. O Estado est a para 
ficar.
- O mesmo foi dito em relao  Unio Sovitica. No 
entanto, quando o objetivo dela foi seriamente questionado, 
depois exposto como a fraude que era, vejam o que ocorreu. 
A dissoluo em questo de dias.
- E voc pode fazer com que isso acontea? - perguntou 
outro.
- Eu no estaria desperdiando nosso tempo se no achasse 
possvel.
- Um dos outros scios, amigo de longa data, pareceu 
frustrado com sua postura oblqua, ento ele decidiu ser um 
pouco conciliador. - Deixe-me perguntar o seguinte: e se a 
validade do Velho Testamento fosse questionada?
Alguns convidados deram de ombros. Um perguntou: - E 
da?
- Isso poderia mudar fundamentalmente o debate no 
Oriente Mdio - respondeu Hermann. - Os judeus so 
firmes em defender a verdade de sua Tor.  a Palavra de 
Deus e coisa e tal. Ningum jamais os questionou 
seriamente. Houve conversas, especulaes, mas se fosse 
provado que a Tor est errada, imaginem o que isso faria 
com a credibilidade dos judeus. Pense em como isso poderia 
incitar outros Estados do Oriente Mdio.
Ele havia falado srio. Nenhum opressor jamais fora capaz 
de derrotar os judeus. Muitos haviam tentado. Os assrios. 
Os babilnios. Os romanos. Os turcos. A Inquisio. At 
Martinho Lutero os desprezara.
Mas os supostos filhos de Deus haviam se recusado 
teimosamente a se render. Hitler podia ter sido o pior. No 
entanto, depois dele, o mundo meramente lhes garantiu sua 
ptria bblica.
- O que voc tem contra Israel? - perguntou uma mulher. - 
Desde o incio questionei por que estamos perdendo tempo 
com isso.
A mulher de fato havia discordado, seguida de dois outros. 
Eles claramente estavam em minoria e eram relativamente 
inofensivos, por isso Hermann permitia o discurso deles 
simplesmente como um modo de dar um ar de democracia 
ao processo.
- Isso tem a ver com muito mais do que Israel. - Ele viu que 
tinha a ateno de todos, at da filha. - Se for jogado 
corretamente, talvez possamos desestabilizar Israel e a 
Arbia Saudita. Neste caso, um est ligado ao outro. Se 
pudermos criar a quantidade adequada de tumulto nos dois 
Estados, control-lo e definir o momento em que acontece, 
podemos ser capazes de derrubar irrevogavelmente os dois 
governos. -Encarou o chefe do Comit Poltico. - Vocs j 
discutiram como nossos scios podem explorar esse 
processo uma vez que o ponhamos em movimento?
O velho assentiu. Era seu amigo havia dcadas e estava perto 
do topo da lista para assumir um lugar no Crculo.
- O cenrio que visualizamos se baseia no fato de os 
palestinos, jordanianos, srios e egpcios quererem o que 
pudermos dar...
- Isso no vai acontecer - disse um dos homens, tambm da 
oposio.
- E quem pensaria que o mundo deslocaria quase um milho 
de rabes para dar uma ptria aos judeus? - deixou claro 
Hermann. - Muitos no Oriente Mdio diziam que isso 
tambm no iria acontecer. - Suas palavras saram afiadas, 
por isso ele temperou o que diria a seguir com um tom de 
conciliao. - No mnimo poderemos derrubar aquele muro 
idiota que os israelenses ergueram para guardar suas 
fronteiras e questionar cada reivindicao antiga que eles 
fizeram. A arrogncia sionista sofreria, talvez o suficiente 
para levar os Estados rabes ao redor a uma ao unificada. E 
nem falei do Ir, que adoraria mais que tudo obliterar Israel 
completamente. Isso seria uma bno para eles.
- O que poderia causar tudo isso?
- Conhecimento.
- Voc no pode estar falando srio. Tudo isso  baseado em 
ns ficarmos sabendo de alguma coisa?
Hermann no havia esperado essa discusso franca, mas este 
era o seu momento. O comit reunido ao redor de sua mesa 
de refeies era encarregado, segundo os estatutos da 
Ordem, de formular a poltica coletiva, que era muito 
entrelaada com iniciativas do Comit Econmico porque, 
para a Ordem, poltica e lucro eram sinnimos. O Comit 
Econmico havia estabelecido um objetivo de aumentar em 
pelo menos trinta por cento os ganhos para os scios que 
desejavam investir pesadamente no Oriente Mdio. Fora 
realizado um estudo, fora determinado um investimento 
inicial em euros, os lucros potenciais foram estimados sob as 
condies polticas e econmicas atuais, e depois vrios 
cenrios foram visualizados. No fim, um objetivo de trinta 
por cento foi considerado atingvel. Porm, os mercados no 
Oriente Mdio eram limitados, na melhor das hipteses. 
Toda a regio podia explodir devido a qualquer ocorrncia 
minscula. Cada dia trazia novas possibilidades de desastre. 
Assim, o que o Comit Poltico buscava era consistncia. 
Mtodos tradicionais - subornos e ameaas - no eram 
eficazes com pessoas que rotineiramente prendiam 
explosivos ao peito. Os homens que controlavam as decises 
em lugares como Jordnia, Sria, Kuwait, Egito e Arbia 
Saudita eram ricos demais, guardados demais e fanticos 
demais. Em vez disso, a Ordem entendera que era 
necessrio encontrar uma nova forma de moeda - uma 
moeda que Hermann acreditava que possuiria em breve.
- O conhecimento  muito mais poderoso que qualquer 
arma - disse num sussurro.
- Tudo depende de qual seja o conhecimento. Ele 
concordou.
- O sucesso depender de podermos disseminar o que 
ficarmos sabendo aos compradores certos, pelo preo certo, 
na hora certa.
- Eu o conheo, Alfred - disse um dos homens mais velhos. 
- Voc planejou isso detalhadamente.
Ele riu.
- As coisas finalmente esto progredindo. Agora os 
americanos esto interessados, e isso abre toda uma nova 
rota de possibilidades.
- O que  que tm os americanos? - perguntou Margarete, 
com impacincia na voz.
A pergunta irritou Hermann. Ela precisava aprender a no 
revelar o que no sabia.
- Parece que h algumas figuras de poder nos Estados Unidos 
que tambm querem humilhar Israel. Eles vem isso como 
benfico para a poltica externa americana.
- Como  possvel? - perguntou um dos membros do comit. 
-rabes contra rabes, alm de rabes contra judeus, vm 
guerreando h milhares de anos. O que h de to apavorante 
assim?
Ele havia estabelecido um objetivo elevado para si mesmo e 
para a Ordem, mas uma voz interior lhe dizia que sua 
diligncia estava para ser recompensada. Por isso olhou para 
os homens e mulheres sentados  sua frente e declarou:
- Devo saber a resposta para essa pergunta antes do fim da 
semana.

TRINTA E NOVE

WASHINGTON, D.C. 
3H30

Stephanie estava sentada na poltrona, exausta. Brent Green a 
encarava do sof. Na verdade, ele estava recostado numa 
postura relaxada, coisa que ela nunca vira antes. Cassiopeia 
havia adormecido no andar de cima. Pelo menos um deles 
estaria descansado. Ela certamente no. Pareciam ter se 
passado 48 dias, em vez de 48 horas, desde que estivera ali 
pela ltima vez, no confiando em Green, olhando de 
soslaio para o que ele tinha a dizer, com raiva de si mesma 
por ter colocado o filho de Malone em dificuldade. E ainda 
que Gary Malone estivesse agora em segurana, as mesmas 
dvidas em relao a Brent Green redemoinhavam em sua 
mente, em especial considerando o que ele havia lhe dito 
algumas horas antes.
O principal elo dos israelenses  Pam Malone.
Aninhou nas mos uma lata de Dr. Pepper diet que havia 
encontrado na geladeira de Green. Fez um gesto com ela.
- Voc realmente bebe isto? Ele confirmou com a cabea.
- O gosto  igual ao original, mas sem acar. Pareceu um 
bom conceito.
Ela sorriu.
- Voc  um cara estranho, Brent.
- Sou apenas um homem discreto, que no revela as coisas 
de que gosta.
Ela estava magoada e cansada, lutando contra uma ansiedade 
profunda que queria afastar sua ateno de Green. Eles 
haviam deixado intencionalmente todas as luzes apagadas, 
para sugerir a qualquer olhar observador que o ocupante da 
casa estaria dormindo.
- Est pensando no Malone? - perguntou ele atravs da 
escurido.
- Ele est encrencado.
- Voc no pode fazer nada at que ele ligue. 
Ela balanou a cabea.
- Isso no basta.
- Voc tem um agente em Londres. Quais so as chances de 
encontrar Cotton?
No era provvel. Londres era uma cidade grande, e quem 
sabia se Malone estava l? Ele poderia ter partido para 
qualquer outro lugar da Inglaterra. Mas ela no queria pensar 
em impossibilidades, por isso perguntou:
- H quanto tempo voc sabe sobre Pam?
- No muito.
Stephanie se ressentia de ter sido mantida de fora e decidiu 
que, para ganhar alguma coisa, teria de dar.
- H outro participante no seu jogo.
- Estou ouvindo. - O tom de Green indicava que seu 
interesse estava atiado. Finalmente ela sabia algo que ele 
no sabia.
Contou o que Thorvaldsen havia dito sobre a Ordem do 
Velo de Ouro.
- Henrik nunca me falou uma palavra disso.
- Ah, que chocante! - Ela tomou outro gole do refrigerante. 
- Ele s conta o que quer que a gente saiba.
- Eles seqestraram o filho de Malone?
- Esto no topo da minha lista.
- Isso explica algumas coisas. Os israelenses andam numa 
cautela incomum durante toda esta operao. Ns jogamos a 
isca do elo, esperando que o contato deles aqui a mordesse. 
Durante vrios anos, discretamente, os diplomatas deles 
fizeram indagaes sobre George Haddad. Ns no os 
enganamos totalmente quando Malone o escondeu. Eles 
reviraram os restos daquele caf arruinado, mas a bomba fez 
um servio completo. Mas mesmo depois de termos 
balanado a isca para eles notarem, os israelenses fizeram 
tudo com discrio.
- Diga algo que eu no sei.
- O seqestro do filho de Malone nos deixou perplexos. Por 
isso adiei nossa reunio quando voc ligou dando a notcia.
- E eu pensei que era simplesmente porque voc no gostava 
de mim.
-  preciso pacincia para agentar voc, mas aprendi a me 
adaptar. 
Ela riu.
Green estendeu a mo para um prato de cristal na mesinha 
de centro, que continha amendoim salgado. Ela tambm 
estava com fome e pegou um punhado.
- Sabamos que Israel no era responsvel pelo seqestro de 
Gary Malone - disse Green. - E ficamos curiosos quanto ao 
motivo de eles terem permanecido to quietos quando isso 
aconteceu. - Ele fez uma pausa. - E, depois de voc me ligar, 
fiquei sabendo sobre Pam Malone.
Ela estava escutando.
- Ela se envolveu com um homem h cerca de trs meses. 
Um advogado bem-sucedido, de um escritrio de Atlanta, 
scio snior, mas tambm judeu patriota. Tremendo 
defensor de Israel. O Departamento de Segurana Interna 
acredita que ele ajudou a financiar uma das faces mais 
militantes do governo israelense.
Stephanie sabia que o dinheiro americano alimentava havia 
muito a poltica israelense.
- Eu no fazia idia de que voc estava to envolvido com as 
coisas em termos cotidianos.
- De novo, Stephanie, sou muitas coisas que voc no sabe. 
Tenho uma imagem pblica, o que  exigido. Mas quando 
aceitei este cargo, no pretendia ser um mero porta-voz. Sou 
a principal autoridade mantenedora da lei neste pas e fao 
meu servio.
Ela notou que Green no havia comido os amendoins. Em 
vez disso, com a palma da mo aberta, a forma escura de sua 
mo esquerda estava escolhendo entre eles.
- O que est fazendo? - perguntou ela.
- Procurando metades.
- Por qu?
- Tem mais sal nelas.
- O qu?
- Se voc pega um amendoim inteiro, o meio no  salgado. 
Mas se ele estiver partido, h o dobro de sal.
- Voc no est falando srio.
Ele pegou um amendoim e jogou-o na boca.
- Por que meio amendoim tem mais sal do que um inteiro?
- Voc no est prestando ateno? - perguntou ele num 
tom divertido. - Duas metades salgadas, juntas, tm mais sal 
do que um inteiro. - Ele jogou outro na boca.
Ela no conseguiu decidir se ele estava falando srio ou s 
curtindo com sua cara, mas Green continuou procurando 
metades.
- O que voc faz com os inteiros?
- Guardo para o fim. S como em ltimo caso. Mas troco 
com voc: um inteiro por uma metade.
Ela gostava deste Brent Green. Tinha um jeito brincalho. 
Um senso de humor sarcstico. De repente, sentiu vontade 
de proteg-lo.
- Voc quer pegar aqueles idiotas arrogantes da Casa Branca 
tanto quanto eu. Voc sabe o que falam a seu respeito. 
Chamam-no de o Bom Reverendo Green. Escondem coisas. 
Usam voc apenas para melhorar a imagem deles.
- Gostaria de pensar que no sou to insignificante assim.
- O que h de insignificante em botar na bunda deles? Se h 
algum que precisa disso so eles. Inclusive o presidente.
- Concordo. - Green espanou cascas de amendoim da mo e 
continuou mastigando. Stephanie estava realmente 
comeando a apreciar o sujeito sentado  sua frente.
- Fale mais sobre Pam - pediu ela.
- Ela e o advogado esto namorando h uns trs meses. 
Sabemos que ele  ligado a Heather Dixon. Os dois se 
encontraram vrias vezes.
Stephanie ficou perplexa.
- Estou deixando de entender alguma coisa. Como os 
israelenses iriam presumir que Pam se envolveria com uma 
coisa dessas? Ela e Malone esto separados h muito tempo. 
Mal se falam. E voc mesmo disse que no acha que eles 
seqestraram o Gary.
- Os israelenses tinham de saber alguma coisa que ns no 
sabamos. Eles previram tudo isso, sabiam que iria acontecer, 
e sabiam que Pam Malone iria fazer contato com Cotton.  a 
nica coisa que faz sentido. Ela foi cultivada 
intencionalmente. Agora fale dessa tal Ordem do Velo de 
Ouro. Acho que os israelenses tambm sabiam que eles 
estavam envolvidos, e que o garoto, em algum momento, 
seria seqestrado. Talvez eles prprios estivessem 
planejando isso, no?
- Pam  espi?
- O alcance de seu envolvimento  um mistrio. E, 
infelizmente, o advogado de Atlanta com quem ela estava 
namorando morreu anteontem. - Green fez uma pausa. - A 
tiros, num estacionamento.
Nada de novo. O Oriente Mdio rotineiramente comia seus 
prprios aliados.
- O que voc sabe sobre ele?
- Estvamos avaliando sua participao num acordo de 
compra de armas. Tel Aviv diz publicamente que est 
tentando impedir esses acordos, mas em particular eles 
encorajam a prtica. Disseram-me que o advogado deu em 
cima de Pam. Passou muito tempo com ela. Deu presentes. 
Esse tipo de coisa. Para algum que quer que os outros 
pensem que ela  durona, Pam Malone  simplesmente 
solitria e vulnervel.
Stephanie captou alguma coisa no tom de voz dele.
- Isso tambm descreve voc?
Green no respondeu imediatamente, e ela se perguntou se 
teria atravessado a fronteira emocional. Por fim, ele falou 
num sussurro:
- Mais do que voc imagina.
Ela queria explorar esse caminho e j ia fazer uma tentativa 
quando passos soaram na escada. A silhueta de Cassiopeia 
apareceu junto  porta.
- Temos companhia. Um carro acaba de parar junto ao 
meio-fio. Green se levantou.
- No vi nenhum farol.
- Estavam apagados. Stephanie ficou preocupada.
- Achei que voc estava dormindo.
- Algum tem de tomar conta de vocs dois. 
O telefone tocou.
Ningum se mexeu. 
Outro toque.
Green caminhou pela escurido, encontrou o aparelho sem 
fio e atendeu. Stephanie notou que seu tom de voz fingia 
sono. 
Alguns instantes de silncio.
- Ento venha. Vou descer num instante.
Green desligou.
- Larry Daley. Est a fora e quer falar comigo.
- Isso no  bom - disse Stephanie.
- Talvez no. Mas saiam da vista e vejamos o que o diabo 
quer.

QUARENTA

LONDRES 
8H15

Malone adorava o Savoy. Havia se hospedado ali algumas 
vezes, por conta dos governos americano e ingls. Uma 
coisa em relao ao Setor Magalhes  que as vantagens 
eram to fartas quanto os riscos. Ele no ia ao hotel havia 
vrios anos, mas ficou satisfeito ao ver que o 
estabelecimento do fim do perodo vitoriano ainda projetava 
sua mistura grandiosa de opulncia e malcia. Sabia que um 
quarto virado para o Tmisa podia custar mais do que a 
maioria das pessoas no mundo levava um ano para ganhar. O 
que significava que seu salvador aparentemente gostava de 
viajar em grande estilo.
Haviam sado rapidamente da Bainbridge Hall, roubando o 
furgo da equipe de limpeza, que Malone estacionara a 
alguns quilmetros da estao de trem. Ali apanharam o 
trem das 6h30 de volta a Londres. Tudo estava calmo na 
estao Paddington, e ele havia evitado txis, pegando o 
metr at o Savoy.
O brao de Pam parecia bem. O sangramento que comeara 
na Bainbridge Hall havia parado. Dentro do hotel, ele 
encontrou um telefone interno e pediu para falar com o 
quarto 453.
- Voc se move depressa - disse a voz do outro lado da 
linha.
- O que voc quer?
- No momento, estou com fome. De modo que o caf-da-
manh  minha prioridade.
Malone captou a mensagem.
- Desa, ento.
- Que tal no caf, dentro de dez minutos? Eles tm um 
timo buf.
- Estaremos esperando.

O homem que apareceu  mesa deles era o mesmo de duas 
horas atrs, s que agora usava cala verde-oliva e camisa de 
sarja castanha. Seu rosto barbeado, bonito, estava cheio de 
boa vontade e civilidade.
- Meu nome  McCollum. James McCollum. As pessoas me 
chamam de Jimmy.
Malone estava cansado demais e com suspeitas demais para 
ser amigvel, mas se levantou. O aperto de mo era firme e 
confiante. Os olhos do sujeito, cor de jade, o encararam de 
volta, ansiosos. Pam ficou sentada. Malone se apresentou e 
apresentou-a, depois foi direto ao ponto.
- O que estava fazendo na Bainbridge Hall?
- Voc poderia ao menos me agradecer por ter salvado sua 
vida. Eu no precisava fazer aquilo.
- Estava passando por acaso na vizinhana?
Os lbios finos do sujeito se dobraram num riso.
- Voc  sempre assim? Sem preliminares, vai direto  ao?
- Voc est desviando da pergunta. 
McCollum arrastou uma cadeira e se sentou.
- Estou com fome. Que tal comermos alguma coisa e eu te 
conto tudo?
Malone no se mexeu.
- Que tal responder  minha pergunta?
- Certo, no interesse da boa vontade. Sou um caador de 
tesouros em busca da Biblioteca de Alexandria. Tenho 
procurado os restos dela h mais de uma dcada. Estava na 
Bainbridge Hall por causa daqueles trs homens. Eles 
mataram uma mulher h quatro dias, uma fonte boa demais, 
por isso fiquei na trilha deles, esperando descobrir para 
quem trabalhavam. Em vez disso, eles me levaram a voc.
- L voc disse que tem informaes que eu no tenho. O 
que o faz pensar isso?
McCollum empurrou a cadeira para trs e se levantou.
- Eu disse que poderia ter alguma informao que voc no 
tem. Olhe, no tenho tempo nem pacincia para isso. J 
estive naquela propriedade. Voc no  o primeiro a ir l. 
Cada um de vocs, amadores, sabe um pouquinho da 
verdade misturada com muita fantasia. Estou disposto a 
barganhar com parte do que sei para descobrir o pouco que 
voc pode saber. S isso, Malone. Nada mais sinistro.
- Ento voc atirou na cabea de dois homens para provar 
seu argumento? - perguntou Pam, e Malone viu a expresso 
de uma advogada ctica.
McCollum encarou Pam.
- Atirei naqueles dois homens para salvar a vida de vocs. - 
Em seguida, olhou ao redor. - Adoro este lugar. Sabia que o 
primeiro martini foi servido no Bar Americano do Savoy? 
Hemingway, Fitzgerald, Gershwin... todos beberam l. Um 
monte de histrias.
- Voc gosta de histria? - perguntou Pam.
-  uma necessidade ocupacional.
- Est indo a algum lugar? - perguntou Malone.
McCollum ficou de p, rgido, com os modos calmos e sem 
se abalar, embora Malone tivesse deliberadamente tentado 
sacudi-lo.
- Voc tem suspeitas demais para o meu gosto. V em 
frente. Faa a saga do heri. Espero que tenha sucesso.
Aquele sujeito sabia das coisas.
- Como sabe disso?
- Como falei, estou nesta trilha h um tempo. H quanto 
tempo voc est? Sabe o que acho? Que voc  um novato. 
Pior, que  um novato cheio de atitude. J conheci um 
monte de gente assim. Acham que sabem tudo. A verdade  
que no sabem nada. Essa biblioteca ficou escondida por 
1.500 anos por algum motivo. - McCollum fez uma pausa. - 
Sabe, Malone, voc  como o jumento parado num 
maravilhoso capim at a altura dos joelhos, com a cabea por 
cima da cerca, comendo ervas daninhas. Prazer em 
conhec-lo. Vou me sentar naquela mesa ali e tomar o caf-
da-manh.
McCollum abriu caminho pelo caf parcialmente ocupado.
- O que acha? - perguntou Malone a Pam.
- Arrogante. Mas voc no pode acus-lo disso. 
Ele sorriu.
- Ele sabe alguma coisa, e no vamos descobrir sentados 
aqui. Ela se levantou.
- Concordo. Vamos comer com nosso novo amigo.
Sabre sentou-se  mesa e esperou. Se tivesse calculado 
direito, eles viriam logo. De jeito nenhum Malone 
conseguiria resistir. Seu conhecimento tinha de estar 
limitado ao que George Haddad conseguira lhe dizer - o que, 
pela fita que ele havia escutado, no era grande coisa. O que 
Malone havia tirado do apartamento de Haddad antes de 
fugir poderia preencher lacunas, mas ele apostava que as 
questes vitais continuavam sem resposta.
O que tambm era um problema para ele.
Estava se obrigando a interagir. E esta era uma coisa 
diferente. Estava acostumado ao silncio de seus prprios 
pensamentos - as companhias ntimas eram raras, confinadas 
a alguma mulher ocasional que lhe fornecia sexo. Ele 
contratava a maioria. Profissionais como ele, fazendo seu 
trabalho, dizendo  noite o que ele queria ouvir e indo 
embora de manh. As realidades duras do perigo fsico e da 
tenso intelectual, pelo menos para ele, mais neutralizavam 
do que estimulavam o sexo. Conseqncias graves minavam 
o crebro. Ocasionalmente ele dormia com auxiliares 
contratadas. Mas, como a inglesa em quem havia atirado 
mais cedo, isso algumas vezes provocava efeitos colaterais 
irritantes. Em vez de romance, ansiava por solido.
J havia representado esse papel especfico antes, com 
outros, quando precisava conquistar a confiana. As palavras 
e os atos, o modo como andava e se portava, a voz 
arrogante, tudo vinha de um dos muitos namorados de sua 
me. Era um policial violento em Chicago, onde ele havia 
morado quando estava com 12 anos. Lembrava-se de como 
o homem tentara impression-la com uma confiana 
inabalvel. Lembrava-se de um jogo dos White Sox e de 
uma viagem  beira do lago. Mais tarde ficou sabendo que, 
como a maioria dos amantes da me, o policial s havia 
demonstrado interesse suficiente para impression-la. Assim 
que conseguiam o que realmente queriam, e que em geral 
era medido em noites na cama de sua me, a ateno 
acabava. Ele passou a odiar todos os pretendentes. Nenhum 
deles estava presente quando Sabre a enterrou. Ela morreu 
sozinha e falida.
E ele no repetiria o mesmo destino.
Levantou-se e foi para a fila do buf.
Adorava o Savoy, quartos mobiliados com antiguidades caras 
e servidos por valetes do Velho Mundo. O tipo de luxo que 
Alfred Hermann e o resto da Ordem do Velo de Ouro 
costumavam desfrutar. Ele tambm queria esse privilgio. 
Em seus termos, no nos deles. Mas para alterar a realidade, 
precisava de Cotton Malone e perguntou a si mesmo se algo 
do que procurava estaria dentro da mochila de couro que 
Malone carregava. At agora conseguira se manter um passo 
 frente do adversrio e, com o canto do olho, ficou 
satisfeito ao ver que ainda mantinha a vantagem.
Malone e a ex-mulher estavam passando entre as mesas que 
se enchiam rapidamente.
- Certo, McCollum - disse Malone enquanto se aproximava. 
- Estamos aqui.
- Vai pagar a conta? 
- Claro.  o mnimo que posso fazer. 
Ele forou um risinho.
- S espero que no seja o mximo que voc pode fazer.

QUARENTA E UM

WASHINGTON, D.C.

Stephanie e Cassiopeia recuaram para a cozinha enquanto 
Brent Green atendia  porta da frente. As duas retomaram a 
posio ao lado da porta de vaivm e ficaram ouvindo Green 
levar Daley para a sala de jantar e os dois sentarem-se  
mesa.
- Brent - disse Daley -, temos alguns assuntos a discutir.
- Sempre tivemos, Larry.
- Temos um problema srio. E uso o plural porque vim 
ajudar voc a resolv-lo.
- Eu esperava que fosse importante, considerando a hora. 
Ento, por que no diz qual  o nosso problema?
- Trs corpos foram encontrados h pouco numa 
propriedade a oeste de Londres. Dois com balas na cabea, o 
outro, no peito. Outro corpo, de uma mulher, foi 
encontrado a alguns quilmetros dali. Bala na cabea. Uma 
arma do mesmo calibre deu os tiros na cabea. Um furgo de 
limpeza foi roubado da propriedade. Os faxineiros foram 
deixados inconscientes. O furgo foi levado at uma cidade 
prxima e depois abandonado. Um homem e uma mulher 
foram vistos saindo do furgo, depois pegando um trem para 
Londres. O vdeo de vigilncia da estao de Paddington 
confirmou que Cotton Malone e a ex-mulher saram do 
trem.
Stephanie sabia aonde aquilo ia dar.
- Presumo - disse Green - que voc est dando a entender 
que Malone matou essas quatro pessoas.
-  o que parece.
- Aparentemente, Larry, voc jamais trabalhou como 
promotor num caso de assassinato.
- E voc trabalhou?
- Em seis. Quando era assistente da promotoria estadual. 
Voc no faz idia se Malone atirou naquelas pessoas.
- Talvez no, Brent. Mas tenho o suficiente para deixar os 
ingleses alucinados. Vou deixar os detalhes para eles 
deduzirem.
Stephanie percebeu que isso poderia representar um 
problema para Cotton e viu nos olhos de Cassiopeia que a 
amiga concordava.
- Os ingleses identificaram Malone. O nico motivo pelo 
qual no foram atrs dele  porque nos perguntaram o que 
ele est fazendo l. Querem saber se  algo oficial. Por acaso 
voc sabe a resposta?
O silncio pairou no ar, e Stephanie imaginou a expresso de 
granito no rosto de Green. Esconder sentimentos era o que 
ele fazia melhor.
- Isso est fora da minha jurisdio. E quem pode dizer que 
Malone est fazendo alguma coisa que tenha a ver conosco?
- Acho que eu simplesmente pareo idiota.
- Nem sempre.
- Que gracinha, Brent. Humor. Isso  novo em voc. Mas 
como eu estava dizendo, Malone est l por algum motivo, e 
quatro pessoas morreram por causa dele, 
independentemente de ele ter puxado o gatilho. E acho que 
isso envolve o Elo de Alexandria.
- Mais saltos de lgica.  assim que a Casa Branca faz 
poltica?
- Eu no envolveria a Casa Branca. Voc no est no topo da 
lista de pessoas prediletas deles no momento.
- Se o presidente no quer que eu sirva mais, certamente ele 
pode fazer algo a respeito.
- No sei se sua demisso basta.
Stephanie percebeu que Daley finalmente estava chegando 
ao objetivo da visita.
- O que voc tem em mente? - perguntou Green.
- O negcio  o seguinte. Os nmeros do presidente nas 
pesquisas no andam muito bons. Certo, ainda temos trs 
anos e ento acaba nosso segundo mandato, mas gostaramos 
de sair por cima. Quem no gostaria? E nada estimula mais 
os nmeros das pesquisas que uma boa reunio em volta da 
bandeira, e nada revigora mais que um ato terrorista.
- Pela primeira vez voc est correto.
- Onde est Stephanie?
- Como  que eu vou saber?
- Diga voc. H um ou dois dias voc estava disposto a se 
demitir para apoi-la. Eu digo para ela no envolver o Setor 
nesse negcio, e ela imediatamente mobiliza toda a porcaria 
da agncia. Ela fez isso com sua aprovao?
- No sou guardio dela.
- O presidente a demitiu. Ela foi substituda.
- Sem me consultar?
- Ele consultou a si mesmo, e isso basta. Ela est fora.
- E quem est encarregado do Setor Magalhes?
- Que tal uma pequena histria? No  minha.  de um dos 
meus livros prediletos, Hardball, de Chris Matthews. Ele no 
est do mesmo lado que eu na poltica, mas mesmo assim  
um cara inteligente. Conta sobre quando o ex-senador Bill 
Bradley estava num jantar dado em sua homenagem. Bradley 
queria mais um pouco de manteiga e no conseguia que o 
garom viesse na sua direo. Por fim, foi at o garom e lhe 
disse que aparentemente ele no sabia quem ele era. "Sou 
Bill Bradley. Formado em Rhodes, jogador profissional de 
basquete, senador dos Estados Unidos, e gostaria de um 
pouco mais de manteiga."
O garom no ficou impressionado e apenas disse que, 
aparentemente, Bradley no sabia quem ele era. E 
completou: "Sou o cara que cuida da manteiga." Veja bem, 
Brent, poder  o que voc tem. De modo que, no momento, 
eu sou o encarregado do Setor Magalhes.
- Voc no era um lobista corporativo antes de trabalhar na 
Casa Branca? E antes disso consultor poltico? O que o 
qualifica para cuidar da diviso mais sensvel de inteligncia 
do Departamento de Justia?
- O fato de o presidente valorizar minha opinio.
- E o de que voc puxa o saco dele sempre que ele aparece.
- No vim aqui para discutir qualificaes. A deciso foi 
tomada. Ento, onde est Stephanie?
- Presumo que no hotel.
- Emiti um mandado para a priso dela.
- E quem, no Departamento de Justia, ajudou nisso?
- Os advogados da Casa Branca cuidaram das 
particularidades. Ela violou vrias leis.
- Poderia me dizer quais?
- Que tal agredir um estrangeiro? 
Um membro da misso israelense jurou que Stephanie 
tentou mat-la. A mulher est com um galo feio na cabea 
para provar.
- Voc planeja abrir um processo?
- Planejo arrastar o rabo dela para algum lugar onde no haja 
reprteres.
- E de onde ela nunca retornar. 
Mais silncio.
- Coisas ruins acontecem, Brent.
- Isso me inclui?
- Na verdade, sim. Parece que os israelenses no gostam de 
voc e no dizem o motivo. Talvez seja todo esse lixo cristo 
conservador que voc gosta de pregar. - Daley fez uma 
pausa. - Ou talvez seja simplesmente porque voc  um 
escroto. No sei.
- Interessante o respeito que voc tem pelo meu cargo.
- Tenho respeito pelas pessoas que me puseram no meu 
cargo, como voc deveria ter. Sejamos claros. Poderamos 
usar um bom ataque terrorista, e ningum que eu conheo 
derramaria muitas lgrimas se voc fosse a vtima. Haveria 
apenas ganhos: para ns. Nossos nmeros nas pesquisas 
crescem. Todo mundo procura a liderana do presidente. A 
vida  boa.
- Ento voc veio aqui ameaar o procurador-geral dos 
Estados Unidos?
- Ora, por que diz uma coisa dessas? Eu vim repassar a 
ameaa.  bom que voc fique sabendo, para poder tomar as 
precaues de segurana adequadas. Stephanie tambm. Por 
algum motivo, os israelenses esto putos com ela. Mas, claro, 
voc no sabe do paradeiro dela, ento no podemos alert-
la. Que pena. Mas com voc  diferente. Considere-se 
alertado.
- Presumo que os israelenses no se envolveriam 
pessoalmente em nenhum assassinato, no ?
- Claro que no. Aquele no  um Estado terrorista. Mas os 
israelenses so cheios de recursos e podem sublocar o 
projeto. Eles tm conexes com... digamos... elementos 
pouco agradveis. Por isso voc est sendo alertado.
Stephanie escutou algum se levantar.
- Tudo isso faz parte do trabalho, Brent.
- E se eu for um bom menino e seguir as regras, esses 
elementos pouco agradveis perdero o interesse em mim.
- No posso dizer, realmente. Mas  possvel. Por que no 
tenta, e ento veremos?
A sala ficou em silncio por mais tempo do que seria 
confortvel. Stephanie imaginou dois lees se encarando.
- O legado do presidente vale tudo isso? - perguntou Green.
-  disso que voc acha que se trata? De jeito nenhum. 
Trata-se do meu legado. Do que eu posso fazer. E esse tipo 
de capital poltico vale mais que ouro.
Ela ouviu solas de sapatos batendo no piso de madeira, 
afastando-se da cozinha.
- Larry - disse Green, elevando a voz. Os passos pararam.
- No tenho medo de voc.
- Deveria ter.
- D o seu melhor tiro. Depois eu darei o meu.
- Claro. Brent, depois de eu dar o meu, voc estar de volta a 
Vermont, a sete palmos da superfcie, num caixo.
- No tenha tanta certeza. 
Daley deu um risinho.
- O engraado disso tudo  que meus dois maiores ps no 
saco podem perfeitamente tirar esta administrao da fossa. 
Isso  que  trabalhar com o que se tem.
- Talvez possamos surpreend-lo.
- Continue pensando nisso. Tenha um timo dia. 
Uma porta se abriu, depois se fechou.
- Ele foi embora - disse Green. 
Stephanie saiu da cozinha e disse:
- Acho que voc no pode mais me dizer o que fazer. 
Ela registrou a fadiga no rosto dele.
- Voc finalmente conseguiu ser demitida.
- E essa  a menor das nossas preocupaes - deixou claro 
Cassiopeia.
- H um traidor neste governo - disse Green. - E planejo 
encontr-lo.
- Garanto, Sr. procurador-geral - disse Cassiopeia -, que 
nunca lidou com esses tais elementos pouco agradveis. 
Daley est certo. Os israelenses no vo fazer o trabalho sujo 
pessoalmente. Eles subcontratam. E as pessoas que eles 
empregam significam problema.
- Ento todos precisamos ter cuidado.
Stephanie quase sorriu. Brent Green possua mais coragem 
do que ela havia imaginado. Mas existia outra coisa. Ela havia 
detectado antes, e agora tinha certeza.
- Voc tem um plano, no ?
- Ah, sim. No estou sem recursos.

QUARENTA E DOIS

VIENA, USTRIA 
10H50

Alfred Hermann se despediu do comit poltico e pediu 
licena para sair da sala de jantar. Haviam lhe dito que seu 
convidado especial finalmente chegara.
Seguiu pelos corredores do trreo e entrou no espaoso 
saguo do castelo no momento em que Henrik Thorvaldsen 
entrava. Grudou um sorriso no rosto e disse em ingls:
- Henrik. Que maravilhoso v-lo!
Thorvaldsen tambm sorriu ao ver o anfitrio.
- Alfred. Eu no viria, mas decidi que simplesmente 
precisava conversar com todo mundo.
Hermann se aproximou e os dois se apertaram as mos. Ele 
conhecia Thorvaldsen havia quarenta anos, e o dinamarqus 
havia mudado pouco. A coluna rgida e torta sempre estivera 
ali, dobrada num ngulo grotesco como um pedao de lata 
amassada. Ele sempre admirara as emoes disciplinadas de 
Thorvaldsen, que permaneciam de modo estudado, educado, 
como se ele estivesse seguindo um programa fixo na 
memria. E isso exigia talento. Mas Thorvaldsen era judeu. 
No devoto nem explcito, mas, mesmo assim, era judeu. 
Pior: era amigo ntimo de Cotton Malone, e Hermann estava 
convencido de que Thorvaldsen no viera  Assemblia para 
um contato social.
- Fico feliz em v-lo aqui - disse Hermann. - Tenho muita 
coisa para conversar com voc.
Os dois freqentemente passavam tempo juntos na 
Assemblia. Thorvaldsen era um dos poucos membros cuja 
fortuna podia competir com a de Hermann. Era 
profundamente ligado  maioria dos governos da Europa, e 
seus bilhes de euros falavam por si.
Um brilho apareceu nos olhos do dinamarqus.
- Estou ansioso para ouvir tudo.
- E quem  este? - perguntou Hermann, indicando o garoto 
ao lado de Thorvaldsen.
- Gary Malone. Est comigo por algumas semanas enquanto 
o pai viaja, e decidi traz-lo.
Fascinante. Thorvaldsen o estava testando.
- Maravilhoso. Viro mais alguns jovens com outros 
membros. Vou me certificar de que todos sejam 
adequadamente entretidos.
- Como eu tinha certeza que voc faria.
Os empregados entraram com as bagagens. Hermann fez um 
gesto, e as bagagens foram levadas ao segundo andar. Ele j 
havia designado o quarto que Thorvaldsen ocuparia.
- Venha, Henrik. Ao meu escritrio, enquanto seus 
pertences so acomodados. Margarete est ansiosa para v-
lo.
- Mas estou com o Gary.
- Traga-o. Vai ser timo.
Malone tomou seu caf-da-manh e tentou avaliar Jimmy 
McCollum, mas se perguntava seriamente se aquele era o 
verdadeiro nome do sujeito.
- Vai me dizer qual  o seu interesse em tudo isso? - 
perguntou McCollum. - A Biblioteca de Alexandria no  
exatamente o Santo Graal. Outros procuraram, mas em geral 
so fanticos ou malucos. Voc no parece uma coisa nem 
outra.
- Nem voc - disse Pam. - Qual  o seu interesse?
- O que aconteceu com seu brao?
- Quem lhe disse que alguma coisa aconteceu? 
McCollum levou uma garfada de ovos  boca.
- Voc o est segurando como se estivesse quebrado.
- Talvez esteja.
- Certo, no vai me contar. 
-McCollum encarou Malone. 
- H um monte de desconfiana aqui para com uma pessoa 
que salvou a pele de vocs dois.
- Ela fez uma boa pergunta. Qual  o seu interesse na 
biblioteca?
- Digamos que, se eu encontrasse alguma coisa, h pessoas 
que recompensariam meus esforos em muitos sentidos. 
Pessoalmente, acho que  perda de tempo. Mas tenho de me 
perguntar por que pessoas esto matando umas s outras. 
Algum sabe de alguma coisa.
Malone decidiu lanar uma pequena isca na gua.
- A saga do heri, que voc mencionou. Sei sobre ela. So 
pistas que levam at a biblioteca. - Ele fez uma pausa. - 
Supostamente.
- Ah, elas levam. Acredite. Outros j estiveram l. Nunca 
conheci nem falei com nenhum deles. Mas ouvi falar da 
experincia. A saga do heri  real, assim como os 
Guardies.
Outra palavra-chave. O sujeito era bem informado. Malone 
voltou a ateno para um bolinho ingls, que cobriu de 
gelia de ameixa.
- O que podemos fazer um pelo outro?
- Que tal me dizer por que estava na Bainbridge Hall?
- A epifania de So Jernimo.
- Ora, esta  nova. Poderia explicar?
- De onde voc ? - perguntou Malone subitamente.
McCollum deu um risinho.
- Ainda est me avaliando? Certo, vou entrar no jogo. Nasci 
no grandioso estado do Kentucky. Louisville. E antes que 
pergunte, no cursei faculdade. Exrcito. Foras especiais. - 
Ou seja: se eu verificar, ser que vou encontrar um recruta 
chamado Jimmy McCollum? Est na hora de cair na real. - 
Odeio dizer, mas tenho um passaporte e uma certido de 
nascimento, e voc vai encontrar meu nome neles. Cumpri 
meu tempo. Dispensado com honras. Mas isso tudo 
realmente importa? Parece que a nica coisa que conta  o 
aqui e agora.
- Voc est atrs de qu? - perguntou Malone.
- Espero que haja muitas coisas quando essa biblioteca for 
encontrada, mas ainda no sei qual  o seu interesse.
- Essa busca pode ser um desafio.
- Ora,  a primeira coisa que voc diz e faz sentido.
- Quero dizer, h outros que tambm podem estar 
procurando.
- Diga algo que eu no saiba.
- Que tal os israelenses?
Malone captou um momento de perplexidade nos olhos 
animados de McCollum, depois a clareza retornou, junto 
com um sorriso.
- Adoro um desafio. 
Hora de puxar a linha.
- Estamos com A epifania de So Jernimo.
- Vai servir muito se voc no souber qual  o significado. 
Malone concordou.
- Eu tenho a saga do heri - disse McCollum.
Essa revelao segurou a ateno de Malone, em especial 
porque George Haddad no lhe deixara os detalhes dessa 
jornada.
- O que eu quero saber - continuou McCollum : - voc tem 
o romance de Thomas Bainbridge?
Pam ainda estava comendo: um pouco de frutas com 
iogurte. Ela certamente conhecia a primeira regra dos 
advogados - jamais revelar o que sabemos - porm Malone 
decidiu que, para receber, teria de dar.
- Tenho. Depois, para hipnotizar o ouvinte, acrescentou: - E 
mais. 
McCollum franziu o rosto em admirao.
- Eu sabia que havia escolhido bem quando decidi salvar a 
pele de vocs.

Hermann ficou olhando Thorvaldsen e o garoto sarem do 
escritrio. Margarete estava ao seu lado. Tinham tido uma 
agradvel conversa de trinta minutos.
- O que est pensando? - perguntou  filha.
- Henrik  o de sempre. Pega muito mais do que d.
- Essa  a natureza dele, assim como a minha. - E deveria ser 
a sua, tambm, pensou. - Sentiu alguma coisa?
Ela balanou a cabea.
- Nada em relao ao garoto? - perguntou ele.
- Parecia bem-educado.
Hermann decidiu contar algo que ela no sabia.
- Henrik est envolvido perifericamente com uma iniciativa 
atual do Crculo.  fundamental para o que discutimos 
durante o caf-da-manh.
- A Biblioteca de Alexandria? 
Ele assentiu.
- Um dos amigos ntimos dele, um homem chamado Cotton 
Malone, faz parte do que est acontecendo.
- Sabre est cuidando da operao?
- Exatamente. Tudo est seguindo de acordo com os planos.
- O garoto se chama Malone. 
Ele tambm faz parte disso?
-  filho de Cotton Malone.
O rosto dela demonstrou surpresa.
- Por que ele est aqui?
- Na verdade, isso foi esperteza da parte do Henrik. Com os 
membros presentes, todos estaremos nos comportando do 
melhor modo possvel. Este pode ser o lugar mais seguro 
para os dois. Claro, s vezes, acidentes acontecem.
- Voc machucaria o garoto? 
Ele a encarou com firmeza.
- Farei o que for necessrio para proteger nossos interesses. 
Como voc deveria estar disposta a fazer.
Ela no disse nada, e ele lhe permitiu um momento para 
pensar. Por fim, Margarete perguntou:
- Precisamos que um acidente acontea?
Hermann ficou feliz porque ela estava comeando a 
entender a seriedade da coisa.
- Depende do que nosso caro amigo Henrik tenha em 
mente. 

- Como conseguiu esse nome? - perguntou McCollum. - 
Cotton.
- Na verdade,  bem... - comeou Pam. 
Malone interrompeu-a.
-  uma longa histria. Podemos falar disso outra hora. Neste 
momento, quero saber sobre a saga do heri.
- Voc  sempre sensvel assim em relao ao seu nome?
- Sou sensvel em relao a perder tempo.
McCollum estava terminando um prato de frutas. Malone 
notou que o sujeito comia de modo saudvel. Aveia, 
morangos, ovos, suco.
- Certo, Malone. Eu tenho a saga. Recuperei-a de um 
convidado que morreu antes de partir.
- Ao sua?
- Dessa vez, no. Causas naturais. Encontrei-o e roubei a 
saga. No pergunte quem era, porque no vou dizer. Mas 
tenho as pistas.
- E sabe se so verdadeiras? 
McCollum deu um risinho.
- No meu ramo de negcios, nunca se sabe disso at chegar 
l. Mas vou me arriscar.
- De que voc realmente precisa? - perguntou Pam. Ela 
ficara num silncio pouco caracterstico durante o caf-da-
manh. - Obviamente, voc sabe mais que ns. Por que 
perder tempo conosco?
- Para ser honesto, tenho um problema. Um problema que 
no consigo resolver. Achei que vocs dois poderiam ajudar 
um pouco. Em troca, estou disposto a compartilhar o que 
tenho.
- E est disposto a atirar na cabea de dois homens - disse 
Malone.
- Eles teriam feito o mesmo com vocs. O que, por sinal, 
deveria levar vocs a pensar. Quem ia querer isso?
Excelente pergunta, pensou Malone. Ningum os havia 
seguido de Londres, disso tinha certeza. No fazia sentido os 
assassinos estarem esperando por eles na Bainbridge Hall. 
Ele s decidira fazer a visita algumas horas antes.
- Essa saga - disse McCollum - tem muito mais do que eu 
havia pensado inicialmente. Agora voc me diz que os 
judeus tambm esto envolvidos.
- Um amigo meu foi morto ontem, o que deveria acabar 
com o interesse de Israel.
- Esse amigo sabia algo sobre a biblioteca?
- Foi o que o levou a ser morto.
- No  o primeiro.
Malone precisava saber uma coisa.
- Presumo que voc vai querer oferecer os manuscritos 
encontrados a comerciantes.
McCollum deu de ombros.
- Quero lucrar com meu trabalho. Isso incomoda voc?
- Se os manuscritos ainda existirem, precisariam ser 
preservados e estudados.
- No sou ganancioso, Malone. Certamente em algum lugar 
da descoberta haver algumas migalhas que eu poderia 
vender em troca do trabalho. - McCollum fez uma pausa. - 
Junto com o crdito pela descoberta, claro. Isso, em si, 
valeria alguma coisa.
- Fama e fortuna - disse Pam.
- A recompensa imemorial - disse McCollum. - As duas tm 
aspectos satisfatrios.
Malone j ouvira o suficiente.
- Fale das pistas.
McCollum estava sentado diante deles, elevado como uma 
divindade, malicioso como um demnio. Esse sujeito 
precisava ser vigiado. Matava com facilidade demais. Mas se 
possua a saga do heri, poderia ser o nico caminho dos 
dois.
McCollum enfiou a mo no bolso e pegou um pedao de 
papel.
-  assim que ela comea. 
Malone pegou a pequena folha e leu.

Como so estranhos os manuscritos, grande viajante do 
desconhecido. Eles aparecem separadamente, mas para os 
que sabem, parece que as cores do arco-ris se tornam uma 
nica luz branca. Como encontrar esse raio nico?  um 
mistrio, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belm, 
dedicada ao nosso santo padroeiro.

- Onde est o resto? 
McCollum deu um risinho.
- Deduza esta parte, depois veremos. Um passo de cada vez. 
Malone se levantou.
- Aonde voc vai? - perguntou McCollum.
- Ganhar meu po de cada dia.

QUARENTA E TRS

WASHINGTON, D.C. 
5H30

Stephanie havia enfrentado muitas coisas, mas jamais a 
priso. Larry Daley estava aumentando a aposta.
- Temos de atacar o Daley agora - ela deixou claro. 
Stephanie, Green e Cassiopeia estavam de p na cozinha de 
Green, enquanto o caf era preparado na bancada. O aroma 
fez com que ela se lembrasse que estava com fome.
- O que voc tem em mente? - perguntou Cassiopeia.
Jamais, em 12 anos, ela havia comprometido a segurana do 
Setor. Era fiel ao juramento. Mas um abismo de dvidas a 
deixava insegura em relao ao que fazer em seguida. Por 
fim, decidiu que havia apenas uma opo e disse:
- Estvamos investigando o Daley.
Uma nova seriedade varreu o rosto de Green.
- Explique.
- Eu queria saber o que o movia, por isso designei uma 
agente para descobrir. Ela trabalhou nele, esporadicamente, 
durante quase um ano. Fiquei sabendo um bocado de coisas.
- Voc continua me espantando, Stephanie. Sabe o que teria 
acontecido se ele descobrisse?
- Acho que eu seria demitida; portanto, o que isso importa 
agora?
- Daley est tentando matar voc. Talvez ele saiba.
- Duvido. Ela era boa. Mas Daley est enfiado at os olhos 
em encrenca. Voc disse antes que nunca havia descoberto 
uma violao da lei. Eu descobri. Um monte. Financiamento 
de campanha, suborno, fraude. Daley  o canal para o que as 
pessoas de posses precisam obter da Casa Branca, pessoas 
que no querem que seus nomes apaream em formulrios.
- Por que no agiu contra ele?
- Estava planejando agir, ento esse vazamento aconteceu. 
Isso teve de esperar.
- E agora, que ele est no comando do Setor Magalhes, ser 
que vai descobrir o que voc fez? - perguntou Cassiopeia.
Ela balanou a cabea.
- Tenho todas as informaes guardadas em outro lugar, e a 
agente que fez as investigaes se transferiu do Setor h 
meses. S ela e eu sabamos.
Green serviu duas canecas de caf.
- O que voc quer fazer?
- Como tenho aqui minha amiga que possui tantas 
habilidades, acho que poderamos terminar a investigao.
- No gosto nem um pouco disso - reagiu Cassiopeia. Green 
fez um gesto.
- As senhoras podem pr o que quiserem no caf.
- Voc no toma? - perguntou Stephanie.
- Nunca.
- Ento por que tem uma cafeteira?
- Costumo receber visitas. - Ele fez uma pausa. - 
Ocasionalmente.
A solidez de Green, sua confiabilidade masculina, deu lugar 
por um instante a uma sinceridade de menino, e ela gostou 
daquilo.
- Algum que eu conhea? - perguntou Stephanie. 
Green sorriu.
- Voc  cheio de surpresas - disse ela.
- Muito parecido com algum que todos ns conhecemos - 
disse Cassiopeia, tomando o caf.
Green assentiu, parecendo gostar da mudana de assunto.
- Henrik  um homem fascinante. Sempre um passo  
frente. Mas e voc, Stephanie? O que quer dizer com 
terminar a investigao?
Ela saboreou a bebida fumegante e deixou que um gole 
esquentasse sua garganta.
- Temos de fazer uma visita  casa dele.
- Por qu? - perguntou Cassiopeia. - Mesmo que 
consegussemos entrar, o computador dele certamente  
protegido por senha.
Ela sorriu.
- Isso no  problema.
Green a examinou com ar de curiosidade, depois no pde 
mais esconder a perplexidade.
- Voc no precisa de senha, no ? Ela balanou a cabea e 
disse:
-  hora de pegar aquele FDP.

Malone entrou no centro de negcios do Savoy. As 
espaosas instalaes eram totalmente equipadas com 
computadores, mquinas de fax e copiadoras. Disse ao 
empregado o que necessitava e foi rapidamente levado a um 
terminal, com o custo debitada na conta de McCollum.
Comeou a sentar-se, mas Pam o interrompeu.
- Posso? - perguntou ela.
Ele decidiu conceder-lhe a honra. Na vinda do caf, Malone 
vira que Pam sabia o que ele pretendia fazer.
- Por que no? Pode ir fundo.
Entregou-lhe o papel com o incio da saga e depois encarou 
McCollum.
- Voc disse que conseguiu isso recentemente?
- No. No mencionei uma ocasio. Bela tentativa, Malone.
- Preciso saber.  importante. Nos ltimos meses? 
O benfeitor hesitou, depois assentiu.
Malone estivera pensando.
- Pelo que sei, os Guardies vm convidando pessoas para a 
biblioteca h sculos. Eles adaptam a busca ao tempo. 
Aposto que adaptam at ao convidado. Por que no? Tornam 
pessoal. Eles tm um trabalho enorme para todas as outras 
coisas. Por que no com isso?
McCollum assentiu.
- Faz sentido.
Pam estava digitando.
- A primeira parte - disse Malone. - Como so estranhos os 
manuscritos, grande viajante do desconhecido. Eles 
aparecem separadamente, mas para os que sabem, parece 
que as cores do arco-ris se tornam uma nica luz branca. 
Como encontrar esse raio nico? Isso  bobagem. S um 
modo de dizer que h muitas informaes. Mas a parte 
seguinte:  um mistrio, mas visite a capela junto ao Tejo, 
em Belm, dedicada ao nosso santo padroeiro.  a que 
comeamos.
- Entendi - disse Pam.
Ele sorriu. Ela estava  sua frente, e Malone gostava disso.
- Fiz uma busca sobre Tejo e Belm.
- Isso no  fcil demais? - perguntou McCollum.
- Os Guardies no podem desconhecer o mundo. A 
internet existe, ento por que eles no presumiriam que um 
convidado poderia us-la?
Olhou para a tela. O site que Pam havia encontrado era de 
Portugal, uma pgina de viagem e turismo que mostrava 
atraes locais em Lisboa e ao redor.
- Belm - disse Pam. - Perto do centro da cidade. Onde o rio 
Tejo encontra o mar.
Malone leu sobre a ponta de terra a sudoeste do centro de 
Lisboa. O lugar onde havia muito tempo as caravelas 
portuguesas partiam para o mundo ocidental. Vasco da Gama 
para a ndia, Magalhes para circunavegar o globo, Dias para 
rodear o Cabo da Boa Esperana. Belm acabou florescendo 
graas s riquezas - principalmente especiarias - que vinham 
do Novo Mundo. O rei portugus construiu um palcio de 
vero ali, e cidados ricos foram em bando rode-lo. 
Antigamente era uma municipalidade separada, mas agora 
representava um m para turistas que vinham desfrutar suas 
lojas, seus cafs e museus.
- Henrique, o Navegador,  ligado ao local - disse Pam.
- Vamos descobrir sobre uma capela dedicada ao nosso santo 
padroeiro - sugeriu Malone.
Alguns cliques do mouse, e Pam apontou para a tela.
- Estou muito  sua frente.
Um monstruoso prdio de pedra gasta pelo tempo encheu a 
tela. Pinculos elaborados subiam para um cu nublado. A 
aparncia combinava arquitetura gtica e renascentista com 
bvias influncias mouras. Imagens ousadas salpicavam a 
fachada de pedra.
- Mosteiro de Santa Maria de Belm - leu ele na tela.
Pam subiu a imagem, e Malone leu que aquele era um dos 
monumentos mais conhecidos de Portugal, freqentemente 
citado como o Mosteiro dos Jernimos. Muitas das principais 
figuras do pas, inclusive reis e rainhas, estavam enterrados 
ali.
- Por que isso apareceu? - perguntou ele a Pam. 
Ela clicou num link.
- Digitei vrias palavras-chave e o mecanismo de busca 
apontou direto para c. Em 1498, quando Vasco da Gama 
retornou da viagem durante a qual descobriu o caminho para 
as ndias, o rei portugus garantiu recursos financeiros para 
construir o mosteiro. A Ordem de So Jernimo tomou 
posse do lugar em 1500, e a pedra fundamental foi posta em 
6 de janeiro de 1501.
Malone sabia da importncia dessa data desde a infncia. Sua 
me era catlica e eles iam regularmente  igreja, em 
especial depois da morte de seu pai. Dia 6 de janeiro. Festa 
da epifania.
Seria isso que Haddad havia escrito em seu dirio?
Grandes sagas costumam comear com uma epifania.
- A capela principal do mosteiro - disse Pam - foi dedicada a 
So Jernimo. Cotton, voc se lembra do que Haddad falou 
sobre ele.
Malone se lembrava. Era um antigo patriarca da igreja que, 
no sculo IV, traduziu muitos textos da escritura para o 
latim, inclusive o Velho Testamento.
- H um link para mais coisas sobre So Jernimo - disse ela, 
e a tela mudou com outro clique do mouse.
Os trs leram. Malone viu primeiro.
- Ele  o santo padroeiro das bibliotecas. Parece que esta saga 
se inicia em Lisboa.
- Nada mau, Malone.
- Ganhamos nosso po de cada dia?
- Como falei, sou pssimo para charadas. Vocs dois 
parecem ser bons nisso. Mas o resto  mais difcil.
Malone riu.
- Que tal tentarmos juntos e vermos aonde vai dar?

QUARENTA E QUATRO

VIENA 
13H

Thorvaldsen saiu do banheiro e ficou olhando Gary desfazer 
as malas. Alm do que estava usando ao ser seqestrado 
alguns dias antes, o garoto no tinha roupas. Assim, no dia 
anterior, Jesper havia ido a Copenhague e comprado algumas 
coisas.
- Esta casa  velha, no ? - perguntou Gary.
- Foi construda h muitas geraes, como Christiangade.
- H muita coisa velha na Europa. No  como nos Estados 
Unidos. Thorvaldsen riu.
- Ns estamos por aqui h um pouco mais de tempo.
- Quarto fantstico.
O velho tambm achava as acomodaes interessantes. No 
segundo andar. Perto do anfitrio. Era a primeira vez, para 
ele. Um aposento requintado, com mveis femininos, que 
certamente j havia pertencido a uma mulher de bom gosto.
- Voc gosta de histria? - perguntou Thorvaldsen. Gary deu 
de ombros.
- No gostava at os dois ltimos veres.  muito mais 
interessante aqui, quando a gente v.
O velho decidiu que era hora de contar ao garoto a situao 
em que estavam.
- O que achou de nosso anfitrio e da filha dele?
- No muito amigveis. Mas parecem gostar de voc.
- Conheo Alfred h muito tempo, mas acho que ele est 
tramando alguma coisa.
Gary sentou-se na cama.
- Acho que ele pode estar por trs do seu seqestro.
Ficou olhando enquanto o garoto comeava a perceber a 
encrenca.
- Tem certeza?
Thorvaldsen balanou a cabea.
-  por isso que estamos aqui. Para descobrir.
- Eu tambm quero saber. Aqueles homens magoaram 
minha me, e no gosto disso.
- Est com medo?
- Voc no me traria aqui se eu estivesse correndo perigo. 
Ele gostou da resposta. O garoto era esperto.
- Voc viu dois homens morrerem. Poucos jovens de 15 
anos podem dizer isso. Voc est bem?
- O que papai matou merecia aquilo. Tentou me levar 
embora. Papai fez o que devia. O que voc vai fazer?
- No sei bem. Mas muita gente estar aqui nos prximos 
dias. Gente poderosa. Com eles, posso descobrir o que temos 
de saber.
- Isso  como uma espcie de clube?
- Pode-se dizer que sim. Pessoas com interesses semelhantes 
que se juntam para falar desses interesses.
Na mesinha-de-cabeceira, o celular tocou. Thorvaldsen foi 
at l e olhou o nmero. Era Jesper. Apertou o boto de 
falar.
- Estou recebendo um telefonema. De Tel Aviv.
- Ento vamos ouvir.
Alguns segundos depois, quando a conexo foi estabelecida, 
Thorvaldsen escutou uma voz profunda de bartono 
perguntar:
- Henrik, o que andou fazendo?
- Como assim?
- No banque o ingnuo. Quando voc ligou ontem, eu 
fiquei com suspeitas, mas agora estou totalmente paranico.
Na vspera, ele havia telefonado para o escritrio do 
primeiro-ministro de Israel. Como doava milhes s causas 
dos judeus e financiava uma quantidade de polticos 
israelenses, inclusive o atual primeiro-ministro, seu 
telefonema no fora ignorado. Ele fizera uma pergunta 
simples: qual era o interesse de Israel em George Haddad? 
De propsito, no havia falado diretamente com o primeiro-
ministro, direcionando a pergunta por intermdio de seu 
chefe de staff, que agora, como ele notou, estava inquieto.
- Descobriu uma resposta para a minha pergunta?
- O Mossad nos disse para cuidar da nossa vida.
-  assim que eles falam com quem est no poder?
- , quando querem que cuidemos da nossa vida.
- Ento vocs no tm resposta?
- No falei isso. Eles querem George Haddad morto e 
querem que Cotton Malone seja parado. Parece que Malone 
e a ex-mulher esto, no momento, a caminho de Lisboa, e 
isso depois de quatro pessoas serem mortas ontem  noite 
num museu a oeste de Londres. De modo interessante, os 
ingleses sabem que Malone estava envolvido nas mortes, 
mas no tentaram peg-lo. Deixaram-no sair do pas. Nosso 
lado acha que foi porque os americanos deram luz verde 
para o que ele fez. Acham que a Amrica voltou para os 
nossos negcios, no que tange a George Haddad.
- Como  que seus subordinados sabem disso?
- Eles tm linha direta com Malone. Sabem exatamente 
onde est e o que est fazendo. Alm do mais, vm 
prevendo isso h algum tempo.
- Parece que todo mundo anda ocupado por a.
- Para dizer o mnimo. O primeiro-ministro e eu 
valorizamos sua amizade. Voc  um patrono desta nao. 
Por isso est recebendo este telefonema. O Mossad vai tirar 
Malone da linha. H agentes a caminho de Lisboa. Se puder 
alert-lo, faa isso.
- Eu gostaria de poder, mas no tenho como.
- Ento, que Deus olhe por ele. Malone vai precisar. 
A linha ficou muda.
Thorvaldsen apertou o boto e desligou o celular. 
Em seguida, retomou a compostura.
- S um probleminha com uma das minhas empresas. Ainda 
tenho negcios a fazer, sabe?
O garoto pareceu aceitar a explicao.
- Voc disse que estvamos aqui por causa de uma espcie 
de clube, mas no contou o que isso tem a ver comigo.
- Na verdade, esta  uma tima pergunta. Deixe-me 
responder enquanto caminhamos. Venha, vou lhe mostrar a 
propriedade.

Alfred Hermann ouviu a porta do quarto de Henrik 
Thorvaldsen se fechar. O equipamento de escuta instalado 
no aposento havia funcionado perfeitamente. Margarete 
estava sentada  sua frente enquanto ele desligava o alto-
falante.
- Esse dinamarqus  um problema - disse Margarete.
Ela havia demorado muito a perceber. Sem dvida 
Thorvaldsen estava ali para sondar, mas Hermann ficou 
pensando no telefonema. Seu velho amigo havia dito pouca 
coisa para indicar a natureza da ligao, e Hermann duvidava 
que tivesse algo a ver com negcios.
- Ele est certo? - perguntou Margarete. - Voc seqestrou o 
garoto?
Ele lhe permitira ouvir por um motivo, por isso assentiu.
-  parte do nosso plano. Mas tambm permitimos que ele 
fosse salvo. No momento, Dominick est cultivando as 
sementes que plantamos.
- A biblioteca? 
Ele assentiu.
- Achamos que temos a pista.
- E voc planeja dar essa informao a Sabre?
- Ele  nosso emissrio.
Ela balanou a cabea, enojada.
- Papai, ele  um oportunista ganancioso. Digo isso h anos. 
A pacincia de Hermann acabou.
- Eu no lhe permiti ficar sabendo o que est acontecendo 
para podermos discutir. Preciso da sua ajuda.
Ele viu que ela havia captado a tenso em sua voz.
- Claro. Eu no pretendia passar do ponto.
- Margarete, o mundo  um lugar complicado. Temos de 
usar os recursos disponveis. Concentre-se. Ajude-me a lidar 
com isso que est acontecendo e deixe Dominick se 
preocupar com a parte dele.
Ela respirou fundo e exalou devagar por entre os dentes 
trincados, hbito que empregava rotineiramente quando 
estava nervosa.
- O que quer que eu faa?
- Ande por a. Esbarre casualmente com Henrik. O sujeito 
acha que est em segurana aqui. Faa com que ele se sinta 
assim.

QUARENTA E CINCO

WASHINGTON, D.C. 
10H30

Stephanie no gostou de sua nova aparncia. O cabelo louro-
prateado estava agora castanho-claro, resultado de um 
tingimento rpido feito por Cassiopeia. Maquiagem 
diferente, novas roupas e um par de culos transparentes 
completavam a alterao. No estava perfeita, mas era o 
bastante para ajud-la a se esconder em pblico.
- No uso calas de l Geraldine h muito tempo - disse a 
Cassiopeia.
- Paguei muito por elas; portanto, tenha cuidado. 
Ela riu.
- Como se voc no pudesse pagar por isso.
Uma blusa de gola canoa e um casaco azul-marinho 
completavam a figura. Estavam sentadas no banco de trs de 
um txi, no trnsito do fim da manh.
- Mal a reconheci - disse Cassiopeia.
- Est dizendo que eu me visto como uma velha?
- Seu guarda-roupa merecia um pouco de atualizao.
- Talvez, se eu sobreviver a tudo isso, voc possa me levar s 
compras.
Um brilho de diverso surgiu nos olhos de Cassiopeia. 
Stephanie gostava dela. Sua confiana podia ser contagiosa.
Iam  casa de Larry Daley. Ele morava em Cleveland Park, 
um belo bairro residencial no muito longe da catedral 
nacional. Ex-refgio de moradores de Washington que 
buscavam escapar do calor da cidade, agora abrigava lojas de 
curiosidades, cafs da moda e um popular teatro art dco.
Ela mandou o motorista parar a trs quarteires do endereo 
e pagou a corrida. Andaram pelo resto do caminho.
- Daley  um escroto arrogante - disse Stephanie. - Acha que 
ningum est olhando para ele. Mas mantm registros. Se 
voc me perguntar,  uma tremenda idiotice, mas ele faz 
isso.
- Como voc chegou perto dele?
- Ele  mulherengo. Simplesmente lhe dei a oportunidade.
- Papo de travesseiro?
- Do pior tipo.
A casa era mais um retiro vitoriano. A princpio, ela havia se 
perguntado como Daley podia pagar a hipoteca certamente 
astronmica, mas ficou sabendo que era alugada. Um 
adesivo numa janela do trreo dizia que a residncia tinha 
alarme. Era o meio do dia, e Daley devia estar na Casa 
Branca, onde ficava pelo menos 18 horas. A imprensa 
conservadora adorava elogiar sua tica profissional, mas 
Stephanie no se deixava enganar. Ele s no queria ficar de 
fora do crculo nem por um momento.
- Fao um trato com voc - disse ela.
O rosto de Cassiopeia se derreteu num riso esperto.
- Quer que eu invada?
- Depois eu cuido do alarme.
Sabre estava se ajustando  personalidade de Jimmy 
McCollum. J o nome, em si, era outra coisa. Ele no o usava 
havia muito tempo, mas achou prudente fazer isso, dado que 
Malone poderia muito bem tentar verific-lo. Nesse caso, ele 
apareceria nos registros do exrcito. Havia uma certido de 
nascimento, carto do seguro social e pouca coisa mais, 
porque ele havia trocado de nome assim que se mudara para 
a Europa. Dominick Sabre dava um ar de confiana e 
mstica. Os homens que o haviam contratado sabiam pouco 
mais que seu nome, de modo que era importante que o 
rtulo provocasse a atrao correta. Ele o havia encontrado 
num cemitrio alemo, de um aristocrata morto na dcada 
de 1800.
Agora era Jimmy McCollum de novo.
Sua me lhe dera o nome de James por causa do pai dela, a 
quem ele chamava de Paizo - um dos poucos homens em 
sua vida que lhe haviam demonstrado respeito. Sabre no 
conhecera o pai, nem acreditava que a me soubesse qual 
dos amantes poderia ser o culpado. Apesar de ter sido uma 
boa me e de t-lo tratado com gentileza, fora uma mulher 
digna de pena, indo de homem em homem, casando-se trs 
vezes e desperdiando todo o dinheiro que tinha. Ele saiu de 
casa aos 18 anos, para entrar para o exrcito. Ela queria que 
ele fosse para a faculdade, mas os estudos no lhe 
interessavam. Em vez disso, como a me, o que o atraa era a 
oportunidade.
Mas, diferentemente dela, conseguira aproveitar cada uma 
que aparecera.
O exrcito. As foras especiais. A Europa. Os Cadeiras da 
Ordem. 
Durante 16 anos havia trabalhado para os outros, fazendo o 
que mandavam, aceitando pagamentos, satisfeito com os 
elogios magros. 
Agora era hora de trabalhar por conta prpria. 
Arriscado? Certamente.
Mas o Crculo respeitava o poder, admirava a inteligncia e 
negociava somente com a fora. Ele queria fazer parte. 
Talvez at mesmo ser um Cadeira. Mais ainda, se a biblioteca 
perdida de Alexandria contivesse o que Alfred Hermann 
acreditava, ele poderia at afetar o mundo.
Isso significava poder.
Em suas mos.
Tinha de encontrar a biblioteca.
E o homem sentado do outro lado do corredor no vo da 
TAP de Londres a Lisboa iria lhe mostrar o caminho.
Cotton Malone e a ex-mulher haviam solucionado a 
primeira parte da saga do heri em alguns minutos. Sabre 
confiava que os dois poderiam decifrar o resto e, assim que 
isso estivesse feito, ele os eliminaria.
Mas no era idiota. Malone certamente estaria cauteloso. 
Sabre s precisava ser imprevisvel.

Stephanie ficou olhando enquanto Cassiopeia arrombava a 
fechadura da porta dos fundos da casa de Larry Daley.
- Menos de um minuto - disse ela. - Nada mau. Ensinam isso 
em Oxford?
- Na verdade, aprendi a arrombar minha primeira fechadura 
l. Um armrio de bebidas, se me lembro bem.
Ela abriu a porta e prestou ateno.
Bips soaram num corredor adjacente. Stephanie correu at o 
teclado e apertou um cdigo de quatro dgitos, esperando 
que o idiota no tivesse alterado a seqncia.
Os bips pararam e a luz indicadora mudou de vermelho para 
verde.
- Como voc sabia?
- Minha garota o viu digitar. 
Cassiopeia balanou a cabea.
- Ele no  mesmo um idiota?
- Isso se chama pensar com a cabea errada. Daley achava 
que ela s estava ali para satisfaz-lo.
Examinou o interior iluminado pelo sol. Decorao 
moderna. Muito preto, prata, branco e cinza. Arte abstrata 
nas paredes. Nenhum significado em lugar nenhum. Que 
adequado!
- O que estamos querendo? - perguntou Cassiopeia.
- Por aqui.
Ela seguiu por um corredor curto at uma alcova, que, como 
sabia, servia de escritrio. Sua agente havia informado que 
Daley baixava tudo em pen drives protegidos por senha, 
jamais mantendo qualquer dado no laptop nem no 
computador da Casa Branca. A garota de programa que sua 
agente havia contratado para seduzir Daley viu essa 
idiossincrasia numa noite enquanto Daley trabalhava no 
computador e ela trabalhava nele.
Disse a Cassiopeia o que sabia.
- Infelizmente, ela no viu onde era o esconderijo.
- Estava ocupada demais? 
Stephanie sorriu.
- Todos temos nossos trabalhos. E no seja do contra. As 
garotas de programa esto entre as fontes mais produtivas.
- E voc diz que eu sou deturpada.
- Precisamos encontrar o esconderijo.
Cassiopeia sentou-se numa poltrona de madeira que aceitou 
seu peso com guinchos e gemidos.
- Tem de estar ao alcance fcil.
Stephanie fez um inventrio da alcova. A mesa tinha um 
mata-borro, um suporte com canetas e lpis e fotos de 
Daley com o presidente e o vice-presidente, alm de uma 
luminria de leitura. Estantes estreitas, do cho ao teto, 
ocupavam duas paredes. Toda a alcova teria menos de um 
metro quadrado. O piso, como o do resto da casa, era de 
madeira-de-lei.
No havia muitos esconderijos.
Os livros nas estantes atraram sua ateno. Daley parecia 
adorar tratados de poltica. No eram muitos: cerca de uma 
centena. Brochuras e de capa dura, misturados, muitas 
lombadas com rachaduras, indicando que as pginas haviam 
sido lidas. Balanou a cabea.
- Um conhecedor de poltica moderna, e l todos os lados.
- Por que voc tem essa atitude em relao a ele?
-  que eu sempre senti que precisava tomar um banho 
depois de estar perto dele. Para no mencionar que ele 
tentou me demitir desde o primeiro dia. - Ela fez uma pausa. 
- E finalmente conseguiu.
Uma chave fez barulho na fechadura da frente. 
A cabea de Stephanie virou. Olhou pelo corredor, na 
direo da frente da casa.
A porta se abriu e ela escutou a voz de Larry Daley. Depois 
ouviu outra pessoa. Uma mulher. 
Heather Dixon.
Fez um sinal, e as duas foram rapidamente pelo corredor at 
um dos quartos.
- Deixe-me desligar o alarme - disse Daley. 
Alguns segundos de silncio.
- Estranho - observou Daley.
- Problema?
Stephanie soube imediatamente. Elas haviam esquecido de 
ligar de novo o sistema depois de entrar.
- Tenho certeza de que liguei o alarme antes de sair - disse 
Daley. 
Alguns instantes de silncio, ento Stephanie ouviu o estalo 
de uma bala entrando na cmara.
- Vamos dar uma olhada - disse Dixon.

QUARENTA E SEIS

LISBOA 
15H30

Malone olhou para o mosteiro de Santa Maria de Belm. Ele, 
Pam e Jimmy McCollum haviam ido de Londres a Lisboa e 
tomado um txi do aeroporto at a beira do mar.
Lisboa ficava empoleirada num amplo conjunto de morros 
que davam para o esturio do Tejo, um lugar de largos 
bulevares simtricos e belas praas arborizadas. Uma das 
maiores pontes suspensas do mundo atravessava o rio 
poderoso e levava a uma alta esttua de Cristo com os braos 
abertos, abraando a cidade a partir da margem leste. Malone 
visitara o lugar muitas vezes e sempre se lembrava de So 
Francisco, tanto na aparncia fsica quanto na propenso da 
cidade para os terremotos. Vrios haviam deixado marcas.
Todos os pases possuam coisas esplndidas. O Egito, as 
pirmides. A Itlia, a catedral de So Pedro. A Inglaterra, 
Westminster. A Frana, Versailles. Ouvindo o chofer de txi 
na corrida desde o aeroporto, ele soube que, para Portugal, o 
orgulho nacional vinha da abadia que se esparramava  sua 
frente. A fachada de calcrio branco era maior que um 
campo de futebol, envelhecida como marfim antigo, e 
combinava mourisco, bizantino e gtico francs numa 
exuberncia de decoraes que parecia soprar vida nas 
paredes altssimas.
Havia pessoas em toda parte. Um desfile de gente segurando 
mquinas fotogrficas entrava e saa. Do outro lado de um 
bulevar movimentado e de trilhos de trem que ficavam 
diante da impressionante fachada sul, nibus de turismo 
esperavam enfileirados em ngulo, como navios ancorados 
num porto. Uma placa informava aos visitantes que a abadia 
fora construda em 1500 para cumprir uma promessa feita 
pelo rei Manuel I  Virgem Maria e que fora erguida no lugar 
de um antigo hospital de marinheiros feito pelo prncipe 
Henrique, o Navegador. Colombo, Vasco da Gama e 
Magalhes haviam rezado ali antes de suas viagens. Atravs 
dos sculos, a enorme estrutura havia servido como 
convento, asilo de idosos e orfanato. Agora era tombada 
pelo Patrimnio Mundial, tendo recuperado boa parte de sua 
antiga glria.
- A igreja e a abadia so dedicadas a So Jernimo - Malone 
ouviu uma guia dizer a turistas em italiano. - Isso  simblico 
no sentido de que tanto So Jernimo quanto seu mosteiro 
representaram novos pontos de partida para o cristianismo. 
Navios partiram daqui para descobrir o Novo Mundo e levar 
Cristo a ele. So Jernimo traduziu a Bblia para o latim, para 
que mais pessoas pudessem descobrir suas maravilhas. - 
Malone podia ver que McCollum tambm entendia a 
mulher.
- O italiano  uma das suas lnguas? - perguntou.
- Sei o bastante.
- Um homem de muitos talentos.
- O que for necessrio.
Malone captou a atitude carrancuda.
- O que vem em seguida na saga?
McCollum pegou outro pedao de papel, no qual estava 
escrito parte do que havia no primeiro e mais frases cifradas.

 um mistrio, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belm, 
dedicada ao nosso santo padroeiro. Comece a viagem nas 
sombras e termine na luz, onde uma estrela que se retira 
encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte 
prata em ouro. Encontre o lugar que forma um endereo 
sem lugar, onde  encontrado outro lugar. Depois, como os 
pastores do pintor Poussin, perplexo com o enigma, voc 
ser inundado pela luz da inspirao.

Malone entregou o papel a Pam e disse:
- Certo. Vamos fazer uma visita e ver o que h.
Seguiram o denso enxame de turistas at a entrada. Uma 
placa indicava que a entrada para a igreja era grtis, mas era 
necessrio pagar o ingresso para o resto dos prdios.
Dentro da igreja, no que era identificado como o coro 
inferior, o teto cheio de arestas entre as abbadas era baixo e 
produzia uma semi-escurido imponente.  esquerda ficava 
o cenotfio de Vasco da Gama. Simples e solene, era cheio 
de smbolos nuticos. Outro tmulo, do poeta Lus de 
Cames, ficava  direita dele, junto com uma pia batismal. 
Paredes nuas nos dois nichos faziam aumentar a austeridade 
e a grandiosidade. Pessoas se apinhavam nas alcovas. 
Mquinas fotogrficas espocavam. Guias tursticos falavam 
sobre a importncia daqueles mortos.
Malone caminhou para dentro da nave e a semi-escurido 
inicial do coro inferior deu lugar a um espanto luminoso. 
Seis colunas esguias, cada qual com uma profuso de 
ornamentos entrelaados com flores esculpidas, estendiam-
se para o cu. O sol do fim de tarde se derramava por uma 
srie de vitrais. Raios e sombras perseguiam uns aos outros 
pelas paredes de calcrio, acinzentadas devido  idade. O 
teto em abbada lembrava um feixe de costelas, as colunas 
como suportes de dossel, a trama sustentada no lugar como 
o cordame de um navio. Malone sentiu a presena dos 
sarracenos que um dia governaram Lisboa e notou adornos 
bizantinos. Mil detalhes se multiplicavam ao redor, sem 
repetio.
Notvel.
Mais notvel ainda, pensou, porque os pedreiros antigos 
tiveram a coragem de construir uma coisa to enorme sobre 
o terreno trmulo de Lisboa.
Bancos de madeira que um dia acomodaram monges agora 
abrigavam apenas os curiosos. Um baixo murmrio de vozes 
ecoava na nave, periodicamente dominado por uma voz 
calma, atravs de um sistema de alto-falantes, que pedia 
silncio numa variedade de lnguas. Malone localizou a 
fonte daquele pedido. Um padre diante de um microfone, 
no altar do povo, no centro do interior em forma de cruz. 
Ningum parecia prestar ateno ao alerta - em especial os 
guias de turismo, que continuavam com seus discursos 
pagos.
- Este lugar  magnfico - disse Pam. Ele concordou.
- A placa na frente diz que fecha s 17 horas. Precisamos de 
ingressos para ver o resto.
- Vou peg-los - disse McCollum. - Mas a pista no nos leva 
somente a este lugar,  igreja?
- No fao idia. Para ter certeza, vamos dar uma olhada no 
que mais houver.
McCollum voltou pelo amontoado de gente at a entrada.
- O que voc acha? - perguntou Pam, ainda segurando o 
papel.
- Sobre ele ou sobre a saga?
- Os dois so um problema.
Ele sorriu. Ela estava certa. Mas quanto  saga:
- Parte dela agora faz sentido. Comece a jornada nas sombras 
e complete na luz. A entrada faz isso lindamente.  como 
um poro e depois se abre para um ptio luminoso.
O padre alertou de novo em voz baixa para a multido ficar 
em silncio, e de novo todos o ignoraram.
- Ele tem um trabalho difcil - disse Pam.
- Como o do garoto que anota os nomes quando a professora 
sai da sala.
- Certo, senhor gnio - disse ela. - E quanto a onde uma 
estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de 
madeira e converte prata em ouro. Encontre o lugar que 
forma um endereo sem lugar, onde  encontrado outro 
lugar?
Ele j estava pensando nisso, e sua ateno foi atrada  
frente, para a chancela, onde uma planta retangular levava a 
uma parede cncava que formava o fundo do altar elevado, 
tudo isso encimado por uma combinao de domo 
hemisfrico, cpula cilndrica e teto em caixotes de pedra. 
Colunas jnicas e corntias se erguiam simetricamente de 
trs lados da chancela, emoldurando cmaras de pedra 
abobadadas onde ficavam elaborados tmulos reais. Cinco 
pinturas envolviam a parede cncava, tudo isso atraindo o 
olhar para o majestoso sacrrio barroco que ficava no centro, 
elevado, acima do altar.
Malone serpenteou por entre os turistas parados, indo at o 
lado mais distante do altar do povo. Cordas de veludo 
barravam a entrada para a chancela. Uma placa informava 
que o sacrrio, feito inteiramente de prata, fora executado 
pelo ourives Joo de Sousa entre 1674 e 1678. Mesmo a 
cinco metros de distncia, o ornamentado repositrio, cheio 
de detalhes, parecia magnfico.
Ele se virou e olhou de novo para a nave, para alm das 
colunas e dos bancos, at o coro inferior, por onde haviam 
entrado.
Ento viu. No coro superior, para alm de uma grossa 
balaustrada de pedra, 15 metros acima do piso da igreja. No 
alto da parede exterior mais distante, um olho enorme o 
encarava. A janela circular se estendia por trs metros de 
dimetro ou mais. Caixilhos e traados se irradiavam do 
centro. As vigas de sustentao do teto teciam um caminho 
que serpenteava na direo dela e pareciam se dissolver em 
sua luminosidade sem sombras, clara como um refletor de 
palco e inundando o interior da igreja.
Um adorno comum a muitas igrejas medievais - que 
recebera o nome por causa da forma elaborada. Vitral em 
roscea.
Virado para o oeste. No fim do dia. Chamejante como o sol. 
Porm havia mais.
No centro da balaustrada do coro superior ficava uma grande 
cruz. Malone se adiantou e notou que a cruz se encaixava 
perfeitamente no crculo do vitral, com os raios brilhantes 
passando por ela e chegando  nave.
Onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma 
cruz de madeira e converte prata em ouro.
Pelo jeito, haviam encontrado o lugar.




QUARENTA E SETE

VIENA 
16H30

Thorvaldsen admirou o espetculo de Alfred Hermann: 
flores, gua e mrmore, o enorme jardim representando um 
trabalho bvio de vrias geraes. Caminhos sombreados 
serpenteavam a partir do castelo at vales gramados, trilhas 
caladas de tijolos ladeadas por esttuas, baixos-relevos e 
fontes. De vez em quando, as influncias francesas davam 
lugar a um claro gosto pela Itlia.
- Quem so os donos deste lugar? - perguntou Gary.
- Os Hermann so uma famlia antiga na ustria, assim 
como a minha na Dinamarca. Muito ricos e poderosos.
- Ele  seu amigo?
Pergunta interessante, considerando suas suspeitas. 
- At alguns dias atrs, eu acreditava que sim. Mas agora no 
tenho tanta certeza.
Estava satisfeito com o jeito inquisitivo do garoto. 
Thorvaldsen sabia sobre as origens de Gary. Quando 
retornara de sua viagem aos Estados Unidos para levar Gary 
para casa depois da visita de vero, Malone havia lhe 
contado o que Pam revelara. Thorvaldsen havia fingido 
ignorncia ao v-la pela primeira vez algumas noites antes, 
mas soubera instantaneamente sua identidade. A presena 
dela em sua casa, com Malone, sinalizava encrenca, motivo 
pelo qual ele pusera Jesper do lado de fora da porta do 
escritrio. Pam Malone estava tensa. Por sorte havia se 
acalmado. Neste momento, j deveria estar de volta  
Gergia. Em vez disso, a pessoa que havia ligado de Tel Aviv 
dissera: Parece que Malone e a ex-esposa esto, no 
momento, a caminho de Lisboa.
O que estaria acontecendo? Por que foram para l? E onde 
estava o Garras da guia?
- Viemos aqui para ajudar seu pai - disse a Gary.
- Papai nunca falou nada sobre sairmos de l. Disse para eu 
ficar quieto e ter cuidado.
- Mas tambm disse para voc fazer o que eu mandasse.
- De modo que, quando ele me der uma bronca, espero que 
voc assuma a culpa.
Ele riu.
- Com prazer.
- Voc j viu uma pessoa ser morta a tiros?
Thorvaldsen sabia que a lembrana da tera-feira devia ser 
perturbadora, no importando o quanto o garoto parecesse 
corajoso.
- Vrias vezes.
- Papai matou o sujeito. Mas sabe de uma coisa? No me 
importei. 
Thorvaldsen balanou a cabea diante daquela bravata.
- Cuidado, Gary. Nunca se acostume com a morte. No 
importa o quanto algum possa merec-la.
- No foi isso que eu quis dizer. S que ele era um bandido. 
Ameaou matar minha me.
Passaram por uma coluna de mrmore sobre a qual havia 
uma esttua de Diana. Uma brisa acariciava as rvores e fazia 
tremer as sombras lanadas sobre a grama ondulante.
- Seu pai fez o que era necessrio. Ele no gostou. 
Simplesmente fez.
- E eu tambm teria feito.
Dane-se a gentica. Gary era filho de Malone. E mesmo 
tendo apenas 15 anos, sua indignao certamente podia ser 
provocada - assim como a do pai -, especialmente se um 
ente querido fosse ameaado. Gary sabia que os pais tinham 
viajado para Londres, mas no sabia que a me continuava 
envolvida. Ele merecia a verdade.
- Sua me e seu pai esto indo para Lisboa.
- Foi sobre isso aquele telefonema no quarto?
Ele assentiu e sorriu diante do modo decidido com que o 
garoto recebeu a notcia.
- Por que mame ainda est com ele? Ela no disse nada 
sobre ficar quando ligou ontem  noite. Eles no se do bem.
- No fao idia. Teremos de esperar at que um deles ligue 
de novo. - Mas Thorvaldsen tambm queria 
desesperadamente saber a resposta para essa pergunta.
Adiante, viu o lugar para onde iam, um pavilho circular, de 
mrmore colorido, encimado por ferro dourado. 
Abalaustrada aberta dava para um lago cristalino, com a 
superfcie prateada calma  sombra.
Entraram e ele se aproximou de um corrimo.
Vasos enormes, cheios de flores aromticas, espalhavam-se 
no interior. Como sempre, Hermann havia se certificado de 
que a propriedade estivesse digna de uma apresentao.
- Algum est vindo - disse Gary.
Thorvaldsen no olhou para trs. No precisava. Viu-a na 
mente. Baixa, atarracada, exalando alto enquanto andava. 
Manteve o olhar na direo do lago e desfrutou o cheiro 
doce de grama, flores e experincia.
- Ela vem depressa?
- Como sabia que era uma mulher?
- Voc vai aprender, Gary, que no pode vencer uma luta se 
seu inimigo no for, de alguma forma, previsvel.
-  a filha do Sr. Hermann.
Thorvaldsen continuou admirando o lago, olhando uma 
famlia de patos nadar em direo  margem.
- No diga nada a ela sobre coisa alguma. Escute, mas fale 
pouco.  assim que a gente descobre o que precisa saber.
Ouviu solas de sapatos batendo no piso de pedra do pavilho 
e virou-se enquanto Margarete chegava perto.
- Na casa me disseram que voc tinha vindo para c - disse 
ela. - E lembrei que este  um de seus lugares prediletos.
Thorvaldsen sorriu diante da satisfao evidente dela.
- Tem privacidade. Fica longe do castelo. As rvores 
proporcionam tranqilidade. Gosto deste lugar. Pelo que me 
lembro, era um dos prediletos da sua me.
- Papai construiu especialmente para ela. Minha me passou 
os ltimos dias aqui.
- Sente falta dela?
- Minha me morreu quando eu era pequena. De modo que 
nunca fomos muito prximas. Mas papai sente falta dela.
- Voc no sente falta da sua me? - perguntou Gary.
Mesmo o garoto tendo violado o que ele havia pedido, 
Thorvaldsen no se incomodou com a pergunta. Na 
verdade, tambm estava curioso.
- Claro que sinto. Mas simplesmente no ramos prximas, 
como me e filha.
- Parece que voc adquiriu interesse pelos negcios da 
famlia e pela Ordem.
Thorvaldsen ficou olhando enquanto os pensamentos 
abriam caminho na mente dela. Margarete havia herdado 
mais a aparncia rude e austraca do pai do que a beleza 
prussiana da me. No era uma mulher particularmente 
bonita - cabelos escuros, olhos castanhos, nariz fino e alto. 
Mas quem era ele para julgar, considerando sua coluna torta, 
o cabelo revolto e a pele envelhecida? Pensou em possveis 
pretendentes, mas decidiu que aquela mulher jamais se 
entregaria a algum. Era uma tomadora.
- Sou a nica Hermann que resta. - E acrescentou um sorriso 
que certamente pretendia ser reconfortante, mas que, em 
vez disso, chamejava irritao.
- Significa que vai herdar tudo isso?
- Claro. Por que no herdaria? 
Ele deu de ombros.
- No fao idia do que seu pai pensa. Mas descobri que 
neste mundo no h garantias.
Thorvaldsen viu que ela no gostou do que ele estava 
sugerindo. No deu tempo para a reao e perguntou:
- Por que seu pai tentou prejudicar este garoto?
A pergunta sbita provocou um ar perplexo. Obviamente, 
ela tambm no era mestre do estoicismo, diferentemente 
do pai.
- No fao idia do que est dizendo.
Ele ficou pensando. Talvez Hermann tivesse escondido dela 
os planos.
- Ento no faz idia do que die Klauen der Adler est 
fazendo?
- Ele no  minha responsabi... - Ela se conteve.
- No se preocupe, minha cara. Eu sei sobre ele. S estava 
imaginando se voc tambm sabia.
- Aquele sujeito representa problema.
Agora ele sabia que Margarete no fazia parte de nada. 
Informaes demais fluam livres demais.
- Concordo de corao. Mas, como voc diz, nenhum de 
ns tem responsabilidade por ele. S o Crculo.
- Eu no sabia que os scios sabiam sobre ele.
- H muitas coisas que eu sei. Em particular, o que seu pai 
est fazendo. Isso tambm  um problema.
Ela pareceu captar a convico em seu tom de voz. Seu rosto 
gorducho mostrou um sorriso nervoso.
- Lembre-se de onde est, Henrik. Isto  territrio dos 
Hermann. Ns comandamos o que acontece aqui. Portanto, 
voc no deveria se preocupar.
- Observao interessante. Tentarei no esquecer.
- Acho que, talvez, voc e papai precisem terminar esta 
conversa. 
Ela virou-se para ir embora, e ele ergueu um brao, num 
gesto rpido. 
Saindo de trs de ciprestes grossos, pesados da idade, trs 
homens se materializaram vestidos com roupas de 
camuflagem. Vieram correndo e chegaram no momento em 
que Margarete descia do pavilho.
Dois dos homens a agarraram.
Um apertou sua boca com a mo.
Ela resistiu.
- Henrik - perguntou Gary -, o que Jesper est fazendo aqui?
O terceiro homem era seu mordomo, que viera de avio 
mais cedo e se infiltrara na propriedade. Pelas visitas 
anteriores, Thorvaldsen sabia - contrariamente ao que 
Margarete havia alardeado - que a segurana mais pesada era 
confinada  casa. As centenas de hectares restantes no 
eram cercadas nem patrulhadas.
- Fique imvel - disse ele. 
Ela parou de lutar.
- Voc vai com estes cavalheiros.
A cabea dela balanou violentamente.
Thorvaldsen havia esperado que ela se mostrasse difcil. 
Ento assentiu, e a mo sobre a boca de Margarete foi 
substituda por um pano que, como ele sabia, continha 
anestsico suficiente para induzir um sono profundo. Foram 
necessrios apenas alguns segundos para os vapores fazerem 
efeito. O corpo dela ficou frouxo.
- O que est fazendo? - perguntou Gary. - Por que est 
machucando a moa?
- No estou. Mas garanto que eles teriam machucado voc se 
seu pai no tivesse agido. - Em seguida, encarou Jesper. - 
Mantenha-a em segurana, como combinamos.
O empregado assentiu. Um dos homens jogou o corpo 
atarracado de Margarete sobre o ombro e os trs recuaram 
para as rvores
- Voc sabia que ela viria aqui? - perguntou Gary.
- Como eu disse,  bom conhecer o inimigo.
- Por que voc a est pegando?
Thorvaldsen gostava de lies e sentia falta de quando 
ensinava Cai.
- No se deve dirigir um carro sem seguro. O que vamos 
fazer tambm tem riscos. Ela  o nosso seguro.

QUARENTA E OITO

WASHINGTON, D.C.

Stephanie ficou imvel. Heather Dixon estava armada e 
alerta. Os olhos de Cassiopeia reviraram o quarto, e 
Stephanie soube que sua colega estava procurando alguma 
coisa que pudesse ser usada como arma.
- O que ? - ouviu Daley perguntar a Dixon.
- Seu alarme est desligado. Isso significa que h algum 
aqui.
- Grande salto de lgica, no acha?
- Voc armou o painel antes de sair?
Um momento de silncio se passou. Stephanie soube que 
estavam numa armadilha.
- No sei - respondeu Daley. - Posso ter esquecido. No seria 
a primeira vez.
- Por que no dou uma olhada, s para garantir?
- Porque no tenho tempo para voc brincar de soldado, e 
essa arma na sua mo est me deixando excitado. Voc  um 
teso.
- Fazendo elogios, hoje. Isso vai lhe garantir tudo.
Mais silncio, depois um protesto com um gemido meio 
abafado.
- Devagar com minha cabea. Esse galo est doendo.
- Voc est bem? - perguntou Daley.
Um zper foi aberto.
- Largue essa arma - disse Daley. 
Passos soaram na escada.
Stephanie olhou para Cassiopeia e sussurrou:
- No acredito nisso.
- Pelo menos sabemos onde os dois esto. 
Bem pensado, mas servia de pouco conforto.
- Tenho de verificar isso. 
Cassiopeia apertou seu brao.
- Deixe-os.
Contrariamente s ltimas 12 horas, durante as quais ela, na 
melhor das hipteses, havia tomado decises questionveis, 
agora Stephanie estava pensando com clareza. Sabia o que 
precisava ser feito.
Esgueirou-se do quarto e entrou na sala ntima. Logo adiante 
uma escada subia, e a porta da frente ficava  direita. Ouviu 
vozes murmuradas, risos e o som de tbuas de piso sendo 
desafiadas.
- O que, diabos, est acontecendo? - perguntou-se Stephanie 
em voz alta.
- Sua investigao no descobriu isso? 
Ela balanou a cabea.
- Nem uma nica palavra. Deve ser recente.
Cassiopeia desapareceu no corredor. Stephanie se demorou 
um momento e viu o mesmo revlver que Heather Dixon 
havia sacado contra ela na vspera cado numa poltrona.
Pegou a arma e saiu da sala.

Malone olhou para a roscea e verificou o relgio: 16h40. 
Nessa poca do ano, o sol comearia a se pr em algum 
momento nos prximos noventa minutos.
- Este prdio  orientado num eixo leste-oeste - disse a Pam. 
-Aquele vitral est l para captar o sol da tarde. Temos de ir 
l em cima.
Ele viu uma porta onde uma seta indicava o coro superior. 
Foi at l e encontrou, aninhada contra a parede norte da 
igreja, uma ampla escada de pedra com teto em abbada 
cilndrica que fazia o lugar parecer um tnel.
Seguiu uma multido que subia.
No topo, entraram no coro.
Duas fileiras de bancos de madeira com encostos altos se 
encaravam, ornamentados com festes e arabescos. Acima 
deles ficavam pinturas barrocas de vrios apstolos. O 
corredor entre os bancos levava  parede oeste da igreja e  
roscea quase dez metros acima.
Olhou para o alto.
Gros de poeira flutuavam nos raios luminosos de sol. Virou-
se e examinou a cruz que se erguia na outra extremidade do 
coro superior. Ele e Pam se aproximaram da balaustrada e ele 
admirou o dramtico realismo da imagem de Cristo 
esculpida. Uma placa na base informava em duas lnguas:

CRISTO NA CRUZ
CHRIST ON THE CROSS
C. 1550
ESCULTURA EM MADEIRA POLICROMA
POLYCHROMED WOODEN SCULPTURE
- Onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura 
uma cruz de madeira - disse Pam. -  isso.
Ele concordou. Mas estava pensando nas palavras seguintes. 
E converte prata em ouro.
Olhou de novo para o luminoso vitral em roscea e seguiu os 
raios poeirentos que passavam pela cruz e entravam na nave. 
Embaixo, a luz abria uma trincheira no piso xadrez, seguindo 
por um corredor central que dividia os bancos. As pessoas se 
amontoavam por ali e pareciam no notar. A luz continuava 
para o leste at o altar do povo e lanava uma leve linha 
luminosa sobre o tapete vermelho.
McCollum apareceu vindo do coro inferior e seguiu pelo 
corredor central em direo  frente da igreja.
- Ele deve estar imaginando onde estamos - disse Pam.
- Ele no vai a lugar nenhum. Parece que precisa de ns.
McCollum parou entre as ltimas das seis colunas e olhou ao 
redor, depois se virou e os viu. Malone levantou a palma da 
mo indicando para ele esperar onde estava, depois mostrou 
o indicador, sinalizando que iriam descer num minuto.
Dissera a verdade a McCollum. Ele era bastante bom com 
charadas. Esta, a princpio, parecera confusa, mas agora, 
olhando para uma massa de esculturas, vigas de sustentao 
e arcos, uma harmonia de linhas e pedras entrelaadas que o 
tempo, a natureza e a negligncia mal haviam alterado, 
soube da soluo.
Seu olhar seguiu os raios do sol poente que atravessava at a 
chancela, dividindo o grande altar, e encontrou o sacrrio de 
prata.
Que brilhava como ouro.
No havia notado o fenmeno quando estavam perto. Ou 
talvez o sol que se retirava ainda no estivesse no ngulo 
correto. Mas agora a transformao era clara.
Prata em ouro.
Viu que Pam tambm notou.
- Incrvel - disse ela. - Como a luz faz isso.
A roscea obviamente era posicionada para que o sol poente, 
pelo menos por alguns minutos, encontrasse o sacrrio. 
Aparentemente, o receptculo de prata fora posto com 
grande deliberao, e uma das seis pinturas ao redor fora 
removida, perturbando a simetria que os construtores 
medievais adoravam.
Pensou na parte final da saga.
Encontre o lugar que forma um endereo sem lugar, onde  
encontrado outro lugar.
E foi at a escada.

No trreo, aproximou-se das cordas de veludo que ainda 
bloqueavam o acesso  chancela. Notou o jogo de mrmore 
preto, branco e vermelho, que dava uma atmosfera de 
nobreza - muito adequada, porque a chancela servia como 
mausolu da famlia real.
O sacrrio estava a dez metros de distncia.
Uma inspeo de perto no fazia parte da experincia dos 
visitantes. O padre no altar do povo anunciava pelos alto-
falantes que a igreja e o mosteiro iriam fechar em cinco 
minutos. Muitos grupos de turistas j estavam partindo, e 
mais pessoas iam em direo s sadas.
Ele havia notado antes que existia alguma espcie de imagem 
gravada na porta do sacrrio, atrs da qual um dia fora 
guardado o santo sacramento. Talvez ainda abrigasse a 
hstia. Mesmo sendo um local tombado pelo Patrimnio 
Mundial, mais atrao turstica do que igreja, a nave 
certamente era usada para cultos especiais. De modo 
semelhante  catedral de St. Paul e a de Westminster, na 
Inglaterra. O que explicaria por que as pessoas eram 
mantidas distantes do que era claramente a pea central do 
prdio.
McCollum se aproximou.
- Tenho os ingressos.
Malone apontou para o sacrrio.
- Preciso olhar aquilo mais de perto, sem todas essas 
testemunhas.
- Pode ser difcil. Presumo que todos vo ser tirados daqui 
nos prximos minutos.
- Voc no parece um homem que cede  autoridade.
- Nem voc.
Pensou em Avignon e no que ele e Stephanie haviam feito 
l numa noite chuvosa de junho.
- Ento vamos encontrar um esconderijo at todo mundo ir 
embora.

Stephanie voltou na ponta dos ps at a alcova. Precisava 
encontrar o esconderijo de Daley antes que as coisas 
chegassem ao clmax l em cima. Esperava que nem Dixon 
nem Daley estivessem correndo, mas Daley parecera 
apressado.
Cassiopeia j estava procurando em silncio.
- O relatrio dizia que ele nunca saa dessa escrivaninha com 
os pen drives. Usava-os no laptop, mas no saa com eles. 
Sempre dizia para ela ir para o quarto e que ele iria em 
seguida. - As palavras saam mais como respirao do que 
voz.
- Estamos forando a barra ficando aqui. 
Stephanie parou e tentou ouvir.
- Parece que ainda esto ocupados.
Cassiopeia abriu as gavetas da escrivaninha, testando para 
achar esconderijos. Mas Stephanie duvidava que ela fosse 
encontrar alguma coisa. Era bvio demais. Seu olhar 
examinou de novo as estantes e parou num dos tratados de 
poltica, um volume fino, cinza-acastanhado, com letras 
azuis.
Hardball, de Chris Matthews.
Lembrou-se da histria que Daley havia contado a Green ao 
alardear sua recente autoridade sobre o Setor Magalhes. 
O que ele havia dito? 
Poder  o que voc tem.
Pegou o livro, abriu-o e descobriu que o ltimo tero das 
pginas fora colado junto; uma cavidade com cerca de sete 
milmetros de profundidade fora aberta. Aninhados ali 
dentro estavam cinco pen drives, cada um rotulado com um 
numeral romano.
- Como voc sabia? - sussurrou Cassiopeia.
- Na verdade, estou apavorada por saber. Estou comeando a 
pensar como aquele idiota.
Cassiopeia foi para os fundos da casa, em direo  porta, 
mas Stephanie pegou seu brao e fez sinal para a frente. Um 
ar confuso a encarou de volta, uma expresso que 
questionava: por que procurar encrenca?
Entraram na sala ntima, depois no foyer.
Um teclado de alarme junto  porta da frente indicava que o 
sistema ainda estava desligado. Stephanie segurou a arma de 
Dixon.
- Larry - gritou. 
Silncio.
- Larry. Podemos falar por um instante?
Passos soaram fortes no andar de cima, e Daley apareceu  
porta do quarto, de calas, o peito nu.
- Adorei o cabelo, Stephanie. Novo look? E as roupas. 
Chiques.
- S para voc.
- O que est fazendo aqui? 
- Ela mostrou o livro.
- Vim pegar suas coisas.
O susto inundou o rosto juvenil de Daley.
- Isso mesmo.  hora de voc suar. E Heather? - Sua voz 
aumentou de volume. - Estou desapontada com sua escolha 
de amantes.
Dixon saiu nua do quarto, sem demonstrar um pingo de 
vergonha.
- Voc est morta. 
- Stephanie deu de ombros.
- Isso veremos. No momento, estou com a sua arma. - E 
mostrou-a.
- O que voc vai fazer? - perguntou Daley.
- Ainda no decidi. - Mas ela queria saber: - Vocs esto 
nessa h muito tempo?
- No  da sua conta - respondeu Dixon.
- Mera curiosidade. S interrompi para avisar que agora h 
mais coisas neste jogo, alm da minha pele.
- Parece que voc sabe um bocado de coisas - disse Daley. - 
Quem  sua amiga?
- Cassiopeia Vitt - respondeu Dixon.
- Fico lisonjeada ao saber que voc me conhece.
- Devo a voc aquele dardo no pescoo.
- No precisa agradecer.
- Podem voltar para a cama - disse Stephanie.
- Acho que no. - Dixon comeou a descer a escada, mas 
Stephanie apontou a automtica. - No me pressione, 
Heather. Perdi o emprego recentemente e h um mandado 
de priso contra mim.
A israelense parou, talvez sentindo que no era hora de 
desafiar.
- Para o quarto - disse Stephanie. 
Dixon hesitou.
- Agora.
Dixon recuou para o topo da escada. Stephanie pegou as 
roupas da israelense, inclusive os sapatos.
- Voc no ousaria se expor em pblico vindo atrs de ns - 
disse Stephanie a Daley. - Mas ela poderia. Isso pelo menos 
vai fazer com que ela se atrase um pouco.
E as duas saram.

QUARENTA E NOVE

VIENA 
18H40
Thorvaldsen vestiu o manto carmim. Todos os membros 
deviam usar o manto durante a Assemblia. A primeira 
sesso comearia s 19h, e ele no estava ansioso por ela. 
Geralmente significava conversa demais e pouca ao. 
Nunca precisara de uma cooperativa para alcanar seus 
objetivos. Mas gostava da camaradagem que acontecia 
depois das reunies.
Gary estava sentado numa das poltronas.
- Como estou? - perguntou ele em tom jovial.
- Parece um rei.
O manto rgio ia at os tornozelos, feito de veludo e 
ricamente bordado em fios de ouro com o lema da Ordem: 
JE L'AY EMPRINS. Eu ousei. Todo esse conjunto datava do 
sculo XV e da Ordem do Velo de Ouro original.
Pegou o cordo grosso. Ouro macio com uma pederneira 
esmaltada, formando adagas de fogo. Um ornamentado velo 
de ouro pendia do centro.
- Isso  presenteado a cada membro quando  empossado.  
o nosso smbolo.
- Parece caro. 
- E .
- Isso  mesmo importante para voc? 
- Thorvaldsen deu de ombros.
- Eu gosto. Mas no  como uma religio.
- Papai disse que voc  judeu. 
- Ele assentiu. 
- No sei muita coisa sobre os judeus. S que milhes foram 
mortos na Segunda Guerra Mundial. No  uma coisa que eu 
realmente entenda.
- Voc no est sozinho. Os gentios tiveram dificuldade com 
nossa existncia durante sculos.
- Por que as pessoas odeiam os judeus?
Ele havia pensado muitas vezes nessa questo - junto com os 
filsofos, telogos e polticos que a haviam debatido durante 
sculos.
- Para ns, comeou com Abrao. Tinha 99 anos quando 
Deus o visitou e fez uma aliana, criando um Povo 
Escolhido, os que herdariam a terra de Cana. Mas, 
infelizmente, junto com essa honra vinha a 
responsabilidade.
Dava para ver que o garoto estava interessado.
- Voc j leu a Bblia? 
Gary balanou a cabea.
- Deveria.  um grande livro. Por um lado, Deus concedeu 
uma bno aos israelitas. Tomar-se o Povo Escolhido. Mas 
foi sua resposta a essa bno que acabou determinando seu 
destino.
- O que aconteceu?
- O Velho Testamento diz que eles se rebelaram, queimaram 
incenso, deram crdito a dolos por sua boa sorte, 
caminharam segundo os ditames de seu prprio corao. 
Ento Deus os espalhou entre os gentios, como castigo.
- E por isso que as pessoas os odeiam?
Thorvaldsen terminou de prender o manto.
-         difcil dizer. Mas desde essa poca os judeus sofreram 
perseguies.
- Deus parece ter pavio curto.
- O Deus do Velho Testamento  muito diferente do Deus 
do Novo.
- No sei se gosto do Velho.
- Voc no est sozinho. - Thorvaldsen fez uma pausa. - Os 
judeus foram os primeiros a insistir em que o homem  
responsvel por seus prprios atos. No era culpa dos deuses 
se a vida ficava ruim. A culpa era nossa. E isso nos fez 
diferentes. Os cristos levaram isso mais longe. O homem 
provocou seu prprio exlio do den, mas como Deus amava 
o homem, redimiu-o com o sangue de seu filho. O Deus 
judeu  raivoso. A justia  seu objetivo. O Deus cristo  de 
misericrdia. Uma diferena gigantesca.
- Deus deveria ser gentil, no deveria?
Thorvaldsen sorriu, depois olhou o aposento elegante ao 
redor. Era hora de ir ao ponto.
- Diga o que acha sobre o que aconteceu no pavilho.
- No sei se o Sr. Hermann vai gostar de voc ter pegado a 
filha dele.
- Assim como seus pais no gostaram do que aconteceu com 
voc. A diferena  que ela  adulta e voc  um 
adolescente.
- Por que tudo isso est acontecendo?
- Imagino que logo saberemos.
A porta do quarto se abriu subitamente e Alfred Hermann 
entrou intempestivamente. Tambm usava um manto rgio 
com medalho dourado, mas seu manto era adornado com 
uma seda azul.
- Voc est com a minha filha? - perguntou Hermann, o 
rosto cheio de fria.
Thorvaldsen permaneceu rgido.
- Estou.
- E obviamente sabe que este quarto est grampeado.
- Isso no exigiu muita inteligncia.
Dava para ver a tenso crescendo. Hermann estava em 
territrio no mapeado.
- Henrik, no tolerarei isso.
- O que voc planeja fazer? Convocar o Garras da guia para 
lidar comigo?
Hermann hesitou.
-  isso que voc quer, no ? 
Thorvaldsen chegou perto.
- Voc atravessou a linha quando seqestrou este rapaz. - 
Ele apontou para Gary.
- Onde est Margarete?
- Em segurana.
- Voc no tem coragem de fazer mal a ela.
- Tenho coragem de fazer o que for necessrio. Voc 
deveria saber disso.
O olhar intenso de Hermann o agarrou como um gancho. 
Thorvaldsen sempre achara o rosto ossudo do austraco mais 
adequado para um agricultor do que um aristocrata.
- Achei que ramos amigos.
- Eu tambm. Mas parece que isso no significou nada 
quando voc tirou este rapaz da me dele e destruiu a 
livraria do pai.
A primeira sesso da Assemblia estava para comear, 
motivo pelo qual Thorvaldsen havia planejado 
cuidadosamente o momento da revelao. Hermann, como 
o Cadeira Azul, devia exibir disciplina e confiana em todos 
os momentos. Jamais poderia permitir que os scios 
soubessem de suas dificuldades pessoais.
E tambm no poderia se atrasar.
- Temos de ir - disse Hermann finalmente. - Isto no 
acabou, Henrik.
- Concordo. Para voc, est apenas comeando.

CINQENTA

WASHINGTON, D.C. 
13h30

- Voc no acha que pegou pesado demais com o Daley? - 
perguntou Green a Stephanie.
Ela e Cassiopeia estavam na limusine de Green, cujo 
compartimento traseiro era isolado do banco da frente por 
uma chapa de Plexiglas. Green as havia apanhado no centro 
da cidade, depois de sarem da casa de Daley.
- Ele no viria atrs de ns. Heather poderia usar a roupa 
dele, mas no os sapatos. Duvido que ela nos perseguisse 
descala e desarmada.
Green no pareceu convencido.
- Presumo que haja um objetivo em deixar Daley saber que 
voc estava l, no ?
- Tambm estou interessada em ouvir isso - acrescentou 
Cassiopeia. - Poderamos ter sado sem que ele soubesse.
- E eu ainda estaria na ala de mira. Assim ele tem de ter 
cuidado. Eu tenho uma coisa que ele quer. E, no mnimo, 
Daley  um comerciante.
Green apontou para o exemplar de Hardball.
- O que  to vital assim?
Stephanie pegou o laptop que pedira para Green trazer. 
Enfiou um dos pen drives numa porta vazia e digitou AUNT 
B'S no lugar da senha.
- Sua garota tambm ficou sabendo disso? - perguntou 
Cassiopeia. 
Ela assentiu.
-  uma lanchonete em Maryland. Daley vai muito l nos 
fins de semana. Comida rural. Um dos lugares prediletos 
dele. Pareceu-me estranho, pois eu considerava o Daley um 
conhecedor de restaurantes cinco estrelas.
A tela mostrou uma lista de arquivos, cada um tendo apenas 
uma palavra de ttulo.
- Congresso - disse ela. E clicou em um.
- Fiquei sabendo que Daley  mestre em datas e horrios. 
Quando ele espreme um congressista para obter um voto, 
tem informaes exatas sobre cada contribuio em dinheiro 
que j foi mandada para o sujeito.  estranho, porque ele 
nunca manda o dinheiro diretamente. Em vez disso, lobistas 
que gostam da idia de conquistar favores da Casa Branca 
fazem o trabalho sujo. Isso me levou a pensar que ele 
mantm registros. Ningum tem uma memria to boa. - Ela 
apontou para a tela. - Aqui est um exemplo. - Contou. - 
Quatorze pagamentos a este cara, totalizando 187 mil 
dlares num perodo de seis anos. Aqui esto a data, o lugar 
e a hora de cada pagamento. - Ela balanou a cabea. - Nada 
apavora mais um poltico do que os detalhes.
- Estamos falando de subornos? - perguntou Green. 
Ela assentiu.
- Pagamentos em dinheiro. Dinheiro vivo. No o suficiente 
para atrair ateno, mas o bastante para manter as linhas de 
comunicao abertas. Simples e doce, mas  o tipo de capital 
poltico que Daley acumula. Do tipo que a Casa Branca atual 
usa. Eles conseguiram aprovar algumas leis bem doces.
Green olhou para a tela.
- Devem ser cem congressistas ou mais.
- Ele  eficaz. Isso devo admitir. O dinheiro est espalhado. 
Dos dois lados do espectro poltico.
Ela clicou em outro arquivo, que mostrou uma lista de 
senadores. Cerca de trinta.
- Ele tambm tem um bando de juzes federais. Eles passam 
por problemas financeiros, como todo mundo, e Daley tem 
pessoas bem ali, para ajudar. Descobri um em Michigan que 
falou. Estava  beira da falncia at que um de seus amigos 
apareceu com dinheiro. Sua conscincia finalmente o 
dominou, em especial depois que Daley quis que ele 
decidisse um julgamento de um modo especfico. Parece 
que o advogado de um processo importante que ele julgava 
era um grande colaborador do partido e precisava de uma 
pequena garantia de vitria.
- Os tribunais federais so um foco de corrupo - 
murmurou Green. - Eu digo isso h anos. D uma nomeao 
vitalcia a algum e voc estar procurando encrenca. Poder 
demais, superviso de menos.
Stephanie pegou outro pen drive.
- Um desses basta para indiciar vrios daqueles urubus.
- Uma descrio eloqente.
-  o manto preto. Eles parecem urubus empoleirados num 
galho, esperando para limpar uma carcaa.
- Que falta de respeito pelo nosso judicirio! - disse Green, 
rindo.
- Respeito  algo que se faz por merecer.
-Ser que posso dizer uma coisa? - interveio Cassiopeia. - 
Por que simplesmente no vamos a pblico? Chamamos a 
ateno. No  o modo como eu normalmente fao as 
coisas, mas parece que neste caso daria certo.
Green balanou a cabea.
- Como voc observou antes, no sei muita coisa sobre os 
israelenses. E voc no entende a mquina de RP desta 
administrao.  uma questo de ponto de vista. Eles 
turvariam a questo a ponto de obscurec-la, e ns 
perderamos Daley e o traidor.
- Ele est certo - disse Stephanie. - No funcionaria. Temos 
de fazer isso ns mesmos.
O trnsito fez o carro parar, e o celular de Green tocou 
baixinho. Ele enfiou a mo no bolso do terno e tirou-o, 
examinando a tela.
- Isso pode ser interessante. - Em seguida, apertou dois 
botes e falou pelo viva-voz. - Estava esperando seu 
telefonema.
- Aposto que sim - disse Daley.
- Parece que talvez eu consiga no acabar naquele caixo em 
Vermont, afinal de contas.
- Esse  o negcio do xadrez, Brent. Cada movimento  uma 
aventura. Certo, vou lhe dar o crdito, sua jogada foi boa.
- Esse crdito voc tem de dar a Stephanie.
- Tenho certeza de que ela est a; portanto, parabns, 
Stephanie.
- Obrigada, Larry.
- Isso muda pouca coisa - deixou claro Daley. - Os 
elementos que eu mencionei continuam agitados.
- Voc precisa acalm-los - disse Stephanie.
- Quer conversar? - perguntou Daley.
Stephanie comeou a falar, mas Green levantou a mo.
- E qual  o benefcio?
- Pode ser grande. H muita coisa em risco. 
Ela no pde resistir.
- Mais do que o seu rabo?
- Muito mais.
- Voc mentiu quando disse que no sabia nada sobre o Elo 
de Alexandria, no ? - perguntou Green.
- Mentira  uma palavra dura. Posso dizer que escondi fatos 
no interesse da segurana nacional.  esse o preo que terei 
de pagar?
- Acho razovel, pensando bem.
Stephanie sabia que Daley perceberia que eles poderiam 
espalhar seus segredos  vontade. Ela e Green possuam 
contatos na mdia, contatos que adorariam sujar a atual 
administrao.
- Certo. - A resignao preenchia a voz de Daley. - Como 
quer fazer isso?
Stephanie sabia a resposta.
- Em pblico. Com muita gente.
- No  boa idia.
- S vamos fazer desse modo.
O telefone ficou mudo por um momento, antes de Daley 
dizer:
- Diga onde e quando.

CINQENTA E UM

LISBOA
19H40

Malone acordou, sentado de encontro a uma parede de 
pedra spera.
- J passa das 19h30 - sussurrou Pam em seu ouvido.
- Quanto tempo eu dormi?
- Uma hora.
Ele no conseguia ver o rosto dela. A escurido total os 
envolvia. Lembrou-se da situao.
- Est tudo bem l em cima? - perguntou baixinho a 
McCollum.
- Tudo calmo.
Tinham sado da igreja pouco antes das 17 horas e subido ao 
coro superior, onde outra porta dava no claustro. Os 
visitantes saam devagar, aproveitando o sol da tarde para as 
ltimas fotos das opulentas decoraes mouriscas. A galeria 
superior no oferecera um refgio seguro, mas, seguindo ao 
longo da parede norte da igreja, no trreo, haviam 
encontrado 11 portas de madeira. Uma placa explicava que 
os espaos compactos j haviam servido como 
confessionrios.
Ainda que as portas de dez confessionrios estivessem 
trancadas, McCollum conseguira abrir uma graas a um furo 
feito sob a tranca. Aparentemente, a tranca era defeituosa, e 
os funcionrios usavam o buraco para entrar. McCollum 
havia usado uma faca impressionante, que tirara do bolso, 
para empurrar a tranca, fechando-a de novo depois de 
entrarem. Malone no sabia que ele estava armado. De jeito 
nenhum McCollum teria levado a faca no avio, mas ele 
havia despachado uma maleta do aeroporto de Londres, que 
agora estava trancada num armrio no aeroporto de Lisboa. 
Malone tambm havia guardado a mochila que tirara do 
apartamento de Haddad num armrio em Lisboa. O fato de 
McCollum no ter mencionado a faca s fazia aumentar as 
suspeitas de Malone.
Dentro do confessionrio, uma grade com tela de ferro se 
abria para outro cubculo escuro. Uma porta na segunda 
cmara dava na igreja, permitindo a entrada do penitente. A 
tela separava as duas, de modo que a penitncia fosse 
administrada.
Malone havia crescido no catolicismo e se lembrava de um 
arranjo semelhante, ainda que de construo mais simples, 
em sua igreja. Nunca entendera por que no conseguia ver o 
padre que o estava absolvendo do pecado. Quando 
perguntara sobre isso, as freiras que davam aulas 
simplesmente disseram que a separao era exigida. Ele 
acabou sabendo que a Igreja catlica adorava determinar o 
que se devia fazer, mas no gostava particularmente de 
explicar o motivo. O que explicava, em parte, por que ele 
no praticava mais a religio.
Olhou para o mostrador luminoso do relgio TAG de Pam. 
Quase 20 horas. Era cedo, mas o local j estava fechado 
havia trs horas.
- Algum movimento l fora? - perguntou baixinho a 
McCollum.
- Nenhum som.
- Vamos l - sussurrou para a escurido. - No adianta ficar 
mais tempo aqui parados.
A porta do confessionrio se abriu com um rangido. Ele se 
levantou, mas teve de se abaixar por causa to teto baixo. 
McCollum puxou a porta para dentro. Os trs saram na 
galeria inferior, e o ar noturno foi bem-vindo depois de trs 
horas no que parecia um armrio. Do outro lado do claustro 
vazio, nas galerias superior e inferior, luzes incandescentes 
ardiam fracas, com os traados complexos entre os arcos 
mais em sombra do que em detalhes. Malone entrou no arco 
mais prximo e olhou para o cu noturno. A escurido do 
claustro sombreado parecia acentuada por uma noite sem 
estrelas.
Foi direto  escada para o coro superior. Esperava que a 
porta que dava na igreja - a que ele havia usado antes para ir 
da nave ao coro continuasse aberta.
Ficou feliz ao ver que sim.
A nave estava silenciosa como um cemitrio.
A luz dos refletores no exterior, que banhavam a fachada, 
iluminava por trs os vitrais. Um punhado de lmpadas 
fracas rompiam a escurido densa apenas no coro inferior.
- Este lugar  diferente  noite - disse Pam. 
Ele concordou, e sua guarda estava levantada.
Foi direto  chancela e passou por cima das cordas de 
veludo. No grande altar, subiu cinco degraus e parou diante 
do sacrrio.
Virou-se e olhou para o coro superior na outra extremidade.
A ris cinza-claro da roscea o encarou de volta, no mais 
viva com o sol.
McCollum parecia ter previsto sua necessidade e apareceu ao 
lado segurando uma vela e fsforos.
- Do suporte de oferendas, perto da pia batismal. Vi isso 
mais cedo. 
Malone pegou a vela e McCollum acendeu o pavio. Malone 
levou a luz para perto do sacrrio e estudou a imagem 
moldada na porta.
Maria sentada com o menino Jesus no colo, Jos atrs, os 
trs coroados com halos. Trs homens barbudos, um 
ajoelhado diante do menino, prestavam homenagem. Outros 
trs homens - um estranhamente usando o que parecia ser 
um capacete militar - olhavam. Acima da cena, com nuvens 
divididas, brilhava uma estrela de cinco pontas.
-  a Natividade - disse Pam, atrs. 
Ele concordou.
- Parece mesmo. Os trs reis magos seguindo a estrela, 
chegando para louvar o rei recm-nascido.
Malone se lembrou da saga e do que eles deveriam procurar 
ali, onde a prata virava ouro. Encontre o lugar que forma um 
endereo sem lugar, onde  encontrado outro lugar.
Uma charada desafiadora.
- Precisamos sair daqui, mas tambm precisamos de uma 
foto disto. Como nenhum de ns tem mquina fotogrfica, 
alguma idia?
- Depois que comprei os ingressos - disse McCollum -, fui l 
para cima. H uma loja de suvenires. Cheia de livros e 
postais. Deve haver uma foto l.
- Bem pensado - respondeu Malone. - V na frente.

Sabre subiu  galeria superior, satisfeito por ter feito a 
escolha correta. Quando Alfred Hermann lhe deu a tarefa de 
encontrar a biblioteca, seu plano supremo se formou na 
mente, e a eliminao da equipe de vigilncia israelense na 
Alemanha pavimentara o caminho.
Hermann jamais teria sancionado uma provocao 
deliberada contra os judeus, e teria sido impossvel explicar 
por que aqueles assassinatos haviam sido necessrios: 
simplesmente para desequilibrar o outro lado durante os 
poucos dias que ele precisava para alcanar o objetivo.
Se ao menos fosse possvel.
Mas poderia ser.
Jamais teria decifrado sozinho a saga do heri, e envolver 
algum que no fosse Malone somente faria aumentar suas 
chances de ser descoberto. Tornar Malone seu suposto 
aliado era o nico rumo vivel.
O gesto fora arriscado, mas produtivo. Metade da busca 
parecia resolvida.
Subiu a escada e entrou na galeria superior, virando  
esquerda e indo direto para uma porta de vidro, deslocada 
naquele cenrio medieval. Seu celular, enfiado no bolso da 
cala, j havia registrado em silncio quatro telefonemas de 
Alfred Hermann. Ele havia debatido se faria contato para 
aplacar a ansiedade do velho, mas decidiu que seria idiotice. 
Haveria perguntas demais e ele poderia dar poucas respostas. 
Durante muito tempo havia estudado a Ordem, em especial 
Alfred Hermann, e acreditava que entendia seus pontos 
fortes e fracos.
Acima de tudo, os scios eram comerciantes.
E antes que os israelenses, os sauditas ou os americanos 
pudessem ser espremidos, a Ordem do Velo de Ouro teria de 
lidar com ele.
E Sabre no seria barato.

Malone seguiu Pam e McCollum at a galeria superior com a 
abbada cheia de vigas, admirando o trabalho. Pelo pouco 
que ouvira antes, com os guias tursticos, a Ordem dos 
Jernimos, que possua o mosteiro em 1500, era um grupo 
fechado, dedicado  orao,  contemplao e aos 
pensamentos reformistas. No tinha misso evanglica ou 
pastoral direta. Em vez disso, se concentrava em levar uma 
vida crist exemplar por meio do servio divino - como seu 
santo padroeiro, o prprio Jernimo, sobre quem ele lera no 
livro tirado da Bainbridge Hall.
Pararam diante da porta de vidro, encaixada num dos arcos 
elaborados.
- No deve ter alarme - disse McCollum. - O que haveria 
para roubarem? Suvenires?
A porta era feita de grossas folhas de vidro adornadas com 
dobradias de metal preto e maanetas cromadas.
- Elas se abrem para fora - disse Malone. - No podemos 
chutar. Esse vidro tem mais de um centmetro de espessura.
- Por que no v se esto trancadas? - perguntou Pam.
Malone pegou uma das maanetas e puxou.
A porta se abriu.
- D para ver por que seus clientes valorizam sua opinio.
- Por que iriam trancar? - perguntou ela. - Este lugar  uma 
fortaleza. E ele est certo: o que h para roubar? As portas 
valem mais do que a mercadoria.
Malone sorriu da lgica dela. Parte da atitude carrancuda de 
Pam retornara, mas ele estava satisfeito. Isso o mantinha 
afiado.
Entraram. O espao escuro e com cheiro de mofo o lembrou 
o confessionrio. Assim, ele abriu a porta at noventa graus 
e travou-a na posio, como ficava quando os visitantes 
estavam entrando e saindo o dia todo.
Um exame rpido mostrou que a loja era um quadrado com 
cerca de seis metros de lado, tendo trs altas vitrines junto a 
uma parede, estantes de livros nas outras duas e um balco e 
uma caixa registradora na quarta. Um balco cheio de livros 
ocupava o centro.
- Precisamos de luz - disse ele.
McCollum se aproximou de outra porta dupla de vidro que 
dava numa escada escura. Trs interruptores se projetavam 
da parede.
- Estamos dentro do mosteiro - disse Malone. - A luz no 
ser visvel do lado de fora. Mesmo assim, vamos acender e 
apagar rpido, para ver o que acontece.
McCollum apertou um dos interruptores. Quatro minsculas 
lmpadas halgenas que iluminavam as vitrines se 
acenderam. A luz era direcionada em fachos para baixo. 
Iluminao mais do que suficiente.
- Isso basta - disse Malone. - Agora vamos encontrar algo 
com fotos.
Em cima do balco central havia uma pilha de volumes em 
capa dura, em portugus e ingls, todos intitulados Abadia 
de Santa Maria dos Jernimos. Pginas brilhantes, muito 
texto. Fotos tambm. Dois livros mais finos, empilhados ao 
lado, tinham mais fotos do que palavras. Malone folheou a 
primeira pilha, enquanto Pam examinava a outra. McCollum 
verificou as outras prateleiras. A trs quartos de um dos 
livros, Malone encontrou um captulo sobre a chancela e 
uma imagem colorida da porta de prata do sacrrio.
Levou o livro at a luz. A foto era de perto e detalhada.
-  isso.
Leu mais sobre o sacrrio, tentando ver se alguma 
informao seria til, e ficou sabendo que ele era feito de 
madeira coberta de prata. O posicionamento na chancela 
exigiu que a pintura central da fileira inferior fosse 
removida, e ela subseqentemente desapareceu. A imagem 
da pintura perdida fora gravada na porta do sacrrio, 
completando o ciclo iconogrfico das pinturas - todas 
abordavam a Epifania. A porta mostrava Gaspar, um dos 
magos, adorando o menino recm-nascido. O livro 
observava que a Epifania era considerada a submisso do 
secular ao divino, que os trs magos simbolizavam o mundo 
como era conhecido na poca - Europa, sia e frica.
Ento ele encontrou uma pgina interessante.

Diz-se que um fenmeno estranho acontece em certas 
pocas do ano, quando os raios do sol penetram na igreja de 
um modo extraordinrio. Durante vinte dias antes do 
equincio de primavera, e durante trinta dias depois do 
equincio de outono, os raios dourados do sol, desde o 
crepsculo at o pr-do-sol, entrando do oeste e cobrindo 
uma distncia de 450 passos, seguem em linha reta atravs 
do coro e da igreja, chegando ao sacrrio e transformando 
sua prata em ouro. Um dos procos de Belm, devoto 
estudioso de histria, observou h muito tempo que: "O sol 
parece estar pedindo ao Criador licena de um servio to 
ilustre durante algumas horas da noite, prometendo retornar 
de novo e brilhar ao amanhecer."

Leu o pargrafo para os outros, depois disse:
- Parece que os Guardies so bem versados.
- E tm uma boa noo de tempo - concordou Pam. - O 
equincio de outono foi h duas semanas.
Malone rasgou a foto do livro e pensou no resto da pista.
- Encontre o lugar que forma um endereo sem lugar, onde 
 encontrado outro lugar. Essa  a prxima. E mais difcil.
- Cotton, certamente voc j viu a conexo.
Ele vira - e ficou satisfeito porque a mente dela tambm 
estava trabalhando.
- Onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura 
uma cruz de madeira e converte prata em ouro. Encontre o 
lugar. - Ela indicou a foto do livro. - A porta do sacrrio. 
Belm. A Natividade. Aqui  Belm. Lembre-se do que 
lemos hoje cedo em Londres. E o que Haddad escreveu? 
Grandes jornadas costumam comear com uma epifania.
- Acho que voc vai chegar  Grande Final do concurso - 
disse ele. Um vidro se despedaou a distncia.
- Isso veio de dentro do claustro - disse McCollum.
Malone correu para o interruptor e apagou as lmpadas 
halgenas. A escurido os envolveu de novo, e os olhos dele 
precisaram de um momento para se acostumar.
Outro barulho.
Esgueirou-se at a porta aberta e identificou a direo do 
som. Vinha numa diagonal, do lado mais distante do 
claustro, no trreo.
Viu movimento na semi-escurido e notou trs homens 
emergindo de outras portas de vidro.
Cada um tinha uma arma.
Os trs se espalharam na galeria inferior.
 
CINQENTA E DOIS

WASHINGTON, D.C. 
14H45

Stephanie entregou o ingresso ao funcionrio e entrou no 
Museu Aeroespacial Nacional. Green no viera com elas, 
porque a presena do procurador-geral num lugar to 
pblico no teria passado despercebida. Stephanie escolhera 
o local por causa das muitas paredes transparentes do prdio, 
sua reputao como o museu mais visitado do mundo, a 
abundncia de seguranas e os detectores de metal. 
Duvidava que Daley, neste ponto, invocasse qualquer coisa 
oficial que levasse a perguntas desconfortveis, mas ele 
poderia trazer Heather Dixon e seus novos colegas rabes.
Passaram pela multido e olharam o interior do museu, do 
tamanho de trs quarteires, composto de ao, mrmore e 
vidro. O teto ficava a cerca de trinta metros de altura, 
criando um efeito de hangar, e mostrava a histria da 
aviao desde o avio dos irmos Wright at o Spirit of St. 
Louis, de Lindbergh, e a Apollo 11, que foi  lua.
- Muita gente - murmurou Cassiopeia.
Passaram por um cinema IMAX com uma densa fila de 
espectadores e entraram no movimentado Salo do Espao. 
Daley estava perto de um Mdulo Lunar em tamanho real, 
parecido com uma aranha, apresentado como teria aparecido 
na lua, com um astronauta equilibrado na escada de 
desembarque.
Daley parecia calmo. Nenhum fio de cabelo havia escapado 
da priso da brilhantina.
- Est usando roupas de novo - disse ela enquanto se 
aproximavam.
- Subestimei voc, Stephanie. Foi um erro. No vou comet-
lo de novo.
- Deixou todos os seus acompanhantes em casa? - Ela sabia 
que Daley raramente saa sem guarda-costas.
- Todos, menos um.
Daley fez um gesto, e ela e Cassiopeia viraram-se. Heather 
Dixon apareceu do outro lado da exposio do Skylab.
- O trato acabou, Larry - disse Stephanie.
- Voc quer saber sobre o Elo de Alexandria?  ela que vai 
preencher as lacunas.
Dixon veio at eles por entre a multido. Um grupo de 
crianas barulhentas se amontoou junto ao Mdulo Lunar, 
abraando o corrimo de madeira que envolvia a pea. Daley 
levou os outros mais para perto de uma passarela estreita, do 
lado de trs, paralela a uma parede de vidro que separava a 
movimentada cafeteria do museu.
- Voc ainda est morta - observou Dixon a Stephanie.
- No vim aqui para ser ameaada.
- E s estou aqui porque meu governo ordenou.
- Vamos comear pelo princpio - disse Daley.
Dixon pegou um equipamento eletrnico mais ou menos do 
tamanho de um celular e o ligou. Depois de alguns 
segundos, balanou a cabea.
- Elas no esto grampeadas.
Stephanie sabia como o equipamento funcionava. Os 
agentes do Setor usavam aquilo rotineiramente. Pegou o 
detector e apontou-o para Dixon e Daley.
Negativo, tambm.
Jogou-o de volta para Dixon.
- Certo, j que estamos sozinhos, fale.
- Voc  uma vaca - disse Dixon.
- Fantstico. Agora, pode ir ao ponto central deste drama?
-  o seguinte, curto e grosso - disse Daley. - H trinta anos, 
George Haddad estava lendo um exemplar de uma gazeta da 
Arbia Saudita, publicada em Riyadh, estudando topnimos 
no oeste da Arbia e traduzindo-os para o hebraico antigo. 
No fao idia de por que ele estava fazendo isso. Parece o 
mesmo que ficar olhando tinta secar. Mas ele comeou a 
notar que alguns locais eram bblicos.
- O hebraico antigo  uma lngua difcil - disse Cassiopeia. - 
No tem vogais.  difcil de interpretar e cheio de 
ambigidades. Voc precisa saber o que est fazendo.
-  especialista? - perguntou Dixon.
- Nem de longe.
- Haddad  especialista - disse Daley -, e  a que est o 
problema. Esses topnimos bblicos que ele notou estavam 
concentrados numa faixa de cerca de 640 quilmetros de 
comprimento e 160 de largura, na parte ocidental da Arbia 
Saudita.
- Asir? - perguntou Cassiopeia. - Onde fica Meca? 
Daley assentiu.
- Haddad passou anos procurando em outros lugares, mas 
no conseguiu encontrar nenhuma concentrao 
semelhante de topnimos bblicos do Velho Testamento em 
qualquer outro lugar do mundo, incluindo a prpria 
Palestina.
Stephanie sabia que o Velho Testamento era um registro dos 
judeus antigos. Portanto, se os topnimos do oeste da Arbia 
atual, traduzidos para o hebraico antigo, eram de fato 
locaes bblicas, isso poderia ter enormes implicaes 
polticas.
- Est querendo dizer que no havia judeus na Terra Santa?
- Claro que no - respondeu Dixon. - Ns estvamos l. Ele 
s disse que Haddad acreditava que o Velho Testamento era 
um registro da experincia dos judeus no oeste da Arbia. 
Antes de viajarem para o norte at o que conhecemos como 
Palestina.
- A Bblia veio da Arbia? - perguntou Stephanie.
- Isso  um modo de dizer - respondeu Daley. - As 
concluses de Haddad foram confirmadas quando ele 
comeou a comparar a geografia. Durante mais de um sculo 
arquelogos tentaram encontrar, na Palestina, locais que 
combinassem com as descries bblicas. Mas nada se 
encaixa. Haddad descobriu que, se compararmos os locais no 
oeste da Arbia, traduzidos para o hebraico antigo, com a 
geografia bblica, cada um desses locais se encaixa.
Stephanie continuava ctica.
- Por que ningum notou isso antes? Haddad certamente 
no  a nica pessoa que entende hebraico antigo.
- Outros notaram - disse Dixon. - Trs, entre 1948 e 2002. 
Stephanie captou o tom definitivo da voz de Dixon.
- Mas seu governo cuidou deles?  por isso que Haddad 
precisava ser morto?
Dixon no respondeu. 
Cassiopeia interrompeu o silncio.
- Tudo isso remonta s reivindicaes conflitantes, no ? 
Deus fez uma aliana com Abrao e lhe deu a Terra Santa. O 
Gnesis diz que a aliana passou, por intermdio de Isaque, 
filho de Abrao, aos judeus.
- Presume-se h sculos - disse Daley - que a terra que Deus 
identificou para Abrao fica no que conhecemos como 
Palestina. Mas e se no for assim? E se, em vez disso, a terra 
que Deus identificou estivesse em outro lugar? Num lugar 
longe da Palestina. No oeste da Arbia.
Cassiopeia deu um risinho.
- Vocs piraram de vez. O Velho Testamento tem suas 
razes l? No corao do Isl? A terra dos judeus, que Deus 
lhes prometeu, contm Meca? H alguns anos, faces 
muulmanas fizeram tumulto no mundo inteiro por causa de 
uma charge que mostrava Maom. Pode imaginar o que elas 
fariam com isso? 
Daley pareceu no se abalar.
-        Motivo pelo qual sauditas e israelenses queriam Haddad 
morto. Ele disse que a prova de sua teoria seria encontrada 
na biblioteca perdida de Alexandria. E algum que se dizia 
um Guardio contou a ele que isso era verdade.
- Assim como aqueles trs outros indivduos - disse Dixon. - 
Cada um deles foi visitado por um emissrio que se dizia 
Guardio e que ofereceu um modo de encontrar a biblioteca.
- Que tipo de prova poderia haver? - perguntou Stephanie. 
Daley ficou impaciente.
- H cinco anos, Haddad disse s autoridades palestinas que 
acreditava que documentos antigos poderiam ser usados para 
verificar suas concluses. Apenas um Velho Testamento, 
escrito antes da poca de Cristo, no hebraico original, 
poderia ser decisivo. Nenhum mais antigo que o do sculo X 
existe atualmente. Haddad sabia, a partir de outros escritos 
que sobreviveram, que havia textos bblicos na Biblioteca de 
Alexandria. Encontrar um deles poderia ser o nico modo 
de provar alguma coisa, j que os sauditas no permitem 
pesquisas arqueolgicas em Asir.
Stephanie se lembrou do que Green havia lhe dito na manh 
de tera-feira.
- Foi por isso que eles arrasaram aqueles povoados. Estavam 
com medo. No queriam que nada fosse encontrado. Nada 
que pudesse ser associado  Bblia judaica.
- E  por isso que agora querem voc morta - disse Dixon. - 
Voc est interferindo nos negcios deles. No se pode 
correr nenhum risco.
Stephanie olhou para o Salo do Espao. Foguetes em 
exposio estendiam-se na direo do teto. Crianas 
empolgadas iam de uma pea para outra. Olhou irritada para 
Dixon.
- Seu governo acredita em tudo isso?
- Esse foi o motivo para aqueles trs homens serem mortos. 
Por isso Haddad era um alvo.
Ela apontou para Daley.
- Ele no  amigo de Israel. Quer usar o que descobrir para 
colocar o seu governo de joelhos.
Dixon gargalhou.
- Stephanie, voc est pirando.
- No h dvida de que essa  a motivao dele.
- Voc no tem idia da minha motivao - disse Daley, a 
indignao crescendo.
- Eu sei que ele  mentiroso.
Daley a encarou de volta, desconfiado. Quase pareceu 
confuso, o que a surpreendeu, por isso ela perguntou:
- O que est realmente acontecendo, Larry?
- Mais do que voc pode imaginar.

CINQENTA E TRS

LISBOA 
20H45

Malone recuou para a loja de suvenires, mas manteve a 
ateno nos trs homens armados, que avanavam em 
movimentos treinados pela galeria inferior. Profissionais. 
timo.
Usou uma das vitrines adjacentes  porta aberta como 
escudo, com Pam ao lado, e continuou a espiar o claustro. 
McCollum estava agachado perto da mesa do centro.
- Eles esto em cima e ns estamos embaixo. O que deve 
nos garantir alguns minutos. A igreja e as galerias so 
grandes. Vai demorar para revistarem. Aquilo est trancado? 
- perguntou a McCollum, indicando a outra porta de vidro 
para fora da loja.
- Acho que sim. Elas do para o lado de fora. De modo que 
devem ser trancadas, como precauo.
Malone no gostou da situao em que estavam.
- Temos de sair daqui.
- Cotton - disse Pam, e ele voltou a ateno para a galeria 
superior. Um dos homens havia sado da escada e comeava 
a avanar em direo  loja de lembranas.
McCollum se esgueirou atrs de Malone e sussurrou:
- Leve-a para a caixa registradora e vo para trs do balco. 
Qualquer um que fosse capaz de atirar na cabea de dois 
homens e depois tomar o caf-da-manh merecia respeito. 
Por isso, Malone decidiu no discutir. Pegou o brao de Pam 
e levou-a para o outro lado do balco.
Viu McCollum segurar a faca.
As trs vitrines ficavam lado a lado, com uma abertura entre 
elas suficiente para acomodar McCollum. A escurido iria 
escond-lo, pelo menos at ser tarde demais para sua presa 
reagir.
O homem armado chegou mais perto.

Stephanie estava perdendo a pacincia com Larry Daley.
- O que voc quer dizer com mais do que eu posso 
imaginar?
- H pessoas, dentro da administrao, que querem provar a 
teoria de Haddad.
Ela se lembrou do que Daley dissera a Brent Green quando 
pensava que os dois estavam a ss.
- Inclusive voc.
- No  verdade.
Ela no estava engolindo aquilo.
- Caia na real, Larry. Voc s est aqui porque eu tenho suas 
sujeiras. Daley pareceu no se abalar.
- Est na hora de uma verificao de realidade, Stephanie. 
Nosso pessoal da mdia vai transformar qualquer coisa que 
voc faa numa histria de provas inventadas por uma 
funcionria fora de controle que est tentando salvar o 
emprego. Claro, pode haver algum embarao, perguntas da 
imprensa, mas voc no tem o suficiente para me derrubar 
nem para derrubar mais ningum. No dei um tosto a 
ningum. E quanto queles lobistas?  uma disputa de 
xingamentos. Uma batalha que voc vai perder.
- Talvez. Mas voc ficaria radiativo. Sua carreira acabaria. 
Daley deu de ombros.
- Risco ocupacional.
Cassiopeia estava examinando o salo de exposies e 
Stephanie sentiu que ela estava ansiosa. Por isso disse a 
Daley:
- V direto ao assunto.
- O assunto - disse Heather Dixon -  que ns queremos que 
tudo isso acabe. Mas algum dentro do seu governo no 
quer deixar.
- Isso mesmo. Ele. - E Stephanie apontou para Daley. 
Cassiopeia voltou o olhar para o Mdulo Lunar e o bando de 
adolescentes apinhados ao redor da base.
- Stephanie - disse Daley - voc me culpou pelo vazamento 
do Elo de Alexandria. Mas voc no diferencia seus amigos 
de seus inimigos. Voc odeia esta administrao. Acha que o 
presidente  um idiota. Mas h outros muito piores. Gente 
perigosa.
- No - disse ela. - So todos fanticos. Legalistas do partido 
que mantiveram a boca fechada durante anos. Agora esto 
em condio de fazer alguma coisa.
- E, por enquanto, Israel est no topo da lista deles.
- Pare com as charadas, Larry. Diga o que quer que eu saiba.
- O vice-presidente est por trs de tudo isso. Ser que ela 
ouvira direito?
- Caia na real.
- Ele  ligado aos sauditas. Eles o financiaram durante longo 
tempo. Ele est na poltica h um bom tempo. Alguns 
mandatos no Congresso, trs anos como secretrio do 
tesouro e agora na cadeira de vice. Ele quer o cargo 
principal, no faz segredo disso, e os fiis do partido lhe 
prometeram a indicao. Tem amigos com boas relaes 
com os sauditas, e esses amigos  que vo lhe dar dinheiro. 
Ele e o presidente discordam em relao ao Oriente Mdio. 
Ele  unha e carne com a famlia real saudita, mas mantm 
isso em segredo. Em pblico, pegou pesado com os sauditas 
algumas vezes. Mas garantiu que eles soubessem sobre o Elo 
de Alexandria.  a compensao pela boa vontade deles.
O que ela estava ouvindo soava contrrio ao que Brent 
Green havia dito, j que o prprio procurador-geral assumira 
a culpa do vazamento.
Cassiopeia retornou.
- O que foi? - perguntou Stephanie.
- Acabe com isso.
- Problema?
- Sensao ruim.
- H intriga demais na sua vida - disse Dixon a Cassiopeia.
- H mentiras demais na sua.
Stephanie encarou Daley, com os pensamentos confusos.
- Achei que voc disse h alguns minutos que algumas 
pessoas na administrao querem provar a teoria de Haddad. 
Agora voc diz que o vice-presidente a repassou aos 
sauditas. Eles iam querer que a coisa desaparecesse. Qual ?
- Stephanie, o que voc pegou na minha casa acabaria 
comigo. Eu trabalho nas sombras. Sempre trabalhei. Mas 
algum tem de fazer isso. Quer me pegar ou quer pegar 
quem realmente est por trs da coisa?
No era uma resposta  sua pergunta.
- De voc, quero tudo.
- No  possvel. Pela primeira vez, quer ouvir? Voc pode 
bater num tronco o dia inteiro com um machado e talvez 
consiga cort-lo. Mas enfie uma cunha no centro, e o 
negcio racha de primeira.
- Voc s est tentando salvar a pele.
- Conte a ela - disse Daley a Dixon.
- H uma diviso no seu governo. Voc ainda  nossa amiga, 
mas h algumas pessoas que querem mudar isso.
Stephanie no ficou impressionada.
-  sempre assim. H dois lados em tudo.
- Isso  diferente - insistiu Dixon. - Tem mais coisas 
acontecendo. E Malone est em Portugal.
Isso atraiu a ateno dela.
- O Mossad planeja cuidar dele por l. 
Daley passou a mo pelo cabelo.
- Stephanie, h dois fatores atuando. Um rabe, um judeu. 
Os dois querem a mesma coisa e, pela primeira vez, querem 
pelo mesmo motivo. O vice-presidente  ligado aos rabes...
Um alarme ecoou no enorme museu e, em seguida, uma voz 
chapada anunciou pelos alto-falantes que o prdio devia ser 
evacuado imediatamente.
Stephanie agarrou Daley.
- No sou eu - disse ele rapidamente.

Sabre ficou totalmente imvel. Precisava que o sujeito 
armado entrasse na loja de lembranas.
Ele entraria.
Tinha de entrar.
Perguntou-se para onde os outros dois teriam ido. A resposta 
veio com um movimento atrs da porta de vidro trancada. 
Interessante.
Aqueles trs obviamente conheciam a geografia do local, 
bem como sabiam que o destino dos outros fora a loja de 
lembranas. Ser que teriam visto as luzes?
Os dois homens  esquerda testaram a porta e viram que 
estava trancada. Em seguida, recuaram e dispararam contra o 
vidro.
No houve rudo alto. Apenas estalos. Como um martelo 
num prego. O metal bateu contra o vidro, mas no o 
despedaou.
 prova de balas.
O terceiro homem na galeria superior entrou correndo pela 
porta aberta, com a arma  frente do corpo. Sabre esperou o 
instante de indeciso, quando seu alvo tinha de avaliar o 
momento, depois saltou adiante, acertando a arma do sujeito 
com o p enquanto levantava a faca e cortava o pescoo 
dele. No deu tempo para ele perceber seu destino, 
mergulhando a lmina na dobra do pescoo.
Alguns sons ofegantes, e o sujeito despencou no cho.
Mais sons ocos ressoaram na porta de vidro. Dois chutes no 
adiantaram nada. Ento ele ouviu passos enquanto os dois 
atacantes recuavam, descendo a escada.
Pegou a arma do morto.

O alarme continuou a tocar. Centenas de visitantes iam em 
direo s entradas do museu. Daley ainda estava seguro por 
Stephanie.
- O vice-presidente tem aliados - disse ele. - No pode fazer 
isso sozinho.
Ela estava escutando.
- Stephanie. Brent Green est trabalhando com o vice-
presidente. Ele no  seu amigo.
O olhar dela se grudou no de Heather Dixon, que falou:
- Ele est dizendo a verdade. Quem mais sabia que voc 
vinha para c? Se quisssemos voc morta, este no seria o 
local do encontro.
Stephanie se achava no controle, mas agora no tinha tanta 
certeza. Green era, de fato, a nica outra pessoa que sabia 
que eles estavam ali - se  que Dixon e Daley estavam 
dizendo a verdade.
Soltou Daley, que disse:
- Green est ligado ao vice-presidente. J h um tempo. 
Recebeu a promessa do segundo lugar na chapa. Brent 
jamais poderia ter esperanas de ganhar uma eleio. Essa  
sua nica chance de subir.
De novo um anncio ordenou que o prdio devia ser 
evacuado. Um segurana saiu da cafeteria e disse que eles 
precisariam sair.
- O que est acontecendo? - perguntou Daley.
-  s uma precauo. Temos de liberar o prdio.
Atravs das paredes de vidro mais distantes, Stephanie viu 
pessoas se afastando da pista e das rvores que separavam o 
museu do parque gramado.
Tremenda precauo.
Voltaram pela entrada principal. As pessoas continuavam 
passando pelas portas. Muita conversa e rostos preocupados. 
Na maioria, adolescentes e suas famlias, falando sobre o que 
poderia estar acontecendo.
- Vamos achar outro caminho - disse Cassiopeia. - Pelo 
menos sejamos um pouquinho imprevisveis.
Ela concordou. Foram andando. Daley e Dixon ficaram 
rgidos, como se tentassem faz-las acreditar.
- Stephanie - gritou Daley. 
Ela se virou.
- Sou o nico amigo que voc tem. Procure-me quando 
perceber isso.
Stephanie no deu peso s palavras dele, mas odiava a 
sensao de incerteza que a tomou.
- Temos de ir - disse Cassiopeia.
Foram depressa por mais galerias apinhadas de aeronaves 
brilhantes, passando por uma loja de lembranas que perdia 
clientes rapidamente. Cassiopeia parecia decidida a usar uma 
das sadas de emergncia - um bom movimento, visto que 
os alarmes j estavam ativados.
Adiante, de trs de uma vitrine cheia de avies em 
miniatura, saiu um homem. Alto, vestindo terno preto. 
Ergueu a palma da mo direita. Stephanie viu um fio fino 
saindo de seu ouvido esquerdo.
Ela e Cassiopeia pararam e se viraram. Mais dois homens, 
com roupas e equipamentos semelhantes, estavam atrs 
delas. Ela registrou sua aparncia e seus modos.
Servio secreto.
O primeiro falou num microfone de lapela, e o alarme do 
prdio ficou silencioso.
- Podemos fazer isso do modo mais fcil, Sra. Nelle?
- Por que eu deveria?
O homem chegou mais perto.
- Porque o presidente dos Estados Unidos quer falar com a 
senhora.




CINQENTA E QUATRO

LISBOA 
21H30

Malone rodeou o balco e se agachou perto de onde 
McCollum estava revistando os bolsos do morto. Vira o 
suposto caador de tesouros matar o atacante com preciso 
de especialista.
- Aqueles dois esto dando a volta pela igreja e vm para c - 
disse ele.
- Sei disso - respondeu McCollum. - Aqui esto dois pentes 
extras. E outra arma. Faz alguma idia de quem so eles?
- Israelenses. Tm de ser.
- Pensei que voc tinha dito que eles estavam fora de cena.
- E eu pensei que voc tinha dito que era amador. Acaba de 
mostrar muita habilidade.
- A gente faz o que tem de fazer quando est com o rabo na 
reta. Malone notou outra coisa presa  cintura do morto. 
Soltou a unidade metlica.
Um localizador. Havia usado aquilo muitas vezes para seguir 
um alvo marcado eletronicamente. Ativou a tela de vdeo e 
viu que o aparelho estava rastreando algo em modo 
silencioso. Um indicador piscante mostrava que o alvo 
estava prximo.
- Temos de ir - disse Pam.
- Isso vai ser um problema - respondeu Malone. - A nica 
sada  pela galeria. Mas os outros dois homens j devem 
estar perto da escada. Temos de arranjar outro modo de 
descer.
Guardou a unidade localizadora no bolso. Com as armas na 
mo, deixaram a loja de suvenires.
Os dois homens saram rapidamente de um arco a cerca de 
30 metros dali e comearam a atirar.
Sons parecendo bales de gs estourando ecoaram no 
claustro.
Malone mergulhou no piso da galeria, levando Pam. Os 
cantos no faziam noventa graus, eram abertos, tornando o 
claustro octogonal. Ele usou o ngulo como cobertura.
- Vo para l - disse McCollum. - Vou mant-los ocupados.
Um banco de pedra contnuo acompanhava o permetro 
externo, ligando os arcos e formando uma balaustrada 
elaborada. Agachando-se, Malone e Pam se afastaram da loja 
de suvenires, onde McCollum estava disparando contra os 
dois homens.
Balas ricochetearam na parede de pedra 3 metros  esquerda 
de Malone, algumas atrs, outras  frente. Ele percebeu o 
que estava acontecendo. As sombras deles, lanadas pelas 
lmpadas incandescentes que iluminavam fracamente a 
galeria, traam sua presena. Agarrou Pam, parou de avanar 
e grudou-se no cho. Apontou e, com trs balas, apagou as 
lmpadas  frente.
Agora a escurido os envolvia.
McCollum havia parado de atirar.
Assim como os outros homens.
Malone fez um gesto e os dois avanaram, ainda agachados, 
usando os arcos, a balaustrada e o banco de pedra como 
proteo. Chegaram ao fim da galeria.
 direita, a parede interna da prxima galeria avanava. Sem 
portas. Na extremidade mais distante havia outra parede 
contnua. A esquerda de Malone ficava um conjunto de 
portas de vidro, uma aberta, convidando os visitantes a 
entrar. Urna placa identificava a sala como refeitrio. Ser 
que haveria um caminho para dentro? Fez um gesto e os 
dois entraram.
Trs sons ocos bateram no exterior do vidro. Nenhuma bala 
penetrou. Mais material  prova de bala. Malone agradeceu a 
Deus por quem havia escolhido as portas.
- Cotton, temos um problema - disse Pam. Ele olhou para o 
refeitrio.
Atravs da escurido, rompida apenas pelos raios difusos que 
entravam pelas janelas, ele viu um espaoso retngulo 
coberto por um teto em abobadas, semelhante ao da igreja. 
Uma baixa cornija de pedra cercava o cmodo, sob a qual 
ficava um colorido mosaico de azulejos. Nenhuma porta 
dava para fora. As janelas ficavam trs metros acima do 
cho, e no havia como chegar a elas.
Malone s via duas aberturas.
Uma ficava na outra extremidade, e ele correu pelos 15 
metros e viu que aquilo j devia ter sido uma lareira, mas 
agora era um nicho decorativo.
Lacrado.
A outra abertura era menor, talvez medindo 1,20 m por 
1,50 m, recuando cerca de um metro na parede externa. 
Aquele lugar j fora o refeitrio da abadia, de modo que 
devia ser ali que a comida era preparada antes de ser servida.
Pam estava certa. Eles tinham um problema.
- Suba aqui - disse ele.
Ela no discutiu e espremeu-se at uma prateleira de pedra 
acima de uma bacia, tambm de pedra.
- Devo ter ficado louca para estar aqui.
-  meio tarde para notar isso.
Malone manteve o olhar fixo na porta que dava na galeria 
superior. Uma sombra cresceu na luz fraca. Ele viu que Pam 
estava segura, dentro do nicho, e subiu atrs dela, em cima 
da bacia, encostando a coluna na prateleira, o mais dentro do 
nicho possvel.
- O que voc vai fazer? - perguntou ela em seu ouvido.
- O que for preciso.

Sabre tinha visto os homens se separarem. Um foi atrs de 
Malone; o outro se enfiou no arco que dava de volta na 
igreja. Decidiu que o terreno mais elevado seria melhor, 
por isso esgueirou-se cuidadosamente at a mesma 
passagem, esperando que ela levasse ao coro superior, onde 
Malone e a ex-mulher haviam estado antes.
Gostava da caada, especialmente quando a presa oferecia 
um desafio. Pensou na identidade daqueles homens. Seriam 
israelenses, como Malone pensava? Fazia sentido. Ele sabia, 
por meio de Jonah, que um esquadro de assassinos fora 
despachado para Londres, mas George Haddad j fora morto. 
Ele ouvira o encontro pela fita, confirmado por Malone. 
Ento, o que os israelenses tinham vindo fazer ali? Estariam 
atrs dele? Improvvel. Ento de quem?
Encontrou a porta e entrou.
 esquerda descia a escada para a igreja. Atravs da 
escurido ouviu passos abaixo.
Entrou no coro, parou onde a balaustrada encontrava a 
parede de pedra externa e olhou para baixo com cuidado. 
Janelas no alto da fachada sul da igreja brilhavam com a luz 
ambiente. A forma escura de um homem com uma arma na 
mo esgueirou-se pelo corredor formado pelo fim dos 
bancos e a parede norte da igreja, mantendo-se nas sombras, 
tentando ir at o coro inferior.
Sabre disparou duas vezes.
Os estalos silenciados ressoaram na grande nave. Um 
alcanou o alvo e o homem gritou, virou-se e depois 
cambaleou de encontro a um banco. Sabre reajustou a mira, 
apenas moderadamente mais difcil por causa da escurido, e 
com mais dois tiros derrubou o sujeito.
Nada mau.
Soltou o pente da arma e substituiu-o por um novo, que 
tirou do bolso.
Virou-se para sair. Hora de encontrar Malone. Uma arma 
apareceu em seu rosto.
- Largue o revlver - disse a voz em ingls.
Ele hesitou e tentou encontrar um rosto para a voz, mas a 
escurido revelou apenas uma sombra. Ento percebeu que 
o sujeito usava capuz. Sentiu o toque arrepiante de outro 
cano de arma em seu pescoo.
Dois problemas.
- Mais uma vez - disse o primeiro homem. - Largue a arma. 
Sem escolha. A arma caiu no cho fazendo barulho.
A pistola que estava em seu rosto foi abaixada. Ento, algo 
girou no ar e acertou a lateral de seu crnio. Antes que 
qualquer sugesto de dor se registrasse no crebro, o mundo 
ao redor ficou silencioso.
 
CINQENTA E CINCO

Malone segurou a automtica e esperou. Arriscou um olhar 
pela borda do nicho onde ele e Pam estavam escondidos.
A sombra continuava a se expandir enquanto o sujeito se 
aproximava.
Imaginou se o atacante sabia que no existia sada. Presumiu 
que no. Por que outro motivo ele estaria avanando? Era s 
esperar na galeria. Mas havia aprendido, muito tempo antes, 
que muitas pessoas que matavam para viver eram assoladas 
pela impacincia. Queriam fazer o servio e dar o fora. A 
espera s aumentava as chances de fracasso.
Pam estava ofegando, e Malone no podia culp-la. Ele 
tambm lutava contra o corao acelerado. Disse a si mesmo 
para se acalmar. Pense. Esteja preparado.
Agora a sombra se estendia pela parede do refeitrio.
O homem entrou bruscamente, apontando a arma.
A viso inicial do sujeito seria uma cmara escura e vazia, 
sem mveis. O nicho na extremidade mais distante deveria 
atrair imediatamente sua ateno, depois a segunda abertura 
na parede. Porm, Malone no esperou que tudo isso se 
registrasse. Rolou para fora do esconderijo e disparou.
A bala passou zumbindo pelo alvo e ricocheteou na parede. 
O sujeito pareceu atordoado por um instante, mas 
recuperou-se depressa, virou a arma na direo de Malone e 
aparentemente percebeu que estava exposto.
Isso seria um duelo.
Malone disparou de novo, e sua bala encontrou a coxa do 
sujeito. Um grito de agonia, mas o atacante no caiu. Malone 
plantou uma terceira bala no peito do homem. Ele 
cambaleou, depois caiu de costas no cho.
- Voc  um homem duro de matar, Malone - disse uma voz 
masculina do outro lado da porta.
Ele registrou a voz. Era Ado, do apartamento de Haddad. 
Agora sabia. Israelenses. Mas como o haviam encontrado? 
Ouviu passos. Correndo para longe.
Hesitou, depois correu para a porta, decidido a terminar o 
que havia comeado em Londres. Parou e espiou para fora.
- Aqui, Malone - gritou Ado.
Olhou pelo o claustro aberto diagonalmente, para o lado 
mais distante, onde Ado estava sob um dos arcos. O rosto 
era inconfundvel.
- Voc  um bom atirador, mas no to bom assim. Agora 
somos s voc e eu.
Malone viu Ado desaparecer na porta que dava na igreja.
- Pam, fique a - disse ele. - Se me desafiar desta vez, pode 
lidar com os atiradores, sozinha.
Saiu correndo do refeitrio e disparou pela galeria. Onde 
estava McCollum? Dois atiradores estavam definitivamente 
fora de combate. Ele s vira trs antes. Ser que Ado havia 
matado McCollum? S voc e eu. Era isso que o israelense 
havia dito.
Decidiu que seria idiotice ir atrs de Ado at a igreja. Faa o 
inesperado. Por isso saltou num dos bancos que 
acompanhavam a borda externa da galeria e olhou para 
baixo. A ornamentao e os arabescos que adornavam o 
claustro eram impressionantes e fortes. Enfiou a arma no 
cinto e ps o corpo para fora, segurando o topo do banco de 
pedra e deixando os ps encontrarem uma grgula que se 
projetava, disfarando uma calha de gua. Equilibrando-se, 
dobrou-se para baixo, segurou a pedra e girou at uma laje 
que se estendia de um suporte de arco. De l, eram menos 
de 2 metros at a grama do jardim do claustro.
De repente, Ado saiu da igreja, na galeria mais distante, 
correndo por toda a extenso.
Malone agarrou a arma e disparou. Errou, mas 
definitivamente atraiu a ateno do sujeito.
Ado desapareceu abaixado, usando como cobertura os 
mesmos bancos que Malone havia aproveitado antes.
O israelense apareceu e deu um tiro.
Malone mergulhou entre dois suportes cheios de arabescos e 
caiu na galeria inferior, batendo com fora no piso de 
ladrilhos. Ficou sem ar. Seu corpo de 48 anos no podia 
suportar muita coisa, independentemente do que ele fizera 
todos os dias tempos atrs. Voltou ao banco e olhou com 
cuidado para o outro lado do claustro.
Ado estava correndo de novo.
Malone saltou de p e correu para a esquerda, rodeando um 
canto e indo direto na direo de Ado, que desapareceu 
passando por outra porta de vidro, encaixada entre dois 
elaborados arcos emoldurados por esttuas.
Foi at l e parou do lado oposto.
Uma placa identificava o lugar escuro do outro lado como a 
casa dos captulos, onde antigamente os monges se reuniam. 
Seria idiotice abrir a porta de vidro. No havia muita luz para 
enxergar do outro lado; somente janelas, duas, claramente 
definidas.
Decidiu usar o que sabia.
Abriu uma banda da porta de vidro e manteve o corpo atrs 
da outra, que deveria proteg-lo de qualquer tiro. No veio 
nenhum.
Um tmulo enorme ocupava o centro do alto retngulo.
Procurou com o olhar. Nada. Seus olhos foram atrados para 
as janelas. A da direita estava despedaada, o vidro espalhado 
no cho, uma corda desaparecendo no alto, sendo puxada 
pelo lado de fora.
Ado havia sumido.
Passos soaram na pedra, e ele viu Pam e McCollum correndo 
em sua direo. Saiu para a galeria e perguntou a McCollum:
- O que aconteceu com voc?
- Fui acertado na cabea. Eram dois. L em cima no coro. 
Derrubei um dentro da igreja, ento eles me pegaram.
- Por que voc ainda est respirando?
- No sei, Malone. Por que no pergunta a eles?
Malone fez as contas. Trs mortos. Mais dois que 
supostamente haviam arrochado McCollum. Cinco? Mas ele 
s vira trs. Apontou a arma para McCollum.
- Aqueles caras invadem isto aqui, tentam me matar e matar 
Pam, mas acertam voc na cabea e vo embora. Meio 
demais, no acha?
- O que quer dizer, Malone? 
Malone pescou o localizador no bolso.
- Eles trabalham para voc. Vieram aqui para nos pegar, para 
que voc no tivesse de fazer isso.
- Garanto: se eu quisesse voc morto, voc j estaria morto.
- Eles subiram direto at a loja de suvenires. Circularam 
como urubus. Conheciam a geografia. - Malone levantou o 
localizador. - E estavam nos rastreando. Matei um l em 
cima e estava bem perto de pegar o terceiro. Ento ele 
simplesmente vai embora? O esquadro de assassinos mais 
estranho que j vi.
Malone ligou o aparelho e apontou-o para McCollum. 
Mudou o ajuste para sonoro, e um pin baixinho indicou que 
o receptor havia encontrado o alvo.
- Eles estavam rastreando voc. Isso vai nos dizer com 
certeza.
- V fundo, Malone. Faa o que tiver de fazer.
Pam estivera parada de lado, em silncio, e Malone lhe disse:
- Achei que tinha mandado voc ficar l em cima.
- Fiquei, at que ele chegou. E, Cotton, ele est com um galo 
horrvel na lateral da cabea.
Malone no ficou impressionado.
- Ele  forte o bastante para receber uma pancada dada para 
nos enganar pelas pessoas que ele contratou.
Apontou o localizador para McCollum, mas a pulsao 
rtmica permaneceu constante.
- Satisfeito? - perguntou McCollum.
Malone virou o aparelho para a esquerda e para a direita, mas 
os bips continuaram os mesmos. McCollum no era a fonte. 
Pam passou por ele, examinando o interior da casa dos 
captulos.
Os bips mudaram.
McCollum tambm notou.
Malone mantinha a arma apontada, o que disse a McCollum 
para ficar imvel. Apontou a unidade na direo de Pam e a 
pulsao se intensificou.
Ela tambm ouviu e virou-se para ele.
Malone baixou a arma e deu dois passos para perto, ainda 
balanando o aparelho. A pulsao enfraqueceu, 
enfraqueceu de novo, depois se solidificou, quando o 
aparelho foi apontado para ela.
Uma expresso de perplexidade surgiu no rosto de Pam, e 
ela perguntou:
- O que  isso?
- Eles estavam rastreando voc. Foi assim que encontraram 
George. Voc.
A raiva o dominou. Ele jogou o localizador no cho, enfiou a 
arma no bolso e comeou a revist-la.
- Que diabo voc est fazendo? - gritou ela.
Ela estava claramente nervosa, mas ele no poupou seus 
sentimentos.
- Pam, nem que eu tenha de tirar toda a sua roupa e revistar 
em cada cavidade, vou encontrar o que h em voc. Ento, 
diga onde est.
A mente dela pareceu girar, sem entender nada.
- Onde est o qu?
- O que o localizador est rastreando.
- O relgio - disse McCollum.
Ele se virou. McCollum estava apontando para o pulso de 
Pam.
- Tem de ser. Ele tem fonte de energia e  grande o 
suficiente para acomodar um sinalizador.
Malone agarrou o pulso de Pam, desafivelou o relgio, tirou-
o e jogou-o pelo cho da galeria. Em seguida, pegou o 
localizador e apontou. Um ritmo slido indicou que o 
relgio era mesmo o alvo. Apontou o aparelho de novo para 
Pam e a pulsao diminuiu.
- Ah, meu Deus - murmurou ela. - Eu fiz aquele velho ser 
morto.
 
CINQENTA E SEIS

Malone entrou no centro empresarial do Ritz Four Seasons. 
Tinham deixado o mosteiro pela porta principal. Como elas 
podiam ser abertas por dentro, aquela era a sada mais rpida.
Em seguida, haviam rodeado o prdio e descoberto por onde 
Ado e seus compatriotas tinham entrado. As janelas 
elegantes da casa dos captulos, adornadas com velhos 
arabescos de pedra, eram as nicas que no possuam grades. 
Ficavam a menos de dois metros do cho e davam para uma 
ruela escura. Duas rvores frondosas ofereciam uma 
excelente cobertura para a invaso.
Depois, andaram alguns quarteires para leste at a rea 
comercial de Belm e pegaram um bonde para o centro de 
Lisboa. De l, tomaram um txi para o norte, seguindo 
alguns quilmetros at o hotel. Ningum disse nada durante 
a viagem. Malone continuava num dilema. Enquanto havia 
pensado que McCollum era a ameaa, o perigo estava muito 
mais perto. Mas acabara com a hiptese de mais caadas 
jogando o relgio numa fileira de cercas vivas no jardim do 
claustro.
Precisava pensar.
Assim, entraram numa das salas de reunies do centro 
empresarial e fecharam a porta. Um telefone e um 
computador esperavam sobre a mesa, junto com canetas e 
papel. Ele gostava disso no Four Seasons.  s dizer o que 
quer, e voc recebe.
- Cotton - disse Pam imediatamente. - Aquele relgio foi um 
presente. Eu lhe disse. Do homem com quem eu estava 
saindo.
Malone se lembrava de ela ter contado isso em Londres. Um 
TAG. Caro. Ele ficara impressionado.
- Quem  ele?
- Um advogado de outro escritrio. Scio snior.
- H quanto tempo vocs estavam se vendo? - A coisa saiu 
como se ele se importasse, mas no se importava.
- Alguns meses. Qual ! Como ele poderia saber que isso iria 
acontecer? Ele me deu esse relgio h semanas.
Malone queria acreditar. Mas mulheres de agentes j haviam 
sido usadas antes. Pegou o telefone e ligou para o Setor 
Magalhes, em Atlanta. Disse  voz do outro lado quem era 
e o que queria. Recebeu instruo para esperar na linha. 
Dois minutos depois, uma voz masculina disse em seu 
ouvido:
- Cotton, aqui  Brent Green. Seu telefonema foi repassado a 
mim.
- Preciso falar com Stephanie.
- Ela no se encontra disponvel. Muita coisa est 
acontecendo aqui. Voc ter de lidar comigo.
- O que o procurador-geral est fazendo no meio de um 
negcio do Setor? Em geral, o senhor fica longe disso.
-  complicado, Cotton. Stephanie foi afastada do cargo, e 
ns dois estamos no meio de uma batalha.
Ele no ficou surpreso.
- E tudo tem a ver com o que estou fazendo aqui.
- Precisamente. Nesta administrao, h pessoas que 
puseram seu filho em risco.
- Quem?
- No temos certeza.  isso que Stephanie est tentando 
descobrir. Pode me dizer o que est acontecendo a?
- Estamos curtindo de monto. Uma festa depois da outra. 
Lisboa  um barato.
- Algum motivo para ser sarcstico?
- Posso pensar numa tonelada. Mas preciso que o senhor 
faa uma coisa. Verifique um homem chamado James 
McCollum. Ele diz que  do exrcito, foras especiais. - E 
fez uma descrio fsica para Green.
- Preciso saber se o cara  de verdade e o passado dele. - 
Enquanto fazia o pedido, olhou direto para McCollum, mas 
este no se abalou.
- O que est acontecendo com Stephanie?
- Isso demoraria muito. Mas precisamos saber o que voc 
est fazendo. Isso poderia ajud-la.
- Eu nunca soube que o senhor se importava tanto.
- No entendo por que todo mundo acha que no gosto dela. 
Na verdade, ela tem muitos pontos fortes. Mas, no 
momento, est encrencada. No tenho notcias dela nem da 
Srta. Vitt h vrias horas.
- Cassiopeia est a?
- Com Stephanie. Seu amigo Henrik Thorvaldsen mandou-a.
Green estava certo. Havia muita coisa acontecendo l.
- Tambm tenho uma questo com minha ex-mulher. 
Parece que os israelenses a estavam rastreando.
- Sabemos disso. Um homem com quem ela estava se 
encontrando em Atlanta era simpatizante dos israelenses. O 
Mossad pediu que ele desse umas coisas a ela. Um relgio, 
um medalho, um anel. Todos funcionavam por GPS. 
Presumimos que a idia fosse que ela usaria um deles num 
momento ou em outro.
- Isso significa que os israelenses sabiam que algo ia 
acontecer com meu filho, por isso se prepararam para tirar 
vantagem.
-  uma concluso segura. O Elo de Alexandria est intato?
- No tinha idia que o senhor sabia sobre isso.
- Agora sei.
- Os israelenses cuidaram disso permanentemente ontem e 
quase nos pegaram h pouco. - Agora ele precisava pensar 
mesmo. - Preciso desligar. O senhor tem um nmero para 
onde eu possa ligar diretamente? - Green deu o nmero. - 
Fique firme. Entro em contato em breve.
- Cotton - disse Green. - O tal advogado com quem sua 
mulher estava saindo morreu. Foi morto a tiros h alguns 
dias. O Mossad limpou a trilha.
Malone registrou a mensagem.
- Eu a manteria por perto - continuou Green. - Ela tambm 
 uma ponta solta.
- Ou algo mais.
- De qualquer modo, ela  um problema. 
Malone desligou. Pam encarou-o.
- Seu amante est morto. Israel fez o servio. Ele estava 
trabalhando para eles.
O choque retorceu o rosto de Pam. Malone no poderia se 
importar menos. Aquele sujeito havia participado da 
armadilha para colocar Gary em risco.
-  isso que acontece quando a gente faz carinho numa 
cascavel. Eu estava me perguntando como tnhamos sido 
encontrados no hotel em Londres. No havia como termos 
sido seguidos desde o apartamento de Haddad.
Viu como ela estava perturbada, mas no havia tempo para 
os sentimentos de Pam. Preocupar-se com o impossvel 
poderia lev-los  morte. Encarou McCollum.
- Voc ouviu. Estou verificando seu passado.
- Acabou com o teatro? Lembre-se de que ainda tenho o 
resto da saga e no sabemos aonde ir agora.
- Quem disse? - Malone encontrou a foto do livro da loja de 
suvenires e desdobrou-a. - Encontre o lugar que forma um 
endereo sem lugar, onde  encontrado outro lugar. Certo, 
encontramos o lugar onde a prata vira ouro. Isto. A 
Natividade. Belm. O que  que tem endereo, mas no tem 
lugar? - Ele apontou para o computador. - Um monte de 
endereos sem que haja um lugar associado a deles. 
Endereos da internet. Sentou-se diante da mquina.
- Os Guardies precisavam ter um modo de controlar as 
pistas. Eles no parecem do tipo que simplesmente jogam 
alguma coisa e deixam para l. Uma vez que um convidado, 
ou um estranho, chegasse to longe, eles precisariam de um 
modo de parar com a busca, se quisessem. Que modo 
melhor do que ter as pistas finais num site da internet 
controlado por eles?
Digitou BELEM.COM, mas foi transferido para um site 
comercial cheio de lixo. Tentou BELEM.NET e encontrou 
mais coisas do tipo. Depois, em BELEM.ORG, a tela ficou 
branca e apareceu uma pergunta em letras pretas.

O QUE VOC BUSCA?

O cursor piscou embaixo da pergunta sobre uma linha preta, 
pronta para a resposta. Ele digitou A BIBLIOTECA DE 
ALEXANDRIA. A tela piscou, depois mudou.

NADA MAIS?

Ele digitou o que achava que queriam ouvir.

CONHECIMENTO.

A tela mudou de novo.

28 41.41N 
33 38.44L

Malone sabia o que aqueles nmeros representavam. 
Encontre o lugar que forma um endereo sem lugar, onde  
encontrado outro lugar.
-  o outro lugar.
- Coordenadas de GPS - disse McCollum.
Ele concordou, mas precisava situ-las, por isso encontrou 
um site e digitou os nmeros.
Alguns segundos depois surgiu um mapa.
Reconheceu imediatamente a forma - um tringulo issceles 
invertido, uma cunha separando a frica da sia, lar de uma 
combinao nica de montanhas e desertos rodeados pelo 
estreito golfo de Suez a oeste e pelo golfo de Acaba, mais 
estreito ainda, a leste, e o mar Vermelho ao sul.
O Sinai.
As coordenadas de GPS identificavam um lugar no extremo 
sul da regio, nas montanhas, perto do pice do tringulo 
invertido.
- Parece que achamos.
- E como planeja chegar l? - perguntou McCollum. - Isso  
territrio egpcio, patrulhado pelas Naes Unidas, perto de 
Israel.
Malone pegou o telefone.
- Acho que no ser problema.

 

CINQENTA E SETE

VIENA 
22H30

Thorvaldsen estava sentado no Grande Salo do castelo, 
observando a Assemblia de inverno da Ordem do Velo de 
Ouro se desdobrar. Como os outros scios, ele ocupava uma 
cadeira antiga e dourada. Estavam alinhadas em fileiras de 
oito, com o Crculo  frente e a cadeira central, de Alfred 
Hermann, coberta de seda azul. Todo mundo parecia 
ansioso para falar, e a discusso havia gravitado rapidamente 
para o Oriente Mdio e o que o Comit Poltico tinha 
proposto na primavera anterior. Na ocasio, os planos 
haviam sido meras tentativas. Agora as coisas eram 
diferentes. E nem todo mundo concordava.
Na verdade, havia mais dissenso do que Alfred Hermann 
aparentemente esperava. O Cadeira Azul j interferira por 
duas vezes no debate, o que era uma raridade. Em geral, 
Thorvaldsen sabia, Hermann permanecia em silncio.
- Transferir os judeus  impossvel e ridculo - disse um dos 
scios. Thorvaldsen conhecia-o, era um noruegus que 
investia pesado na pesca no Atlntico Norte. - O livro de 
Crnicas deixa claro que Deus escolheu Jerusalm e 
santificou o templo na cidade. Eu conheo a Bblia. O 
Primeiro Livro dos Reis diz que Deus deu uma tribo a 
Salomo, para que Davi tivesse uma luz diante d'Ele em 
Jerusalm. A cidade que Ele escolheu para si. O 
restabelecimento do Estado moderno de Israel no foi 
acidente. Muitos acreditam que veio por inspirao celestial.
Vrios outros scios ecoaram a observao com passagens 
bblicas tiradas dos livros de Crnicas e Salmos.
- E se tudo que vocs esto citando for falso?
A pergunta veio da frente do salo. O Cadeira Azul se 
levantou.
- Vocs se lembram de quando o moderno Estado de Israel 
foi criado?
Ningum respondeu.
- Em 14 de maio de 1948. s 16h32. David Ben-Gurion 
levantou-se no Museu de Tel Aviv e disse que, por virtude 
do direito natural e histrico do povo judeu, o Estado de 
Israel foi estabelecido.
- O profeta Isaas deixou claro que uma nao nascer num 
dia - disse um dos scios. - Deus manteve a promessa. A 
aliana com Abrao. A terra dos judeus foi devolvida.
- E como sabemos sobre essa aliana? - perguntou Hermann. 
- S h uma fonte. O Velho Testamento. Muitos de vocs 
citaram hoje esse texto. Ben-Gurion falou do direito natural 
e histrico do povo judeu. Ele tambm estava se referindo 
ao Velho Testamento.  a nica evidncia existente que 
menciona essas revelaes divinas, mas sua autenticidade 
est seriamente em dvida.
O olhar de Thorvaldsen percorreu o salo.
- Se precisssemos de um ttulo para cada uma das 
propriedades de vocs, documentos velhos de dcadas, 
traduzidos de suas lnguas respectivas por pessoas mortas h 
muito e que nem falavam sua lngua, cada um de vocs no 
iria questionar a autenticidade dele? No iria querer mais 
provas do que uma traduo no verificada e no 
autenticada? - Hermann fez uma pausa. - No entanto, 
aceitamos o Velho Testamento, sem questionar, como a 
Palavra de Deus absoluta. Seu texto acabou moldando o 
Novo Testamento. Suas palavras ainda tm conseqncias 
geopolticas.
A reunio parecia estar esperando que Hermann 
apresentasse seu argumento.
- H sete anos, um homem chamado George Haddad, um 
erudito bblico palestino, redigiu um texto publicado pela 
Universidade de Beirute. Nele, postulava que o Velho 
Testamento, como foi traduzido, estava errado.
- Tremenda premissa - disse uma scia, uma mulher 
pesadona, que se levantou. - Eu levo a Palavra de Deus mais 
a srio que voc. Hermann pareceu achar divertido.
- Verdade? O que voc sabe sobre essa tal Palavra de Deus? 
Conhece a histria dela? O autor? O tradutor? Essas palavras 
foram escritas h milhares de anos por redatores 
desconhecidos, em hebraico antigo, uma lngua que est 
morta h mais de dois mil anos. O que voc sabe de 
hebraico antigo?
A mulher ficou quieta.
Hermann assentiu.
- Sua falta de conhecimento  compreensvel. Era uma 
lngua com muita inflexo, na qual a importncia das 
palavras era dada mais pelo contexto do que pela grafia. A 
mesma palavra podia ter, e tinha, vrios significados 
distintos, dependendo de como era usada. Somente sculos 
depois de o Velho Testamento ser escrito os eruditos judeus 
traduziram aquelas palavras para o hebraico de sua poca, 
mas esses eruditos nem sabiam falar o hebraico antigo. 
Simplesmente supuseram o significado e, pior ainda, 
mudaram-no. Ento sculos se passaram e mais estudiosos, 
desta vez, cristos, traduziram as palavras de novo. Eles 
tambm no sabiam falar hebraico antigo, de modo que 
tambm adivinhavam. Com todo o respeito por suas 
crenas, no temos idia de quais eram as Palavras de Deus.
- Voc no tem f - declarou a mulher.
- Nisso no tenho, j que no envolve Deus. Isso  obra do 
homem.
- O que Haddad argumentou? - perguntou outro homem, o 
tom sugerindo que estava interessado.
- De modo correto, ele postulou que quando as narrativas da 
aliana entre Deus e Abrao foram contadas pela primeira 
vez, os judeus j habitavam sua Terra Prometida, que agora  
a Palestina. Claro, isso foi muitos, muitos sculos depois que 
a promessa supostamente foi feita. Segundo a premissa 
bblica, a Terra Prometida se estenderia do rio do Egito at o 
grande rio Eufrates. Muitos topnimos so dados. Mas 
quando Haddad comparou os topnimos bblicos, traduzidos 
de volta para o hebraico antigo, com localizaes atuais, 
descobriu uma coisa extraordinria. - Hermann parou, 
aparentemente satisfeito consigo mesmo. - A Terra 
Prometida de Moiss e a terra de Abrao se localizavam no 
oeste da Arbia Saudita, na regio de Asir.
- Onde fica Meca? - perguntou algum.
Hermann assentiu. Thorvaldsen viu que muitos scios 
captaram imediatamente o significado.
- Isso  impossvel - disse um dos scios.
- Na verdade - disse Hermann -, eu posso mostrar.
Fez um gesto, e uma tela de projeo se desenrolou de um 
suporte montado no teto. Um projetar foi aceso. Surgiu um 
mapa da Arbia Saudita, com o mar Vermelho marcando um 
litoral serrilhado de norte a sul. Uma escala mostrava que a 
rea tinha cerca de quatrocentos quilmetros de 
comprimento e trezentos de largura. Regies montanhosas 
se espalhavam no leste por cem quilmetros a partir da 
costa, depois a terra ficava plana at as bordas do deserto 
central da Arbia.
 
 

- Eu sabia que haveria cticos entre vocs - sorriu Hermann 
enquanto risos nervosos ondulavam pela Assemblia. - Esta 
 a Asir dos tempos atuais.
Ele sinalizou, e a tela mudou.
 
 

- Projetando-se as fronteiras da Terra Prometida bblica 
sobre o mapa utilizando-se as localizaes que George 
Haddad identificou com preciso, a linha pontilhada delineia 
a terra de Abrao e a linha contnua, a terra de Moiss. As 
localizaes bblicas, traduzidas de volta para o hebraico 
antigo, combinam perfeitamente com os rios, as cidades e as 
montanhas dessa regio. Muitas ainda retm suas 
designaes em hebraico antigo, adaptadas, claro, para o 
rabe. Perguntem-se: por que jamais foi encontrada 
nenhuma prova paleogrfica nem arqueolgica para 
localizaes bblicas substanciais na Palestina? A resposta  
simples. Esses locais no ficam l. Ficam centenas de 
quilmetros ao sul, na Arbia Saudita.
- E por que ningum jamais notou isso antes?
Thorvaldsen gostou da pergunta, j que estivera pensando a 
mesma coisa.
- S h cerca de meia dzia de estudiosos vivos que podem 
entender efetivamente o hebraico antigo. Nenhum deles, 
alm de Haddad, parece ter tido curiosidade suficiente para 
investigar. Mas, para ter certeza, contratei um desses 
especialistas h trs anos, para confirmar as descobertas de 
Haddad. E ele confirmou. At o ltimo detalhe.
- Podemos falar com o seu especialista? - perguntou um dos 
scios rapidamente.
- Infelizmente, ele era idoso e faleceu no ano passado.
Mais provavelmente, o homem recebera ajuda para ir para o 
tmulo, pensou Thorvaldsen. A ltima coisa de que 
Hermann precisava era um segundo erudito reivindicando 
um espetacular golpe bblico.
- Mas tenho um relatrio detalhado que pode ser estudado. 
 bem interessante.
Outra imagem apareceu na tela. Uma segunda ilustrao da 
regio de Asir.
- Eis um exemplo para demonstrar o argumento de Haddad. 
Em Juzes, 18, a tribo israelita de Dan estabeleceu um 
povoado numa cidade chamada Laish, numa regio de 
mesmo nome. A Bblia diz que a cidade ficava perto de 
outra chamada Zidon. Perto de Zidon ficava a cidade 
fortificada de Zor. Os historiadores cristos do sculo IV 
supostamente identificaram Dan como um povoado nas 
cabeceiras do rio Jordo. Em 1838, uma equipe buscou e 
encontrou um monte, que foi anunciado como os restos da 
Dan bblica. Atualmente, este  o local aceito para Dan. H 
at mesmo um povoado israelense moderno, chamado Dan, 
no lugar.
Thorvaldsen notou que Hermann parecia estar gostando 
daquilo, como se houvesse se preparado para esse momento 
durante longo tempo. Mas ele se perguntou se seu ato no 
previsto contra Margarete poderia ter acelerado o 
cronograma do anfitrio.
- Arquelogos exploraram o monte nos ltimos quarenta 
anos. Nenhuma evidncia foi encontrada para confirmar a 
identidade bblica daquele local como Dan. - Hermann fez 
um gesto, e a tela mudou de novo. Nomes apareceram no 
segundo mapa de Asir.
- Eis o que Haddad descobriu. A Dan bblica pode 
facilmente ser identificada com um povoado no oeste da 
Arbia chamado al-Danadinah, que se localiza numa regio 
costeira chamada al-Lith, cuja principal cidade tambm se 
chama al-Lith. Traduzido, esse nome  idntico  palavra 
bblica Laish. Alm disso, at hoje existe um povoado 
chamado Zidon ali perto. Mais perto ainda de al-Danadinah 
fica al-Sur, que, traduzido,  Zor.
 



 

Thorvalsen precisava admitir que as coincidncias 
geogrficas eram intrigantes. Tirou os culos sem aro e 
passou o dedo no osso do nariz, massageando a reentrncia 
funda enquanto tentava pensar.
- E h mais correlaes topogrficas. Em 2 Samuel 24:6, a 
cidade de Dan ficava perto de uma terra chamada Tahtim. 
Nenhum lugar conhecido como Tahtim sobrevive em 
qualquer parte da Palestina. Mas na Arbia ocidental, o 
povoado de al-Danadinah fica perto de uma cadeia de 
montanhas litorneas chamada Jabal Tahyatayn, que  uma 
forma arbica de Tahtim. Isso no pode ser acidente. 
Haddad escreveu que se os arquelogos escavassem nessa 
regio, haveria evidncias para sustentar a presena de um 
antigo povoado judeu. Mas isso jamais foi feito. Os sauditas 
probem completamente as escavaes. Na verdade, h 
cinco anos, quando encararam uma possvel ameaa nas 
concluses acadmicas de Haddad, os sauditas destruram 
povoados na rea, contaminando os stios e tornando quase 
impossvel a descoberta de qualquer evidncia arqueolgica 
definitiva.
Thorvaldsen notou que,  medida que a Assemblia ficava 
mais atenta, Hermann se tornava mais confiante.
- E h mais. Por todo o Velho Testamento, o Jordo  
registrado com a palavra hebraica yarden. Mas em nenhum 
lugar esse termo  descrito como um rio. A palavra na 
verdade significa "descer; uma queda na terra". No entanto, 
uma traduo depois da outra descreve o Jordo como um 
rio, cuja travessia  um acontecimento significativo. O rio 
Jordo, na Palestina, no  um grande curso d'gua. Os 
habitantes das duas margens o atravessam h sculos. Mas 
aqui - ele apontou para montanhas que cruzavam o mapa - 
fica a grande Escarpa Arbica Ocidental.  impossvel de 
atravessar, a no ser onde as cordilheiras se dobram, e 
mesmo ali  difcil. Em todas as vezes que o Velho 
Testamento fala do Jordo, a geografia e a histria combinam 
com o terreno daqui, da Arbia.
- O Jordo  uma cordilheira?
- Nenhuma outra traduo do hebraico antigo faz sentido. 
Hermann examinou os rostos que o encaravam e disse:
- Os topnimos so repassados como uma tradio sagrada. 
Nomes antigos sobrevivem na memria do povo e em geral 
se reafirmam. Haddad descobriu que isso era 
particularmente verdadeiro em Asir.
- No houve descobertas que associem a Palestina  Bblia?
- Houve descobertas. Mas nenhuma inscrio desenterrada 
at hoje prova coisa alguma. A Estela Moabita encontrada 
em 1868 fala de guerras travadas entre Moab e Israel, como 
 mencionado em Reis. Outro artefato encontrado no Vale 
do Jordo em 1993 diz o mesmo. Mas nenhum deles diz que 
Israel se localizava na Palestina. Registros assrios e 
babilnicos falam sobre conquistas em Israel, mas nenhum 
diz onde Israel se localizava. O livro dos Reis diz que os 
exrcitos de Israel, Jud e Edom marcharam sete dias num 
deserto sem gua. Mas o vale da Palestina, que comumente  
visto como aquele deserto, no leva mais de um dia para ser 
percorrido e possui bastante gua.
Agora as palavras de Hermann saam livremente, como se 
ele tivesse guardado as verdades por tempo demais.
- No resta qualquer coisa do primeiro Templo de Salomo. 
Nada jamais foi encontrado, mas o livro de Reis disse que ele 
usou grandes pedras, pedras caras, pedras talhadas. Ser que 
nenhum bloco teria sobrevivido?
Ele chegou ao ponto.
- O que aconteceu foi que os estudiosos deixaram seus 
preconceitos colorirem as interpretaes. Queriam que a 
Palestina fosse a terra dos antigos judeus do Velho 
Testamento, por isso o fim justificou os meios. A realidade  
muito diferente. Realmente a arqueologia provou uma coisa: 
que a Palestina do Velho Testamento consistia em um povo 
vivendo em aldeias ou pequenas cidades, na maioria, 
pequenos camponeses, com apenas fragmentos de cultura 
elevada. Uma sociedade rstica, no os israelitas 
tremendamente astutos da era ps-Salomo. Isso  um fato 
cientfico.
- O que diz o Salmo? - perguntou um scio. - A verdade 
brotar da terra.
- O que voc quer fazer? - perguntou algum. Hermann 
apreciou claramente a pergunta.
- Independentemente da recusa dos sauditas em permitir 
qualquer pesquisa arqueolgica, Haddad acreditava que ainda 
existem provas de sua teoria. No momento, estamos 
tentando localizar essas provas. Se a teoria dele puder ser 
comprovada... pelo menos o bastante para questionar a 
validade das promessas do Velho Testamento... pensem nas 
conseqncias. No somente Israel, mas tambm a Arbia 
Saudita seriam desestabilizados. E todos j fomos frustrados 
pela corrupo daquele governo. Imaginem o que os 
muulmanos radicais de l fariam. Seu local mais sagrado , 
na verdade, a ptria bblica dos judeus? Isso seria semelhante 
ao que acontece no Monte do Templo em Jerusalm, onde 
as trs principais religies reivindicam um lar. Aquele local 
gerou caos durante milhares de anos. O caos no oeste da 
Arbia seria igualmente incalculvel.
Thorvaldsen havia ficado em silncio por tempo demais. 
Levantou-se.
- Voc no pode acreditar que essas revelaes, mesmo que 
provadas, tenham efeitos to profundos. O que mais existe 
que interessou tanto o Comit Poltico?
Hermann o encarou com um desprezo que s os dois 
entenderam. O Crculo havia agido contra Cotton Malone, 
tomando seu filho. Agora Thorvaldsen havia agido contra 
Hermann. Claro que o Cadeira Azul jamais revelaria essa 
fraqueza. Thorvaldsen tinha jogado sabiamente seu trunfo 
ali, na Assemblia, onde Hermann devia ter cuidado. Mas 
algo lhe disse que o austraco ainda guardava uma carta.
E o sorriso que se enrolava nos lbios do velho fizeram 
Thorvaldsen parar.
- Isso mesmo, Henrik. H outro aspecto. Um aspecto que 
tambm colocar os cristos na luta.
 
CINQENTA E OITO

VIENA 
22H50

Alfred Hermann fechou a porta de seu apartamento 
particular e tirou o manto e o cordo do pescoo. O peso das 
duas peas exauria seus membros cansados. Ps as 
vestimentas sobre a cama, satisfeito com a Assemblia. 
Depois de trs horas, os scios finalmente haviam comeado 
a entender. O plano da Ordem era grandioso e engenhoso. 
Agora ele precisava apoiar sua explicao com a prova que 
viria.
Mas estava comeando a ficar preocupado.
No tinha notcias de Sabre havia tempo demais.
A ansiedade revirou seu estmago. Uma sensao pouco 
familiar. Para recuperar o mpeto, tinha acelerado o 
cronograma. Este poderia muito bem ser seu ltimo grande 
empreendimento como Cadeira Azul - o mandato estava 
chegando ao final. A Ordem do Velo de Ouro se relacionava 
 oportunidade e ao sucesso. Muitos governos haviam sido 
alterados, alguns at mesmo derrubados, para que o coletivo 
pudesse prosperar. O que ele tinha tramado poderia colocar 
mais alguns de joelhos, talvez at mesmo os americanos, se 
ele jogasse sua cartada com habilidade.
Soubera que Thorvaldsen poderia ser um problema, motivo 
pelo qual havia ordenado que Sabre preparasse um ltimo 
dossi. Sentado na schmetterlinghaus no dia anterior, vendo 
Sabre concordar obedientemente com a tarefa, jamais 
acreditara que Thorvaldsen seria to agressivo. Os dois se 
conheciam havia muito tempo. No eram necessariamente 
amigos ntimos, mas certamente eram compatriotas. Mas, de 
algum modo, o dinamarqus ligara rapidamente o 
acontecido em Copenhague a ele e  Ordem.
Hermann no havia esperado que existisse uma pista assim.
O que o fez pensar em Sabre.
At que ponto o sujeito fora descuidado?
Ou seria intencional?
Os alertas de Margarete a respeito de Sabre ressoaram em sua 
mente. Liberdade demais. Confiana demais. Por que o 
aclito no havia ligado? A ltima notcia que recebera era 
que Sabre estava a caminho de Londres, passando por 
Rothenburg, para encontrar George Haddad. Tentara ligar 
vrias vezes, mas no tivera sucesso. Precisava de Sabre. 
Aqui. Agora.
Uma batida leve  porta.
Foi at l e virou a maaneta.
- Hora de conversarmos mais - disse Thorvaldsen. 
Ele concordou.
Thorvaldsen entrou e fechou a porta.
- Voc no pode estar falando tudo isso a srio, Alfred. Tem 
alguma idia do que seu plano pode provocar?
- Voc est falando como judeu, Henrik. Essa  a sua falha. 
Est cego com as supostas promessas de Deus. Com seu 
suposto ttulo de direito.
- Estou falando como ser humano. Quem sabe se o Velho 
Testamento  correto? Eu certamente no fao idia. Mas o 
mundo muulmano no vai tolerar qualquer sugesto de que 
sua terra mais santa foi manchada pelo judasmo. Vai reagir 
com violncia.
- Os sauditas - disse Hermann - tero chance de barganhar 
antes que qualquer informao seja liberada.  como agimos. 
Voc sabe. A violncia seria culpa deles, no nossa. Nosso 
objetivo  puramente o lucro. O Comit Poltico acredita 
que podem ser obtidas muitas concesses econmicas que 
beneficiaro nossos scios. E eu concordo.
- Isso  insanidade.
- E o que planeja fazer?
- O que for necessrio.
- Voc no tem estofo para essa luta, Henrik.
- Talvez eu o surpreenda.
Hermann ficou pensando, por isso decidiu fazer um desafio.
- Talvez voc devesse estar mais preocupado com sua 
prpria situao. Verifiquei seu status financeiro. Jamais 
havia percebido como o negcio do vidro podia ser frgil. 
Sua Adelgade Glasvaerker depende de uma variedade de 
fatores volteis para o sucesso.
- E voc acha que pode afet-los?
- Tenho bastante confiana de que posso causar problemas.
- Meu valor lquido se compara facilmente ao seu. Hermann 
sorriu.
- Mas voc valoriza a reputao.  impensvel que uma de 
suas empresas seja vista como um fracasso.
- Voc tem todo o direito de tentar, Hermann.
Hermann percebia que cada um deles possua bilhes de 
euros, na maior parte acumulada pelos ancestrais, e agora 
cada um deles era um guardio fiel. E nenhum dos dois era 
idiota.
- Lembre-se de que estou com sua filha - disse Thorvaldsen. 
Hermann deu de ombros.
- E eu tenho voc e o garoto.
- Verdade? Est disposto a arriscar a vida dela?
Hermann ainda no havia decidido a resposta para essa 
pergunta, por isso perguntou:
- Isso tem a ver com Israel? Sei que voc se considera um 
patriota.
- E eu sei que voc  um intolerante.
Um jato de raiva dominou Hermann.
- Voc nunca falou assim comigo.
- Eu sempre soube dos seus sentimentos, Alfred. Seu anti-
semitismo  bvio. Voc tenta escond-lo, afinal de contas 
h vrios judeus na Ordem, mas ele  claro.
Era hora de acabar com os fingimentos.
- Sua religio  um problema. Sempre foi. 
Thorvaldsen deu de ombros.
- No mais do que o cristianismo. Ns s desistimos da 
guerra e ficamos olhando enquanto os cristos matavam 
mais do que o suficiente em nome do Senhor ressuscitado.
- No sou um homem religioso. Voc sabe, Henrik. Isso tem 
a ver com poltica e lucro. E os judeus da Ordem?  com 
isso que eles se importam, tambm. Nenhum verbalizou 
qualquer oposio na Assemblia. Israel  um impedimento 
ao progresso. Os sionistas morrem de medo da verdade.
- O que voc quis dizer ao falar que os cristos tambm esto 
sendo envolvidos?
- Se a Biblioteca de Alexandria for encontrada, h textos que 
podem muito bem revelar toda a fraude que  a Bblia.
Thorvaldsen no pareceu convencido.
- Voc pode descobrir que  meio difcil obter esse 
resultado.
- Garanto, Henrik. J pensei nisso detalhadamente.
- Onde est o Garras da guia?
Hermann lanou um olhar de aprovao ao dinamarqus.
- Parabns. Mas ele est fora do seu controle.
- Mas no do seu.
O austraco decidiu deixar claro:
- Voc no pode vencer. Est com minha filha, mas isso no 
vai me impedir.
- Talvez eu tenha de ser claro. Minha famlia suportou a 
ocupao nazista na Dinamarca. Muitos foram mortos e ns 
matamos muitos alemes. Encarei um desafio depois do 
outro. Pessoalmente no ligo a mnima para Margarete. Ela  
uma mulher arrogante, mimada, sem inteligncia. Meu 
amigo Cotton Malone, o filho dele e minha ptria adotada 
so o que me preocupam. Se eu precisar mat-la, farei isso.
Hermann havia se preocupado com ameaas vindas de fora, 
mas agora a preocupao mais imediata havia surgido de 
dentro. Aquele sujeito precisava ser aplacado. Pelo menos 
por um curto tempo.
- Posso lhe mostrar uma coisa.
- Voc precisa parar com isso.
- H mais em jogo aqui do que simplesmente nossos 
interesses empresariais.
- Ento mostre.
- Vou arranjar tudo.
 
CINQENTA E NOVE

MARYLAND 
16H50

Stephanie estava sentada no banco de trs de um Suburban, 
com Cassiopeia ao lado. Atravessaram o porto principal sem 
parar, o veculo passando rapidamente pelos guardas 
armados. Tinham ido de Washington para o norte, entrando 
no acidentado interior de Maryland. Ela havia percebido 
imediatamente qual era seu destino.
Camp David. O refgio de fim de semana do presidente.
Depois de passar por mais guardas e outra guarita, o veculo 
parou em frente de um chal elegante rodeado por rvores e 
envolvido por uma varanda coberta. Desceram numa tarde 
fresca. O agente do Servio Secreto que a apanhara no 
museu acenou, e a porta da frente se abriu.
O presidente Robert Edward Daniels Jr. saiu do chal.
Ela sabia que o presidente nunca usava o nome de batismo. 
Havia muito tempo adotara o apelido Danny. Uma alma 
gregria, com voz estrondeante, de bartono, Danny Daniels 
era abenoado com uma habilidade divina para ganhar 
eleies. Tivera trs mandatos de governador e um de 
senador antes de reivindicar a presidncia. Sua reeleio no 
ano anterior para um segundo mandato viera facilmente.
- Stephanie, que timo voc ter vindo! - disse Daniels 
enquanto descia os degraus da varanda. O presidente vestia 
jeans, camisa de sarja e botas.
Ela reuniu coragem e avanou.
- Eu tinha escolha?
- Na verdade, no. Mas, mesmo assim,  bom voc ter 
vindo. Pelo que soube, andou tendo problemas.
Daniels acrescentou um risinho tranqilo, mas ela no 
estava no clima - nem mesmo para o lder do mundo.
- Graas ao seu pessoal.
Ele ergueu a mo num fingimento de rendio.
- Bom, isso ainda precisa ser provado. Voc nem escutou o 
que tenho a dizer. E a nova aparncia? O cabelo e as roupas? 
Adorei.
Sem lhe dar a chance de responder, ele virou-se para 
Cassiopeia.
- Deve ser a Srta. Vitt. Ouvi falar muito de voc. Leva uma 
vida fascinante. E aquele castelo que est reconstruindo na 
Frana, adoraria v-lo.
- O senhor deveria ir l. Eu lhe mostro.
- Disseram que voc est construindo exatamente como 
faziam h seiscentos anos. Incrvel.
Stephanie percebeu que Daniels estava lhe transmitindo 
uma mensagem. Elas estavam ali e ele era bem informado; 
portanto, podiam relaxar.
Certo. Hora de ver aonde aquilo ia dar.

- Contrariamente ao que voc pensa, Stephanie - disse 
Daniels - no sou idiota.
Estavam sentados na varanda da frente do chal, cada um 
numa cadeira de balano de madeira com encosto alto. 
Daniels balanava a sua com vigor, fazendo as tbuas do piso 
se esforarem sob seu corpo forte de 1,90 m.
- No creio que eu j o tenha chamado de idiota - respondeu 
ela.
- Meu pai costumava dizer a minha me que nunca a 
chamava de vaca pela frente. - Ele lhe lanou um olhar 
intenso. - E era verdade.
Ela no disse nada.
- Tive um problema enorme para fazer com que voc fosse 
tirada daquele museu.  um dos meus locais prediletos. 
Adoro avies e o espao. Estudei tudo sobre isso quando era 
mais novo. H uma coisa fantstica em ser presidente: voc 
pode assistir a um lanamento sempre que quiser. - O 
presidente cruzou as pernas e se recostou na cadeira. - 
Tenho um problema, Stephanie. Um problema srio.
- Ento somos dois. Estou desempregada e, segundo seu 
subconselheiro de segurana nacional, estou presa. E o 
senhor no me demitiu?
- Sim. Larry pediu-me e eu concordei. Mas isso precisava ser 
feito, para que voc pudesse estar aqui agora.
Cassiopeia inclinou-se  frente.
- Foi o que pensei. Mas agora sei. O senhor est trabalhando 
com os israelenses, no ? Andei tentando juntar as coisas. 
Agora faz sentido. Eles vieram procur-lo.
- Disseram-me que seu pai era um dos homens mais 
inteligentes da Espanha. Construiu um imprio financeiro a 
partir do nada. Um imprio que agora voc comanda.
- No  meu ponto forte.
- Mas ouvi dizer que  uma excelente atiradora, corajosa 
como o diabo, com QI de gnio.
- E no momento me vejo no meio de uma baguna poltica. 
Os olhos de Daniel se franziram de diverso.
- Uma baguna.  exatamente o que temos. E voc est 
certa, Israel me contatou. Eles esto irritados com Cotton 
Malone.
Stephanie sabia que Daniels era parcial em relao a Malone. 
Dois anos antes, Malone estivera envolvido num julgamento 
de assassinato na Cidade do Mxico. A vtima era um 
supervisor do DEA, colega de faculdade de Daniels, cujo 
assassinato acontecera em estilo de execuo. Ela mandara 
Malone para garantir a condenao, mas, durante uma pausa 
para o almoo, ele fora apanhado num fogo cruzado que 
resultara na morte do promotor mexicano e do filho de 
Henrik Thorvaldsen. Malone atirara nos agressores e voltara 
para casa com uma bala no brao, mas conseguira a 
condenao. Quando ele quisera se demitir cedo, em troca 
do que havia feito, Daniels permitira-lhe pessoalmente sair 
de seu cargo na marinha.
- E o senhor? - perguntou ela. - Tambm est irritado com 
Malone?
- Senhor? Ora, isso  novidade. Notei que nas poucas vezes 
em que estivemos juntos voc nunca usou essa palavra.
- No sabia que o senhor estava prestando tanta ateno.
- Stephanie, eu presto muita ateno a muitas coisas. Por 
exemplo, h pouco tempo Cotton Malone ligou para o Setor 
Magalhes. Claro, voc andou ocupada, de modo que o 
telefonema foi repassado a Brent Green, sob ordem pessoal 
do procurador-geral.
- Pensei que Daley estava no comando.
- Eu tambm. Por que Green faria isso?
- Como sabe que ele fez? - perguntou Cassiopeia.
- Os telefones dele esto grampeados. 
Ser que Stephanie ouvira direito?
- O senhor mandou grampear os telefones dele?
- Isso mesmo. Dele e de alguns outros. E, sim, um dos 
outros  Larry Daley.
Ondas de incerteza se espalharam por Stephanie, e ela 
obrigou a mente a se concentrar. Aparentemente, esse 
quebra-cabea vinha com muitas peas.
- Stephanie, eu trabalhei a vida inteira para chegar aqui.  
um cargo em que uma pessoa realmente pode fazer alguma 
coisa. E me sa bem. O desemprego est no nvel mais baixo 
em trinta anos. A inflao  inexistente. As taxas de juros 
so modestas. At consegui um corte de impostos h dois 
anos.
- Com Larry Daley puxando a corrente do Congresso.  
difcil perder. - Ela no pde resistir. Aquele homem podia 
ser presidente, mas no momento seu nvel de tolerncia a 
besteiras estava abaixo de zero.
Daniels balanou-se em silncio, olhando para a floresta 
densa.
- Voc se lembra de Rocky III? 
Ela no respondeu.
- Eu adorei aqueles filmes. Rocky sempre era espancado at 
o limite, depois aquela msica grandiosa tocava, trombetas e 
coisa e tal. Ele via tudo com clareza, conseguia um novo 
flego e arrebentava o outro cara.
Ela ouviu, achando curioso.
- Em Rocky III, ele descobre que Mickey, seu treinador, 
estava combinando lutas fceis. Vitrias garantidas. S para 
que Rocky pudesse manter o ttulo e no se machucar. 
Stallone foi timo. Quer lutar com Mr. T, mas Mickey diz 
que no: ele vai mat-lo. Rocky fica furioso ao perceber que 
talvez no seja to bom quanto se achava. Claro, Mickey 
morre e Rocky finalmente nocauteia Mr. T.
As palavras do presidente tinham um tom de respeito.
- Daley  o meu Mickey - disse ele quase num sussurro. - 
Ele combinou minhas lutas. Sou como o Rocky. No gosto 
disso.
- E no sabia? - perguntou ela.
Ele balanou a cabea com uma estranha mistura de irritao 
e curiosidade.
- Eu estava trabalhando para peg-lo quando descobri que 
voc o vinha investigando. Usando uma garota de programa? 
Criativo. Meu pessoal no foi to criativo assim. Devo dizer 
que, quando me contaram, minha opinio a seu respeito 
mudou.
Ela precisava saber:
- Como soube que eu estava fazendo isso?
- Meus rapazes adoram grampos e vdeos. Por isso ouviram e 
olharam. Sabamos sobre os pen drives. E tambm sabamos 
onde era o esconderijo. De modo que s estvamos 
esperando.
- Essa investigao ocorreu h meses. Por que no partiu 
para cima dele?
- Por que voc no fez isso? 
A resposta era bvia.
- Eu no posso demiti-lo. O senhor pode.
Daniels plantou os dois ps no cho e se equilibrou na borda 
da cadeira de balano.
- O escndalo  um negcio difcil, Stephanie. No h 
ningum neste pas que v acreditar que eu no sabia o que 
Daley estava fazendo. Eu precisava tir-lo, mas sem deixar 
digitais.
- Ento Daley precisava fazer isso contra si mesmo - disse 
Cassiopeia.
Daniels a encarou.
- Esse seria o modo prefervel. Mas Larry  especializado em 
sobrevivncia. E devo dizer que ele  bom nisso.
- O que ele sabe sobre o senhor? - perguntou Stephanie. 
A audcia dela pareceu satisfaz-lo, em vez de irrit-lo.
- Alm daquelas fotos comprometedoras em que estou com 
uma cabra, no muita coisa.
Stephanie riu.
- Eu tinha de perguntar.
- , tinha. Entendo o que dizem a seu respeito, Stephanie. 
Voc consegue ser incmoda. Que tal retornarmos  minha 
pergunta, que nenhuma de vocs duas parece achar 
importante? Por que Brent Green quer falar diretamente 
com Cotton?
Ela se lembrou do que Daley havia dito no museu.
- Daley me disse que Brent est armando para ser o prximo 
vice-presidente.
- O que nos traz ao objetivo deste encontro. - Daniels se 
recostou e comeou a se balanar de novo. - Eu gosto de 
bancar o bom moo. Faz parte de minha criao caipira no 
Tennessee. Esse  um dos motivos para eu gostar tanto de 
Camp David. Lembra minha casa. Mas agora  hora de ser 
presidente. Algum acessou nossos arquivos confidenciais e 
conseguiu olhar o Elo de Alexandria. Depois vazou essa 
informao a dois pases estrangeiros, e agora ambos esto 
exaltados. Os israelenses esto, de fato, putos da vida. , 
publicamente parece que estamos um na garganta do outro. 
Mas, em particular, gosto daquele pessoal. Ningum, e quero 
realmente dizer ningum, vai ferrar com Israel enquanto eu 
estiver no comando. Infelizmente, h pessoas nesta 
administrao que pensam de outro modo.
Ela queria perguntar quem, mas decidiu deix-lo falar.
- Algo foi posto em movimento, e tudo comeou quando o 
garoto de Cotton Malone foi seqestrado. Felizmente, com 
Malone, essas pessoas no fazem idia de com quem esto 
lidando. Ele vai fazer com que tenham ataques histricos. O 
que nos d oportunidade de descarnar a situao. Um tio 
meu costumava dizer: Quer matar cobras? Simples. Ponha 
fogo no mato baixo e espere elas sarem. Ento voc pode 
cortar a cabea delas.  isso que vamos fazer.
Cassiopeia balanou a cabea.
- Como eu disse, o que o senhor tem, presidente,  uma 
baguna. S estou envolvida h um ou dois dias, mas no 
fao idia de quem est dizendo a verdade.
- Inclusive eu?
Os olhos esmeraldas de Cassiopeia se estreitaram.
- Inclusive o senhor.
- Isso  bom. Vocs devem ter suspeitas. - A voz dele 
ressoava sinceridade. - Mas preciso da sua ajuda. Por isso eu 
a demiti, Stephanie. Voc precisava de liberdade de 
movimentos. Agora tem.
- Para fazer o qu?
- Encontrar meu traidor.
 
SESSENTA

VIENA 
23H20

Thorvaldsen levou Gary do segundo andar do castelo para o 
trreo. No tivera mais nenhuma notcia de Alfred 
Hermann desde a breve conversa de antes. Gary havia 
passado o incio da noite com alguns outros convidados. 
Dois scios tinham trazido seus filhos adolescentes, e 
Hermann arranjara para que eles jantassem na estufa no 
fundo da manso.
- Foi legal - disse Gary. - As borboletas pousam bem no 
prato da gente.
Thorvaldsen tinha visitado a schmetterlinghaus vrias vezes 
e tambm a achava fascinante. At pensara em fazer uma 
em Christiangade.
- So criaturas notveis que exigem grande cuidado.
- O lugar parece uma floresta tropical.
Nenhum dos dois conseguiu dormir. Aparentemente, Gary 
tambm era uma pessoa noturna. Por isso, foram at a 
biblioteca de Hermann.
Thorvaldsen ouvira mais cedo que o Cadeira Azul pretendia 
se reunir com o Comit Econmico. Essas discusses 
deveriam demorar, o que lhe daria tempo para ler e se 
preparar. A Assemblia do dia seguinte seria de deciso. O 
debate precisaria ser objetivo e acurado. Todo mundo iria 
embora no domingo. A Assemblia nunca era uma coisa 
prolongada. Os encarregados e os comits reduziam os 
temas aos que exigiam votao coletiva. Ento esses eram 
apresentados, discutidos e resolvidos - e o curso da Ordem 
era estabelecido para os prximos meses at a primavera.
Assim, ele precisava estar preparado.
A biblioteca enorme tinha dois andares de altura e era 
forrada com brilhantes lambris de nogueira. Uma lareira de 
mrmore preto, flanqueada por estatuetas barrocas e uma 
tapearia francesa, dominava uma das paredes. Estantes 
embutidas cobriam as outras trs, do cho ao teto, e a sala 
era coroada por uma dramtica pintura de teto que o fazia 
parecer aberto ao cu.
Uma escada em espiral abria caminho at as estantes 
superiores. Thorvaldsen agarrou um liso corrimo de ferro e 
subiu lentamente os degraus.
- O que estamos fazendo aqui? - perguntou Gary quando 
chegaram ao topo.
- Quero ler uma coisa.
Ele conhecia o pdio na biblioteca de Hermann, sobre o 
qual era exibida uma Bblia magnfica. Hermann havia 
alardeado que a edio era uma das mais antigas a serem 
impressas. Thorvaldsen se aproximou do volume antigo e 
admirou a capa elaborada.
- A Bblia foi o primeiro livro a ser feito, quando o processo 
de impresso foi finalmente aperfeioado no sculo XV. 
Gutenberg produziu muitas Bblias. Esta  uma delas. Como 
eu lhe disse antes, voc deveria l-la.
Gary olhou para o livro e Thorvaldsen sabia que o garoto 
no poderia apreciar sua importncia. Por isso disse:
- Estas palavras mudaram o rumo da histria humana. 
Alteraram o desenvolvimento social da humanidade e 
forjaram sistemas polticos. Este e o Alcoro devem ser os 
dois livros mais importantes do planeta.
- Como as palavras podem ser to importantes assim?
- No so simplesmente palavras, Gary.  o que fazemos 
com elas. Depois que Gutenberg comeou a imprimir em 
massa, os livros se espalharam rapidamente. No eram 
baratos, mas em 1500 eram comuns. Mais acesso  
informao significava mais dissenso, mais discusso 
informada, mais disseminao das crticas  autoridade. - Ele 
indicou a Bblia. - E este livro mudou tudo.
Abriu com cuidado a capa.
- Que lngua  essa? - perguntou Gary.
- Latim. - Thorvaldsen examinou o texto.
- Voc sabe ler?
Ele sorriu do tom incrdulo.
- Aprendi na infncia. - E bateu no peito do garoto. - Voc 
tambm deveria aprender.
- O que eu faria, se aprendesse?
- Para comear, poderia ler a Bblia. 
Thorvaldsen indicou o ndice.
- So 39 livros. Os judeus reverenciam os cinco primeiros. 
Gnesis, xodo, Levtico, Nmeros e Deuteronmio. Eles 
contam a histria do antigo povo de Israel desde a criao do 
mundo, passando pelo Dilvio, o xodo do Egito, as 
andanas pelo deserto e a entrega da Lei a Moiss no Sinai. 
Um tremendo pico.
Ele sabia que, para os judeus, aqueles escritos significavam 
muita coisa. Assim como a diviso seguinte, dos profetas - 
Josu, Juzes, Samuel e Reis -, que narrava a histria dos 
israelitas desde a travessia do rio Jordo at a conquista de 
Cana, a ascenso e queda de seus muitos reinos e sua 
derrota nas mos dos assrios e babilnios.
- Esses livros - disse a Gary - supostamente contam como se 
desdobrou a histria do povo de Israel milhares de anos 
antes de Cristo. Era um povo cujo destino estava ligado 
diretamente a Deus e s promessas que Ele fez.
- Mas isso foi h muito tempo? 
Thorvaldsen confirmou com a cabea.
- H 4 mil anos. No entanto, rabes e judeus guerreiam 
entre si desde ento, tentando provar se isso era verdade.
Lentamente folheou at o Gnesis e encontrou a passagem 
que viera estudar.
- E disse o Senhor a Abro: Levanta agora os teus olhos, e 
olha desde o lugar onde ests, para o lado do norte, e do sul, 
e do oriente, e do ocidente. Porque toda esta terra que vs, 
te hei de dar a ti, e  tua descendncia, para sempre. - Fez 
uma pausa. - Essas palavras custaram milhes de vidas.
Leu em silncio outra vez as cinco palavras mais 
importantes.
- O que ? - perguntou Gary.
Olhou para o garoto. Quantas vezes Cai havia perguntado a 
mesma coisa? O filho no somente praticava sua f, mas 
havia aprendido latim e tambm lia a Bblia. Era um bom 
homem. Mas fora outra vtima da violncia insensata.
- A verdade  importante - disse ele, mais para si mesmo do 
que para Gary.
Desde o lugar onde ests.
- Teve notcias do meu pai? - perguntou Gary. 
Thorvaldsen olhou para o garoto e balanou a cabea.
- Nem uma palavra. Ele est procurando uma coisa bem 
parecida com o que nos rodeia. Uma biblioteca. Uma 
biblioteca que pode ter a chave para entender essas palavras 
bblicas.
Uma agitao embaixo atraiu sua ateno. A porta da 
biblioteca se abriu e vozes puderam ser ouvidas. Uma ele 
reconheceu: Alfred Hermann.
Fez um gesto e os dois recuaram para onde as estantes 
superiores eram separadas pela alcova de uma janela. O 
andar de baixo estava apenas levemente iluminado, e o 
balco superior por arandelas de parede, recuadas. Sinalizou 
para Gary ficar quieto. O garoto assentiu.
Prestou ateno.
O outro homem estava falando ingls. Americano.
- Isso  importante, Alfred. Na verdade,  mais do que 
importante.  vital.
- Tenho conscincia de sua situao - respondeu Hermann. 
- Mas no  mais vital que a nossa.
- Malone est indo para o Sinai. Voc disse que no teria 
problema.
- E no ter. Posso lhe servir um pouco de conhaque?
- Est tentando me acalmar?
- Estou tentando servir um pouco de conhaque.
Thorvaldsen sinalizou para Gary ficar parado enquanto ele se 
esgueirava para fora da alcova, arriscando um olhar rpido 
para alm do corrimo ornamentado. Alfred Hermann 
estava parado embaixo, servindo bebida de uma garrafa 
ornamental. Ao lado dele havia um homem mais novo, 
talvez de 50 e poucos anos, vestindo um terno escuro. Sua 
cabea era coroada por uma densa juba loura. O rosto era 
barbeado, enrgico, querubnico - perfeito para um pintor 
de retratos ou um ator.
O que no estava longe da verdade.
Thorvaldsen conhecia o sujeito.
Era o vice-presidente dos Estados Unidos.
 
SESSENTA E UM

CAMP DAVID, MARYLAND

Stephanie registrou as palavras do presidente.
- O que quer dizer com seu traidor? 
Daniels lanou-lhe um olhar perturbado.
- Algum neste governo est me sacaneando. Esto levando 
adiante polticas pessoais, achando que sou preguioso 
demais, pattico demais ou idiota demais para saber. Bom, 
no  necessrio ser gnio para perceber quem  o chefe. 
Meu supostamente leal vice-presidente.  um escroto 
ambicioso.
- Senhor presidente... - disse ela.
- Bom, isso tambm  novidade: Senhor presidente. Talvez 
estejamos fazendo algum progresso no nosso 
relacionamento.
- Tenho minhas reservas em relao ao senhor e a esta 
administrao.
- Esse  o problema com os burocratas de carreira. Ns, 
polticos, chegamos e partimos. Mas vocs ficam, e ficam, e 
ficam. O que significa que tm muita coisa para comparar. 
Infelizmente para mim, Stephanie, por acaso voc est certa 
nesta circunstncia. Estou rodeado de traidores. Meu vice-
presidente quer tanto esse cargo que no consegue se 
conter. E, para conseguir, est disposto a fazer um trato com 
o diabo. - Daniels fez uma pausa, e ela no interrompeu seus 
pensamentos. - A Ordem do Velo de Ouro. Ser que ela 
ouvira direito?
- Ele est l. Agora mesmo. Reunindo-se com o chefe. Um 
homem chamado Alfred Hermann.
Stephanie havia subestimado seriamente Danny Daniels. 
Assim como subestimara Brent Green. Os dois eram bem 
informados. Cassiopeia balanou-se em sua cadeira, mas 
Stephanie podia ver que ela estava escutando atentamente. 
Havia contado a Cassiopeia sobre a Ordem.
- Meu pai era scio - disse Cassiopeia.
Isso no fora mencionado antes, quando haviam 
conversado.
- Durante muitos anos, ele e Henrik freqentavam a Ordem 
juntos. Optei por no continuar como scia depois da morte 
dele.
- timo passo - disse Daniels. - Aquele grupo  ligado a 
inmeras instabilidades globais. E eles so bons. No deixam 
rastros. Claro, os principais envolvidos costumam terminar 
mortos. Como qualquer boa quadrilha, eles tm um brao de 
ao. Um homem chamado de Garras da guia. Tpicos 
europeus. Um assassino contratado com um ttulo 
grandioso. Foram eles que pegaram o garoto do Malone.
- E est nos contando isso agora?
- Sim, Stephanie, estou. Uma das prerrogativas de ser lder 
do mundo livre  que posso fazer praticamente o que quiser. 
- Lanou-lhe um olhar cortante. - H muita coisa 
acontecendo aqui. Acontecendo depressa. A partir de vrios 
ngulos. Fiz o mximo que pude nas atuais circunstncias.
Ela o puxou de volta ao assunto.
- O que o vice-presidente est fazendo com o Cadeira Azul?
- Cadeira Azul?  bom ver que voc tambm  informada. 
Eu esperava que sim. O vice-presidente est vendendo a 
alma. Aquela Ordem est atrs, imagine s, da Biblioteca de 
Alexandria. Esto procurando as provas de uma teoria e, 
mesmo eu achando isso tudo bizarro, aparentemente h 
mais coisas a.
- O que os israelenses dizem? - perguntou Cassiopeia.
- No querem que nada seja encontrado. Ponto final. 
Querem deixar para l. Parece que a Ordem andou 
espremendo a famlia real saudita durante dcadas, e agora 
decidiu simplesmente misturar tudo. Juntar judeus e rabes. 
Na verdade, no  uma jogada ruim. Ns j tentamos fazer a 
mesma coisa. Mas isso vai crescer.  impossvel prever a 
ao de fanticos, quer sejam rabes, israelenses ou... - fez 
uma pausa - ... Americanos.
- O que quer que eu faa? - perguntou Stephanie.
- Deixe-me dizer outra coisa que voc no sabe. Cotton deu 
um segundo telefonema para Green. Precisava de um favor. 
Assim, Green aprovou um transporte areo militar para 
Malone, a ex-mulher e um terceiro homem para, se  que 
voc consegue acreditar, o Sinai. Neste momento esto 
viajando. Achamos que esse terceiro homem  o assassino 
contratado da Ordem. Malone tambm pediu que Green 
fizesse uma verificao de identidade, que, por sinal, o 
procurador-geral ignorou. No houve qualquer pesquisa. Por 
isso, ns verificamos. O nome que Cotton deu foi James 
McCollum. A descrio no bate, mas h um cara com esse 
nome que  ex-foras especiais, agora mercenrio freelance. 
Parece ter o currculo certo para trabalhar para a Ordem, 
no acha?
- Como ele se ligou a Malone? - perguntou Cassiopeia. 
Daniels balanou a cabea.
- No sei, mas fico feliz porque  Cotton que est com ele. 
Infelizmente no h nada que possamos fazer para ajudar.
- Poderamos falar por rdio com o tal transporte - disse 
Cassiopeia. Daniels balanou a cabea.
- De jeito nenhum. No podemos deixar que ningum saiba 
que estamos ligados. Quero meus traidores. E, para peg-los, 
temos de permanecer em silncio.
- E os finalistas so - disse ela - Larry Daley e Brent Green. 
Daniels inclinou a cabea.
- O vencedor do concurso ganha uma viagem, com todas as 
despesas pagas, direto para uma priso federal. Depois de eu 
lhe dar um chute pessoalmente no rabo.
Seu hbito de comandar parecia ter retornado.
- Vocs duas so tudo que tenho para descobrir a resposta 
para a pergunta do dia. No posso envolver nenhuma outra 
agncia por motivos bvios. Deixei que tudo isso entrasse 
em movimento para que voc tivesse uma oportunidade. 
Stephanie, eu sabia que voc estava investigando o Daley, 
mas felizmente no agiu contra ele. Agora ns precisamos 
descobrir a verdade.
- O senhor acha mesmo que o procurador-geral est 
envolvido? -perguntou Cassiopeia.
- No fao idia. Brent representa com perfeio o 
personagem purssimo, e talvez seja um cristo temente a 
Deus e leitor da Bblia. Mas, alm disso,  um homem que 
no quer deixar uma posio de poder e influncia para ser 
um "conselheiro" de vitrine em algum escritrio de 
advocacia de Washington. Por isso ficou durante o segundo 
mandato. Diabos, todos os outros pularam do navio, 
incrementaram os currculos com toda essa suculenta 
experincia no governo e embolsaram os contatos. Menos 
Brent.
Stephanie sentia que precisava saber.
- Ele me disse que deixou vazar o Elo de Alexandria para 
procurar o traidor.
- Diabos, talvez tenha feito isso. No sei. O que sei  que 
meu subsecretrio de segurana nacional andou subornando 
o Congresso. Meu vice-presidente est tramando com um 
dos homens mais ricos do mundo. E duas naes do Oriente 
Mdio, que normalmente se desprezam mutuamente, esto 
trabalhando para impedir que uma biblioteca de 1.500 anos 
seja encontrada. Isso resume a questo, Stephanie?
- Sim, senhor presidente. D para ter uma imagem.
- Ento encontre meu traidor.
- Como sugere que faamos isso?
Ele sorriu diante da natureza decisiva da pergunta.
- Pensei um bocado nisso. Vamos comer alguma coisa, 
depois vocs duas durmam um pouco. Esto com a cara 
pssima. Podem descansar aqui em segurana.
- Isso no pode esperar at de manh - disse Stephanie.
- Tem de esperar. Sabe como se cozinha um bom fub? Sem 
ferver.  s deixar esquentando na panela, com a tampa em 
cima e o calor bem baixo.  isso que transforma um angu em 
algo celestial. Agora vamos deixar a coisa no fogo baixo 
durante algumas horas, depois direi o que tenho em mente.
 
SESSENTA E DOIS

VIENA

Thorvaldsen recuou para a alcova da janela, mas manteve os 
ouvidos atentos  conversa embaixo. O fato de o vice-
presidente americano estar ali, no castelo de Hermann, 
levantava uma quantidade de novas possibilidades. Olhou 
rapidamente para Gary e levou um dedo aos lbios, 
sinalizando para continuarem quietos. Copos tilintaram 
embaixo.
-  nossa amizade - disse Hermann.
-  disso que eu gosto em voc, Alfred. Lealdade.  uma 
coisa que est em falta ultimamente.
- Talvez seu superior deva sentir a mesma coisa. O outro deu 
um risinho.
- Daniels  um idiota. Tem uma viso simplista da vida e do 
mundo.
- E voc diria que  leal?
- Sem dvida. Sofri durante cinco anos com Danny Daniels. 
Fiz exatamente o que ele queria. Sorri. Defendi-o. Agentei 
barras pesadas por causa dele. Mas no agento mais. Os 
americanos no agentam mais.
- Espero que esse tempo no tenha sido desperdiado.
- Passei os anos montando coalizes. Fazendo amigos. 
Aplacando inimigos. Tenho tudo de que preciso...
- Menos dinheiro.
- No diria isso. Tenho amplos compromissos para manter as 
coisas caminhando. Meus amigos rabes esto sendo 
bastante generosos.
- A Ordem tambm aprecia os que demonstram apoio. Seu 
presidente no tem sido amigvel com as empresas 
mundiais. Parece gostar de tarifas, restries ao comrcio, 
transaes bancrias abertas.
- O que  um problema totalmente diferente. Garanto: h 
muitos em Washington que tm sentimentos diferentes dos 
de Daniels.
Sons vindos de baixo indicaram que os dois estavam se 
sentando. Thorvaldsen esgueirou-se para perto do corrimo. 
Hermann estava sentado numa cadeira; o vice-presidente, 
numa das poltronas. Os dois seguravam bebidas.
- Israel est tentando descobrir o que est acontecendo - 
disse o vice-presidente. - Eles sabem que o elo foi exposto.
- Fui informado. Enquanto conversamos, tenho um 
encarregado cuidando disso.
- Meu chefe de staff disse que uma equipe de vigilncia 
israelense desapareceu na Alemanha e que uma autoridade 
do Ministrio do Exterior de l foi encontrada morta em 
Rothenburg, suspeita de vender informaes. Um esquadro 
de assassinos foi mandado a Londres. Estranhamente, Tel 
Aviv queria que soubssemos disso.
- De novo, amigo, eu sei.
- Ento certamente sabe que um dos nossos ex-agentes, 
Cotton Malone, est indo para o Sinai com, imagine s, a ex-
esposa e outro homem.
Em resposta, houve silncio.
- Ficamos curiosos - disse o vice-presidente. - Ento foram 
obtidas as digitais do outro homem, de um corrimo que ele 
tocou ao embarcar no avio militar em Lisboa.  um 
americano. James McCollum. Voc o conhece?
- Ele usa o nome de Dominick Sabre. Trabalha para ns.
- E como voc  meu amigo, Alfred, vou dizer 
respeitosamente que voc  um idiota. Vi nos seus olhos. 
Voc no sabia que seu homem estava indo para o Sinai.
Outra pausa.
- Ele no precisa me manter informado. Os resultados  que 
importam.
- Ento me diga: o que ele est fazendo com Cotton Malone 
e o que vai encontrar naquela biblioteca?
- Voc disse o Sinai. Eles certamente esto num local que 
vai tornar as coisas possveis. Suficientemente perto de 
Alexandria para tornar vivel o transporte dos manuscritos 
nos tempos antigos, mas ao mesmo tempo isolado. Existiam 
rotas de comrcio l antes e depois da poca de Cristo. 
Talvez minerassem a terra em busca de cobre e turquesa. O 
Egito conhecia bem o Sinai.
- Voc conhece histria.
- O conhecimento  uma coisa boa. Especialmente aqui.
- Alfred, isto no  um exerccio intelectual. Estou tentando 
mudar fundamentalmente a poltica externa americana. 
Daniels e eu lutamos por causa disso. Neste momento, posso 
fazer algo. Est na hora de mostrarmos aos rabes a mesma 
considerao que sempre dedicamos a Israel. E como 
acontece com voc em relao ao seu contratado, s me 
interessam os resultados. Voc e seus colegas querem lucrar. 
Eu quero o comando.
- E ns queremos que voc tenha o cargo.
- Ento me diga, Alfred. Quando  que o presidente dos 
Estados Unidos morre?
Dedos finos fizeram ccegas na coluna torta de Thorvaldsen 
enquanto as palavras do vice-presidente se assentavam.
- Voc parece estar gostando da idia - disse Hermann.
- Voc me convenceu.
- Est tudo arranjado. A viagem no anunciada de Daniels a 
Cabul ter um fim espetacular.
- Assim que ele estiver voando - disse o vice-presidente -, 
terei tudo confirmado pelos meios que discutimos. Pelo que 
est combinado, ele parte na prxima quinta-feira. Apenas 
quatro pessoas sabem. Ele, eu e nossos chefes de staff. Nem 
mesmo o presidente afego sabe que ele vai. Ser informado 
pouco antes de pousarem. O negcio todo  uma armao de 
relaes pblicas feita pelo pessoal de comunicaes da Casa 
Branca. Querem aumentar os nmeros das pesquisas com 
uma viagem estimulante at as tropas.
- Os msseis j esto l. O trato foi feito com um dos 
principais assessores de Bin Laden. Ele agradeceu muito. 
Este ser o primeiro ataque significativo deles contra os 
Estados Unidos em vrios anos. Ns j lidamos com aqueles 
demnios, sempre mantendo distncia e com cautela, mas 
com sucesso.
- Ainda tenho minhas preocupaes. rabes matando 
Daniels. Mas meus amigos na Arbia dizem que a maior 
parte deles tambm est farta do Bin Laden. Adorariam tir-
lo de cena. As manias dele tornam infinitamente mais difcil 
mudar a opinio do mundo. Eles simplesmente no podem 
se ligar a ns enquanto for "do jeito de Israel ou de jeito 
nenhum". Mas com Daniels fora do caminho e uma 
mudana de poltica tornada clara, eles vo se juntar a ns 
para pegar Bin Laden.
- Meu comit poltico acha que os rabes ficaro mais 
negociveis.
- Eles sabem sobre isso? - perguntou o vice-presidente, com 
surpresa na voz.
- Claro que no. Simplesmente exploram possibilidades, e 
uma delas  a mudana da poltica externa americana. H 
muito tempo queramos que isso acontecesse.
- Agora, Alfred, sabe o que estou pensando? Hermann deu 
um risinho.
- No existem pistas. Os emissrios usados para negociar o 
trato com Bin Laden sero mandados para Al na semana 
que vem. O contratado que voc mencionou cuidar do 
assunto pessoalmente. Nada ligar ningum.
- Voc deposita muita confiana nesse sujeito.
- Ele nunca nos desapontou.
-  imperativo que no comece agora. Estarei em Chicago 
no dia em que Daniels partir. A Casa Branca no anunciar 
nada. Ser como se o presidente estivesse em Washington, 
trabalhando, e quando menos se esperar, ele estar no 
noticirio, no Afeganisto. Ento eles me escondero at a 
volta dele. Procedimento padro ps-11 de setembro.
- O que voc far depois que o avio for derrubado? - 
perguntou Hermann.
- Prestarei o juramento e governarei pelos prximos trs 
anos. Depois vou me candidatar, ganhar mais quatro e ir 
embora.
- Quero que voc entenda que, se tivermos sucesso em 
localizar a biblioteca perdida, o que ns planejamos 
comear imediatamente.
- Est certo. Quando mais cedo, melhor. Preciso de Israel e 
dos rabes desestabilizados. Eu fao carinho neles, voc 
bate. Os sauditas tero de fazer acordo. Eles no podem se 
dar ao luxo de ver o pas implodir. E quero os preos do 
petrleo caindo tanto quanto voc quer. Alguns dlares por 
barril mudam nosso PIB em bilhes. Estarei mobilizando a 
Amrica para retaliar a morte de Daniels. Ningum lutar 
contra mim nessa questo. O mundo inteiro vai se juntar a 
ns. Os rabes estaro pendurados, implorando por amigos, 
e ento eles se uniro a ns e todos vencemos.
- Meu comit poltico acredita que pode haver 
desestabilizaes disseminadas.
- Quem se importa? Meus nmeros nas pesquisas 
atravessaro o teto. Nada energiza mais os americanos do 
que uma reunio em volta da bandeira. E planejo liderar uma 
durante os prximos sete anos. Os rabes so negociantes. 
Vero que chegou a hora da cooperao, em especial se isso 
prejudicar Israel.
- Parece que voc pensou em tudo.
- Pensei em poucas outras coisas nos ltimos meses. Tentei 
convencer Daniels a mudar, mas ele no se dobra quando o 
assunto  Israel. Aquela porcaria de pas do tamanho de 
alguns condados americanos seria a runa de todos ns. E 
no planejo deixar que isso acontea.
- Na prxima vez em que nos encontrarmos - disse 
Hermann -, voc ser o presidente dos Estados Unidos.
- Alfred, alm dos terroristas que estaro fazendo a coisa, 
voc e eu somos as nicas duas pessoas no planeta que 
sabem o que vir. Eu me certifiquei disso.
- Eu tambm.
- Ento vamos fazer com que acontea e aproveitar a 
recompensa.
 

SESSENTA E TRS

Hermann tentou avaliar o homem sentado  sua frente. Era 
de fato o vice-presidente dos Estados Unidos, mas no era 
diferente da infinidade de outros polticos que ele havia 
comprado e vendido em todo o mundo, homens e mulheres 
ansiosos por poder e sem conscincia. Os americanos 
gostavam de se retratar como se estivessem acima desse tipo 
de censura, mas a ambio era irresistvel para qualquer um 
que sentisse o gostinho desse poder. Aquele sujeito ali, em 
sua biblioteca, na noite da Assemblia de inverno, no era 
exceo. Falava de elevados objetivos polticos e de 
mudanas na poltica externa, mas desde o incio estivera 
disposto a trair seu pas, seu presidente e a si mesmo. 
Felizmente.
A Ordem do Velo de Ouro prosperava a partir das 
deficincias morais dos outros.
- Alfred - estava dizendo o vice-presidente. - Seja sincero.  
realmente possvel haver evidncias de que Israel no tem 
direito bblico a reivindicar a Terra Santa?
- Claro. O Velho Testamento foi uma das grandes fontes de 
estudos na Biblioteca de Alexandria. O Novo Testamento 
que estava surgindo, perto do final da existncia da 
biblioteca, tambm foi analisado em detalhes. Sabemos disso 
a partir de manuscritos que sobreviveram.  razovel 
presumir que tanto os textos quanto as anlises da Bblia, no 
hebraico antigo original, ainda existam.
Lembrou-se do que Sabre havia informado de Rothenburg. 
Trs outros haviam sido mortos por Israel. Cada um deles 
fora visitado por um Guardio. Cada um deles estivera 
envolvido em estudos do Velho Testamento. O prprio 
Haddad havia recebido um convite. Por que outro motivo 
tivera essa honra? E por que Israel havia agido para matar o 
palestino?
Tinha de haver uma ligao.
- Estive na Inglaterra recentemente - disse o vice-presidente 
- e me mostraram a Bblia do Sinai. Disseram que era do 
sculo IV, um dos primeiros exemplares do Novo 
Testamento que ainda existe. Escrito em grego.
- Esse  um exemplo perfeito. Voc conhece a histria?
- Um pouquinho.
Hermann contou sobre um estudioso alemo, Tischendorf, 
que em 1844 estava viajando pelo oriente em busca de 
manuscritos antigos. Visitou o mosteiro de Santa Catarina, 
no Sinai, e notou um cesto onde estavam 43 pginas velhas 
escritas em grego antigo. Os monges disseram-lhe que eles 
seriam queimados no fogo, como acontecera com outros. 
Tischendorf determinou que as pginas eram da Bblia, e os 
monges lhe permitiram ficar com elas. Quinze anos depois, 
ele retornou ao mosteiro de Santa Catarina a mando do czar 
russo. Mostraram-lhe o resto das pginas bblicas, e ele 
conseguiu mand-las para a Rssia. Por fim, depois da 
revoluo, os comunistas venderam os manuscritos aos 
ingleses, que os expem at hoje.
- A Bblia do Sinai - disse Hermann -  um dos manuscritos 
mais antigos que sobreviveram. Alguns tm especulado que 
o prprio Constantino encomendou sua preparao. Mas 
lembre-se de que ela est escrita em grego, de modo que foi 
traduzida do hebraico por algum que no fazemos a 
mnima idia de quem seja, a partir de um manuscrito 
original igualmente desconhecido. Ento o que ela 
realmente nos diz?
- Que os monges do convento de Santa Catarina ainda esto 
aborrecidos, mais de cem anos depois, porque sua Bblia no 
foi devolvida. Durante dcadas eles pediram que os Estados 
Unidos interviessem com os ingleses. Por isso fui ver o 
negcio. Queria saber por que tanta discusso.
- Aplaudo Tischendorf por ter feito isso. Aqueles monges a 
teriam queimado ou deixado apodrecer. Infelizmente, 
grande parte do nosso conhecimento teve um destino 
semelhante. S podemos esperar que os Guardies tenham 
sido mais cuidadosos.
- Voc realmente acredita nesse negcio, no ?
Hermann pensou se deveria dizer mais. As coisas estavam 
progredindo rapidamente, e esse homem, que logo seria 
presidente, precisava entender a situao.
Levantou-se.
- Deixe-me mostrar uma coisa a voc.

Thorvaldsen ficou instantaneamente preocupado quando 
Alfred Hermann se levantou da cadeira e ps a bebida na 
mesa. Arriscou outra espiada para baixo e viu o austraco 
levando o vice-presidente em direo  escada espiral. 
Examinou rapidamente a passarela superior e viu que no 
havia outro caminho para baixo. Mais alcovas de janelas 
separavam as prateleiras nas outras trs paredes, mas de jeito 
nenhum ele e Gary poderiam buscar refgio em alguma 
delas. Seriam vistos num instante.
No entanto, Hermann e o vice-presidente passaram pela 
escada e pararam diante de uma vitrine.
Hermann indicou a vitrine iluminada. Dentro havia um 
cdice antigo, com a capa de madeira cheia de buracos, 
como se tivesse sido atacada por insetos.
-  um manuscrito do sculo IV tambm. Um tratado sobre 
antigos ensinamentos da Igreja, escrito pelo prprio Santo 
Agostinho. Meu pai o comprou h dcadas. No tem 
qualquer importncia histrica, j que existem cpias dele, 
mas  impressionante.
Enfiou a mo embaixo do pdio e apertou um boto 
disfarado como um parafuso de ao inoxidvel. Com a ajuda 
de um eixo no canto, girou o tero superior da estante, 
separando-o do resto. Dentro dos dois teros inferiores 
havia nove folhas de papiro quebradio.
- Estes, por outro lado, so bem preciosos. Meu pai tambm 
os comprou, h dcadas, da mesma pessoa que vendeu o 
cdice. Alguns foram escritos por Eusebios Hieroymus 
Sophronius, que viveu nos sculos IV e V. Foi um grande 
patriarca da Igreja. Traduziu a Bblia do hebraico para o 
latim, criando uma obra conhecida como Vulgata Latina, 
que acabou se tornando definitiva. A histria o chama por 
outro nome: So Jernimo.
- Voc  um homem estranho, Alfred. As coisas mais 
esquisitas o empolgam. Como essas folhas velhas e 
enrugadas podem ter importncia hoje?
- Garanto que tm grande relevncia. O bastante para, 
talvez, mudar nosso pensamento. Alguns desses textos 
tambm foram escritos por Agostinho. So cartas trocadas 
entre Jernimo e Agostinho. - Ele viu que o americano 
continuava sem se impressionar.
- Existia correio naquela poca?
- Uma forma primitiva. Viajantes que iam na direo certa 
levavam mensagens de um lado para o outro. Alguns dos 
melhores registros da poca so correspondncias.
- Ora, isso  interessante. Hermann chegou ao ponto.
- J imaginou como a Bblia surgiu?
- No particularmente.
- E se tudo fosse mentira?
-  uma questo de f, Alfred. O que isso importa?
- Importa muito. E se os primeiros pais da Igreja, homens 
como Jernimo e Agostinho, que moldaram o curso do 
pensamento religioso, decidissem mudar as coisas? Lembre-
se da poca deles. Quatrocentos anos depois de Cristo, muito 
depois de Constantino sancionar a nova religio crist, numa 
poca em que a Igreja estava emergindo e eliminando 
filosofias contrrias aos seus ensinamentos. Nessa poca, o 
Novo Testamento estava surgindo. Vrios evangelhos 
assimilados e arrumados numa mensagem unificada. 
Principalmente que Deus era gentil e perdoava, e que Cristo 
tinha vindo. Mas havia o Velho Testamento. Que os judeus 
usavam. Os cristos queriam que ele tambm fizesse parte de 
sua religio. Por sorte, para aqueles primeiros patriarcas da 
Igreja, os textos do Velho Testamento eram poucos, e todos 
escritos em hebraico antigo.
- Mas voc disse que esse tal de Jernimo traduziu a Bblia 
para o latim.
- Exatamente o meu argumento. - Hermann enfiou a mo na 
caixa e pegou uma das folhas castanhas. - Isto est escrito em 
grego, a lngua da poca de Jernimo. - Embaixo dos 
pergaminhos havia folhas datilografadas. Ele as ergueu. - 
Mandei que as cartas fossem traduzidas. Usei trs 
especialistas diferentes para garantir o trabalho. Quero ler 
uma coisa para voc, depois acho que vai ver a que estou me 
referindo.

Tenho conscincia da capacidade necessria para persuadir 
os orgulhosos de como  grande a virtude da humildade, que 
nos eleva, no pela arrogncia humana, mas pela graa 
divina. Nossa tarefa  garantir que o esprito humano seja 
elevado e que a mensagem seja clara por meio das palavras 
de Cristo. Tua sabedoria, oferecida quando iniciei esta tarefa, 
mostrou-se correta. Esta obra em que trabalho formar a 
primeira interpretao das antigas Escrituras numa lngua 
que at mesmo os menos educados poderiam entender. Pois 
parece lgico haver uma conexo entre o antigo e o novo. 
Pois estas Escrituras estarem em conflito parece prejudicar a 
si mesmas e s elevaria a filosofia judaica a uma posio 
superior, j que existe h muito mais tempo do que a nossa 
f. Desde que nos comunicamos pela ltima vez, lutei mais 
com os textos antigos. O progresso torna-se difcil por causa 
de tantos significados duplos. De novo busco tua orientao 
num ponto fundamental. Jerusalm  a cidade sagrada do 
texto antigo. A palavra yeruwshalayim  usada 
freqentemente para identificar o local; no entanto, notei 
que em nenhum lugar do texto antigo  usado yr 
yeruwshalayim, que claramente significa "cidade de 
Jerusalm". Deixe-me demonstrar o problema. No hebraico, 
em Reis, Yahweh diz a Salomo: "Jerusalm, a cidade/capital 
que escolhi nela." Mais adiante, Yahweh declara: "Para que a 
cidade em Jerusalm, lembrando a memria de Davi, antes 
de mim -        a cidade onde escolhi estabelecer meu nome -, 
possa ser preservada." Meu irmo, voc consegue ver o 
dilema? O texto antigo fala de Jerusalm no como cidade, 
mas como territrio. Sempre  a "cidade em Jerusalm", e 
no Jerusalm em si. Samuel fala dela como uma regio 
onde, em hebraico, diz: "O rei e seus homens partiram para 
Jerusalm contra os jebusitas que habitavam a regio." Lutei 
com a traduo, esperando que algum erro fosse descoberto, 
mas ela  coerente durante todo o uso hebraico. A palavra 
yeruwshalaim, Jerusalm, sempre se refere a um local que 
abarca vrias cidades, e no uma nica cidade com esse 
nome.

Hermann parou de ler e olhou para o vice-presidente.
- Jernimo escreveu isso a Agostinho enquanto estava 
traduzindo o Velho Testamento do hebraico para o latim. 
Deixe-me ler o que Agostinho, num determinado ponto, 
escreveu a Jernimo.
Ele encontrou outra das tradues.

Meu sbio irmo, teu trabalho parece ao mesmo tempo 
rduo e glorioso. Que espantoso deve ser revelar o que 
escribas que se foram h tanto tempo registraram, e tudo 
com a orientao divina de nosso Deus mui glorioso. 
Certamente tens conhecimento das lutas que todos 
enfrentamos nesta poca perigosssima. Os deuses pagos 
esto morrendo. A mensagem de Cristo est crescendo. Suas 
palavras de paz, misericrdia e amor soam verdadeiras. 
Muitos esto descobrindo nossa nova mensagem 
simplesmente porque ela est ficando disponvel. O que 
torna muito mais importante teu esforo para trazer  vida as 
palavras antigas. Tuas cartas explicaram claramente o 
problema que enfrentas. Mas o futuro desta Igreja, de nosso 
Deus, est conosco. Adaptar a mensagem do velho com o 
novo no  pecado. Como disseste, as palavras possuem 
muitos significados duplos, portanto, quem vai dizer qual  o 
certo? Certamente no tu ou eu. Se pediste orientao, d-la-
ei. Torne as palavras antigas fiis s novas. Porque, se o 
antigo for diferente do novo, certamente correremos o risco 
de confundir os fiis e alimentar os fogos do 
descontentamento, que nossos muitos inimigos vivem 
acendendo. Tua tarefa  grandiosa.  muito significativo que 
todos possam ler as palavras antigas. Os eruditos e os rabinos 
no possuiro o controle sobre um texto to importante. 
Assim, irmo, trabalhe duro e saberemos que ests fazendo a 
obra de Deus.

- Voc est dizendo que eles mudaram intencionalmente o 
Velho Testamento? - perguntou o vice-presidente.
- Claro que mudaram. Simplesmente essa referncia a 
Jerusalm  um bom exemplo. A traduo de Jernimo, que 
ainda  aceita como correta, denota Jerusalm como cidade. 
No Reis de Jernimo est escrito: Jerusalm, a cidade que 
escolhi. Isso  absolutamente contrrio ao que o prprio 
Jernimo escreveu na carta. Jerusalm, a cidade/capital que 
escolhi nela. Diferena enorme, no acha? E essa descrio 
de Jerusalm  usada em toda a traduo de Jernimo. A 
Jerusalm do Velho Testamento se tornou a cidade na 
Palestina porque Jernimo decidiu isso.
- Isso  loucura, Alfred. Ningum vai aceitar isso.
- No  necessrio que algum aceite isso. Assim que for 
encontrada uma prova, no haver como negar.
- Como o qu?
- Um manuscrito do Velho Testamento escrito antes de 
Cristo deveria ser definitivo. Ento poderemos ler as 
palavras sem o filtro cristo.
- Desejo sorte a voc.
- Vou lhe dizer uma coisa. Vou deixar o governo dos 
Estados Unidos com voc, e voc deixa isso comigo.

Thorvaldsen ficou olhando Hermann recolocar as folhas na 
vitrine e fechar o compartimento. Os dois homens se 
demoraram mais alguns minutos, depois saram da 
biblioteca. Era tarde, mas ele no sentia sono.
- Eles vo matar o presidente - disse Gary, nervoso.
- Eu sei. Venha, temos de sair. Desceram a escada em 
espiral.
Ainda havia lmpadas acesas na biblioteca. Thorvaldsen 
lembrou-se de como Hermann gostava de alardear que ali 
havia cerca de vinte mil livros, muitos eram primeiras 
edies, que remontavam a centenas de anos.
Levou Gary  vitrine onde estavam os cdices. O garoto no 
tinha visto o mesmo que ele. Enfiou a mo atrs e procurou 
um interruptor, mas no achou nada. Dobrar-se seria difcil. 
Era um dos problemas de ter coluna torta.
- O que est procurando? - perguntou Gary.
- H um modo de abrir esta vitrine. D uma olhada e veja se 
h algum boto a embaixo.
Gary se ajoelhou e procurou.
- Duvido que seja bvio. - Thorvaldsen alternava a ateno 
entre a vitrine e a porta, torcendo para que ningum 
entrasse. - Alguma coisa?
Um estalo, e a vitrine se separou ligeiramente, a cerca de um 
tero do comprimento. Gary se levantou.
- Um dos parafusos. Bem bolado. Se voc no apertar, no 
vai ficar sabendo.
- Bom trabalho.
Revelou o compartimento oculto e viu as folhas rgidas de 
papiro com textos de uma borda  outra. Contou. Nove. 
Olhou as estantes ao redor e viu alguns atlas grandes. 
Apontou.
- Pegue um daqueles livros grandes.
Gary pegou o volume. Cuidadosamente, Thorvaldsen enfiou 
os papiros e as tradues nas pginas, para escond-los e 
proteg-los ao mesmo tempo.
Fechou de novo a vitrine.
- O que  isso? - perguntou Gary.
- O que viemos pegar, espero.
 
SESSENTA E QUATRO

SEXTA-FEIRA, 7 DE OUTUBRO 
9H15

Malone se recostou na lateral do gigantesco transporte 
C130H. Brent Green havia trabalhado depressa, 
conseguindo uma carona num vo de suprimentos da fora 
area que ia da Inglaterra para o Afeganisto. Uma parada 
em Lisboa, na Base Area de Montijo, supostamente para 
um pequeno conserto, lhes havia permitido embarcar com 
pouca fanfarra. Uma troca de roupa os esperava; agora, 
Malone, Pam e McCollum usavam uniformes de combate do 
exrcito em vrios tons de bege, verde e marrom, junto com 
botas para o deserto e pra-quedas. Pam ficara apreensiva 
com o pra-quedas, mas aceitara a explicao de Malone, de 
que era um equipamento padro.
O tempo de vo de Lisboa ao Sinai era de oito horas, e 
Malone conseguira dormir um pouquinho. Lembrava-se, 
sem afeto, de outros vos em outros avies de transporte, e 
a nuvem de combustvel oleoso que pairava no ar trazia 
lembranas de quando era mais novo. Ficando mais tempo 
longe do que em casa. Cometendo erros que o feriam at 
mesmo agora.
Pam claramente no havia gostado das trs primeiras horas 
de vo. O que era compreensvel, j que o conforto era a 
menor das preocupaes da fora area. Mas por fim havia 
se acomodado e cado no sono.
McCollum era diferente.
Parecia estar em casa, cuidando do pra-quedas com 
preciso de especialista. Talvez tivesse sido mesmo das 
foras especiais. Malone no tivera notcias de Green em 
relao ao passado de McCollum. Mas logo qualquer coisa 
que descobrisse teria pouca importncia. Eles estavam para 
ficar fora de contato, no meio de lugar nenhum.
Olhou pela janela.
O solo poeirento e estril se espalhava em todas as direes, 
um planalto irregular, inclinando-se para cima enquanto a 
pennsula do Sinai se estreitava e irrompia em speras 
montanhas de granito marrom, cinza e vermelho. A Sara 
Ardente e a teofania de Jeov supostamente haviam 
acontecido l embaixo. A grande e terrvel vastido do 
xodo. Durante sculos, monges e eremitas haviam 
escolhido esse lugar como refgio, como se estar sozinhos 
os levasse para mais perto do cu. Talvez levasse. Ele 
curiosamente se lembrou da viso do Huis Clos, de Sartre.
O inferno so os outros.
Deu as costas para a janela e viu McCollum se afastar do 
mestre de cargas e caminhar em sua direo, sentando-se na 
estrutura de alumnio que se estendia junto  parede do 
avio. Pam estava deitada a trs metros dali, do outro lado, 
ainda dormindo. Malone estava comendo uma das refeies 
prontas - bisteca com cogumelos - e tomando uma garrafa 
d'gua.
- Voc comeu? - perguntou a McCollum.
- Enquanto voc estava dormindo. Fajitas de frango. Nada 
mau. Lembro muito bem das raes militares.
- Voc parece se sentir em casa.
- J fiz isso antes.
Os dois retiraram os protetores de ouvidos, que s ofereciam 
um pequeno isolamento do rugir constante dos motores. A 
aeronave estava cheia de paletes com peas de veculos 
destinadas ao Afeganisto. Malone imaginou que haveria 
muitos vos semelhantes toda semana. Enquanto 
antigamente as rotas de suprimentos dependiam de cavalos, 
carroas e caminhes, agora o cu e o mar ofereciam os 
caminhos mais rpidos e seguros.
- Parece que voc tambm j fez isso antes - disse 
McCollum.
- Isso traz algumas lembranas.
Ele estava tendo cuidado com as palavras. No importava 
que McCollum os tivesse ajudado a sair inteiros de Belm. O 
sujeito continuava sendo um desconhecido. E matava com a 
preciso de um especialista e sem remorso. Sua qualidade 
redentora? Guardava a saga do heri.
- Voc tem conexes muito boas - disse McCollum. - O 
prprio procurador-geral arranjou isso?
- Tenho amigos.
- Voc  da CIA, da inteligncia militar ou algo do tipo.
- Nenhuma das respostas acima. Na verdade, estou 
aposentado. 
McCollum deu um risinho.
- Mantenha essa histria. Gosto dela. Aposentado. Certo. 
Voc est metido at as orelhas em alguma coisa.
Malone terminou a refeio e notou o mestre de cargas 
olhando para ele. Lembrou-se de que eles podiam ficar 
sensveis quanto ao modo como se falava mal das raes 
militares. O sujeito fez um gesto, e Malone entendeu. O 
container na extremidade do banco.
Em seguida, o mestre de cargas abriu a palma da mo quatro 
vezes.
Vinte minutos.
Assentiu.
SESSENTA E CINCO

VIENA 
8H30

Thorvaldsen sentou-se dentro da schmetterlinghaus e abriu 
o atlas. Ele e Gary haviam acordado uma hora antes e 
tomado um caf-da-manh leve. Tinham ido  casa das 
borboletas no somente para evitar os equipamentos de 
escuta eletrnica, mas tambm para esperar o inevitvel. Era 
apenas uma questo de tempo at que Hermann descobrisse 
o roubo.
A manh era de tempo livre para os scios da Ordem, j que 
a prxima reunio da Assemblia s estava programada para 
o fim da tarde. Ele mantivera os pergaminhos dentro do 
atlas, embaixo da cama, durante toda a noite. Agora estava 
ansioso para descobrir mais coisas. Apesar de ser capaz de 
ler em latim, seu grego era mnimo, e o conhecimento do 
grego antigo, que certamente seria a lngua de Jernimo e 
Agostinho, era inexistente. Sentiu-se grato porque Hermann 
havia encomendado as tradues.
Gary estava sentado diante dele, em outra cadeira.
- Ontem  noite voc disse que isso poderia ser o motivo 
para termos vindo at aqui.
Thorvaldsen decidiu que o garoto merecia a verdade.
- Voc foi seqestrado para obrigar seu pai a encontrar uma 
coisa que ele escondeu h anos. Acho que estes papis tm 
ligao com aquilo.
- E o que so esses papis?
- Cartas entre dois homens eruditos. Agostinho e Jernimo. 
Viveram nos sculos IV e V e ajudaram a formular a religio 
crist.
- Histria. Estou comeando a gostar e coisa e tal, mas tem 
fatos demais.
Henrik sorriu.
- E o problema hoje em dia  que temos muito poucos 
documentos dessa poca. Guerras, poltica, tempo e abuso 
devastaram os registros. Mas aqui esto escritos que vieram 
direto da mente de dois homens sbios.
Ele conhecia um pouco da histria de ambos. Agostinho 
nasceu na frica, filho de me crist e pai pago. Quando 
adulto, converteu-se ao cristianismo e registrou seus 
excessos da juventude no livro As confisses, que, como 
Thorvaldsen sabia, ainda era leitura obrigatria em muitas 
universidades. Tornou-se bispo de Hipo, lder intelectual do 
catolicismo africano e poderoso defensor da ortodoxia; a ele 
foi creditada a formulao de boa parte dos primeiros 
pensamentos da Igreja.
Jernimo tambm nasceu em famlia pag e desperdiou a 
juventude. Tambm era erudito e passou a ser considerado o 
mais intelectual de todos os patriarcas da Igreja. Viveu como 
eremita e dedicou trinta anos da vida a traduzir a Bblia. 
Desde ento seu nome foi associado s bibliotecas, tanto que 
se tornou padroeiro delas.
Pelo pouco que Thorvaldsen ouvira na noite anterior, 
aqueles dois homens, que viviam em partes diferentes do 
mundo antigo, aparentemente se comunicaram durante um 
tempo, quando Jernimo estava fazendo o trabalho de sua 
vida. Hermann havia mostrado seu argumento sobre a 
manipulao bblica ao vice-presidente, mas Thorvaldsen 
precisava entender a situao por inteiro. Por isso encontrou 
as pginas traduzidas e comeou a examin-las, lendo em 
voz alta as passagens em ingls.

Sbio irmo Agostinho, houve um tempo em que acreditei 
que a Septuaginta era um trabalho maravilhoso. Li esse texto 
na biblioteca em Alexandria. Ouvir os pensamentos daqueles 
escribas, a. medida que narravam as atribulaes dos 
israelitas, trouxe a vida a f que h muito enchia minha 
alma. Mas agora esse jbilo foi substitudo por confuso. No 
meu trabalho para converter o texto antigo, fica claro que 
foram tomadas grandes liberdades na Septuaginta. Passagem 
aps passagem  incorreta. Jerusalm no  um lugar nico, 
mas sim uma regio que contm muitos lugares. O mais 
sagrado dos rios, o Jordo, no  um rio, mas sim uma 
escarpa montanhosa. Quanto aos nomes dos lugares, a 
maioria est errada. A traduo para o grego no combina 
com o hebraico. E como se toda a mensagem estivesse 
alterada, no devido  ignorncia, mas sim ao desgnio.

Jernimo, meu amigo, tua tarefa  difcil, e fica mais difcil 
ainda devido  nossa grande misso. O que descobriste no 
passou despercebido. Tambm passei muito tempo na 
biblioteca em Alexandria. Muitos de ns examinaram os 
manuscritos. Li um relato de Herdoto, que visitou a 
Palestina no sculo V antes de nosso Senhor. Ele encontrou 
a rea sob domnio persa habitada por srios. No notou 
qualquer presena israelita ou judaica. Nem Jerusalm ou 
Jud. Achei isso notvel, considerando que o texto antigo 
menciona que essa foi a poca em que o templo judaico 
estava sendo reconstrudo em Jerusalm e que Jud 
desfrutava o status de grande provncia. Se esses lugares 
existissem, o sbio grego teria notado, j que tem reputao 
de observador ardoroso. Descobri que a primeira 
identificao conhecida do antigo Israel com o que 
chamamos de Palestina vem do romano Strabo. Seu 
Histrias  um relato detalhado, e tive o privilgio de l-lo 
na biblioteca. A obra de Strabofoi terminada 23 anos depois 
do nascimento de nosso Senhor; portanto, ele escreveu 
numa poca em que Cristo vivia. Ele observa que o nome 
Judia foi aplicado pela primeira vez  Palestina durante o 
domnio grego, a palavra grega para um pas judaico era 
Ioudaia. Isso foi apenas um sculo antes do nascimento de 
nosso Senhor. De modo que, em algum momento entre as 
visitas de Herdoto e Strabo, separadas por cerca de 
quatrocentos anos, os judeus da Palestina estabeleceram uma 
presena. O prprio Strabo escreveu sobre um grande grupo 
de israelitas que fugiu de uma terra ao sul e se estabeleceu na 
Palestina. Ele no foi claro em relao a qual terra, mas 
raciocinou que, devido  proximidade do Egito e ao fcil 
acesso, o xodo podia ter ocorrido de l para a Palestina. 
Mas nada prova essa concluso. Strabo notou que a fonte de 
sua narrativa foram os judeus de Alexandria, em meio aos 
quais passou muito tempo. Ele era fluente em hebraico e 
observou em suas Histrias que tambm encontrou erros na 
Septuaginta. Escreveu que os estudiosos simplesmente 
associaram o texto antigo ao que ficaram sabendo com os 
judeus na poca. Strabo escreveu que os judeus de 
Alexandria haviam esquecido seu passado e pareciam 
confortveis em criar outro.

Sbio irmo Agostinho, li os escritos de Flvio Josefa, um 
judeu que escreveu com grande autoridade. Ele viveu um 
sculo depois do nascimento de nosso Senhor. E identifica 
claramente a Palestina com a terra do texto antigo, 
observando que a regio  o nico lugar que ele conheceu 
onde existia uma entidade poltica judaica. Em tempo mais 
recente, Eusbio de Cesaria, em nome de nosso mui 
exaltado imperador Constantino, designou nomes do texto 
antigo a locais na Palestina. Li sua obra Dos nomes dos locais 
na Santa Escritura. Mas depois de estudar um texto antigo 
em hebraico, fica claro que a obra de Eusbio  falha. Ele 
parece ter aplicado livremente significados a topnimos e 
em alguns casos simplesmente adivinhou; no entanto, sua 
obra tem grande importncia. Os peregrinos devotos e 
crdulos a usam como orientao.

Jernimo, meu amigo, devemos executar esta tarefa com 
grande diligncia. Nossa religio est apenas se formando, e 
h ameaas de todos os lados. O que estamos tentando fazer 
 fundamental para nossa existncia. Traduzir os textos 
antigos para o latim permitiria que essas palavras fossem lidas 
por muitos. Insisto em que no alteres o que foi iniciado 
pelos que criaram a Septuaginta. Nosso Senhor Cristo viveu 
na Palestina. Para a mensagem que estamos formulando no 
mais novo testamento, devemos apresentar apenas uma voz. 
Reconheo o que disseste: que o texto antigo no parece um 
registro dos israelitas no que chamamos de Palestina. Por 
que isso importaria? Nosso objetivo  muito diferente do 
daqueles que criaram a Septuaginta. Nosso novo testamento 
deve ser uma realizao do antigo. Ligar o antigo ao novo 
demonstrar como nosso Senhor Cristo foi vital e como Sua 
mensagem  importante. Os erros que observas na 
Septuaginta no precisam ser corrigidos. Como escreveste, 
os judeus que ajudaram aqueles tradutores haviam esquecido 
seu passado. No sabiam nada de sua existncia de muito 
tempo antes, s o que estava acontecendo mais ou menos na 
poca. Assim, em tuas tradues, a Palestina que 
conhecemos deve permanecer como a Palestina dos dois 
testamentos. Esta  a nossa tarefa, caro irmo, a nossa 
misso. O futuro de nossa religio, de nosso Senhor Cristo, 
est conosco, e Ele nos inspira afazer Sua vontade.

Thorvaldsen parou de ler.
Ali estavam dois pais da Igreja, talvez os mais brilhantes de 
todos, trabalhando para manipular a traduo do Velho 
Testamento para o latim. Obviamente, Jernimo tinha 
acesso a um manuscrito redigido no hebraico original e 
havia notado erros na traduo anterior para o grego. 
Agostinho sabia sobre Herdoto e Strabo - o primeiro 
reconhecido como o pai da histria; o segundo, como o pai 
da geografia. Um era grego; o outro, romano. Homens que 
viveram separados por sculos e mudaram 
fundamentalmente o mundo. A Geografia de Strabo ainda 
existia e era considerado um dos textos antigos mais 
preciosos, revelando muito sobre aquele mundo e seu 
tempo, mas suas Histrias haviam desaparecido.
No existia nenhum exemplar.
No entanto, Agostinho havia lido.
Na Biblioteca de Alexandria.
- O que isso tudo significa? - perguntou Gary.
- Muita coisa.
Se a Igreja antiga havia falsificado a traduo do Velho 
Testamento, adaptando as palavras para seus objetivos, isso 
poderia ter implicaes catastrficas.
Hermann estava certo. Os cristos certamente entrariam na 
briga.
Sua mente disparou com o que o Cadeira Azul estava 
planejando. Por conversas que haviam tido no correr dos 
anos, sabia que Hermann no era crente. Via a religio como 
uma ferramenta poltica e a f como uma muleta para os 
fracos. Sentiria grande prazer em ver as trs grandes 
religies lutando com as implicaes de que o Velho 
Testamento que sempre haviam conhecido era, de fato, algo 
totalmente diverso.
As pginas nas mos de Thorvaldsen eram preciosas. 
Formavam parte da prova de Hermann. Mas o Cadeira Azul 
precisaria de mais. Por isso a Biblioteca de Alexandria era to 
importante. Se ainda existisse, poderia ser o nico 
repositrio que talvez iluminasse a questo. Mas esse era o 
problema de Malone, j que, aparentemente, ele estava a 
caminho do Sinai.
Desejou sorte ao amigo.
E havia o presidente dos Estados Unidos. A morte dele 
estava planejada para a prxima quinta-feira. Isso era 
problema de Thorvaldsen. Pegou o celular no bolso e digitou 
um nmero.
 
SESSENTA E SEIS

PENNSULA DO SINAI

Malone acordou Pam. Ela se sentou no banco de nilon e 
tirou os protetores de ouvido.
- Chegamos - disse ele.
Ela afastou o sono do crebro e levantou os olhos.
- Estamos pousando?
- Chegamos - repetiu ele, acima do rugido dos motores.
- Quanto tempo eu dormi?
- Algumas horas.
Ela se levantou, com o pra-quedas ainda preso s costas. O 
C130 corcoveava e grunhia no ar da manh.
- Quanto falta para pousarmos?
- Vamos sair daqui a pouco. Voc comeu? 
Ela balanou a cabea.
- De jeito nenhum. Meu estmago estava na garganta. Mas 
finalmente se acalmou.
-        Beba um pouco d'gua. - Ele indicou o suporte. 
Pam abriu a garrafa e tomou alguns goles.
- Isso  que nem andar num trem de carga. Ele sorriu. 
-  um bom modo de definir.
- Voc viajava nesse tipo de coisa?
- O tempo todo.
- Seu trabalho era duro.
Era a primeira vez que ele a ouvia fazendo concesses  sua 
antiga profisso.
- Eu procurei.
- S estou comeando a entender. Ainda estou pirada com 
aquele relgio grampeado. Idiotice minha, na verdade, achar 
que o cara gostava de mim.
- Talvez gostasse.
- Certo. Ele me usou, Cotton. 
A admisso parecia doer.
- Usar pessoas faz parte desse trabalho. - Ele fez uma pausa, 
depois acrescentou: - No  uma parte da qual eu gostava.
Ela bebeu mais gua.
- Eu usei voc, Cotton.
Ela estava certa. Era verdade.
- Deveria ter contado sobre o Gary. Mas no contei. Ento, 
quem sou eu para julgar algum?
No era hora para essa discusso. Mas Cotton viu que ela 
estava incomodada com o que havia acontecido.
- No esquente demais. Vamos acabar com isso. Depois 
falamos a respeito.
- No estou esquentando. S queria que voc soubesse como 
me sinto.
Isso tambm era novidade.
Nos fundos do avio, um zumbido irritante acompanhou a 
abertura da rampa traseira. Um sopro de ar entrou na rea de 
carga.
- O que est acontecendo? - perguntou ela.
- Eles tm algumas tarefas. Lembre-se: ns s estamos 
pegando carona. V at ali e fique onde o mestre de cargas 
est parado.
- Por qu?
- Porque eles pediram. Eu vou junto.
- Como est o nosso amigo?
- Enxerido. Ns dois precisamos ficar de olho nele.
Malone ficou olhando enquanto ela ia para os fundos. 
Depois foi at o outro lado e disse a McCollum:
- Hora de ir.
Ele havia notado que McCollum ficara observando a 
conversa dos dois.
- Ela sabe?
- Ainda no.
-  meio cruel, no acha?
- No, se voc a conhecesse. 
McCollum balanou a cabea.
- Lembre-me de continuar seu amigo.
- Na verdade, esse  um conselho muito bom. Viu que o 
recado havia chegado ao destino.
- Claro, Malone. S sou o cara que salvou sua pele.
- Motivo pelo qual est aqui.
- Muito generoso da sua parte, considerando que eu tenho as 
pistas da saga.
Malone pegou a mochila em que havia posto o que George 
Haddad lhe deixara e o livro sobre So Jernimo. Tinha-os 
retirado no aeroporto, antes de sarem de Lisboa. Prendeu a 
mochila no peito.
- E aqui est o que eu tenho, de modo que estamos quites. 
McCollum tambm prendeu uma mochila no peito. 
Suprimentos de que poderiam precisar. gua, raes, 
localizador por GPS. Segundo o mapa, havia um povoado a 
cerca de 5 quilmetros do lugar aonde iam. Se nada fosse 
encontrado, poderiam andar at l e encontrar um caminho, 
30 quilmetros ao sul, at onde ficava um aeroporto, perto 
da Montanha Moiss e do mosteiro de Santa Catarina, 
atraes tursticas populares.
Puseram culos e capacetes, depois foram para a traseira.
- O que eles esto fazendo? - perguntou Pam quando os dois 
se aproximaram.
Tinha de admitir que ela ficava bem com uniforme militar.
- Precisam fazer uma operao com pra-quedas.
- Com esta carga? Vo larg-la em algum lugar?
A velocidade do avio baixou para 120 ns, se  que ele 
lembrava corretamente, e o nariz empinou.
Malone ps um capacete de Kevlar na cabea de Pam e 
prendeu rapidamente a tira do pescoo.
- O que voc est fazendo? - A confuso inundou a voz dela. 
Ele ajustou um par de culos sobre os olhos dela e disse:
- A rampa traseira est baixada. Todos temos de fazer isso. 
Precauo de segurana.
Verificou o arns dela e viu que todas as quatro tiras estavam 
afiveladas na presilha de liberao rpida. J havia se 
certificado de que as suas estavam corretas. Prendeu-se e 
prendeu Pam  linha esttica.
Viu que McCollum j estava conectado.
- Como podemos pousar com essa rampa aberta? - gritou ela. 
Ele a encarou.
- No podemos.
Viu a compreenso instantnea dela.
- Voc no pode estar falando srio. No espera que eu...
- Ele vai se abrir automaticamente. Fique pendurada e 
aproveite o passeio. Este pra-quedas  lento. Projetado para 
novatos. Quando voc bater no cho, vai ser como uma 
queda de um metro, 1,20 m.
- Cotton, voc pirou de vez. Meu brao ainda di. De jeito 
nenhum...
O mestre de cargas sinalizou que haviam chegado perto das 
coordenadas de GPS dadas por Malone. No havia tempo 
para discutir. Malone simplesmente a levantou por trs e a 
empurrou.
Ela tentou se soltar.
- Cotton, por favor. No posso. Por favor. 
Ele a jogou pela rampa.
O grito de Pam desapareceu rapidamente.
Ele soube o que ela estava passando. Os primeiros 5 metros 
eram pura queda livre, como ficar sem peso, enquanto a 
linha esttica se soltava. O corao dela pareceria estar 
martelando no fundo da garganta. Na verdade, era um 
barato. Depois ela sentiria um puxo quando a linha esttica 
soltaria o pra-quedas das costas, e Malone olhou Pam se 
afastar no cu da manh.
O corpo dela balanou quando o pra-quedas segurou o ar.
- Ela vai ficar furiosa - disse McCollum em seu ouvido. 
Malone manteve o olhar na descida de Pam.
- . Mas eu sempre quis fazer isso.
 
SESSENTA E SETE

Sabre se segurou nos cabos e desfrutou a descida at o cho. 
O ar da manh e o pra-quedas novo em folha estavam se 
combinando para uma descida lenta. Malone lhe havia 
falado sobre os panos, bem diferentes daqueles que ele 
recordava do passado, quando caa como uma pedra e torcia 
para no quebrar uma perna.
Ele e Malone haviam seguido Pam saindo do avio, que 
desaparecera rapidamente no cu do leste. Se chegariam em 
segurana ao solo no era mais preocupao da tripulao. 
Seu trabalho estava feito.
Olhou para o ambiente implacvel.
Uma vasta plancie de areia e pedras se estendia em todas as 
direes. Freqentemente ouvira Alfred Hermann falar do 
sul do Sinai. Supostamente o deserto mais sagrado do 
planeta. Arauto de civilizaes. Elo entre frica e sia. Mas 
rasgado por batalhas. O territrio mais sitiado do mundo. 
Srios, hititas, assrios, persas, gregos, romanos, cruzados, 
turcos, franceses, ingleses, egpcios e israelenses haviam 
invadido o local. Ele ouvira muitas vezes Hermann 
arengando sobre a importncia da rea. Agora estava para 
experiment-la pessoalmente.
Devia estar a uns 300 metros do cho. Pam Malone flutuava 
abaixo. Malone acima. O silncio ressoava em seus ouvidos - 
um contraste ntido com o rudo constante do avio. 
Lembrou-se do silncio das outras vezes em que havia 
saltado. O rugido dos motores desaparecendo at um nada 
profundo. Apenas o vento podia perturbar a tranqilidade, 
mas nenhum vento se movimentava hoje.
A 800 metros a leste, a paisagem estril dava lugar a ridos 
montes de granito, todos sem caractersticas especiais, 
apenas um amontoado de picos e fendas. Ser que a 
Biblioteca de Alexandria estava ali? Certamente todos os 
sinais apontavam para l.
Continuou a flutuar para baixo.
Perto da base de um dos montes serrilhados, talvez a uns 
400 metros de onde se encontrava, viu uma construo 
atarracada. Ajustou os cabos de orientao, alterando a 
trajetria para mais perto de onde Pam Malone ia pousar. 
Um trecho limpo de solo do deserto. Sem pedregulhos. 
timo.
Olhou para cima e viu Malone acompanh-lo.
Aquele sujeito poderia ser mais difcil de matar do que ele 
havia pensado a princpio. Mas pelo menos Sabre estava 
armado. Mantivera a arma que havia conseguido no 
mosteiro, assim como Malone, junto com os pentes de 
reserva. Quando acordara na igreja, depois de ser deixado 
inconsciente, sua arma continuava l. O que ele havia 
achado curioso.
Qual teria sido o objetivo do ataque?
Quem se importava?
Pelo menos estava preparado.

Malone puxou os cabos e direcionou a descida. O mestre de 
saltos na base area em Lisboa lhe dissera que os novos pra-
quedas eram diferentes, e estava certo. Eram lentos, fceis 
de manobrar. Os militares no haviam ficado felizes por 
causa de Pam - uma novata que nem saberia que iria saltar 
at ser tarde demais -, mas, como a ordem de cooperar viera 
direto do Pentgono, ningum discutiu.
- Cotton, seu desgraado - ouviu Pam gritar. - V para o 
inferno.
Olhou para baixo.
Ela estava a 150 metros do cho.
- Deixe as pernas dobrarem quando bater - gritou. - Voc 
est indo muito bem. O pra-quedas vai fazer o servio.
- V se foder - gritou ela de volta.
- A gente costumava fazer isso. No deu certo. Prepare-se.
Ficou olhando-a bater no cho e cair, com o pra-quedas 
descendo atrs. Viu McCollum liberar o saco do cordame, 
que se desenrolou  frente dele, depois encontrar o cho, 
ficando de p.
Malone puxou os cabos de orientao e diminuiu a descida 
at ficar quase parado. Soltou o saco do cordame e sentiu as 
botas rasparem a areia.
Ele tambm parou de p.
J fazia um tempo desde a ltima vez em que havia saltado, 
mas ficou feliz em saber que ainda era capaz. Soltou o arns 
e se livrou das correias.
McCollum estava fazendo a mesma coisa.
Pam ainda estava deitada no cho. Malone foi at l, sabendo 
o que viria.
Ela saltou de p.
- Seu filho-da-puta. Voc me jogou daquele avio 
desgraado. - Ela estava tentando acert-lo, mas no havia 
soltado o arns, e o pra-quedas inchado funcionava como 
uma ncora, restringindo-lhe os movimentos.
Ele ficou fora do alcance.
- Pirou de vez? - gritou ela. - Voc no disse porra nenhuma 
sobre pular de um avio.
- Como voc achou que a gente ia chegar aqui? - perguntou 
ele calmamente.
- J ouviu falar em pouso?
- Isto  territrio egpcio. J foi muito ruim termos saltado 
durante o dia. Mas at mesmo eu achei que um salto 
noturno seria cruel.
A fria enchia os olhos azuis dela, uma intensidade que ele 
jamais vira antes.
- Tnhamos de chegar aqui de modo que os israelenses no 
soubessem. Seria impossvel pousar. Espero que ainda 
estejam seguindo aquele seu relgio, que leva a lugar 
nenhum.
- Voc  um imbecil, Cotton. Uma porra de um imbecil. 
Voc me jogou daquele avio.
- Joguei, no foi?
Ela comeou a remexer no arns, tentando liberar o corpo 
do aperto do pra-quedas.
- Pam, voc vai se acalmar?
Ela continuou a procurar a presilha de liberao e parou.
- Ns precisvamos chegar aqui - disse ele. - O transporte 
era perfeito. Simplesmente pulamos no caminho; ningum 
ficou sabendo. Este  um territrio praticamente estril, h 
menos de uma pessoa por quilmetro quadrado. Duvido que 
tenhamos sido vistos. Como falei antes. Voc sempre quis 
saber o que eu fazia. Tudo bem. A est.
- Voc deveria ter me deixado em Portugal.
- No era uma boa idia. Os israelenses podiam consider-la 
uma ponta solta. Voc est melhor desaparecida conosco.
- No. Voc no confia em mim. De modo que estou 
melhor aqui, onde voc pode me vigiar.
- Esse pensamento tambm me ocorreu.
Ela ficou quieta por um momento, como se a compreenso 
estivesse baixando.
- Certo, Cotton - disse num tom surpreendentemente 
calmo. - Voc confirmou seu argumento. Estamos aqui. 
Inteiros. Agora pode me tirar desta coisa?
Ele se aproximou e soltou o arns.
Ela levantou os braos e deixou a mochila cair no cho. 
Depois mandou o joelho direito contra a virilha dele.
Uma dor eletrizante subiu pela coluna e encontrou o 
crebro de Malone. Suas pernas tremeram e ele caiu no 
cho. Ficou sem ar.
J fazia um tempo que no era derrubado daquele jeito. 
Dobrou-se em posio fetal e esperou que o sofrimento 
passasse. - Espero que tenha sido bom para voc tambm - 
disse ela, afastando-se.
 
SESSENTA E OITO

VIENA 
9H28

Hermann entrou em sua biblioteca e fechou a porta. No 
tinha dormido bem, mas havia pouca coisa que pudesse 
fazer at que Thorvaldsen cometesse um erro. Quando isso 
acontecesse, ele estaria preparado. Sabre podia ter sumido, 
mas Hermann ainda empregava um bocado de homens que 
fariam exatamente o que ele quisesse. Seu chefe da guarda, 
um italiano, deixara claro em mais de uma ocasio que 
gostaria do cargo de Sabre. Hermann jamais havia 
considerado seriamente o pedido, mas com o Garras da 
guia longe, precisava de ajuda, por isso disse ao sujeito para 
estar a postos.
Primeiro tentaria a diplomacia. Isso era sempre prefervel. 
Talvez pudesse argumentar com Thorvaldsen uma vez que o 
dinamarqus visse que demonstrar ao mundo que o Velho 
Testamento fora manipulado poderia ser uma ferramenta 
poltica eficaz - se manobrada do modo adequado. Por 
muitas vezes durante a histria, o caos e a confuso haviam 
se traduzido em lucro. Qualquer coisa que agitasse o Oriente 
Mdio afetava o preo do petrleo. Saber o que estava por 
vir seria valiosssimo. Controlar a extenso do que viria seria 
inimaginvel. Os scios da Ordem poderiam obter lucros 
enormes.
 
E seu recm-descoberto aliado na Casa Branca tambm se 
beneficiaria. 
Mas, para realizar isso, precisava de Sabre. 
O que ele estaria fazendo no Sinai? 
E com Cotton Malone.
As duas coisas lhe pareciam bons sinais. O plano de Sabre 
fora atrair Malone para irem atrs do Elo de Alexandria. 
Depois disso, o sucesso dependeria de Malone. Ou eles 
ficariam sabendo o que pudessem e depois ele eliminaria 
Malone ou ento se juntariam para ver aonde chegar. 
Aparentemente, Sabre escolhera a segunda opo.
Durante vrios anos havia pensado no que aconteceria 
quando ele morresse, sabendo que Margarete seria a runa da 
famlia. Pior ainda, ela no percebia a prpria 
incompetncia. Ele tentara lhe ensinar, mas todos os 
esforos fracassaram. Na verdade, Hermann gostava do fato 
de que Thorvaldsen a houvesse seqestrado. Talvez pudesse 
se livrar do problema, no? Mas duvidava. O dinamarqus 
no era assassino, no importando o quanto gostasse de fazer 
bravatas.
De fato, Hermann passara a gostar de Sabre. O sujeito era 
promissor. Ouvia bem e agia rapidamente, mas jamais de 
modo aleatrio. Com freqncia havia pensado que Sabre 
poderia ser um excelente sucessor. No restavam outros 
Hermanns. E ele precisava garantir que a fortuna 
permanecesse.
Mas por que Sabre no fizera contato?
Ser que mais alguma coisa estaria acontecendo?
Afastou as dvidas e se concentrou na preocupao 
imediata. A Assemblia iria se reunir de novo mais tarde. Na 
vspera ele havia fascinado os scios com o plano. Hoje iria 
ao ponto.
Foi at um flio montado na parte inferior de uma estante. 
Ali dentro mantinha um mapa que havia encomendado trs 
anos antes. O mesmo estudioso que ele contratara para 
confirmar a teoria de Haddad sobre o Velho Testamento 
tambm havia mapeado suas descobertas. O sujeito lhe 
contara como vrios locais bblicos encaixavam-se 
perfeitamente na geografia de Asir.
Mas Hermann queria ver por si mesmo.
Comparando os marcos das escrituras com topnimos 
hebraicos, tanto no Velho Testamento quanto no cho, seu 
especialista havia localizado locais bblicos como Gilgal, 
Zidon, al-Lith, Dan, Hebron, Beersheba e a cidade de Davi.
Pegou o mapa.
A mesma imagem j estava carregada no computador do 
salo de reunies. Os scios veriam o que ele havia admirado 
por longo tempo.

 

At mesmo a questo das 26 portas de Jerusalm, 
identificadas em Crnicas, Reis, Zacarias e Neemias, fora 
solucionada. Uma cidade cercada por muralhas no teria 
mais do que quatro portas, uma em cada direo. De modo 
que 26 era um nmero questionvel desde o incio. Mas a 
palavra hebraica usada em todo o Velho Testamento para 
significar "porta" era shaar. Essa palavra, como tantas outras, 
possua dois significados, um dos quais era "passagem ou 
desfiladeiro de montanha". De modo interessante, havia 26 
aberturas identificadas ao longo das escarpas que separavam 
o territrio identificado como de Jerusalm do de Jud. Ele 
se lembrou de seu prprio espanto quando essa realidade 
fora explicada. A Porta do Rei, a Porta da Priso, a Porta da 
Fonte, a Porta do Vale e todas as outras rotuladas de modo 
to descritivo no Velho Testamento poderiam ser associadas 
com preciso quase total - pela sua proximidade com 
povoados ainda existentes - a passagens de montanhas ao 
longo das escarpas do Jordo, localizadas em Asir.
Nada sequer remotamente parecido existia na Palestina. A 
prova parecia incontestvel.
Os acontecimentos do Velho Testamento no haviam 
ocorrido na Palestina. Em vez disso, todos tinham 
acontecido a centenas de quilmetros ao sul, na Arbia. E 
Jernimo e Agostinho sabiam disso, mas permitiram 
deliberadamente que os erros da Septuaginta no somente 
permanecessem, mas que de fato florescessem, alterando 
ainda mais o Velho Testamento, de modo que as passagens 
parecessem uma profecia indiscutvel dos Evangelhos de seu 
Novo Testamento. Os judeus no deveriam desfrutar um 
monoplio da Palavra de Deus. Para que sua nova religio 
prosperasse, os cristos tambm precisavam de um elo.
Assim, inventaram um.
Simplesmente encontrar uma Bblia hebraica de antes da 
poca de Cristo poderia ser decisivo, mas um exemplar do 
Histrias, de Strabo, tambm poderia responder a muitas 
perguntas. Se a biblioteca ainda existisse, ele s podia esperar 
que um ou os dois tivessem sido preservados.
Foi at a vitrine que havia mostrado ao vice-presidente na 
noite anterior. O americano no ficara impressionado, mas 
quem se importava? O novo presidente dos Estados Unidos 
veria o tumulto que eles provocariam. Mesmo assim, 
esperava que Thorvaldsen ficasse mais impressionado ao ver 
os documentos. Enfiou a mo embaixo e apertou o boto. 
Abriu a caixa e pensou, por um momento, que seus olhos o 
haviam enganado.
Vazia.
As cartas e as tradues haviam sumido. Como? No poderia 
ter sido o vice-presidente. Hermann vira o desfile de 
automveis indo embora. Ningum mais conhecia o 
esconderijo.
S havia uma explicao possvel.
Thorvaldsen.
A raiva o fez correr at sua mesa. Levantou o telefone e 
chamou o chefe da guarda. Depois, abriu uma gaveta e 
pegou sua arma. 
Que Margarete se danasse.
 

SESSENTA E NOVE

PENNSULA DO SINAI

As pernas de Malone continuavam bambas e sua virilha 
doa. Pam havia falado pouco desde a agresso, e McCollum, 
sensatamente, ficara longe da briga. Mas Malone no podia 
reclamar. Havia pedido, e ela dera.
Olhou para a serenidade desolada em todas as direes. O sol 
tinha se erguido rapidamente, e o ar esquentava como um 
forno. Ele havia tirado a unidade de GPS da mochila e 
determinado que o local exato das coordenadas - 28 
41.41N, 33 38.44L - ficava a menos de um quilmetro e 
meio dali.
- Certo, McCollum. E agora?
O outro pegou um pedao de papel no bolso e leu em voz 
alta:
- Depois, como os pastores do pintor Poussin, perplexos 
com o enigma, voc ser inundado pela luz da inspirao. 
Junte de novo as 14 pedras, depois trabalhe com esquadro e 
bssola para encontrar o caminho. Ao meio-dia, sinta a 
presena da luz vermelha, veja o rolo interminvel da 
serpente vermelha de raiva. Mas cuidado com as letras. O 
perigo ameaa quem chega com grande velocidade. Se seu 
caminho permanecer fiel, a rota ser segura.
-  todo o resto da saga - concluiu McCollum. 
Malone revirou as palavras enigmticas na mente.
Pam deixou-se cair no cho e tomou um pouco d'gua.
- O caramancho na Inglaterra tinha uma imagem de 
Poussin. O que era? Uma espcie de tmulo com escritos 
gravados? Parece que Thomas Bainbridge tambm deixou 
algumas pistas.
Malone j estava pensando a mesma coisa.
- Est vendo aquela construo l adiante? - perguntou 
Malone a McCollum. - A oeste, a uns 400 metros.  para 
onde as coordenadas apontam.
- Parece que o caminho est claro.
Malone pendurou a mochila no ombro. Pam se levantou. 
Ele perguntou a ela.
- Chega de provar argumentos? 
Ela deu de ombros.
- Jogue-me de outro avio e veja o que acontece.
- Vocs dois so sempre assim? - perguntou McCollum. 
Malone comeou a andar.
- S quando estamos juntos.

Malone se aproximou da construo que tinha visto do ar. 
No era grande coisa. Baixa, atarracada, com cobertura de 
telhas meio estragadas, os alicerces desmoronando como se 
fossem reivindicados pela terra. As paredes exteriores eram 
iguais em tamanho e altura, interrompidas apenas por duas 
janelas, desprovidas de qualquer coisa, a uns trs metros de 
altura. A porta da frente era uma placa meio apodrecida de 
cedro grosso, pendurada meio torta em dobradias de ferro 
preto.
Ele a abriu com um chute.
Apenas um lagarto os recebeu enquanto buscava refgio 
correndo pelo cho de terra.
- Cotton.
Ele se virou. Pam estava indicando outro outra construo 
que aflorava da terra. Malone foi at l, cada passo fazendo 
barulho na areia seca.
- Parece o tmulo daquele relevo na Bainbridge Hall - disse 
ela. Bem observado. E ele examinou o retngulo com a 
altura de quatro blocos e um topo de pedra arredondado. 
Examinou as laterais em busca de gravuras, em particular das 
palavras Et in arcdia ego. Nada. O que no era de 
surpreender, porque o deserto teria apagado qualquer 
vestgio muito tempo antes.
- Estamos nas coordenadas certas e esta coisa parece o 
mesmo tmulo do caramancho.
Lembrou-se da saga do heri.
Depois, como os pastores do pintor Poussin, perplexos com 
o enigma, voc ser inundado pela luz da inspirao. 
Encostou-se nas pedras gastas.
- E agora, Malone? - perguntou McCollum.
Pequenos morros se erguiam ao norte, subindo cada vez 
mais at montanhas estreis onde fendas pretas riscavam 
caminhos fundos. O cu ardia com um brilho crescente  
medida que o sol se esgueirava em direo ao meio-dia.
Revirou mais a busca na mente.
Junte de novo as 14 pedras, depois trabalhe com esquadro e 
compasso para encontrar o caminho. Ao meio-dia, sinta a 
presena da luz vermelha, veja o rolo interminvel da 
serpente vermelha de raiva.
Em Belm tudo fora bastante bvio - uma mistura de histria 
e tecnologia, que parecia a marca registrada dos Guardies. 
Afinal de contas, a idia era que o convidado tivesse sucesso. 
Esta parte era um desafio.
Mas no era impossvel.
Examinou a construo dilapidada e o tmulo improvisado.
Ento viu, e contou.
Quatorze.
Sabre se perguntou se deveria simplesmente matar os dois 
agora. Estaria suficientemente perto para deduzir o resto 
sozinho? Malone o havia trazido at aqui e, exatamente 
como ele esperara, tinha aproveitado suas habilidades para 
lev-los da Inglaterra a Portugal e depois at ali.
Mas disse a si mesmo para ser paciente.
Jamais teria decifrado a busca sozinho, muito menos com 
essa velocidade. Nesse momento, o Cadeira Azul certamente 
o estaria procurando. A Assemblia estava acontecendo, de 
modo que ele esperava que isso servisse como distrao at 
o dia seguinte. Mas sabia o quanto Hermann queria saber se 
sua trilha parecia promissora. Tambm sabia que, 
independentemente do que o velho estivesse planejando e 
de at que ponto a coisa seria crtica, sua participao 
terminaria na semana seguinte. Trs emissrios tinham sido 
usados para negociar com Bin Laden. Ele visitaria todos os 
trs, matando dois, mas preservando um.
Essa pessoa e a biblioteca seriam suas moedas de troca.
Mas tudo isso dependia de haver algo aqui para ser 
encontrado.
Se no houvesse, ele mataria Malone e a ex-mulher e 
torceria para ser capaz de sair da encrenca.

Malone olhou para um dos lados da construo dilapidada. 
Trs metros acima ficava uma das aberturas desnudas. Foi at 
o outro lado e espiou para a outra fenda, que ficava numa 
altura semelhante. Voltou ao lugar onde Pam e McCollum 
estavam e disse:
- Acho que deduzi. A construo  quadrada, assim como 
aquelas duas aberturas.
- Use esquadro e bssola - disse Pam. 
Ele apontou.
- Aquelas duas aberturas so a chave.
- Como assim? - perguntou McCollum. - Vai ser meio difcil 
subir l.
- Na verdade, no. Olhe ao redor. - Pedras se espalhavam na 
areia. - Nota alguma coisa nas pedras?
Pam foi at uma delas e se agachou. Malone ficou olhando 
enquanto ela acariciava as laterais.
- Quadrada. Cerca de trinta centmetros de lado?
- Eu diria que  isso mesmo. Lembre-se da pista. Junte de 
novo as 14 pedras, depois trabalhe com esquadro e bssola 
para encontrar o caminho. H 14 coisas dessas espalhadas 
por a.
Pam se levantou.
- Obviamente, essa saga tinha uma parte fsica. Nem todo 
mundo poderia juntar essas pedras. Presumo que elas 
permitam a subida at as janelas, no ?
Malone largou sua mochila. 
McCollum fez o mesmo e disse:
- S h um modo de descobrir.
Foram necessrios vinte minutos para juntar as 14 pedras 
quadradas e mont-las numa pirmide de topo plano, seis 
embaixo, depois cinco, encimadas por trs. Se fosse 
necessrio, uma das trs poderia ser posta sobre as outras 
duas, para dar mais altura, porm Malone avaliou que a pilha 
tinha altura mais do que suficiente.
Subiu e se equilibrou em cima.
McCollum e Pam se certificaram de que a torre 
permanecesse estvel.
Ele olhou pela abertura quadrada na parede meio arruinada. 
Atravs do quadrado oposto, a 6 metros de distncia, viu 
montanhas a 800 metros dali. Ao meio-dia, sinta a presena 
da luz vermelha, veja o rolo interminvel da serpente 
vermelha de raiva.
A construo com telhado meio cado fora deliberadamente 
orientada no sentido leste-oeste.
Aquilo no era uma moradia. No. Como o vitral em roscea 
Belm, tambm orientado de leste para oeste, era uma 
bssola. 
Trabalhe com esquadro e bssola para encontrar o caminho.
Olhou o relgio.
Dentro de uma hora, faria exatamente isso.
 
SETENTA

MARYLAND 
7H30

Stephanie dirigia o Suburban fornecido pelo presidente 
Daniels. Ele tambm havia fornecido dois revlveres do 
Servio Secreto e pentes de reserva. Ela no tinha muita 
certeza do que iam enfrentar, mas aparentemente ele 
queria que estivessem preparadas.
- Voc sabe que este carro provavelmente  rastreado 
eletronicamente - disse Cassiopeia.
- S podemos esperar que sim.
- E percebe que essa coisa toda  uma loucura. No temos 
idia de em quem confiar, inclusive no presidente dos 
Estados Unidos.
- Sem dvida. Somos pees no tabuleiro de xadrez. Mas um 
peo pode derrubar o rei, se estiver bem posicionado.
- Stephanie, ns somos iscas.
Ela concordou, mas no disse nada.
Entraram numa cidadezinha a cerca de 45 quilmetros ao 
norte de Washington, um dos incontveis bairros 
residenciais que cercavam a capital. Seguindo as orientaes, 
ela reconheceu o nome do restaurante com fachada de vidro 
aninhado sob uma cpula de rvores frondosas.
Aunt B's.
Um dos lugares prediletos de Larry Daley.
Parou e entrou, recebida pelo cheiro pungente de ma com 
bacon e batata frita. Um buf fumegante estava sendo 
atacado por fregueses ansiosos. Passaram pelo caixa e viram 
Daley sentado sozinho.
- Peguem um pouco de comida - disse ele. - Por minha 
conta. - Um prato cheio de ovos, creme de aveia e um 
pedao de carne de porco frita estava diante dele.
Como havia sido combinado, Cassiopeia foi para outra mesa, 
de onde podia vigiar o salo. Stephanie sentou-se com 
Daley.
- No, obrigada. - Ela notou uma placa colorida perto da fila 
do buf, mostrando dois enormes porcos cor-de-rosa 
rodeados pelo slogan GANHE SUA GORDURA DE VOLTA 
NO AUNT B'S. Apontou para l. -  por isso que voc come 
aqui? Para ganhar sua gordura de volta?
- Gosto deste lugar. Lembra a comida da minha me. Sei que 
voc acha difcil acreditar, mas eu sou uma pessoa.
- Por que no est comandando o Setor? Voc  o chefe 
agora.
- Isso est sendo resolvido. Temos um problema mais 
premente.
- Como salvar o seu rabo. 
Ele cortou o pedao de porco.
- Esse negcio  fantstico. Voc deveria comer alguma 
coisa. Precisa recuperar um pouco de gordura, Stephanie.
- Gentileza sua notar minha figura esguia. Cad sua 
namorada?
- No fao idia. Presumo que estava dormindo comigo para 
ver o que poderia descobrir. O que era nada. Eu estava 
fazendo a mesma coisa. De novo, contrariamente ao que 
voc pensa, no sou um idiota completo.
Seguindo a sugesto de Daniels, ela havia ligado para Daley 
duas horas antes e pedido o encontro. Ele havia concordado 
ansiosamente. O que a incomodava era por que Daniels, se  
que ele realmente queria que ela conversasse com Daley, 
havia interrompido o encontro no museu. Mas 
simplesmente acrescentou essa dvida  lista crescente.
- No terminamos nossa conversa.
- Est na hora de cair na real, Stephanie. Sabe essas coisas 
minhas que esto com voc? Fique com elas. Use-as. No 
me importa. Se eu cair, o presidente tambm cai. Para dizer 
a verdade, eu queria que voc encontrasse isso.
Ela achou difcil de acreditar.
- Eu sabia tudo sobre sua investigao. A puta que voc 
mandou para mim? No sou to fraco. Acha que era a 
primeira vez que uma mulher tentava descobrir coisas a meu 
respeito? Eu sabia que voc estava cavando. Assim, facilitei 
para voc descobrir o que queria. Mas demorou.
- Bela tentativa, Larry. Mas nesse mato no tem coelho. Ele 
comeu uma mistura de ovos e creme de aveia.
- Sei que voc no vai acreditar em nada disso. Mas, para 
variar, poderia esquecer que me odeia e simplesmente 
ouvir?
Era por isso que ela viera.
- Estive farejando um pouco. Tem muita merda girando por 
a. Coisas estranhas. No fao parte do crculo interno, mas 
sou suficientemente prximo para captar a sensao. 
Quando descobri que voc estava me espionando, deduzi 
que em algum momento partiria para cima de mim. Li 
quando fizesse isso, ns poderamos chegar a um trato.
- Por que simplesmente no pediu minha ajuda?
- Caia na real. Voc no suporta ficar na mesma sala que eu. 
Iria me ajudar? Deduzi que assim que voc espiasse pela 
janela e visse o que estava acontecendo, ficaria muito mais 
receptiva. Como est agora.
- Voc ainda suborna o congresso?
- Suborno. Eu e uns cem outros lobistas. Diabos, isso deveria 
ser um esporte olmpico.
Ela olhou para Cassiopeia e no viu nada que disparasse 
alarme Famlias e outros casais povoavam as muitas mesas.
- Esquea tudo isso.  a menor das nossas preocupaes - 
disse Daley.
- No sabia que ns tnhamos preocupaes.
- Muito mais coisas esto acontecendo. - Ele tomou alguns 
goles de suco de laranja. - Droga, eles enchem esse negcio 
de acar. Mas  bom.
- Se voc come assim o tempo todo, como consegue ficar 
magro?
- Estresse.  a melhor dieta do mundo. - Ele ps o copo na 
mesa.
- H uma conspirao acontecendo, Stephanie.
- Para fazer o qu?
- Mudar o presidente. 
Isso era novidade.
-  a nica coisa que faz sentido. - Ele empurrou o prato de 
lado.
- O vice-presidente est na Europa, num encontro sobre 
economia. Mas disseram que ele deixou o hotel ontem  
noite e foi se encontrar com um homem chamado Alfred 
Hermann. Supostamente era uma visita de cortesia. Mas o 
vice-presidente no  um homem corts. S faz coisas com 
motivos. Ele j se encontrou com Hermann antes. Eu 
verifiquei.
- E descobriu que Hermann comanda uma organizao 
chamada Ordem do Velo de Ouro.
Uma expresso de perplexidade inundou o rosto de Daley.
- Eu sabia que voc poderia ajudar. Ento j sabia a respeito.
- O que quero saber  por que isso  importante.
- Esse grupo cultiva influncia poltica e tem alcance em 
todo o mundo. Hermann e o vice-presidente so amigos h 
um tempo. Ouvi falar dele e da Ordem, mas o vice-
presidente mantm seus pensamentos bem fechados. Sei 
que ele quer ser presidente. Est se preparando para 
competir, mas acho que pode estar querendo um atalho.
Daniels no dissera nada sobre isso.
- Voc ainda tem aqueles pen drives que pegou na minha 
casa? 
Ela assentiu.
- Em um deles, h algumas gravaes digitais de conversas 
telefnicas. Apenas algumas, mas tremendamente 
interessantes. So conversas com o chefe de staff do vice-
presidente, um verdadeiro escroto. Ele repassou o Elo de 
Alexandria diretamente para Alfred Hermann.
- E como voc conseguiu saber disso?
- Eu estava l.
Ela manteve o rosto inexpressivo.
- Estava bem l, com ele. Por isso documentei todo o 
encontro. Ns nos encontramos com Hermann em Nova 
York h cinco meses. Demos tudo a ele. Foi quando eu 
trouxe a Dixon para dentro.
Isso tambm era novidade.
- . Fui at ela e contei o que estava acontecendo com o elo. 
Tambm contei sobre o encontro com Hermann.
- Isso no foi muito inteligente.
- Na hora, pareceu. Os israelenses foram os nicos aliados 
que pude arranjar. Mas eles acharam que, para o Hermann, a 
coisa toda era uma espcie de canal com o objetivo de lhes 
causar problemas. S consegui Dixon como minha bab. - 
Ele engoliu mais suco. - O que no foi to ruim.
- Agora estou ficando enjoada. 
Daley balanou a cabea.
- Cerca de um ms depois, o chefe de staff do vice e eu 
estvamos sozinhos. Mesmo sendo um escroto, ele gosta de 
contar vantagem.  isso que geralmente coloca os caras 
assim em encrenca. Ns havamos bebido um pouco e ele 
fez alguns comentrios. Mas eu estava com suspeitas, ento 
usei um gravador de bolso. Naquela noite, consegui umas 
coisas boas.
Cassiopeia se levantou da mesa e foi na direo da parede de 
vidro. L fora, carros iam e vinham no estacionamento 
sombreado.
- Ele falou da Vigsima Quinta Emenda. De como a estivera 
estudando, aprendendo detalhes. Perguntou o que eu sabia 
sobre ela, que no era muito. Banquei o desinteressado e 
bbado, mas no estava uma coisa nem outra.
Ela sabia o que dizia a Vigsima Quinta Emenda  
Constituio. No caso da remoo do presidente do cargo ou 
de sua morte ou renuncia, o vice-presidente se tornar 
presidente.

SETENTA E UM

PENNSULA DO SINAI

Malone olhou o relgio: 11h58. J havia espiado pelas duas 
aberturas uma vez e no vira nada. Pam e McCollum 
estavam embaixo enquanto ele se equilibrava sobre as 14 
pedras.
O meio-dia chegou e um carrilho soou a distncia.
- Isso  fantasmagrico - disse Pam. - Aqui, no meio de lugar 
nenhum.
Malone concordou.
- Parece estranho. - Como se viesse do cu, pensou.
O sol chamejava no alto. Seu corpo e sua roupa estavam 
midos de suor.
Olhou de novo pelas aberturas.
Um ponto aps o outro, estendendo-se pelas costas da 
montanha, surgiam. O que poderiam ser cavernas de 
eremitas pintalgavam a parede de rocha como se fossem 
olhos pretos. Ento notou uma coisa. Uma trilha pedregosa 
se desenhava numa das montanhas. Uma trilha de camelos? 
Havia verificado em Lisboa, antes de partirem, e ficara 
sabendo que as montanhas dessa regio escondiam buracos 
frteis que os bedunos do local chamavam de farsh. Em 
geral, isso significava uma fonte de gua e orvalho que os 
poucos habitantes aproveitavam.
O mosteiro de Santa Catarina, ao sul, perto da Montanha de 
Moiss, ocupava um farsh. Ele havia presumido que outros o 
rodeavam.
Ficou olhando enquanto as sombras desapareciam e a cor 
das montanhas de granito se transformava de cinza em 
vermelho-beterraba. O caminho sinuoso que subia o morro, 
agora marrom, assumia a forma de uma serpente. As duas 
aberturas emolduravam a viso como uma pintura.
Veja o rolo interminvel da serpente vermelha de raiva.
- Alguma coisa? - perguntou Pam.
- Tudo.
Stephanie olhou irritada para Larry Daley.
- Est dizendo que o vice-presidente planeja assassinar o 
presidente?
-  exatamente o que acho que est acontecendo.
- E como voc  a nica pessoa no planeta que notou isso?
- No sei, Stephanie. Talvez eu seja s um cara esperto. Mas 
sei que alguma coisa est acontecendo.
Ela precisava descobrir mais. Por isso Daniels a havia 
mandado.
- Larry, voc s est tentando salvar o seu rabo.
- Stephanie, voc  que nem o cara que est procurando 
uma moeda perdida embaixo de um poste de rua. Outro cara 
aparece e pergunta o que ele est fazendo. Ele diz: "Estou 
procurando minha moeda perdida." O cara pergunta: "Onde 
voc a perdeu?" O sujeito aponta para a distncia e diz: "L 
adiante." O recm-chegado fica perplexo, por isso pergunta: 
"Por que est procurando aqui?" E o cara responde: "Porque 
 aqui que a luz est." Assim  voc, Stephanie. Pare de 
procurar onde a luz est e olhe onde  preciso.
- Ento me d alguma coisa concreta.
-Gostaria de poder.  apenas uma questo de coisas 
pequenas que vo se somando. Reunies que o vice evitou... 
e que um candidato no evitaria. Aborreceu pessoas de 
quem ele vai precisar. No se preocupa com o partido. Nada 
explcito. Coisinhas que um viciado em poltica como eu 
notaria. S h uns poucos de ns, do lado de dentro, que ao 
menos ficariam sabendo dessas coisas. Esses caras mantm as 
coisas fechadas.
- Brent Green  um desses homens?
- No fao idia. Brent  estranho. Para todo mundo,  um 
sujeito de fora. Tentei pression-lo ontem. Ameacei. Mas ele 
no se abalou. Queria ver como ele reagiria. Ento, quando 
voc apareceu na minha casa e achou aquele livro, eu soube 
que voc tinha de ser minha aliada.
- Voc pode ter escolhido errado, Larry. No acredito em 
uma palavra do que diz. Matar um presidente no  fcil.
- Disso no sei. Todo assassino de presidente, seja real ou 
frustrado, era doente, louco ou sortudo. Imagine o que os 
profissionais poderiam fazer.
Era um bom argumento.
- Onde esto os pen drives? - perguntou ele.
- Comigo.
- Espero que sim, porque, se mais algum os tiver, estamos 
encrencados. Vo saber que sei sobre eles. Seria impossvel 
explicar por que gravei aquelas conversas com o chefe de 
staff do vice. Preciso deles de volta, Stephanie.
- Isso no vai acontecer. Tenho uma sugesto, Larry. Por 
que no se entrega, confessa que subornou o Congresso e 
pede proteo federal? Depois pode contar essa besteirada 
para quem quiser ouvir.
Ele se recostou na cadeira.
- Sabe, pensei que, para variar, ns dois poderamos ter uma 
conversa civilizada. Mas no, voc quer ser uma presunosa. 
Eu fiz o que tinha de fazer, Stephanie, porque era isso que o 
presidente queria.
Agora ela estava interessada.
- Ele sabia o que voc estava fazendo com o Congresso?
- De que outro modo voc acha que o meu status cresceu na 
Casa Branca? Ele queria que as coisas fossem aprovadas, e eu 
garanti isso. Este presidente tem tido sucesso no Congresso, 
o que tambm explica a facilidade com que conseguiu o 
segundo mandato.
- Voc tem prova do envolvimento dele?
- Est perguntando se eu gravei Daniels? No.  s a 
realidade, Stephanie. Algum tem de fazer as coisas 
acontecerem. O mundo  assim. Eu sou o homem do 
Daniels. Sei disso, e ele tambm sabe.
Stephanie olhou para Cassiopeia e se lembrou do que ela 
dissera enquanto iam para l. Realmente no sabiam em 
quem confiar, inclusive em relao ao presidente.
Daley se levantou da mesa e jogou dois dlares de gorjeta.
- No outro dia, voc e Green acharam que tudo isso tinha a 
ver com o legado de Daniels. Eu disse o que vocs queriam 
ouvir para carem no sono. - Daley balanou a cabea. - Isso 
tem a ver com Daniels continuar respirando. Voc  uma 
perda de tempo. Vou cuidar dessa coisa de outro modo.

Malone foi na frente, subindo pela escarpa desolada. guias 
e abutres patrulhavam no alto. O sol dourado penetrava em 
seu crebro e banhava seu corpo coberto de suor. Uma fina 
camada de pedras se espalhava na trilha, e o solo ressecado 
era um amargurado depsito de areia e sedimentos.
Seguiu pelo caminho sinuoso at o topo, onde trs pedras 
enormes tinham tombado havia muito tempo, criando um 
tnel que atravessava o topo. Uma poeira fina, com som de 
gua caindo, flua das pedras. Apesar do sol, o corredor era 
fresco. Ele gostou da sombra. O outro lado estava a cerca de 
10 metros.
Adiante, viu subitamente um claro vermelho.
- Esto vendo aquilo? - perguntou.
- Estou - respondeu Pam.
Pararam e olharam a coisa acontecer de novo.
Ento ele percebeu o que era. O sol do meio-dia, ao 
encontrar as aberturas entre as trs pedras cadas, batia no 
granito vermelho e coloria o tnel de carmim.
Fenmeno interessante.
Veja o rolo interminvel da serpente vermelha de raiva.
- Parece que h um monte de serpentes vermelhas de raiva 
por aqui - disse.
Na metade do caminho notou palavras gravadas no granito. 
Parou e leu o texto em latim, traduzindo em voz alta.
- No subas mais alto; tira teus sapatos dos ps, pois o lugar 
onde ests  terreno sagrado. - Ele conhecia a passagem. - 
Do xodo. O que Deus disse a Moiss de dentro da Sara 
Ardente.
- Foi aqui que isso aconteceu? - perguntou Pam.
- Ningum sabe. A montanha a cerca de 30 quilmetros ao 
sul daqui, Jebel Musa,  aceita pelas trs religies como o 
lugar. Mas quem sabe?
No fim do tnel, um sopro sbito de calor o abraou, e ele 
olhou para um farsh curvo pintalgado de ciprestes. Nuvens 
brancas e macias perseguiam umas s outras, rolando no cu 
lmpido. Os olhos de Malone ficaram semicerrados, como os 
de um lagarto, por causa da claridade.

Grudadas na face do morro do lado oposto, enfiadas num 
ngulo de penhascos estupendos, erguiam-se paredes e 
construes que se espremiam umas contra as outras como 
se fizessem parte da pedra. Suas cores - amarelo, marrom e 
branco - se misturavam como camuflagem. Torres de vigia 
pareciam flutuar. Esguios cones verdes de ciprestes 
contrastavam com as telhas de um laranja queimado. 
Nenhuma lgica real prevalecia em termos de tamanho e 
forma. O conjunto fez Malone pensar no encanto anrquico 
de uma aldeia de pesca italiana presa a um monte.
- Um mosteiro? - perguntou Pam.
- O mapa indicava que h trs na regio. Nenhum  grande 
segredo.
Um caminho em forma de escada de pedra ia descendo. Os 
degraus eram ngremes, agrupados de trs em trs em meio 
a trechos de rocha lisa. No fundo, outro caminho 
atravessava o farsh, passando por um pequeno lago aninhado 
entre os ciprestes, e ziguezagueava subindo at a entrada do 
mosteiro.
- Este  o lugar.
Stephanie ficou olhando Daley sair do restaurante. 
Cassiopeia se aproximou, sentou-se  mesa e perguntou:
- Alguma coisa til?
- Disse que Daniels sabia de tudo que ele estava fazendo.
- O que mais poderia dizer?
- Daley no mencionou que estivemos em Camp David 
ontem  noite.
- Ningum nos viu, a no ser os agentes e Daniels.
Estava certo. Elas haviam dormido no chal, sozinhas, com 
dois agentes do lado de fora. A comida estava esperando no 
forno quando haviam acordado. O prprio Daniels tinha 
telefonado e dito para marcarem o encontro com Daley. De 
modo que Daley no sabia ou se recusara a dizer.
- Por que o presidente ia querer que nos encontrssemos 
com Daley, sabendo que o cara poderia contradizer o que 
ele havia nos dito? - perguntou, mais para si mesma do que 
para Cassiopeia.
- Ponha mais essa pergunta na lista.
Stephanie ficou olhando pelo vidro da frente, enquanto 
Daley passava pelo estacionamento de cascalho em direo 
ao seu Land Rover. Ela nunca havia gostado do sujeito. 
Quando finalmente havia confirmado que ele era sujo, nada 
lhe agradara mais.
Agora no tinha tanta certeza.
Daley encontrou seu carro do outro lado do estacionamento 
e entrou.
Elas tambm precisavam ir embora. Era hora de encontrar 
Brent e ver o que ele descobrira. Daniels no havia 
mencionado conversarem com Green, mas ela achava que 
era o melhor.
Particularmente agora.
Uma exploso sacudiu o prdio.
O choque inicial foi substitudo pela percepo de que o 
restaurante estava intato. Vozes altas e alguns gritos 
diminuram enquanto outras pessoas tambm comeavam a 
perceber que o prdio continuava inteiro.
Tudo estava bem.
Menos l fora.
Ela olhou pelo vidro e viu o Land Rover de Larry Daley 
sendo consumido por chamas.

SETENTA E DOIS

PENNSULA DO SINAI

Malone se aproximou do porto de madeira com reforos de 
metal. Paredes ensolaradas, de granito vermelho, com 
alicerces repousando em botarus gigantescos e subindo at 
um suporte em terraos onde ciprestes, laranjeiras, limoeiros 
e oliveiras montavam guarda. Videiras protegiam a base. Um 
vento quente levantava areia. Nenhum sinal de ningum.
Acima do porto, Malone viu mais palavras em latim, desta 
vez o Salmo 118, e leu a declarao.

ESTE PORTO DO SENHOR,
EM QUE OS JUSTOS ENTRARO

- O que faremos? - perguntou Pam. Malone havia notado 
que a hostilidade do terreno combinava com o 
temperamento dela, que ia se deteriorando rapidamente.
- Presumo que a corda seja para isso.
Bem acima do porto, um sino de ferro repousava dentro de 
uma torre aberta. Malone foi at l e puxou a corda. O sino 
tocou vrias vezes. Ele j ia tocar de novo quando, no alto 
do porto, uma janela se abriu e um rapaz barbudo, com 
chapu de palha, se inclinou para fora.
- Em que posso ajud-los? - perguntou em ingls.
- Estamos aqui para visitar a biblioteca - disse McCollum.
- Isto  apenas um mosteiro, um lugar de solido. No temos 
biblioteca.
Malone havia se perguntado como os Guardies garantiriam 
que algum que surgisse no porto era um convidado. 
Poderia demorar muito tempo para fazer a viagem, e em 
nenhum ponto da saga fora imposta qualquer restrio. De 
modo que devia existir um desafio final. Um desafio que no 
estivesse declarado na saga.
- Somos convidados e completamos a saga - gritou ele. - 
Desejamos entrar na biblioteca.
A portinhola se fechou.
- Isso foi grosseria - disse Pam. Malone enxugou o suor da 
testa.
- Eles no vo simplesmente abrir o porto para qualquer um 
que aparecer.
A portinhola se abriu de novo e o rapaz perguntou.
- Seu nome?
McCollum j ia falar, mas Malone segurou seu brao.
- Deixe-me - sussurrou. Olhou para cima e disse: - George 
Haddad.
- Quem so esses com voc?
- Meus colegas.
Os olhos que os encaravam de volta estavam fixos, como se 
tentassem decidir se ele era digno de confiana.
- Posso fazer uma pergunta?
- Sem dvida.
- Seu caminho at aqui. Diga.
- Primeiro fomos a Belm, ao mosteiro dos Jernimos, 
depois ao site belem.org e finalmente aqui.
A janela se fechou.
Malone ouviu barras sendo retiradas de trs do porto, 
depois os fortes painis de madeira se entreabriram e o rapaz 
barbudo saiu. Usava calas largas, ajustadas nos tornozelos, 
um manto castanho-avermelhado enfiado na cintura e um 
cinto de corda. Os ps eram protegidos por sandlias.
Parou diante de Malone e fez uma reverncia.
- Bem-vindo, George Haddad. Voc completou sua busca. 
Gostaria de visitar a biblioteca?
- Sim.
O rapaz sorriu.
- Ento entre e encontre o que voc busca.
Seguiram-no, em fila, passando pelo porto e entrando num 
corredor escuro ladeado por pedras altas que bloqueavam o 
sol. Trinta passos, depois um ngulo reto, e de novo 
encontraram a luz do dia dentro dos muros, um espao 
verdejante com ciprestes, palmeiras, videiras, flores - at um 
pavo desfilava.
Algo que parecia uma flauta emitia uma melodia 
tranqilizante. Malone viu a origem do som: um msico 
empoleirado num dos balces sustentados por grossos 
suportes de madeira. As construes eram amontoadas, cada 
uma de tamanho e composio diferentes. Malone viu 
ptios, escadas, corrimos de ferro, arcos, telhados pontudos 
e passarelas estreitas. Um aqueduto em miniatura canalizava 
gua de uma extremidade  outra. Tudo parecia ter brotado 
por acaso. Ele se lembrou de um povoado medieval.
Seguiram o rapaz do chapu de palha.
Alm do tocador de flauta, Malone no tinha visto ningum, 
mas o complexo era limpo e organizado. Os raios de sol 
batalhavam com as cortinas nas janelas, porm ele no viu 
movimento do outro lado. Canteiros em terraos, cheios de 
tomates, pareciam calorosos. Uma coisa atraiu sua ateno. 
Painis solares discretamente presos a telhados e vrias 
antenas parablicas, cada qual escondida atrs de anteparos 
de madeira ou pedra que pareciam fazer parte das 
construes - como na Disney World, pensou Malone, onde 
as instalaes de necessidades bsicas no ficavam  vista.
O rapaz do chapu de palha parou diante de uma porta de 
madeira e abriu a tranca com uma enorme chave de lato. 
Entraram num refeitrio, o espao enorme decorado com 
murais religiosos representando Moiss. O ar recendia a 
salsicha e repolho azedo. As tbuas do teto se alternavam 
entre tons de chocolate e amarelo-manteiga, interrompidas 
por um painel em forma de losango em azul-plvora 
pintalgado de estrelas douradas.
- Sua jornada certamente foi longa - disse Chapu de Palha. - 
Temos comida e bebida.
Numa das mesas havia uma bandeja de pes cor de areia e 
tigelas de tomates, cebolas e azeite. Havia tmaras 
empilhadas em outra tigela. Outra, ainda, tinha trs roms 
enormes. Uma chaleira emitia vapor, e Malone sentiu cheiro 
de ch.
-  gentileza sua - disse ele.
- Muita gentileza - acrescentou McCollum. - Mas 
gostaramos de ver a biblioteca.
O rosto ossudo traiu a irritabilidade do rapaz, mas apenas por 
um instante.
- Preferimos que vocs comam e descansem. Alm disso, 
vocs podem querer se limpar antes de entrar.
McCollum se adiantou.
- Ns completamos a sua saga. Gostaramos de ver a 
biblioteca.
- Na verdade, o Sr. Haddad completou a saga e mereceu 
entrar. No houve convite para o senhor nem para a 
mulher. - Chapu de Palha encarou Malone. - Ao envolver 
esses dois, normalmente seu convite seria anulado.
- Ento, por que estou aqui?
- Foi feita uma exceo.
- Como sabe quem eu sou?
- Voc sabia a rota da saga.
Chapu de Palha no disse mais nada e saiu do refeitrio, 
fechando a porta.
Ficaram parados em silncio. 
Por fim, Pam disse:
- Estou com fome.
Malone tambm estava. Ele ps a mochila na mesa.
- Ento, vamos aceitar a hospitalidade.

SETENTA E TRS

MARYLAND

Stephanie e Cassiopeia saram correndo do restaurante. Nada 
poderia ser feito por Larry Daley. Seu veculo era um 
amontoado de ferros ainda queimando. A exploso havia se 
confinado ao carro, causando pouco dano aos outros.
Um ataque com alvo certo.
- Temos de ir - disse Cassiopeia. 
Stephanie concordou.
Correram at o Suburban e entraram. Stephanie atrs do 
volante Enfiou a chave, mas hesitou e perguntou:
- O que voc acha?
- A no ser que o presidente tenha posto uma bomba neste 
carro, estamos bem. Ningum chegou perto dele enquanto 
estvamos aqui.
Stephanie virou a chave. O motor roncou. Ela se afastou no 
momento em que um veculo da polcia virava uma esquina 
e entrava no estacionamento.
- Que diabo ele lhe disse? - perguntou Cassiopeia. 
Ela resumiu a conversa.
- Achei que ele estava falando besteira. Conspiraes para 
matar Daniels. Mas agora...
Uma ambulncia passou correndo por elas na outra pista.
- No precisam correr - disse Stephanie. - Ele nem viu o que 
o acertou.
- Meio dramtico. Havia formas muito mais silenciosas de 
mat-lo.
- A no ser que voc queira atrair ateno para o fato. O 
carro do subconselheiro de segurana nacional sofrendo um 
atentado a bomba? Vai ser um negcio grande.
Ela estava dirigindo devagar, mantendo-se bem abaixo do 
limite de velocidade, saindo da cidade de volta para a 
rodovia. Parou num cruzamento e virou para o sul.
- Aonde, agora? - perguntou Cassiopeia.
- Precisamos achar Green.
Depois de 8 quilmetros, um carro apareceu em seu 
retrovisor, aproximando-se depressa. Ela esperou que ele 
passasse e acelerasse pela auto-estrada de duas pistas. Em vez 
disso, o Ford cup cinza chegou perto do pra-choque do 
Suburban. Ela viu duas figuras no banco da frente.
- Temos companhia.
Estavam viajando a 95 quilmetros por hora, numa estrada 
sinuosa atravs de uma regio cheia de rvores. Apenas 
algumas casas de fazenda perturbavam os campos e a 
floresta.
Uma arma apareceu do lado de fora da janela do carona. Um 
estalo, e a bala ricocheteou no vidro traseiro, mas no o 
despedaou.
- Deus abenoe o Servio Secreto - disse Stephanie. -   
prova de bala.
- Mas os pneus no so.
Cassiopeia estava certa. Stephanie aumentou a velocidade, e 
o Ford a acompanhou. Ela virou o volante bruscamente  
esquerda e passou para a outra pista, reduzindo a velocidade, 
permitindo que o Ford passasse. Quando ele fez isso, o 
homem disparou contra a lateral do Suburban, mas os tiros 
ricochetearam.
- A latada tambm  blindada- disse Cassiopeia.
- Adoro um tanque. Tem alguma idia de quem so?
- O que atirou nos perseguiu no shopping outro dia. 
Portanto, eu diria que os sauditas nos acharam.
- Deviam estar atrs do Daley e ns aparecemos.
- Sorte nossa.
Ela virou o Suburban de volta para a pista em direo ao sul, 
agora seguindo o Ford. Cassiopeia baixou a janela e 
despedaou o vidro traseiro do outro carro com dois tiros. O 
Ford tentou uma manobra semelhante, trocando de lado na 
estrada, mas teve de voltar  pista em direo ao sul para 
evitar um caminho que se aproximava. Cassiopeia 
aproveitou o momento e mandou outra bala contra o vidro 
traseiro.
O passageiro do Ford apontou sua arma para trs, mas 
Cassiopeia o desencorajou disparando de novo.
- Temos mais problema - disse Stephanie. - Atrs de ns. 
Outro carro.
O outro veculo chegou junto ao pra-choque traseiro. L 
dentro, tambm havia dois homens. Ela continuou 
acelerando - se parasse, ficariam  merc de quatro homens 
armados.
Cassiopeia pareceu avaliar a situao e decidiu.
- Vou acertar os pneus do da frente. Depois cuidamos do de 
trs. 
Um estalo veio de fora, depois um estouro.
Stephanie sentiu a traseira direita do Suburban balanar e 
percebeu instantaneamente o que havia acontecido. Seu 
pneu fora acertado. Pisou no freio e manteve o veculo sob 
controle.
Outro estalo, e o pneu esquerdo traseiro balanou.
Ela sabia que balas comuns no explodiriam os pneus. Mas 
eles estavam perdendo ar, e ela s tinha alguns minutos 
antes de comearem a rodar sobre os aros. Manteve o carro 
em velocidade constante, o que devia garantir mais cerca de 
um quilmetro e meio.
Cassiopeia lhe entregou uma arma e trocou o pente da dela. 
De incio, poderiam usar as defesas do Suburban para se 
abrigar. Depois disso seria um tiroteio aberto, e a hora da 
manh e a localizao rural ofereciam privacidade demais 
aos agressores.
A traseira se acomodou na pista e um clang alto lhe disse 
que a viagem estava terminada.
Ela parou o Suburban e segurou a arma.
O Ford da frente foi para o acostamento.
O veculo atrs delas fez o mesmo.
Homens armados rolaram para fora dos dois carros.

Malone acabou de comer a rom, uma de suas frutas 
prediletas, e engoliu mais um copo do ch amargo. Tinham 
sido deixados a ss durante cerca de 45 minutos, mas ele no 
conseguia afastar a sensao de que estavam sendo vigiados. 
Examinou o ambiente com cuidado, tentando decidir se o 
salo teria algum equipamento de vdeo. Todas as mesas 
estavam vazias, assim como um aparador junto a uma das 
paredes. Imaginou um barulho suave de pratos, o raspar 
educado de garfos e conversas em vrias lnguas, que 
certamente acompanhavam cada refeio. Uma porta na 
extremidade mais distante estava fechada, e ele presumiu 
que desse na cozinha. O refeitrio em si era fresco - graas, 
pensou, s grossas paredes de pedra.
A porta externa se abriu e Chapu de Palha entrou.
Malone notou que cada ao do rapaz parecia feita ao modo 
de um servial, como se contemplasse apenas um 
pensamento de cada vez.
- Sr. Haddad, est pronto para entrar na biblioteca? 
Malone assentiu.
- A barriga est cheia e estou descansado.
- Ento podemos ir.
McCollum saltou da cadeira. Malone estivera esperando para 
ver o que ele faria.
- Podemos ir antes ao banheiro? 
Chapu de Palha assentiu.
- Posso lev-lo. Mas, em seguida, o senhor ter de voltar 
para c. O convidado  o Sr. Haddad.
McCollum desconsiderou a determinao.
- timo. S me leve ao banheiro. 
Chapu de Palha perguntou.
- Sr. Haddad, o senhor deseja usar as instalaes? 
Malone balanou a cabea.
- Voc  um Guardio?
- Sou.
Ele examinou o rosto jovem de Chapu de Palha. A pele era 
extraordinariamente lisa, seus malares eram altos, os olhos 
ovais davam uma aparncia oriental.
- Como podem cuidar deste lugar com to pouca gente? S 
vimos uma pessoa.
- Nunca houve problema.
- E quanto aos intrusos? - perguntou McCollum.
- O Sr. Haddad  um homem de estudos. No temos nada a 
temer. 
Malone deixou para l.
- Leve-o ao banheiro. Vamos esperar aqui. 
O Guardio virou para Pam.
- Estou bem - disse ela.
- Retornaremos logo.

Stephanie se preparou para uma luta. Algum havia matado 
Larry Daley e agora a queria. Ela estava com raiva porque 
Cassiopeia fora atrada para a refrega, mas era uma escolha 
que a amiga fizera livremente. E no via medo nem 
arrependimento nos olhos de Cassiopeia, s determinao.
Os quatro homens avanaram para o Suburban.
- Voc pega os dois da frente - disse Cassiopeia. - Eu cuido 
dos dois de trs.
Ela assentiu.
Ambas se prepararam para abrir as portas e atirar. Fazia mais 
sentido do que simplesmente ficar sentadas e deixar que eles 
atacassem  vontade. Talvez um momento de surpresa 
pudesse lhes dar vantagem. Ela usaria a porta e a janela como 
escudo pelo mximo de tempo que pudesse.
Um som de pancadas aumentou de intensidade e o carro 
comeou a vibrar.
Stephanie viu os dois da frente se espalharem enquanto um 
jorro de vento varria o veculo e um helicptero surgia. 
Ento um carro apareceu e parou cantando pneus. Ela ouviu 
o som de um tiroteio rpido.
Os corpos dos dois homens da frente giraram como pees. 
Ela olhou pelo retrovisor. O carro de trs tentava ir embora. 
Um dos homens estava morto na estrada.
O carro girou.
O helicptero ficou pairando a 15 metros de altura.
Uma porta lateral foi aberta e apareceu um homem com um 
fuzil. O helicptero ficou paralelo ao carro que fugia e ela 
viu tiros, mas no pde escutar. O carro virou rapidamente 
para a esquerda e bateu numa rvore.
Os dois homens da frente estavam sangrando no pavimento. 
Ela abriu a porta do Suburban.
- Todo mundo bem, a? - perguntou uma voz masculina.
Ela virou-se e viu o agente do Servio Secreto que estivera 
no museu parado junto ao outro carro.
- . Estamos bem.
Seu celular estava tocando dentro do Suburban. Ela o pegou 
e atendeu.
- Achei que talvez voc precisasse de uma ajudinha - disse 
Daniels.

Sabre seguiu o Guardio e caminharam pelo labirinto de 
construes silenciosas. O sol lanava sombras compridas 
para alm das linhas dos telhados e sobre a rua irregular. 
Uma cidade fantasma, pensou ele. Morta, mas viva.
Foi levado a outra construo, onde encontrou um banheiro 
com piso de chumbo. Uma lata suspensa no teto fornecia 
gua para o vaso sanitrio. Ele decidiu que o momento era 
agora, por isso pegou o revlver que havia apanhado no 
mosteiro, saiu do toalete e encostou o cano no rosto do 
rapaz.
- Para a biblioteca.
- Voc no  o convidado. 
McCollum deixou claro:
- Que tal isso? Eu atiro na sua cabea e descubro sozinho. 
O sujeito pareceu mais perplexo do que amedrontado.
- Siga-me.

SETENTA E QUATRO

VIENA

Hermann ficou sabendo rapidamente que Thorvaldsen havia 
caminhado at a schmetterlinghaus. O chefe da guarda, um 
homem corpulento com pele de um profundo tom de 
azeitona e personalidade ansiosa, seguiu-o enquanto ia para 
l. No queria atrair ateno, por isso manteve o passo 
contido, sorrindo e cumprimentando casualmente os scios 
que se reuniam no roseiral perto da casa.
Gostava do local para onde Thorvaldsen havia ido. A 
construo era suficientemente distante para que ele 
cuidasse do problema em privacidade.
E era exatamente disso que precisava.
Atravs das plantas e das paredes de vidro, Thorvaldsen viu 
o anfitrio chegando. Notou o passo decidido e os modos 
objetivos. Tambm reconheceu o chefe da guarda.
- Gary, o Sr. Hermann est vindo para c. Quero que voc 
v para o outro lado e fique no meio das plantas. Ele 
provavelmente estar de mau humor e tenho de cuidar dele. 
No quero que voc se envolva at que eu o chame. Pode 
fazer isso por mim?
O garoto confirmou com a cabea.
- Ento v e fique quieto.

Gary seguiu rapidamente por um caminho que atravessava a 
floresta tropical transplantada e desapareceu no meio da 
folhagem.
Hermann parou do lado de fora.
- Espere aqui - disse ao chefe da guarda. - No quero ser 
perturbado. Garanta isso.
Em seguida, abriu a porta de madeira e passou pela cortina 
de couro. Borboletas voavam em ziguezagues silenciosos 
pelo ar quente. O acompanhamento musical ainda no fora 
ligado. Thorvaldsen estava numa das cadeiras que Hermann 
e Sabre haviam ocupado alguns dias antes. Ele viu as cartas 
imediatamente e tirou o revlver do bolso.
- Voc est com coisas que me pertencem - disse em tom 
firme.
- Estou mesmo. E parece que voc as quer de volta.
- Isso no  mais divertido, Henrik.
- Estou com sua filha.
- Decidi que posso viver sem ela.
- Tenho certeza de que sim. Pergunto a mim mesmo se ela 
sabe disso.
- Pelo menos ainda possuo um herdeiro. 
Esse golpe acertou fundo.
- Voc se sente melhor dizendo isso?
- Muito. Mas, como voc notou muito bem, Margarete 
provavelmente seria a runa da famlia assim que eu 
morresse.
- Talvez ela tenha puxado  me, no ? Pelo que lembro, 
sua esposa tambm era uma mulher emocional.
- Em muitos sentidos. Mas no permitirei que Margarete 
fique no caminho do nosso sucesso. Se voc pretende lhe 
fazer mal, faa. Quero que devolva o que me pertence.
Thorvaldsen fez um gesto com as cartas.
- Presumo que voc as tenha lido.
- Muitas vezes.
- Voc sempre falou com determinao quando se tratava da 
Bblia. Suas crticas eram objetivas e, devo dizer, bem 
pensadas. - Thorvaldsen fez uma pausa. - Estive refletindo. 
H dois bilhes de cristos, pouco mais de um bilho de 
muulmanos e cerca de 15 milhes de judeus. E as palavras 
destas pginas deixaro todos eles com raiva.
- Essa  a falha da religio. No tem respeito pela verdade. 
Nenhuma delas se importa com o que  real, s com o que 
podem passar como realidade.
Thorvaldsen deu de ombros.
- Os cristos tero de encarar o fato de que sua Bblia, tanto 
o Novo quanto o Velho Testamento,  inventada. Os judeus 
sabero que o Velho Testamento  um registro de seus 
ancestrais num lugar que no  a Palestina. E os 
muulmanos sabero que seu territrio sagrado, o lugar mais 
santo de todos, era originalmente a ptria dos judeus.
- No tenho tempo para isso, Henrik. Entregue-me as cartas, 
depois meu chefe da guarda vai acompanh-lo para fora da 
propriedade.
- E como isso ser explicado aos scios?
- Voc foi chamado de volta  Dinamarca. Emergncia nos 
negcios. - Ele olhou ao redor. - Onde est o filho do 
Malone? Thorvaldsen deu de ombros.
- Divertindo-se em algum lugar por a. Eu disse para ele ficar 
longe de encrenca.
- Voc mesmo deveria ter seguido esse conselho. Sei de suas 
ligaes com Israel e presumo que j lhes tenha informado 
do que estamos planejando. Mas, como tenho certeza que 
lhe disseram, eles sabem que estamos atrs da Biblioteca de 
Alexandria, assim como eles. Tentaram nos impedir, mas 
ainda no tiveram sucesso. E agora  tarde demais.
- Voc tem muita f em seu empregado. Ele pode 
desapont-lo. 
Hermann no conseguiu verbalizar sua prpria incerteza. 
Em vez disso, declarou ousadamente:
- Jamais.

Malone se levantou da mesa e pegou sua arma na mochila.
- Eu estava imaginando quanto tempo voc ia ficar sentado 
a - disse Pam.
- O bastante para saber que nosso amigo no vai voltar.
Ps a mochila no ombro e abriu a porta externa. Nenhum 
zumbido de vozes. Nenhum estalo de cascos. Nem flauta. O 
lugar parecia, ao mesmo tempo, sagrado e fantasmagrico.
Os sinos tocaram, sinalizando as 15h.
Foi passando por uma variedade de construes, cada qual 
com a cor e a textura de folhas mortas. Uma torre cor de 
massa de vidraceiro erguia-se solenemente, coberta por um 
teto convexo. A irregularidade da rua revelava a idade. O 
nico sinal de haver algum habitando o local eram roupas - 
cuecas, meias, calas - penduradas para secar num balco.
Depois de virar uma esquina, viu McCollum e Chapu de 
Palha, 30 metros adiante, atravessando uma pequena praa 
com uma fonte. O mosteiro obviamente tinha acesso a um 
poo, j que gua no parecia ser problema. Nem a 
eletricidade, considerando-se o nmero de painis solares e 
parablicas.
McCollum segurava um revlver junto  cabea de Chapu 
de Palha.
-  bom saber que estvamos certos em relao ao nosso 
parceiro - sussurrou ele.
- Acho que ele quer dar uma primeira olhada.
- Bom, isso  muita grosseria. Vamos?
Sabre mantinha o revlver encostado na nuca do Guardio. 
Passaram por mais construes e entraram mais fundo no 
complexo, perto de um ponto onde o que era feito pelo 
homem encontrava o natural. Ele odiava aquela calma 
fantasmagrica.
Uma igreja despretensiosa, pintada de amarelo-prmula, 
aninhava-se perto da face da rocha. Dentro, a nave 
abobadada era iluminada naturalmente e cheia de cones, 
trpticos e afrescos. Uma floresta de lustres de prata e ouro 
pendia acima de um piso de mosaico detalhado. A opulncia 
contrastava nitidamente com o exterior simples.
- Isto no  uma biblioteca - disse ele.
Um homem apareceu no altar. Tambm tinha pele cor de 
azeitona, mas era baixo, com o cabelo branco-acinzentado. 
E era mais velho. Talvez uns 70 anos.
- Bem-vindo - disse o homem. - Sou o bibliotecrio.
- Voc  o encarregado?
- Tenho essa honra.
- Quero ver a biblioteca.
- Para isso, deve libertar o homem que est segurando. 
Sabre empurrou o Guardio para longe.
- Certo. - E apontou a arma para o bibliotecrio. - Leve-me.
- Certamente.

Malone e Pam entraram na igreja. Duas fileiras de 
monolticas colunas de granito, pintadas de branco, com 
capitis dourados, mostravam medalhes de profetas do 
Velho Testamento e apstolos do Novo. Afrescos nas 
paredes mostravam Moiss recebendo a Lei e falando com a 
Sara Ardente. Relicrios, patenas, clices e cruzes 
repousavam em armrios com frente de vidro.
Nenhum sinal de McCollum ou de Chapu de Palha.
 sua direita, numa alcova, Malone viu duas gaiolas de 
bronze. Uma guardava centenas de crnios cor de arenito, 
empilhados num monte macabro. A outra abrigava uma 
horrvel variedade de ossos numa confuso anatmica.
- Guardies? - perguntou Pam.
- Tm de ser.
Outra coisa na nave ensolarada atraiu sua ateno. No havia 
bancos. Ele se perguntou se aquela seria uma igreja ortodoxa. 
Era difcil dizer pela decorao, que parecia uma mistura 
ecltica de muitas religies.
Atravessou o piso de mosaico at a alcova do lado oposto.
Dentro, sentado numa prateleira de pedra, silhuetado por 
um vitral luminoso, havia um esqueleto inteiro, vestido com 
um manto prpura bordado e capuz, a cabea ligeiramente 
inclinada, como se interrogasse. Os ossos dos dedos, aos 
quais ainda se grudavam pedaos de carne seca e unhas, 
seguravam um cajado e um rosrio. Trs palavras estavam 
cinzeladas no granito abaixo.

CVSTOS RERVM PRVDENTIA

- A prudncia  a guardi das coisas - disse ele, traduzindo, 
mas seu grego era suficiente para saber que a primeira 
palavra tambm podia ser lida como "sabedoria". De 
qualquer modo, a mensagem parecia clara.
O que pareceu uma porta se abrindo e depois se fechando 
ecoou por trs de uma iconstase na frente da igreja. 
Segurando a arma, ele se esgueirou e passou pela porta no 
centro do painel elaboradamente decorado.
Uma nica porta esperava do lado mais distante. 
Chegou perto.
Os painis eram de cedro, e sobre eles estavam gravadas as 
palavras do Salmo 118. ESTE PORTO DO SENHOR, EM 
QUE O JUSTO ENTRAR.
Segurou a tranca de corda e puxou. A porta se abriu com 
uma cacofonia de gemidos. Mas ele notou outra coisa. O 
painel antigo era equipado com um acrscimo moderno - 
uma tranca eletrnica do lado oposto. Um fio passava pela 
dobradia e desaparecia num buraco furado na pedra.
Pam tambm viu.
- Isso  estranho - disse ela.
Ele concordou.
Ento olhou para alm da porta e sua confuso se 
multiplicou.
SETENTA E CINCO

MARYLAND

Stephanie saltou do helicptero que a havia transportado de 
volta a Camp David, junto com Cassiopeia. Daniels as 
esperava no heliporto. Stephanie marchou diretamente para 
ele enquanto o helicptero subia de novo no sol da manh e 
desaparecia sobre as rvores.
- Voc pode ser presidente dos Estados Unidos - disse ela 
em tom afiado -, mas  um tremendo filho-da-puta. Nos 
mandou para l sabendo que seramos atacadas.
Daniels pareceu incrdulo.
- Como eu saberia disso?
- E um helicptero com um atirador de elite estava por acaso 
nas vizinhanas? - perguntou Cassiopeia.
O presidente fez um gesto.
- Vamos dar uma volta.
Seguiram por um caminho largo. Trs agentes do Servio 
Secreto seguiam 20 metros atrs.
- Conte o que aconteceu - disse Daniels.
Stephanie se acalmou, recapitulou a manh e terminou 
dizendo:
- Ele achava que algum est tramando para matar o senhor. 
- Era estranho se referir a Daley no passado.
- Ele estava certo. 
Os trs pararam.
- J estou farta - disse ela. - No trabalho mais para o senhor, 
mas o senhor me colocou atuando na escurido total. Como 
espera que eu faa isso?
- Tenho certeza de que voc gostaria de seu trabalho de 
volta, no ? 
Ela no respondeu imediatamente e, para sua irritao, seu 
silncio revelava que sim. Havia concebido e iniciado o 
Setor Magalhes, comandando-o durante toda a sua 
existncia. O que quer que estivesse acontecendo, no a 
envolvera a princpio, mas agora homens de quem ela no 
gostava e que no admirava a estavam usando. Por isso, 
respondeu honestamente:
- No se eu tiver de puxar seu saco. - Fez uma pausa. - Ou 
pr Cassiopeia em mais perigo.
Daniels pareceu no se abalar.
- Venha comigo.
Caminharam em silncio pela floresta at outro chal. 
Dentro, o presidente pegou um CD player.
- Ouam isto.

- Brent, no posso explicar tudo, apenas dizer que escutei 
uma conversa entre seu vice-presidente e Alfred Hermann. 
A Ordem ou, mais especificamente, Hermann, est 
planejando matar seu presidente.
- Voc ouviu detalhes? - perguntou Green.
- Daniels far uma visita no anunciada ao Afeganisto na 
semana que vem. Hermann contratou o pessoal de bin 
Laden e forneceu os msseis necessrios para destruir o 
avio.
- Isso  uma acusao sria, Henrik.
- Coisa que no tenho o hbito de fazer. Eu mesmo ouvi, 
assim como o garoto do Cotton Malone. Pode informar ao 
presidente? Simplesmente cancele a viagem. Isso vai 
resolver o problema imediato.
- Certamente. O que est acontecendo a, Henrik?
- Mais do que posso explicar. Manterei contato.

- Isso foi gravado h mais de cinco horas - explicou Daniels. 
- No recebi nenhum telefonema de meu confivel 
procurador-geral. Seria de pensar que ele ao menos tentasse. 
Como se eu fosse difcil de ser encontrado.
Stephanie quis saber:
- Quem matou Daley?
- Larry, que Deus tenha sua alma, forou demais a barra. 
Obviamente ele era um homem ocupado. Sabia que algo 
estava acontecendo e optou por resolver sozinho. Esse foi o 
seu erro. As pessoas que esto com os pen drives so as que 
mataram Larry.
Ela e Cassiopeia se encararam. Por fim, ela disse:
- Green.
- Parece que encontramos um vitorioso para aquele 
concurso de quem  o traidor.
- Ento, mande prend-lo - disse ela. 
Daniels balanou a cabea.
- Precisamos de mais. O Artigo Trs, Seo Trs, da 
Constituio  bastante claro. Traio contra os Estados 
Unidos  dar ajuda e conforto ao inimigo. O pessoal que me 
quer morto  nosso inimigo. Mas ningum pode ser 
condenado por traio a no ser com duas testemunhas para 
o mesmo ato explcito. Precisamos de mais.
- Acho que voc poderia fazer aquele vo ao Afeganisto e, 
depois que seu avio for explodido no cu, teremos nosso 
ato explcito. Cassiopeia e eu podemos ser as duas 
testemunhas.
- Essa foi boa, Stephanie. Certo. Vocs foram iscas. Mas eu 
estava cobrindo suas costas.
- Gentileza sua.
- No se pode espantar os pssaros do mato sem um bom 
co. E atirar antes disso  apenas desperdiar chumbinho.
Ela entendeu. Havia ordenado a mesma coisa muitas vezes.
- O que quer que a gente faa?
A resignao em sua voz era clara.
- Que se encontrem com Brent Green.

Malone olhou para uma viso enigmtica. A porta da igreja 
dava para a face da montanha.  frente ficava um salo 
retangular com cerca de 15 metros de largura e mais ou 
menos o mesmo de profundidade. Mal iluminado com 
candelabros de prata nas paredes de granito que brilhavam, 
lisas como espelhos. O piso era outro belo mosaico, o teto 
decorado com bordas e arabescos em vermelho e marrom. 
Do lado oposto da sala ficavam seis fileiras de colunas de 
mrmore cinza e preto enfeitadas com faixas cor de prmula. 
Sete portas se abriam entre as colunas, cada qual parecendo 
uma bocarra escura. Acima de cada portal havia uma letra 
romana - VSOVODA. Acima das letras havia outra passagem 
bblica. Do Apocalipse. Em latim. 
Malone traduziu em voz alta.
- No chores; eis aqui o Leo da tribo de Jud, que venceu 
para abrir o livro e desatar seus sete selos.
Ouviu passos ecoando do outro lado das portas. Impossvel 
dizer de qual.
- McCollum est a dentro - disse Pam. - Mas onde?
Malone foi at uma das passagens e entrou. Dentro, um 
tnel penetrava na rocha, com mais lmpadas de baixa 
potncia a cada seis metros. Olhou para a abertura adjacente, 
que tambm penetrava na montanha, s que por outro 
tnel.
- Isso  interessante. Outro teste. Sete modos possveis de 
entrar. - Ele tirou a mochila dos ombros. - O que foi feito da 
poca em que a gente simplesmente precisava de um carto 
de biblioteca?
- Provavelmente foi para a mesma poca em que a gente s 
saa de um avio quando ele pousava.
Ele riu.
- Na verdade, voc saltou muito bem.
- No me lembre.
Malone olhou para as sete passagens.
- Voc sabia que McCollum ia agir, no sabia? Por isso 
deixou que ele fosse com aquele Guardio.
- Ele no veio em busca da experincia intelectual. E no  
um caador de tesouros. Aquele sujeito  um profissional.
- Assim como o advogado com quem namorei era mais que 
um advogado.
- Os israelenses enganaram voc. No se sinta mal. Eles 
tambm me enganaram.
- Voc acha que isso tudo era uma armao? 
Ele balanou a cabea.
- Mais manipulao. Conseguimos o Gary de volta com 
muita facilidade. E se eles quisessem que eu matasse aqueles 
seqestradores? E, quando fui atrs do George, eles 
simplesmente me seguiram. Claro que voc estava l e os 
israelenses vinham rastreando. Assim garantiram que eu 
levasse voc, me assustando no aeroporto e no hotel. Tudo 
faz sentido. Desse modo, os israelenses matam George e 
esto feitos. Quem seqestrou Gary se ligou a ns para 
descobrir isto. O que significa que os seqestradores tm um 
objetivo muito diferente dos israelenses.
- Acha que McCollum seqestrou Gary?
- Ele ou, pelo menos, a pessoa para quem ele trabalha.
- Ento, o que faremos?
Malone tirou da mochila os pentes de reserva da arma e 
enfiou-os nos bolsos.
- Vamos atrs dele.
- Por qual porta? 
- Voc mesma respondeu isso em Lisboa quando disse que 
Thomas Bainbridge deixou pistas. Eu li o romance dele no 
avio. No h nada sequer remotamente parecido com o que 
experimentamos. Sua biblioteca perdida  encontrada no sul 
do Egito. No h saga do heri. Nada. Mas aquele 
caramancho no jardim  outra coisa. Fiquei pensando na 
ltima parte da saga que McCollum nos deu. No faria 
sentido simplesmente entrar, assim que a pessoa chegasse 
aqui.
- A no ser que voc encostasse a arma na cabea de 
algum.
- Verdade. Mas algo est errado. - Malone indicou as portas. 
- Com esse tipo de salvaguarda, eles poderiam facilmente 
tirar um intruso do caminho. E onde est todo mundo? Este 
lugar est deserto.
Leu de novo as letras sobre as portas.
VSOVODA
E soube.
- Voc costumava pegar no meu p o tempo todo, 
perguntando de que adiantava ter memria idtica.
- No. Eu me perguntava por que voc no conseguia 
lembrar meu aniversrio nem nosso aniversrio de 
casamento.
Ele riu.
- Desta vez, vale a pena ter boa memria. Lembre-se da 
ltima parte da saga. Cuidado com as letras. O caramancho. 
Na Bainbridge Hall. As letras romanas.
Ele as viu perfeitamente na memria. 
D OVOSVAVV M
- Lembra que voc perguntou por que o D e o M eram 
separados das outras oito? - Ele apontou para as portas. - 
Agora sabemos. Uma  para entrar. A outra, presumo,  para 
sair. No tenho certeza da parte do meio, mas estamos 
prestes a descobrir.

SETENTA E SEIS

VIENA

Thorvaldsen avaliou a situao. Precisava suplantar 
Hermann - e havia trazido a arma sob o suter exatamente 
com esse objetivo. Ainda estava com as cartas de Santo 
Agostinho e So Jernimo. Mas Hermann tambm tinha 
uma arma.
- Por que voc seqestrou Gary Malone? - perguntou.
- No tenho nenhuma inteno de ser interrogado.
- Por que no pode ser condescendente comigo por um 
momento, j que logo estarei de partida?
- Para que o pai dele fizesse o que precisssemos que fosse 
feito. E deu certo. Malone nos levou direto  biblioteca.
Thorvaldsen se lembrou do que o vice-presidente havia 
suposto na noite anterior e decidiu pressionar.
- E voc sabe mesmo disso?
- Sempre sei, Henrik. Essa  a diferena entre ns. Por isso 
comando esta organizao.
- Os scios no fazem idia do que voc est planejando. S 
pensam que sabem. - Ele estava jogando verde, para ver se 
mais alguma coisa seria oferecida. Tinha mandado Gary se 
esconder por dois motivos. Primeiro para que no houvesse 
possibilidade de que o que tinham entreouvido na noite 
anterior fosse revelado. Isso colocaria os dois em perigo 
absoluto. Segundo, ele sabia que Hermann viria armado e 
precisava enfrentar a ameaa sozinho.
- Eles confiam no Crculo - dizia Hermann. - E ns nunca os 
desapontamos.
Thorvaldsen gesticulou com as folhas.
- Era isso que voc estava planejando me mostrar? Hermann 
assentiu.
- Eu esperava que, assim que voc visse as falcias da Bblia, 
as falhas inerentes, entenderia que estamos apenas dizendo 
ao mundo o que ele deveria ter sabido h 1.500 anos.
- O mundo est preparado?
- No me interessa discutir isso, Henrik. - Ele esticou o 
brao e apontou a arma. - O que quero saber : como ficou 
sabendo dessas cartas?
- Como voc, Alfred, eu sempre sei. 
O revlver continuou apontado.
- Vou atirar. Esta  a minha ptria, e sei como cuidar das 
coisas quando voc tiver morrido. Como voc j tem minha 
filha, posso usar isso. Algum tipo de trama de extorso que 
voc planejou deu errado. No vai importar, na verdade. 
Voc no vai se incomodar.
- Acho que voc realmente me preferiria morto.
- Sem dvida.  muito mais fcil em todos os sentidos.
Thorvaldsen ouviu os passos correndo ao mesmo tempo em 
que viu Gary disparar do meio das plantas e trombar com 
Alfred Hermann. O garoto era alto, magro e slido. O 
impacto derrubou o velho e fez Hermann perder a arma.
Gary rolou para longe do oponente e pegou a arma.
Hermann pareceu atordoado com o ataque e se ajoelhou, 
tentando recuperar o flego.
Thorvaldsen se levantou e pegou a arma com Gary. 
Envolveu-a com a mo e, sem dar tempo para Hermann se 
levantar, bateu com a coronha na lateral de sua cabea.
O austraco, atordoado, desmoronou no cho.
- Isso foi bobagem - disse a Gary. - Eu teria dado um jeito.
- Como? Ele estava apontando uma arma para voc. 
Thorvaldsen no queria dizer que estava realmente ficando 
sem opes, por isso simplesmente segurou o ombro do 
garoto.
- Bom argumento, rapaz. Mas no faa de novo.
- Claro, Henrik. Sem problema. Da prxima vez, vou deixar 
a pessoa atirar em voc.
Ele sorriu.
- Voc  igual ao seu pai.
- E agora? L fora tem outro cara.
Thorvaldsen levou Gary para perto da sada e disse em voz 
baixa:
- Saia e diga que Herr Hermann precisa dele. Depois, deixe-
o entrar primeiro. Eu cuido de tudo.

Malone seguiu pelo tnel marcado com a letra D. O 
caminho era estreito, daria para duas pessoas lado a lado, 
penetrava fundo nas entranhas da rocha e virava duas vezes. 
A luz vinha de outras lmpadas de pouca potncia. O ar frio 
e misterioso tinha uma qualidade acre que ardia nos olhos. 
Depois de mais algumas curvas, entraram numa cmara 
decorada com murais magnficos. Ele se maravilhou com o 
brilho das cores. Cortadas na parede por onde haviam 
entrado ficavam sete portas, e sobre cada uma havia uma 
nica letra romana. Na parede oposta, tambm ficavam mais 
sete portas, com uma letra solitria sobre cada.
DMVSOAI
- Pegamos o O, certo? - disse Pam.
Ele sorriu.
- Voc entende rpido. O caramancho indica o caminho 
por este labirinto. Haver mais sete conexes destas, 
VOSVAVV. Era isso que restava. Thomas Bainbridge deixou 
uma pista importante, mas que s faz sentido quando 
estamos aqui. Por isso os Guardies a deixaram l durante 
trezentos anos. No tem importncia.
- A no ser que voc esteja neste labirinto de rato. 
Continuaram pelo enigma de passagens, corredores que 
enganavam o becos sem sada. O tempo e a energia 
necessrios para construir os tneis atordoavam a 
imaginao de Malone. Mas os Guardies estavam nessa 
tarefa havia mais de dois mil anos - tempo suficiente para 
serem inovadores e detalhados.
Mais sete junes, e ele ficou satisfeito ao ver que, de cada 
vez, uma letra do caramancho aparecia sobre uma porta. 
Mantinha a arma a postos, mas no ouvia nada adiante. Cada 
juno continha uma diferente maravilha de hierglifos, 
cartuchos, gravaes de alfabetos e smbolos cuneiformes.
Depois da stima interseo e entrando em outro tnel, ele 
soube que o caminho final estava adiante.
Viraram uma esquina e a luz da sada adiante era claramente 
mais forte que a das outras junes. McCollum poderia estar 
ali esperando, por isso Malone posicionou Pam atrs de si e 
se esgueirou.
No fim do corredor, permaneceu nas sombras e espiou l 
dentro.
A sala era grande, um quadrado de cerca de 12 metros de 
largura, com lustres no teto. As paredes subiam cerca de seis 
metros e eram cobertas com mapas em mosaicos. Egito. 
Palestina. Jerusalm. Mesopotmia. O Mediterrneo. Os 
detalhes eram mnimos, os litorais se esvaam at o 
desconhecido, e os escritos eram em grego, rabe e 
hebraico. Na parede oposta havia mais sete portas. A que era 
encimada pela letra M certamente dava na prpria 
biblioteca.
Entraram na cmara.
-        Bem-vindo, Sr. Malone - disse uma voz masculina.
Dois homens assumiram forma saindo da escurido de uma 
das outras passagens. Um era o Guardio que McCollum 
havia levado antes sob a mira da arma, sem o chapu de 
palha. O outro era Ado, do apartamento de Haddad e do 
mosteiro em Lisboa.
Malone apontou a arma.
Nem o Guardio nem Ado se mexeram. Os dois 
simplesmente o olharam com expresso preocupada.
- No sou seu inimigo - disse Ado.
- Como nos encontrou? - perguntou Pam.
- No encontrei. Vocs me encontraram.
Malone pensou em como o sujeito  frente dele havia 
atirado em George Haddad. Depois notou que Ado estava 
vestido de modo semelhante ao Guardio mais jovem - 
calas largas, manto enfiado na cintura, cinto de corda e 
sandlias.
Nenhum dos dois estava armado.
Ele abaixou a arma.
- Voc  um Guardio? - perguntou a Ado.
- Um servidor fiel.
- Por que matou George Haddad?
- No matei.
Um movimento atrs dos dois atraiu a ateno de Malone. 
Ele viu uma terceira figura se afastar da passagem.
Eva, do apartamento de Haddad. Viva e em boa sade.
- Sr. Malone - disse ela. - Sou a bibliotecria assistente e lhe 
devo uma explicao, mas deve ser rpida.
Ele manteve a compostura.
- Estvamos l em Londres para criar uma iluso. Era 
imperativo que o senhor continuasse, e o bibliotecrio 
acreditou que o ardil era o melhor modo de alcanar o 
objetivo.
- O bibliotecrio?
Ela assentiu.
- Ele nos lidera. No somos muitos, mas sempre fomos em 
nmero suficiente para proteger este lugar. Muitos 
Guardies serviram. Tenho certeza de que viu os ossos deles 
na igreja. Mas o mundo est mudando. Est ficando cada vez 
mais difcil continuarmos nossa misso. Estamos 
praticamente sem verbas e, ultimamente, nosso 
recrutamento  insignificante. E h a ameaa.
Ele esperou que a mulher explicasse.
- Nos ltimos anos h pessoas nos procurando. At mesmo 
envolveram governos. O incidente h cinco anos com 
George Haddad, quando o senhor pde escond-lo, fez com 
que um convidado ficasse conhecido e exposto ao mesmo 
tempo. Isso jamais acontecera. Todos os convidados do 
passado tinham conseguido manter a promessa de segredo, 
menos um: Thomas Bainbridge. Mas tivemos sorte na 
medida em que a transgresso dele foi til. Sua saga se 
tornou possvel graas  falta de carter de Bainbridge.
- Vocs sabiam que ns vnhamos? - perguntou Pam.
- A maior parte de sua jornada foi estimulada por ns, s que 
os israelenses estavam muito agressivos na tentativa de 
encontr-los. At os americanos se envolveram. Mas parece 
que por motivos diferentes. Todo mundo estava disposto a 
barganhar o nosso fim. O bibliotecrio decidiu iniciar 
eventos que ns controlssemos, que pudessem trazer os 
envolvidos relevantes diretamente para c.
- Como isso  possvel? - perguntou ele.
- Voc est aqui, no est?
- Estivemos em Londres para instig-lo - disse Ado. - 
Usamos alguns efeitos especiais teatrais para convenc-lo 
dos tiros. - Ado encarou Pam. - Atirar em voc foi 
acidente. No esperava que voc estivesse do lado de fora.
- Somos dois - disse Malone. Mas havia outra coisa. Encarou 
Eva. - George atirou em voc. Eu peguei a arma dele. Estava 
carregada com munio de verdade.
- Sim, graas a Deus ele tem boa mira. Ainda estou dolorida, 
mas o colete fez sua parte.
- Fomos para Lisboa para mant-lo em movimento - disse 
Ado -, ao mesmo tempo que distraamos os israelenses. 
Precisvamos que vocs trs viessem sozinhos. Os outros, 
na abadia, faziam parte de um esquadro de assassinos do 
Mossad. Mas voc os eliminou.
Malone olhou para Pam.
- Parece que definitivamente voc no foi a nica enganada.
- O homem que veio para c com vocs chama-se Dominick 
Sabre - disse Eva -, mas seu nome de batismo  James 
McCollum. Trabalha para uma organizao chamada a 
Ordem do Velo de Ouro. Veio tomar a biblioteca.
- E eu o trouxe - disse Malone.
- No - respondeu Ado. - Ns deixamos que voc o 
trouxesse.
- Onde est esse tal bibliotecrio? - perguntou Pam. 
Ado indicou as portas.
- L dentro. Entrou com Sabre. Sob a mira de uma arma.
- Cotton - disse Pam. - Percebe o que eles esto dizendo? Se 
Eva no foi morta...
- O bibliotecrio  George Haddad.
Eva assentiu, com lgrimas se formando nos olhos.
- Ele vai morrer.
- Ele levou Sabre para dentro sabendo que no vai retornar - 
disse o Guardio mais jovem.
- Como ele sabe disso? - perguntou Malone.
- Ou a Ordem ou Sabre quer a biblioteca para si. Qual das 
opes  a certa? Isso ainda no sabemos. Mas todos seremos 
mortos, independentemente de qualquer coisa. Como somos 
poucos, isso no ser difcil.
- No h armas neste lugar? 
Ado balanou a cabea.
- No so permitidas.
- Vale a pena morrer pelo que h l atrs? - perguntou Pam.
- Sem dvida - respondeu Ado. 
Malone sabia o que estava acontecendo.
- O bibliotecrio foi responsvel pela morte de um Guardio 
h muito tempo. Ele acha que sua morte ser um pagamento 
por esse pecado.
- Eu sei - disse Eva. - Hoje cedo ele viu vocs saltarem de 
pra-quedas e soube que era seu ltimo dia. Contou-me o 
que tinha de fazer. - Ela se adiantou. Agora lgrimas 
escorriam por suas bochechas. - Ele disse que voc 
impediria o que estava acontecendo. Ento, salve-o. Ele no 
precisa morrer. Salve todos ns.
Malone encarou a passagem marcada com um M e apertou a 
arma com fora. Largou a mochila no cho e disse a Pam:
- Fique aqui.
- No - respondeu ela. - Eu vou.
Ele a encarou. Essa mulher, a quem havia amado e odiado, 
tambm parecia estar numa encruzilhada, como Haddad.
- Quero ajudar - disse ela.
Malone no tinha idia do que aconteceria l dentro.
- Gary precisa de pelo menos um dos pais. 
O olhar dela se grudou no dele.
- Aquele velho tambm precisa de ns.

SETENTA E SETE

MARYLAND

Stephanie ouvia a rdio Fox News. O atentado a bomba 
contra o carro fora anunciado, o registro do veculo fora 
verificado e Daley, identificado. Clientes do restaurante 
haviam confirmado suas caractersticas fsicas, bem como 
descreveram uma mulher que estivera sentada com ele. 
Testemunhas disseram que a mulher e outra de pele morena 
tinha fugido do local antes da chegada da polcia.
De modo pouco surpreendente, nenhuma notcia informou 
que homens armados tinham sido encontrados mortos a 
poucos quilmetros do local da exploso. A limpeza do 
Servio Secreto fora rpida e meticulosa.
Estavam em outro carro do governo, um Chevy Tahoe, 
fornecido por Daniels. O presidente queria que estivessem 
longe de Camp David antes de ela dar o telefonema. Agora 
se encontravam 110 quilmetros ao sul, nos arredores do 
norte de Washington. Ela pegou o celular e digitou o 
nmero de Green.
- Estive esperando - disse Green quando ela atendeu. - 
Ouviu falar sobre o Daley?
- Assistimos na primeira fila. - E contou o que havia 
acontecido no restaurante.
- O que foram fazer l?
- Tomar o caf-da-manh. Ele estava pagando.
- Algum motivo para voc estar to petulante?
- Ver um homem morrer torna a gente metida a besta.
- O que est acontecendo? - perguntou Green.
- O mesmo pessoal que matou Daley tentou me matar e 
matar Cassiopeia. Mas conseguimos escapar. Parece que 
estavam na trilha do Daley e partiram para cima de ns 
assim que samos do restaurante.
- Voc parece ter um monte de vidas, Stephanie.
- Daley me contou coisas, Brent. Tem muita coisa 
acontecendo. Ele sabia. E tem provas.
- Ele era o traidor?
- Nem de longe. Essa coroa fica com o vice-presidente. 
Daley havia descoberto um monte de coisas sobre ele.
Stephanie manteve o carro na estrada e ouviu o silncio do 
outro lado da linha.
- Provas concretas?
- Suficientes para o Washington Post. Ele estava 
aterrorizado. Por isso se encontrou comigo. Queria ajuda. 
Ele me deixou umas coisas.
- Ento sua vida corre risco, Stephanie.
- J deduzimos isso. Agora precisamos da sua ajuda.
- Claro. Vocs tero. O que quer que eu faa?
- Aqueles pen drives tirados da casa do Daley. Eles se 
relacionam s provas que eu tenho. Juntos bastaro para 
derrubar o vice. Assim que ele sair de cena, vamos descobrir 
o resto, j que duvido que ele aceite cair sozinho. A traio 
resulta em penalidade dura. A morte  uma das opes para 
o jri.
Mais silncio.
- Voc sabe se Cotton deu notcias? - perguntou ela.
- No me disseram. No tenho notcias de ningum. E o 
Thorvaldsen? Fez contato com Cassiopeia?
- Nem uma palavra.
O corao dela se encolheu ao perceber que Brent Green 
fazia parte do que estava acontecendo. A dor em seu rosto 
revelou a Cassiopeia a traio dele.
- Precisamos nos encontrar, Brent. Em particular. S voc, 
eu e Cassiopeia. Como est sua programao?
- Nada que eu no possa mudar.
- timo. Daley tem mais provas. Coisas que ele disse que 
mostrariam conclusivamente quem mais est envolvido. Ele 
esteve juntando o material durante um tempo. Aqueles pen 
drives que esto com voc contm conversas gravadas com 
o chefe de staff do vice, falando sobre a sucesso depois da 
morte do presidente. Mas h mais. Temos de nos encontrar 
na casa do Daley. Pode ir at l?
- Claro. Voc sabe onde as informaes esto escondidas?
- Ele me contou.
- Ento vamos cuidar disso.
- Esse  o plano. Vejo voc l em meia hora. 
Ela desligou.
- Sinto muito - disse Cassiopeia.
Stephanie no iria sofrer pelo fracasso de outra pessoa.
- Temos de permanecer afiadas. Green mandou matar Daley. 
Agora sabemos disso. Tambm tramou para matar o 
presidente.
- E nos matar - disse Cassiopeia. - Aqueles homens 
trabalhavam para os sauditas. Parece que os sauditas acham 
que Green e o vice-presidente esto do lado deles. Mas o 
vice tambm est negociando com a Ordem. O que significa 
que os sauditas nunca vero nada. A Ordem ficar com tudo, 
para usar como quiser.
A interestadual engarrafou quando elas se aproximaram do 
centro de Washington. Stephanie diminuiu a velocidade do 
Tahoe e disse:
- Esperemos que os rabes entendam isso antes de decidirem 
lidar conosco.

SETENTA E OITO

PENNSULA DO SINAI

George Haddad guiou seu executor at a Biblioteca de 
Alexandria. A cmara subterrnea muito iluminada podia 
ofuscar  primeira vista. As paredes eram cheias de mosaicos 
representando a vida cotidiana - um barbeiro trabalhando, 
um pedicuro, um pintor, homens tecendo linho. Ele ainda 
se lembrava da primeira visita, mas seu agressor no pareceu 
impressionado.
- De onde vem a eletricidade?
- Voc tem nome? - perguntou Haddad.
- Isso no  resposta.
Haddad franziu as sobrancelhas, perplexo.
- Sou um velho, no represento ameaa para voc. Estou 
simplesmente curioso.
- Meu nome  Dominick Sabre.
- Veio aqui por si mesmo ou em nome de outros?
- Por mim mesmo. Decidi virar bibliotecrio. 
Haddad sorriu.
- Voc vai descobrir que esse trabalho  um desafio.
Sabre pareceu relaxar e olhou ao redor. A cmara parecia 
uma catedral, com paredes inclinadas e teto em cpula. O 
granito vermelho e polido brilhava como pedra preciosa. 
Colunas subiam do cho ao teto, cinzeladas na rocha, cada 
qual ornamentada com letras, rostos, plantas e animais. 
Todas as cmaras e tneis haviam sido minas dos faras, 
abandonadas havia sculos, na poca de Cristo, trabalhadas 
nos sculos seguintes por homens obcecados pelo 
conhecimento. Na poca, a luz vinha de tochas e lampies. 
Apenas nos ltimos duzentos anos a tecnologia permitira 
que a fuligem fosse retirada e a beleza original fosse 
restaurada.
Sabre indicou um emblema em mosaico, proeminente na 
parede mais distante.
- O que  aquilo?
- A frente de um tren egpcio, decorado com a cabea de 
um chacal, com um bloco pesado sobre o tren. O hierglifo 
do espanto. Cada cmodo da biblioteca tem um smbolo, 
que  o nome da sala. Esta  a Sala do Espanto.
- Voc ainda no disse de onde vem a eletricidade.
- Solar. A eletricidade  de baixa voltagem, mas o suficiente 
para alimentar lmpadas, computadores e equipamentos de 
comunicao. Sabia que o conceito de energia solar nasceu 
h mais de dois mil anos? Converter luz em energia. Mas a 
idia foi esquecida at os ltimos cinqenta anos, quando 
algum pensou nela novamente.
Sabre sinalizou com a arma.
- Aonde leva aquela porta?
- s outras quatro cmaras. As Salas da Provncia, da 
Eternidade e da Vida, e a Sala de Leitura. Cada uma contm 
rolos de pergaminho, como voc pode ver. 
Aproximadamente dez mil esto nesta sala.
Haddad moveu-se casualmente at o centro. Caixas em 
forma de losango, viradas sobre a borda e em longas fileiras, 
mantinham rolos empilhados frouxamente.
- Muitos desses no podem mais ser lidos. A idade os 
castigou. Mas h muita coisa aqui. Obras do matemtico 
Euclides. De Herfiles, na medicina. As Histrias, de 
Maneto, sobre os primeiros faras. Calmaco, o poeta e 
gramtico.
- Voc fala muito.
- S pensei que, como voc pretende se tornar bibliotecrio, 
deveria comear a aprender a tarefa.
- Como foi que tudo isso sobreviveu?
- Os Guardies originais escolheram bem este lugar. A 
montanha  seca. A umidade  rara no Sinai, e a gua  o 
maior inimigo da palavra impressa. Alm do fogo, claro. - 
Ele indicou os extintores acomodados a intervalos regulares 
ao redor da sala. - Estamos preparados para isso.
- Vejamos as outras salas.
- Claro. Voc deve ver todas.
Guiou Sabre em direo  porta, satisfeito. Aparentemente, o 
agressor no fazia idia de quem ele era. Isso deveria pelo 
menos equilibrar as chances.

Hermann abriu os olhos. Trs borboletas estavam 
empoleiradas em sua manga, o brao estendido na terra cor 
de massa de vidraceiro. Sua cabea doa e ele se lembrou da 
pancada que Thorvaldsen lhe dera. No sabia que o 
dinamarqus era capaz de tamanha violncia.
Levantou-se e viu o chefe da guarda deitado a 6 metros dali.
Sua arma havia sumido.
Cambaleou at o empregado, sentindo-se grato porque no 
havia ningum por perto. Olhou para o relgio. Estivera 
desmaiado durante vinte minutos. Sua tmpora esquerda 
latejava, e ele passou cuidadosamente o dedo sobre um galo.
Thorvaldsen deveria pagar pela agresso.
O mundo continuava instvel, mas ele se controlou e 
espanou a terra das roupas. Abaixou-se e sacudiu o chefe da 
guarda, acordando-o.
- Temos de ir - disse.
O outro esfregou a testa e ficou de p. 
Hermann se firmou e ordenou:
- Nem uma nica palavra sobre isso a ningum. 
O empregado assentiu.
Hermann foi at o telefone e levantou o aparelho.
- Por favor, encontre Henrik Thorvaldsen.
Ficou surpreso quando a voz do outro lado disse que j sabia 
do paradeiro dele.
- Est na frente. Preparando-se para ir embora.

SETENTA E NOVE

PENNSULA DO SINAI

Sabre no conseguia acreditar em sua sorte. Havia 
encontrado a Biblioteca de Alexandria. Ao seu redor havia 
rolos, papiros, pergaminhos e o que o velho chamou de 
cdices - livros pequenos e compactos, com pginas 
quebradias e marrons, cada um deles deitado nas prateleiras 
ao lado do outro, como corpos.
- Por que o ar  to puro? - quis saber.
- Ventiladores movem o ar seco de fora para c, onde  
refrescado pela montanha. Outra inovao, acrescentada em 
dcadas recentes; Os Guardies antes de mim foram 
engenhosos. Levavam o trabalho a srio. Voc far isso?
Pararam na terceira sala, chamada de Eternidade, com outro 
hierglifo em mosaico - um homem agachado, os braos 
erguidos como um juiz de futebol americano sinalizando um 
touchdoion - no alto da parede. Mais cdices nas prateleiras 
ocupavam todo o espao, com corredores estreitos entre 
elas. O bibliotecrio havia explicado que aqueles eram livros 
do sculo VII, pouco antes de a Biblioteca de Alexandria 
original ser saqueada pela ltima vez pelos muulmanos.
- Muita coisa foi recuperada nos meses anteriores quela 
mudana no comando poltico - disse o bibliotecrio. - Essas 
palavras no existem em mais nenhum lugar neste planeta. 
Fatos e acontecimentos, coisas que o mundo considera 
histria, mudariam, caso isso fosse estudado.
Sabre gostou do que estava escutando. Tudo se traduzia 
numa coisa: poder. Precisava saber mais, e depressa. Malone 
poderia muito bem ter forado outro Guardio a mostrar o 
caminho pelo labirinto. Mas seu adversrio tambm poderia 
simplesmente esperar at que ele sasse. Isso parecia mais 
lgico. Sabre havia marcado cada uma das portas pelas quais 
tinha passado com um X riscado na pedra. Encontrar o 
caminho seria fcil. Depois cuidaria de Malone.
Mas primeiro precisava saber o que Alfred Hermann teria 
perguntado.
- H manuscritos sobre o Velho Testamento?

Haddad ficou satisfeito ao ver que o visitante finalmente 
havia chegado ao ponto da visita. Ele tivera um trabalho 
enorme para fazer com que isso acontecesse. Depois de sua 
falsa morte em Londres, havia esperado, com cmeras de 
vdeo e gravadores no apartamento, para ver se algum mais 
viria. Sem dvida, o sujeito que estava apontando a arma 
para ele encontrara as informaes deixadas no computador 
e na fita de udio.
Na Bainbridge Hall, Haddad esperara por Malone, j que o 
material que ele pusera sob a cama apontava diretamente 
para l. A vinda de Sabre fora um tanto surpreendente. O 
fato de ele ter matado os dois homens que havia mandado  
manso s confirmava as ms intenes do sujeito.
Um dos Guardies conseguira acompanhar Malone at o 
hotel Savoy e testemunhara um caf-da-manh com Sabre. 
Ento aqueles mesmos olhos testemunharam quando os 
dois, junto com a ex-mulher de Malone, embarcaram num 
vo par a Lisboa. Como o prprio Haddad moldara a saga 
que Malone estava seguindo, ele sabia exatamente para onde 
os trs iam.
Motivo pelo qual Ado e Eva foram mandados a Lisboa. Para 
garantir que nada impedisse Malone e seu recm-aliado de 
irem at o Sinai.
Haddad pensara que a ameaa viria de governos - israelita, 
saudita ou americano. Mas agora percebia que o maior 
perigo vinha do homem que estava a dois metros dele. 
Esperava que Sabre estivesse trabalhando sozinho. E, 
observando a expectativa nas palavras e nos atos do sujeito, 
agora tinha certeza de que a ameaa poderia ser contida.
- Temos muitos textos sobre a Bblia - respondeu. - Esse foi 
um assunto que a biblioteca teve grande interesse em 
estudar.
- O Velho Testamento. Em hebraico. H manuscritos aqui?
- Trs. Dois supostamente copiados de textos mais antigos. 
Um original.
- Onde?
Ele indicou a porta por onde haviam entrado.
- Duas salas atrs. Na Sala da Provncia. Se voc pretende ser 
bibliotecrio, ter de aprender onde o material  guardado.
- O que essas Bblias dizem? Ele fingiu ignorncia.
- Como assim?
- Eu vi cartas. De Jernimo e Agostinho. Eles falam sobre 
mudanas no Velho Testamento. Que as tradues foram 
alteradas. Houve outros convidados, quatro, que tambm 
estudaram isso. Um, h cinco anos, palestino, disse que o 
Velho Testamento era um registro dos judeus no na 
Palestina, mas em outro lugar, na Arbia Saudita. O que sabe 
sobre isso?
- Muita coisa. E aqueles homens tinham razo. As tradues 
da Bblia aceita esto erradas. O Velho Testamento , de 
fato, um registro dos judeus num lugar que no  a Palestina. 
Na verdade, fica no oeste da Arbia. Li muitos manuscritos 
aqui na biblioteca que provam isso. At vi mapas da Arbia 
antiga, indicando locais bblicos.
A arma subiu e apontou diretamente para ele.
- Mostre.
- A no ser que voc seja capaz de ler hebraico ou rabe, 
eles no vo significar nada.
- Mais uma vez, velho. Mostre ou eu mato voc e me arrisco 
com seus empregados.
Haddad deu de ombros.
- S estou tentando ajudar.

Sabre no fazia idia se as folhas e os cdices espalhados  
sua frente eram o que Alfred Hermann procurava. No 
importava. Ele pretendia controlar tudo que estava ao seu 
redor.
- Esses so tratados escritos no sculo II por filsofos que 
estudaram em Alexandria - disse o bibliotecrio. - Na poca, 
os judeus estavam apenas comeando a se tornar uma fora 
poltica na Palestina, afirmando sua suposta presena 
anterior, pregando o direito  terra. Parece familiar? Aqueles 
estudiosos determinaram que tal presena no existiu. 
Estudaram os textos hebraicos do Velho Testamento, que a 
biblioteca guardava, e determinaram que as histrias, como 
contadas oralmente na poca pelos judeus, eram muito 
diferentes nos textos, em especial nos mais antigos. Parece 
que,  medida que o tempo progredia, as histrias iam 
ficando cada vez mais adaptadas  ento ptria dos judeus, 
que havia se tornado a Palestina. Eles simplesmente haviam 
se esquecido de seu passado na Arbia. Se no fossem os 
topnimos, que permaneceram constantes, e o Velho 
Testamento escrito no hebraico original, essa histria jamais 
seria descoberta.
O bibliotecrio apontou para um dos cdices.
- Aquele ali  muito posterior. Sculo V. Quando os cristos 
decidiram que queriam que o Velho Testamento fosse 
includo em sua Bblia. Este tratado deixa claro que as 
tradues foram alteradas para ajustar o Velho ao emergente 
Novo Testamento. Uma tentativa consciente de passar uma 
mensagem usando histria, religio e poltica. 
Sabre olhou para os livros.
O bibliotecrio indicou outra pilha de pergaminhos dentro 
de uma caixa de plstico transparente.
- Esta  a Bblia mais antiga que temos. Escrita quatrocentos 
anos antes de Cristo. Toda em hebraico. O mundo no tem 
nada assim. Acredito que a Bblia mais antiga, fora desta sala, 
data de novecentos anos depois de Cristo.  isso que voc 
procura?
Sabre no disse nada.
- Voc  um homem estranho - disse o bibliotecrio 
subitamente.
- Como assim?
- Sabe quantos convidados se aventuraram at aqui? Muitos 
milhares durante os sculos. Nosso livro de visitas  
impressionante. Comeou no sculo XII com Averros, o 
filsofo rabe que escreveu crticas a Aristteles e 
questionou Agostinho. Ele estudou aqui. Os Guardies 
decidiram que havia chegado a hora de compartilhar o 
conhecimento, mas seletivamente. Muitos dos nomes 
ningum reconheceria - eram apenas homens e mulheres de 
inteligncia excepcional que atraram a ateno dos 
Guardies. Mentes que deram colaboraes individuais ao 
nosso conhecimento. Nos dias anteriores ao rdio,  
televiso e aos computadores, os Guardies viviam em 
grandes cidades, sempre atentos a possveis convidados. 
Toms de Aquino, Dante, Petrarca, Boccacio, Poussin, 
Chaucer. Homens que estiveram nesta sala. Montaigne 
escreveu seus Ensaios aqui. Francis Bacon concebeu sua 
famosa declarao "Percebi que todo o conhecimento est 
em minha provncia" aqui, na Sala da Provncia.
- Tudo isso deveria significar alguma coisa para mim? 
O velho deu de ombros.
- Estou tentando explicar o seu trabalho. Voc diz que quer 
ser bibliotecrio. Nesse caso, receber um tremendo 
privilgio. Os que serviram no passado conheceram 
Coprnico, Kepler e Descartes. Robespierre. Benjamin 
Franklin. At o prprio Newton. Todas essas almas cultas se 
beneficiaram deste lugar, e o mundo se beneficiou de sua 
capacidade de compreender e expandir.
- E nenhum deles disse que esteve aqui?
- Por que diria? Ns no queremos crdito. Desse modo, eles 
obtm o reconhecimento. Se ns os ajudamos? Essa era 
nossa tarefa. Tem sido um tremendo feito manter isto vivo. 
Voc pode levar adiante essa tradio?
Como no tinha inteno de deixar mais ningum ver 
aquele lugar, Sabre perguntou o que realmente queria saber.
- Quantos Guardies existem?
- Nove. Nossas fileiras esto muito debilitadas.
- Onde eles esto? S vi dois l fora.
- O mosteiro  grande. Esto cumprindo suas tarefas. 
Sabre indicou com a arma.
- Vamos voltar  primeira sala. Quero ver outra coisa. 
E o velho comeou a andar.
Sabre pensou se deveria mat-lo ali. Mas, nesse ponto, 
Malone devia ter deduzido o que estava acontecendo. Devia 
estar esperando do outro lado do labirinto ou vinha andando 
por ele.
De qualquer modo, esse velho poderia ser til.
 


OITENTA

Malone entrou no ltimo corredor e viu uma passagem 
formada por dois lees alados com cabeas humanas. 
Conhecia o simbolismo. A mente de um homem, a fora de 
um animal, a ubiqidade de um pssaro. Uma porta dupla, de 
mrmore, pendia aberta em dobradias de bronze. Entrou e 
olhou para a opulncia.
Maravilhou-se ao pensar em quanto tempo devia ter sido 
necessrio para criar algo to extraordinrio. Fileiras de 
caixas diagonais cobriam o piso de ladrilhos, interrompidas 
por corredores estreitos, cada uma, cheia de rolos de 
pergaminho. Foi at uma das caixas e tirou o de cima. O 
documento estava em condies notveis, mas no ousou 
desenrol-lo. Olhou dentro do cilindro e viu que a escrita 
ainda era legvel.
- Eu nunca soube que algo assim podia existir - disse Pam. - 
Est alm da compreenso.
Ele vira coisas espantosas, mas nada to maravilhoso como 
tudo que havia naquela sala. Notou no alto de uma das 
paredes vermelhas brilhantes mais palavras em latim. AD 
COMMUNEM DELECTATIONEM. Para deleite de todos.
- Os Guardies fizeram algo extraordinrio.
Notou um relevo em uma das paredes. Chegou perto e viu 
uma representao do que havia adiante, com as salas 
identificadas em latim. Traduziu cada uma delas em voz alta, 
para Pam.
 
 

 

- Cinco salas - disse ele. - Eles podem estar em qualquer 
lugar. Um movimento na porta do outro lado atraiu sua 
ateno. Viu George Haddad, depois McCollum.
McCollum o viu e empurrou Haddad para o cho, 
apontando para o outro lado da cmara e disparando. Malone 
se jogou no cho, usando as prateleiras  frente como 
cobertura. A bala ricocheteou nas colunas de granito atrs 
dele.
- Voc se move rpido - disse McCollum do outro lado da 
sala.
- No queria que voc ficasse solitrio.
- O bibliotecrio me fez companhia.
- Vocs dois se conheceram?
- Ele fala demais, mas conhece este lugar. Malone quis saber:
- E agora?
- Acho que voc e a ex tm de morrer.
- Eu avisei para voc continuar meu amigo.
- Corta essa, Malone. Eu cheguei at aqui, no planejo 
perder agora. Vou lhe dizer uma coisa: vamos fazer um jogo 
limpo. Eu contra voc. Aqui mesmo. Se voc ganhar, o 
velho e a ex esto salvos. Feito?
- Voc est criando os termos. Aja de acordo com eles.

Haddad ouviu a troca de falas entre Sabre e Malone. Aqueles 
dois precisavam resolver suas diferenas, e ele precisava 
pagar a dvida. Pensou de novo no Guardio de dcadas 
atrs, quando o rapaz o havia encarado com olhos cheios de 
determinao. Simplesmente no tinha entendido. Mas 
agora, tendo visto a biblioteca, tendo se tornado o 
bibliotecrio, sabia o que aquela alma fatdica de 1948 
conhecia.
Ele havia matado aquele bom homem sem motivo.
E lamentara isso durante toda a vida.

- Levante-se - disse Sabre ao bibliotecrio, e observou o 
velho se levantar.
- Certo, Malone. Estou agindo. A vai ele. - E indicou com a 
arma. - V.
O bibliotecrio caminhou lentamente pelo corredor entre as 
caixas diagonais. Sabre manteve sua posio, agachado no 
fim de uma das fileiras.
A 6 metros, o bibliotecrio parou e virou-se.
Os olhos que encaravam de volta penetraram em Sabre. Ele 
pensou no velho. Algo no sujeito sinalizava perigo, como se 
a alma por trs dos olhos tivesse enfrentado aquela situao 
antes e no sentisse medo. Debateu consigo mesmo se 
deveria matar o bibliotecrio, mas isso poderia provocar 
Malone.
E isso ele no queria fazer.
Ainda no.
Malone era o nico obstculo que restava. Assim que ele 
estivesse fora do caminho, a biblioteca seria sua.
Por isso ficou aliviado quando o velho finalmente se afastou.

OITENTA E UM

WASHINGTON, D.C.

Stephanie estacionou na rua a uma certa distncia da casa de 
Larry Daley, e ela e Cassiopeia andaram pelo resto do 
caminho. Nenhum sinal de Brent Green nem de mais 
ningum. Aproximaram-se da porta da frente, onde 
Cassiopeia abriu de novo a fechadura e Stephanie desarmou 
o alarme. Notou que o cdigo no havia mudado. Daley 
deixara como estava, mesmo depois de as duas terem 
entrado. Ou era idiotice ou mais uma prova de que ela havia 
julgado mal o sujeito.
O interior estava silencioso. Cassiopeia fez uma varredura 
em todos os cmodos para se certificar de que estavam 
sozinhas. Stephanie parou na alcova do escritrio, onde 
tinham encontrado os pen drives. As duas esperaram junto  
porta da frente.
Dez minutos depois, um carro parou l fora.
Stephanie espiou pela cortina e viu Green sair de trs do 
volante e ir at a porta.
Sozinho.
Assentiu para Cassiopeia, depois abriu a porta.
Green vestia seus tpicos terno e gravata escuros. Assim que 
o procurador-geral estava dentro da casa, ela trancou a porta. 
Cassiopeia assumiu posio perto de uma janela.
- Certo, Stephanie. Pode me dizer o que est acontecendo?
- Trouxe os pen drives?
Ele enfiou a mo no bolso do palet e pegou-os.
- Ouviu as gravaes? 
Ele assentiu.
- Claro. As conversas so interessantes, mas de jeito 
nenhum incriminadoras. Fala-se na Vigsima Quinta 
Emenda, mas s isso. Conversa. Certamente no se discute 
nem se sugere conspirao.
- Foi por isso que Daley juntou mais coisas. Ele me disse que 
esteve procurando isso durante um tempo.
- Procurando o qu?
E ela notou um lampejo de irritao.
- A conspirao, Brent. O vice-presidente est planejando 
matar Daniels. Armou para a coisa acontecer durante uma 
visita surpresa que Daniels far na semana que vem ao 
Afeganisto. - Stephanie observou enquanto as palavras, que 
confirmariam que ela sabia do que estava falando, eram 
absorvidas.
Green permaneceu estico.
- Que provas Daley encontrou?
- Mais conversas. Na verdade, ele grampeou o escritrio 
particular do vice-presidente. O que no  to difcil, j que 
era encarregado de garantir que o lugar no fosse 
monitorado. Parece que o vice  ligado  Ordem do Velo de 
Ouro. O chefe da ordem, Alfred Hermann, arranjou para 
que o avio do vice fosse atacado por msseis. Fez um trato 
com o pessoal do Bin Laden.
-        Stephanie, espero que Daley tenha juntado provas 
impressionantes. Essas acusaes so incrveis.
- Voc disse que toda a administrao era um esgoto. Disse 
que queria pegar os culpados. A est sua chance.
- Como vamos provar isso?
- As gravaes esto aqui. Daley me falou sobre elas. Disse 
que indicariam todos os envolvidos. amos voltar para c 
quando o carro explodiu.
Green ficou parado no foyer, diante da escada onde Daley e 
Heather Dixon haviam estado no dia anterior. Parecia 
imerso em pensamentos. Com seu rosto de jogador de 
pquer. Claro, ainda que o sujeito tivesse mentido para ela 
sobre Thorvaldsen e no tivesse repassado ao presidente 
nada do que Henrik descobrira, eles precisavam de provas 
concretas de sua traio.
- Sei onde ele escondeu as gravaes - disse ela.
Por fim, os olhos de Green transmitiram interesse. 
Cassiopeia permaneceu perto da janela, fora do caminho.
Stephanie levou Green at a alcova do escritrio onde ficava 
a pequena escrivaninha com as estantes estreitas. Uma 
prateleira tinha uma fila de CDs em suas caixas plsticas. A 
msica era toda instrumental e de uma variedade de pases; 
havia, inclusive, alguns cantos gregorianos, o que ela achou 
curioso. Pegou uma das caixas - Maravilhas tibetanas - e 
abriu. Dentro, em vez do CD de msica, havia outro disco. 
Ela o tirou do suporte e disse:
- Ele gostava de guardar essas coisas por perto.
- O que, exatamente, h nisso a?
- Ele diz que  uma prova de quem faz parte da conspirao. 
Disse que chegava a um nvel que ningum suspeitaria. - Os 
nervos dela latejavam de agitao. - Quer ouvir?
Green ficou quieto.
- Por que voc vazou o arquivo do Elo de Alexandria? - 
perguntou ela.
- Eu lhe disse. Para encontrar o traidor. Isso nos levou a 
vrios lugares. Foi assim que descobrimos o elo dos 
israelenses com Pam Malone. Vazar aquele arquivo ps tudo 
em movimento.
- E voc tinha acesso?
- Por que as perguntas, Stephanie?
- Porque eu no fazia idia de que voc sequer sabia do Elo 
de Alexandria, quanto mais os detalhes suficientes para 
achar que ele seria uma isca para Israel.
Green inclinou a cabea interrogativamente.
- Isso  inesperado. Um interrogatrio. 
Ela no iria lhe dar folga. Agora, no.
- Quando falamos pela primeira vez sobre tudo isso, voc 
deixou claro que vazou o arquivo de propsito, que ele 
continha pouca coisa a mais do que uma referncia ao fato 
de Malone saber onde George Haddad morava. Mas voc 
mencionou especificamente a aliana de Abrao. Como 
sabia?
- O arquivo no era to secreto assim.
- Verdade? No foi isso que Daley disse. Ele insistiu em que 
a informao ali dentro era pouca e relativamente 
desconhecida, a no ser por um punhado de gente do topo. - 
Ela temperou as palavras com insolncia. - Voc no estava 
na lista. No entanto, sabia um monte de coisas.
Green saiu da alcova e foi em direo  sala. 
Ela foi atrs.
Cassiopeia havia sumido.
Stephanie olhou ao redor, preocupada.
- Meus colegas cuidaram dela - disse Green. 
Ela no gostou daquilo.
- E quem cuida de mim?
Green enfiou a mo sob o palet e pegou uma arma.
- Essa tarefa  minha. Mas primeiro preciso falar com voc a 
ss.
- Para ver o quanto eu sei? O quanto Cassiopeia sabe? E 
quem mais sabe?
- Duvido que tenha ajuda. Afinal de contas, Stephanie, voc 
no  a pessoa mais querida deste governo. Daley tentou se 
ligar a voc, mas no deu certo.
- Trabalho seu? 
Green assentiu.
- Pusemos explosivos no carro e esperamos a hora certa. 
Tudo como parte do ataque terrorista contra este pas, que 
comear com Daley e terminar com Daniels. Este pas ser 
levado a um frenesi.
- Que o vice-presidente vai explorar, depois de ser 
empossado. Ento precisar de um vice-presidente, e  a 
que voc entra.
- No existem muitas oportunidades de avanar na carreira, 
Stephanie. A gente precisa pegar o que encontra. Serei a 
escolha perfeita para a crise. Minha confirmao ser 
unnime.
- Voc  pattico.
Ele fez uma expresso auto-depreciativa.
- Aceitarei isso. Afinal de contas, voc tem apenas alguns 
minutos de vida. Por sinal, voc deveria ter sido vtima do 
ataque. Quando apareceu naquele restaurante, decidi 
acrescentar outra camada, mas de algum modo voc 
conseguiu evitar os homens que ns mandamos. Ainda no 
descobri como.
- Bom treinamento. Faz toda a diferena. 
Ele lhe lanou um sorriso frio.
- Vou sentir falta dessa espirituosidade.
- Voc percebe o que est fazendo? A derrubada violenta de 
um presidente eleito?
- Acredito que isso se chama traio. Mas Danny Daniels  
um homem fraco, inepto, que no sabe o que  melhor para 
este pas. Ele  amigo de Israel, independentemente de 
qualquer coisa, e somente isso j nos deixa em dificuldades 
no Oriente Mdio.  hora de o favoritismo americano 
mudar. Os rabes tm muito mais a oferecer.
- E o Elo de Alexandria far isso? 
Ele deu de ombros.
- No sei. Isso  problema do novo presidente, e ele diz que 
est com tudo sob controle.
- Voc quer tanto assim ficar em cena?
- Eu no diria que ser vice-presidente dos Estados Unidos  
ficar em cena. Como ajudei na transio de poder de modo 
to crucial, terei um relacionamento especial. Muita 
responsabilidade e pouca visibilidade.
Ela indicou a arma.
- Vai me matar?
- No tenho escolha. Esse CD que est com voc certamente 
me incrimina. No posso deixar assim e no posso deixar 
voc ir embora.
Ela se perguntou para onde Cassiopeia fora levada. Isso no 
estava acontecendo de acordo com o plano. E no esperava 
que o prprio Green estivesse com uma arma. Um 
pensamento relampejou em sua mente.
Ganhe tempo.
- O procurador-geral dos Estados Unidos vai me matar?
- Pensei nisso durante todo o dia e, infelizmente, h poucas 
opes.
- E quanto a todos aqueles valores cristos dos quais ouvi 
voc falar tanto?
- Isto aqui  o calor da batalha, e as regras so diferentes.  
uma questo de sobrevivncia, Stephanie. Como falei, eu 
ouvi os registros que Daley salvou nos pen drives. O chefe 
de staff do vice-presidente falou muito sobre sucesso 
presidencial. Demais. No  incriminador, mas levantaria 
perguntas. Daley obviamente estava investigando. Esse disco 
que voc est segurando contm mais ainda. A coisa precisa 
parar a. Claro, seu corpo nunca ser encontrado. H um 
caixo esperando na embaixada da Arbia Saudita. Um dos 
enviados deles morreu e queria ser enterrado na ptria. Voc 
vai fazer uma viagem para Arbia com ele, num vo 
diplomtico.
- Voc pensou em tudo, no foi?
- Amigos podem ser uma coisa boa. Estou aprendendo isso. 
Fiquei sozinho por muito tempo, mas gosto de fazer parte de 
uma equipe. Os sauditas s querem a destruio de Israel. 
Ns prometemos que isso pode ser feito. Os israelenses 
acham que os sauditas esto trabalhando para eles neste caso. 
No esto. Esto trabalhando conosco. Desde o incio.
- Eles no fazem idia dos merdas de duas caras que todos 
vocs so. Tudo isso tem a ver com dinheiro e poder. Nada 
mais.
- Gostaria de dizer mais alguma coisa? 
Ela balanou a cabea.
E a arma disparou.

OITENTA E DOIS

VIENA

Thorvaldsen estava parado com Gary. Havia ligado para 
Jesper no momento em que tinham sado da 
schmetterlinghaus e mandado que ele enviasse um carro 
com chofer. Assim que Thorvaldsen e Gary estivessem 
retornando a Copenhague, ele instruiria o empregado para 
libertar Margarete. No tinha se incomodado em pegar as 
roupas dos dois. No havia tempo. Em vez disso, tudo o que 
levava era o atlas retirado da biblioteca, com as cartas de So 
Jernimo e Santo Agostinho.
Carros iam e vinham na pista que passava entre as rvores 
at o porto da frente. Nem todos os scios da Ordem 
ficavam na propriedade. Muitos optavam por visitar amigos 
ou desfrutar seus hotis prediletos em Viena. Ele 
reconheceu alguns do que chegavam e se demorou um 
pouco batendo papo. Isso tambm lhe permitia se misturar 
ao que estava acontecendo. Mas precisavam ir embora, com 
as cartas, antes que Hermann acordasse.
- Estamos encrencados? - perguntou Gary.
- No tenho certeza. - E no tinha mesmo.
- Voc acertou aqueles dois caras com bastante fora. 
Thorvaldsen viu que o garoto estava impressionado.
- Acertei, no foi?
- No quero estar aqui quando eles acordarem. 
Ele tambm no queria.
- Temos de ficar com estas cartas, e acho que nosso anfitrio 
no permitiria isso.
- E a filha? Ele pareceu no se importar com ela.
- No acredito que ele algum dia tenha se importado. Lev-la 
foi simplesmente uma coisa inesperada que o fez parar por 
tempo suficiente para agirmos. - Thorvaldsen pensou em seu 
filho morto. -Homens como Alfred se importam pouco com 
a famlia.
E como isso devia ser medonho. Ele sentia falta da mulher e 
do filho. Ver Gary Malone correr em sua defesa o havia 
amedrontado e agradado. Deu um tapinha no ombro do 
garoto.
- O que ? - perguntou Gary.
- Seu pai teria orgulho.
- Espero que ele esteja bem.
- Tambm espero.
Trs carros vieram rapidamente pela entrada principal e 
rodearam a pista pavimentada. Pararam diante do castelo e 
homens saram do primeiro e do terceiro veculos, todos 
vestidos de terno preto. Depois de um rpido exame dos 
arredores, um deles abriu a porta traseira do carro do meio.
O vice-presidente dos Estados Unidos desceu ao sol da tarde, 
vestido casualmente com um pulver sob um blazer azul-
marinho.
Thorvaldsen e Gary estavam parados a 20 metros dali e 
viram um segurana flanquear o vice-presidente e todos 
caminharem na direo da entrada principal do castelo. Na 
metade do caminho, o vice-presidente parou e mudou de 
direo.
Indo diretamente para eles.
Thorvaldsen ficou olhando o sujeito com uma mistura de 
raiva e nojo. Aquele idiota ambicioso parecia disposto a 
qualquer coisa.
- Nem uma nica palavra, garoto - disse a Gary. - Lembre-se: 
ouvidos abertos, boca fechada.
- J tinha deduzido isso.
- Voc deve ser Henrik Thorvaldsen - disse o vice-
presidente enquanto se aproximava e se apresentava.
- Sou. Prazer em conhec-lo, senhor.
- Nada desse negcio de senhor, certo? Voc  um dos 
homens mais ricos do mundo e eu sou apenas um poltico.
- O que est dizendo? Algum que est a apenas centmetros 
da presidncia?
O americano deu um risinho.
-  isso. Mas mesmo assim  um trabalho enfadonho. 
Porm, consigo viajar, e gosto de vir a lugares como este.
- E o que o traz aqui hoje?
- Alfred Hermann e eu somos amigos. Vim prestar meus 
respeitos. 
Outro carro veio pelo caminho. Um BMW claro com 
motorista uniformizado. Thorvaldsen fez um gesto e o carro 
veio em sua direo.
- Est partindo? - perguntou o vice-presidente.
- Temos de ir  cidade.
O americano indicou Gary.
- E quem  este?
Thorvaldsen os apresentou, usando o nome verdadeiro de 
Gary, e eles apertaram as mos.
- Nunca havia conhecido um vice-presidente - disse Gary.
O BMW parou e o motorista saiu, rodeando o carro e 
abrindo a porta traseira para Thorvaldsen.
- E eu nunca havia me encontrado com o filho de Cotton 
Malone - disse o vice-presidente.
Agora Thorvaldsen percebeu que estavam encrencados. O 
que foi duplamente confirmado ao ver Alfred Hermann 
vindo em direo a eles, com o chefe da guarda a reboque.
O vice-presidente disse:
- Brent Green manda lembranas.
E Thorvaldsen viu a traio de Green nos olhos duros do 
sujeito. 
- Acho que o senhor no vai a lugar nenhum - disse o vice, 
em voz baixa.
Hermann chegou e fechou a porta traseira do carro.
- Herr Thorvaldsen no precisa do carro. Pode ir.
Thorvaldsen ia protestar, fazer uma cena, mas notou que o 
chefe da guarda assumiu posio ao lado de Gary. Uma arma 
sob o palet do sujeito estava apontada diretamente para o 
garoto.
A mensagem era clara.
Ele encarou o motorista.
- Ele est correto. Obrigado por ter vindo. 
Hermann pegou o atlas.
- Suas opes esto se esgotando rapidamente, Henrik.
-  o que eu diria - concordou o vice-presidente. 
Hermann pareceu perplexo.
- Por que est aqui? O que est acontecendo?
- Leve os dois para dentro e eu conto tudo.

OITENTA E TRS

PENNSULA DO SINAI

Malone esperou at que George Haddad estivesse em 
segurana atrs do final da estante, onde ele e Pam haviam 
assumido uma posio defensiva.
- Voltou dos mortos? - perguntou a Haddad.
- A ressurreio pode ser gloriosa.
- George, aquele homem quer matar todos vocs.
- Foi o que notei. Por sorte voc est aqui.
- E se eu no conseguir impedi-lo?
- Ento todo esse empreendimento teria sido um 
desperdcio. Malone precisava saber.
- O que h l atrs?
- Mais trs sales e a Sala de Leitura. Todas parecidas com 
esta. No h muitos lugares onde se esconder.
Malone se lembrou da planta.
- Eu simplesmente devo trocar tiros com ele?
- Eu trouxe voc aqui. No me desaponte. 
A raiva cresceu por dentro de Malone.
- Havia modos mais simples de fazer isso. Ele poderia ter 
pedido reforos.
- Duvido. Mas tenho olhos l fora, vigiando para ver se mais 
algum entra no farsh. Aposto que ele est sozinho e 
continuar assim.
- Como sabe disso? Os israelenses estiveram o tempo todo 
atrs de ns.
- Eles se foram. - Haddad apontou para o outro lado da sala. - 
Ele  tudo que resta.
Malone viu McCollum correndo atravs da passagem em 
arco e desaparecendo mais para o fundo na biblioteca. Mais 
trs sales e a Sala de Leitura. Ele estava para violar uma 
quantidade de regras que o haviam mantido vivo durante 12 
anos no Setor Magalhes. Uma delas era clara: Nunca entre 
se no souber que vai sair. Mas outra coisa que havia 
aprendido tambm lhe ocorreu: Quando a situao fica ruim, 
qualquer coisa pode machucar voc, inclusive no fazer 
nada.
- Saiba de uma coisa - disse Haddad. - Aquele homem foi 
responsvel pelo seqestro do seu filho. Alm disso, destruiu 
sua livraria. Ele tem tanta culpa por voc estar aqui quanto 
eu. Ele teria matado Gary, se fosse necessrio. E mataria 
voc com o maior prazer.
- Como voc sabe isso sobre o Gary? - perguntou Pam.
- Os Guardies tm acesso a muitas informaes.
- E como chegou a ser bibliotecrio? - perguntou Malone.
- Histria complicada.
- Aposto que . Voc e eu teremos uma longa conversa 
quando isto acabar.
Haddad riu.
- , velho amigo, teremos uma longa conversa. 
Malone apontou para Pam e disse para Haddad:
- Mantenha-a aqui. Ela no  boa em obedecer ordens.
-        V - disse ela. - Vamos ficar bem.
Ele decidiu no discutir e seguiu rapidamente pelo corredor. 
Na sada, parou de lado. Seis metros adiante se abria outra 
cmara. Mais paredes altas, filas de prateleiras de pedra, 
letras, imagens e mosaicos do piso ao teto. Esgueirou-se, mas 
ficou grudado nas laterais polidas do corredor. Entrou na 
segunda sala e de novo se protegeu numa das filas de 
prateleiras. A sala era mais quadrada que a primeira, e ele 
notou uma variedade de rolos e cdices.
Nenhum sinal de movimento. Isso era idiotice. Ele estava 
sendo atrado mais para o fundo. Em algum ponto, 
McCollum iria se virar e lutar, e nos termos dele.
Mas quando?

Haddad observou Pam Malone. Em Londres, tentara avaliar 
a personalidade dela, imaginando o que ela estaria fazendo 
ali. Os Guardies haviam juntado informaes pessoais sobre 
Cotton Malone, coisas das quais Haddad sabia pouco - 
Malone raramente falava sobre a mulher e a famlia. A 
amizade dos dois havia sido acadmica, provocada pelo amor 
aos livros e o respeito pelo conhecimento. Mas ele sabia o 
suficiente, e chegara a hora de usar esse conhecimento.
- Temos de voltar para l - disse.
- Cotton mandou ficar aqui.
Haddad permitiu que seu olhar se cravasse nela.
- Temos de voltar para l. - E, para provar seu ponto de vista, 
tirou uma pistola de sob o manto.
Surpreendentemente, ela no se encolheu.
- Vi quando voc olhou para McCollum.
- Foi esse o nome que ele deu a vocs? 
Ela assentiu.
- O nome dele  Sabre, e  um assassino. Falei srio no meu 
apartamento em Londres. Tenho uma dvida a pagar e no 
planejo que Cotton pague por mim.
- Vi isso nos seus olhos. Voc queria que ele atirasse. Mas 
sabia que ele no faria isso.
- Homens como Sabre so avarentos com sua coragem. 
Guardam para quando for realmente necessria. Como agora.
- Voc sabia que isso tudo iria acontecer? 
Ele deu de ombros.
- Sabia, achava, esperava. No sei. Estvamos vigiando Sabre. 
Sabamos que ele vinha planejando alguma coisa em 
Copenhague, e quando ele seqestrou Gary, percebemos 
que estava tentando me encontrar. Foi ento que decidi me 
envolver. Meu segundo telefonema  Cisjordnia foi 
descoberto pelos espies israelenses, o que finalmente os 
instigou a agir. Depois, em Lisboa, vi como poderia trazer 
vocs trs para c sem os israelenses.
- Fez tudo isso para poder morrer?
- Fiz isso para proteger a biblioteca. Sabre trabalha para uma 
organizao que certamente quer este conhecimento com 
objetivos polticos e econmicos. Estiveram nos 
investigando por um tempo. Mas voc o ouviu. Ele est aqui 
por conta prpria. No para eles. Se o fizermos parar, 
pararemos tudo.
- O que voc vai fazer?
- Eu, no. Voc tambm tem de fazer isso. 
- Eu?
- Cotton precisa de voc. Vai deix-lo na mo?
Ficou olhando enquanto ela revirava a pergunta na mente. 
Sabia que ela era inteligente, corajosa e ousada. Mas tambm 
vulnervel. E dada a cometer erros. Ele passara uma vida 
inteira lendo pessoas - e esperava que tivesse lido Pam 
Malone corretamente.
- De jeito nenhum - disse ela.

Sabre saiu correndo da Sala da Provncia e entrou na Sala de 
Leitura, que tinha mais mesas e menos prateleiras. Pela 
primeira excurso, sabia que o espao seguinte, a Sala da 
Eternidade, levava  ltima sala, com toda a biblioteca 
formando um U. Janelas falsas e alcovas adornadas com 
pinturas de paisagens distantes e iluminao especial criavam 
um efeito de exterior. Ele precisava ficar se lembrando que 
estava no subsolo.
Dentro da Sala de Leitura, parou.
Era hora de usar o que havia notado antes.
Malone continuou avanando, com a arma a postos. Havia 
trocado o pente pelo ltimo ainda cheio, mas pelo menos 
podia contar com nove tiros. Restavam mais trs no que 
estava no bolso, de modo que agora tinha doze chances de 
fazer com que McCollum parasse.
Seu olhar saltou de uma parede  outra e do teto ao cho, os 
sentidos em alerta. O peito e as costas estavam midos de 
suor e o ar subterrneo o enregelava. Passou pela segunda 
sala e seguiu pelo corredor at a prxima sala iluminada, que 
ficava em ngulo reto. No ouviu nada, e o silncio o irritou. 
O que o mantinha indo em frente era o que Haddad dissera: 
fora McCollum que havia seqestrado Gary. O filho-da-puta 
havia encostado em seu filho. Levado-o para longe. 
Obrigado Malone a matar um homem. De jeito nenhum 
essas violaes permaneceriam sem respostas. Se McCollum 
queria briga, era isso que ele ia ter.
Chegou  entrada da terceira sala.
A Sala de Leitura.
Cerca de vinte mesas feitas de tbuas grossas e rsticas, 
escuras e gastas, espalhavam-se pela sala em meio s 
prateleiras. Viu a sada na parede oposta.
A sala era maior que as outras duas, retangular e talvez com 
18 metros de comprimento. As paredes sustentavam lajes e 
lintis de origem bizantina, alm de mosaicos, desta vez 
com cenas dedicadas a mulheres, algumas tecendo e fiando, 
outras fazendo atletismo. Ele afastou o olhar das obras de 
arte e se concentrou no problema.
Esperava que a qualquer momento McCollum saltasse de 
entre as mesas. Estava preparado. Mas nada aconteceu. 
Parou.
Havia alguma coisa errada.
Ento, do outro lado da sala, na base da parede mais distante, 
viu um reflexo escuro no brilhante granito vermelho. Uma 
imagem de sombra, como olhar atravs de uma garrafa de 
refrigerante, ondulando atravs do acabamento quase 
espelhado.
Vindo do piso.
Debaixo das mesas.
E ento percebeu.

OITENTA E QUATRO

WASHINGTON, D.C.

Stephanie ouviu os tiros, mas nenhuma bala a acertou. Ento 
viu o buraco na lateral da cabea de Brent Green e percebeu 
o que havia acontecido. 
Virou-se.
Heather Dixon estava parada com uma arma na mo. O 
corpo de Green bateu no cho de tbuas, mas Stephanie 
continuou olhando para Dixon, que abaixou a arma. 
Cassiopeia surgiu atrs da israelense.
- Isso  o fim - disse Dixon. 
Stephanie atraiu a ateno de Cassiopeia.
- O que aconteceu?
- Quando voc e Green voltaram ao escritrio, ela apareceu. 
Ns estvamos certas. Green trouxe alguns amigos, que 
estavam esperando l fora, nos fundos. O Servio Secreto os 
pegou, e ento... - Cassiopeia apontou para Dixon. - Ela 
entrou.
Stephanie entendeu.
- Voc est trabalhando com o presidente?
- Isso precisava ser feito. Esse sacana ia entregar todos ns. 
Ele e seu vice-presidente poderiam muito bem ter iniciado 
uma guerra mundial com o que planejaram.
Stephanie sentiu algo no tom de voz e quis saber.
- E quanto a voc e Daley?
- Eu gostava do Larry. Ele nos procurou pedindo ajuda, 
contou o que estava acontecendo, e ns nos aproximamos. 
Acredite ou no, ele estava tentando impedir as coisas. Isso 
voc tem de admitir.
- Teria sido muito mais fcil se vocs dois tivessem me 
procurado com as informaes que possuam.
Dixon balanou a cabea.
- Esse  o seu problema, Stephanie. Voc vive nessa bolha 
idealstica. Odiava Larry. No gostava do Green. Achava que 
a Casa Branca no gostava de voc. Como poderia fazer 
alguma coisa?
- Mas ela era a isca perfeita - disse Cassiopeia. - No era?
- Todo anzol precisa de uma isca, e vocs duas foram a 
deste.
Stephanie ainda estava segurando o CD que havia escondido 
no escritrio de Daley. No havia nada gravado nele. Era 
apenas algo para fazer com que Green reagisse.
- Eles gravaram tudo l fora? - Haviam lhe colocado 
microfones antes de sarem de Camp David.
Cassiopeia assentiu.
- Tudo.
- E os sauditas? - perguntou Stephanie a Dixon. - Voc 
estava trabalhando com eles quando nos falamos pela 
primeira vez.
- Tpicos rabes. Jogando dos dois lados. Originalmente, 
estavam unidos ao vice-presidente, achando que ele iria 
ajudar a impedir qualquer coisa relativa ao Elo de 
Alexandria. Depois deduziram que isso era besteira. Assim, 
nos contataram e ns fizemos um trato. No parque, naquele 
dia, eles s estavam l para instigar voc, nada mais. Claro, 
nenhum de ns sabia que voc havia conseguido uma 
parceira. - Dixon indicou Cassiopeia com a arma. - Ainda me 
deve uma por causa daquele dardo.
- Talvez um dia voc tenha a chance de cobrar.
Dixon sorriu.
- Talvez.
Stephanie olhou para o corpo de Brent Green. Lembrou-se 
de como ele havia sugerido que poderia estar interessado 
nela e como, por um momento, ela havia gostado da 
possibilidade. Na verdade, ele a defendera, supostamente se 
dispondo a pedir demisso para ficar do lado dela, e ela se 
pegara questionando todas as dvidas que tivera sobre ele.
Mas tudo havia sido uma representao.
- O presidente me mandou para acabar com isto - disse 
Dixon, interrompendo os pensamentos dela. - Sem 
julgamentos. Sem imprensa. O procurador-geral era um 
homem perturbado que tirou a prpria vida. Seu corpo ser 
cremado e uma certido de bito ser fornecida por legistas 
militares. Suicdio. Ter um funeral luxuoso e ser lembrado 
com carinho. Fim da histria.
- E o Elo de Alexandria?
- George Haddad desapareceu. Esperamos que Malone esteja 
com ele. Haddad ligou para a Palestina h alguns meses e de 
novo h alguns dias. Depois da primeira vez, e depois de 
Larry me contar algumas coisas, ns grudamos em Pam 
Malone. O Mossad planejou pegar Gary Malone. Mas nosso 
primeiro-ministro recusou. Ento a Ordem foi mais rpida 
do que ns. Com Pam Malone conectada, simplesmente 
fomos atrs. Mas no deu muito certo. Ento tudo isso 
aconteceu. Daniels nos garantiu que nada vai dar em nada. 
Meu governo confia nele.
- Algum teve notcias de Cotton? 
Dixon balanou a cabea.
- A ltima que tivemos foi que ele saltou de pra-quedas em 
algum lugar do Sinai. Mas isso no importa. Se alguma coisa 
for encontrada, o trato  que no sabemos nada a respeito.
- E quando Daniels no for mais presidente? - perguntou 
Cassiopeia.
- At l, a coisa j deve estar esquecida. Se no estiver, Israel 
far o que tem feito h sculos. Lutar como o diabo. J 
conseguimos antes, e continuaremos conseguindo.
E Stephanie acreditava nisso. Mas havia outro ponto.
- O vice-presidente. E quanto a ele?
- Por tudo que sabemos, apenas Green, o vice-presidente e 
Alfred Hermann sabiam exatamente o que iria acontecer. 
Quando Green ouviu a conversa que Larry gravou com o 
chefe de staff do vice, entrou em pnico e pediu para os 
sauditas acabarem com Daley. De modo tpico, eles no 
mencionaram isso a ns; caso contrrio, teramos impedido. 
Mas no se pode confiar num rabe. - Dixon fez uma pausa. 
- O fato de vocs duas terem aparecido e se encontrado com 
Larry deixou Green em pnico, e ele convenceu os sauditas 
a partirem para cima de vocs tambm. Depois de Daniels 
atrapalhar o ataque, matando todos os contratados, e agora 
com Green fora de cena, tudo acabou para os sauditas.
Stephanie apontou para Green.
- E isso a?
- Temos pessoas esperando para levar esse merda de volta 
para a casa dele, onde o corpo ser encontrado hoje, mais 
tarde. A morte de Larry no ser atribuda a um ataque 
terrorista, como Green havia planejado.
- Isso pode ser difcil. O carro explodiu.
- O caso simplesmente ficar sem soluo. Mas ter aspectos 
especiais que Daniels poder explorar, como o que aqueles 
idiotas haviam planejado. Acho que Larry poderia gostar 
disso. Ele ainda pode ser de alguma ajuda, mesmo na 
sepultura.
- Voc no explicou como essa situao pode ser contida - 
disse Cassiopeia - com o vice-presidente ainda por a.
Dixon deu de ombros.
- Isso  problema do Daniels. - Em seguida, a israelense 
pegou o celular, apertou um boto e disse: - Senhor 
presidente, Green est morto, como o senhor queria.

OITENTA E CINCO

PENNSULA DO SINAI

Sabre disparou contra as pernas de Malone, a 12 metros de 
distncia. Nenhuma das mesas tinha cadeiras, de modo que 
sua linha de viso era clara. Queria arrebentar as pernas do 
adversrio, o que tornaria fcil a matana final.
Mandou trs balas na direo de Malone.
Mas as pernas haviam sumido.
Desgraado.
Rolou de sob uma mesa para outra, esgueirou-se at a borda 
do tampo para encontrar Malone e no viu nada. 
Ento soube.

Malone havia percebido que McCollum pretendia atirar em 
suas pernas e tinha saltado para a mesa mais prxima um 
instante antes que trs tiros atravessassem o salo. Pesos de 
papel, feitos de quartzo dourado, caram no cho com 
estrondo. McCollum deduziria quase instantaneamente o 
que Malone havia feito, por isso decidiu trazer a vantagem 
para seu lado.
Esperou um instante, depois rolou para fora e viu McCollum 
agachado atrs de uma das mesas. Apontou e disparou duas 
vezes, mas McCollum mudou de posio e usou um dos 
grossos pedestais como proteo.
Aquela galeria de tiro era aberta demais.
Correu para trs de uma fila de prateleiras  esquerda.
- Nada mau, Malone - disse o adversrio do outro lado do 
salo.
- Eu tento.
- Voc no vai sair daqui.
- Veremos.
- J matei homens melhores que voc.
Malone se perguntou se aquilo era bravata ou um jogo 
mental. 
Nenhuma das duas coisas o impressionava.

Haddad guiou Pam Malone pela biblioteca, na direo oposta 
quela que Sabre e Malone tinham seguido. Eles j haviam 
escutado os tiros. Precisavam se apressar. Entraram no 
quinto salo, que tinha o adequado nome de Sala da Vida, 
simbolizado por uma cruz de mosaico com a parte vertical 
superior substituda por uma forma de ovo.
Passou direto e encontrou a Sala da Eternidade, parando 
junto  sada. Vozes vinham pelo corredor, depois da virada 
de noventa graus. Aparentemente, o show estava 
acontecendo na Sala de Leitura. Montes de mesas, menos 
estantes, mais espao aberto. O passeio anterior de Sabre 
fora para reconhecimento, e ele havia notado todas as coisas 
certas. Haddad j fizera a mesma coisa, quando lutava contra 
os judeus. Sempre conhea seu campo de batalha.
Ele conhecia este intimamente.
Cinco anos antes, havia completado em segredo a saga do 
heri, pouco antes de pedir ajuda a Cotton Malone. Ao 
chegar, tivera acesso  biblioteca e ficara sabendo que tudo 
que suspeitava sobre a Bblia era verdadeiro; sentira-se 
esmagado. Mas quando os Guardies pediram sua ajuda, 
ficara empolgado. Muitos Guardies haviam sido recrutados 
entre os que recebiam convites, e na poca todos os 
Guardies acharam que ele deveria ser o bibliotecrio. 
Tinham explicado sobre as ameaas que se aproximavam e 
ele concordara em resolver os problemas. Mas no fim 
tambm precisara de ajuda. Motivo pelo qual Malone fora 
envolvido.
A pacincia e o conhecimento haviam lhe servido bem.
S esperava no ter calculado mal.
Parou junto  porta que saa da Sala da Eternidade, com Pam 
Malone atrs.
- Espere a - sussurrou ele.
Avanou pelo corredor, virou a esquina e deu uma espiada 
na Sala de Leitura. Viu movimento  esquerda e  direita. 
Um homem atrs das estantes, outro usando as mesas como 
cobertura.
Esgueirou-se de volta at Pam Malone e lhe entregou sua 
arma.
- Tenho de entrar l - disse em voz baixa.
- E no vai voltar. 
Ele balanou a cabea.
- Isto  o fim.
- Voc prometeu uma conversa longa a Cotton.
- Menti. - Ele fez uma pausa. - E voc sabia.
-  a advogada que h em mim.
- No,  o ser humano que h em voc. Todos fazemos 
coisas das quais nos arrependemos. Eu fiz minha parte. Mas, 
pelo menos, no fim da vida, pude manter esta biblioteca 
viva. - Ele viu algo nos olhos dela. - Sabe o que quero dizer, 
no sabe?
Ela assentiu.
- Ento sabe o que tem de fazer.
Haddad viu a confuso dela e lhe deu um tapinha no ombro. 
- Voc saber, quando chegar o momento. - E apontou para 
a arma. - J disparou uma antes?
Ela balanou a cabea rapidamente, negando.
- S aponte e puxe o gatilho. Ela d um coice; portanto, 
segure firme. 
Pam no disse nada, mas Haddad ficou satisfeito por ela ter 
entendido.
- Tenha uma vida prspera. Diga ao Cotton que ele sempre 
teve o meu respeito.
Em seguida, virou-se e caminhou na direo da Sala de 
Leitura.

- Podemos ficar aqui sentados o dia todo - gritou Malone.
- Voc est se achando o mximo - disse McCollum. - Anda 
meio fora de forma, no ?
- Eu consigo chutar o seu rabo. 
McCollum deu um risinho.
- Vou lhe dizer o que farei. Acho que vou dar a volta e 
matar aquela sua ex-mulher. Teria matado o seu garoto, 
tambm, se voc no tivesse acabado com aqueles idiotas 
que contratei. E, por sinal, acha que aquilo foi coisa sua? Eu 
armei tudo e voc acompanhou, como um cachorro atrs da 
raposa. O plano B era matar o garoto. De qualquer modo, eu 
teria encontrado George Haddad.
Malone sabia o que McCollum estava fazendo. Tentando 
instig-lo. Deix-lo furioso. Obrig-lo a reagir. Mas ele 
pensou numa coisa.
- Voc j se encontrou com Haddad?
- No. Voc estava l quando os israelenses o mataram. Ouvi 
a coisa toda.
Ouviu? McCollum no fazia idia de quem era o 
bibliotecrio. Por isso perguntou:
- Onde voc conseguiu a saga?
- Eu dei a ele.
A nova voz era de George Haddad.
Malone viu o palestino parado na porta do outro lado.
- Sr. Sabre, eu o manipulei do mesmo modo como o senhor 
fez com Cotton. Deixei a fita de udio e as informaes no 
meu computador, para o senhor encontrar, inclusive a saga, 
que eu criei. Garanto: a jornada que completei para 
encontrar este local era muito mais difcil.
- Voc  cheio de merda - disse McCollum.
- Tinha de ser um desafio. Se fosse fcil demais, o senhor 
poderia pensar que era uma armadilha. Se fosse difcil 
demais, nunca teria conseguido. Mas o senhor estava 
ansioso. At deixei um pen drive ao lado do computador, e o 
senhor nem pensou a respeito. Mais isca para esta armadilha.
Malone notou que, de onde Haddad estava, existia uma linha 
de tiro diretamente at a posio de McCollum. Mas as duas 
mos de Haddad estavam vazias. Algo que certamente fora 
notado.
- George, o que voc est fazendo? - gritou Malone.
- Terminando o que comecei. 
Haddad foi na direo de McCollum.
- Confie no que voc conhece, Cotton. Ela no vai deix-lo 
na mo. 
E continuou andando.
Sabre viu o bibliotecrio marchar em sua direo. Aquele 
sujeito era George Haddad? Tudo que acontecera havia sido 
planejado? Ele fora induzido?
Como o velho havia chamado a coisa? Uma armadilha? Nem 
de longe.
Ento disparou um tiro. 
Na cabea do bibliotecrio.

Malone gritou "No" enquanto a bala se cravava em George 
Haddad. Tinha tantas perguntas que desejava fazer a ele, 
tanta coisa que no havia entendido! Como o palestino 
encontrara seu caminho desde a Cisjordnia at Londres, e 
depois at aqui? O que estava acontecendo? O que Haddad 
sabia e que valia tudo isso?
A raiva jorrou atravs dele e Malone disparou dois tiros na 
direo de McCollum, mas eles apenas danificaram a parede 
do outro lado.
Haddad ficou imvel, com um lago de sangue se formando 
ao redor da cabea.
- O velho tinha coragem - gritou McCollum. - Eu ia mat-lo 
de qualquer modo. Talvez ele soubesse disso, no?
- Voc est morto - foi tudo que Malone respondeu. 
Um risinho veio do outro lado do salo.
- Como voc disse a seu prprio respeito. Talvez ache isso 
difcil de fazer.
Malone sabia que precisava acabar com aquilo. Os Guardies 
contavam com ele. Haddad estivera contando com ele. 
Ento viu Pam.
Do lado interno da porta de sada. Na sombra, com o ngulo 
tornando-a invisvel para McCollum. Ela segurava uma 
arma. Confie no que voc conhece. As ltimas palavras de 
Haddad.
Ele e Pam haviam passado a maior parte da vida juntos, os 
ltimos cinco anos se odiando. Mas ela fazia parte dele, e ele 
dela, e os dois sempre seriam ligados. Se no fosse atravs de 
Gary, seria por algo que nenhum deles saberia explicar. No 
necessariamente amor, mas uma conexo. Ele no permitiria 
que nada acontecesse a ela, e tinha de confiar que ela faria o 
mesmo em relao a ele.
Ela no vai deix-lo na mo.
Tirou o pente da arma, depois apontou para McCollum e 
puxou o gatilho. A bala que j estava na cmara acertou o 
tampo de uma mesa. Depois um clic. E outro.
Mais um, para deixar claro.
- Fim da linha, Malone - disse McCollum.
Malone levantou-se, torcendo para que o adversrio quisesse 
saborear a matana. Se McCollum optasse por disparar de sua 
posio escondida, ele e Pam estariam mortos. Mas ele 
conhecia o inimigo. McCollum levantou-se, apontando a 
arma, e avanou de trs da mesa, abrindo caminho para 
perto de onde Malone se encontrava. Agora suas costas 
estavam viradas para a porta. Nem mesmo a viso perifrica 
iria ajud-lo.
Malone precisava retardar o ato.
- Seu nome  Sabre?
- O nome que uso. O verdadeiro  McCollum.
- O que vai fazer?
- Matar todo mundo aqui e manter tudo isto para mim.  
simples.
- Voc no tem a menor idia do que h aqui. O que vai 
fazer com isso?
- Conseguirei pessoas que saibam. Aposto que h muita 
coisa. S o negcio do Velho Testamento basta para deixar 
minha marca no mundo.
Pam no havia se mexido. Certamente ouvira os estalos e 
sabia que ele estava  merc de McCollum. Malone 
imaginou o medo dela. Nos ltimos dias, ela vira pessoas 
morrendo. Agora o terror de matar outra pessoa devia estar 
atravessando-a. Ele prprio j sentira essa incerteza. Puxar o 
gatilho nunca era fcil. O ato tinha conseqncias, e o medo 
poderia paralis-la completamente. S esperava que os 
instintos dela vencessem o terror.
McCollum levantou a arma.
- Diga ol a Haddad por mim.
Pam saiu rapidamente do arco, e seus passos distraram 
McCollum momentaneamente. A cabea dele virou 
bruscamente para a direita e ele pareceu ter captado 
movimento com o canto dos olhos. Malone usou esse 
instante para chutar a arma da mo de McCollum. Em 
seguida, mandou o punho contra o rosto do sujeito, 
fazendo-o cambalear para trs. Saltou para atacar o 
desgraado, mas McCollum se recuperou e avanou. Juntos 
bateram numa das mesas e rolaram pelo outro lado. Malone 
deu uma joelhada na barriga dele e ouviu o oponente ficar 
sem flego.
Levantou-se e puxou McCollum do cho, esperando que ele 
estivesse sem ar. Em vez disso, McCollum socou o peito e o 
rosto de Malone.
A sala escureceu e clareou de novo, e Malone sacudiu a dor 
para fora do crebro.
Virou-se e viu uma faca na mo de McCollum.
A mesma de Lisboa.
Preparou-se.
Mas no teve chance de fazer nada. 
Um tiro.
McCollum pareceu surpreso. Ento o sangue jorrou de um 
buraco do seu lado direito. Outro tiro, e seus braos subiram 
e ele cambaleou para trs. Um terceiro, depois um quarto, e 
o corpo se inclinou adiante, os olhos reviraram para o cu, o 
sangue jorrou da boca a cada respirao, depois ele caiu de 
cara no piso.
Malone virou.
Pam abaixou a arma.
- J no era sem tempo - disse ele.
Mas ela no disse nada, os olhos arregalados pelo que havia 
feito. Malone se aproximou e baixou o brao dela. Ela o 
encarou com uma expresso vazia.
Figuras emergiram das sombras da passagem.
Nove homens e mulheres se aproximaram rapidamente.
Ado e o Chapu de Palha estavam no meio do grupo. Eva 
estava chorando ao se ajoelhar junto ao corpo de Haddad.
Os outros se ajoelharam com ela. 
Pam ficou imvel, olhando. 
Malone tambm.
Por fim, teve de interromper os lamentos.
- Presumo que vocs tenham equipamentos de 
comunicao, no ?
Ado o encarou e assentiu.
- Preciso us-los.

OITENTA E SEIS

VIENA

Thorvaldsen estava de volta  biblioteca com Gary - mas 
desta vez Hermann e o vice-presidente sabiam que ele se 
encontrava ali. Estavam sozinhos com a porta fechada, os 
homens da segurana do lado de fora.
- Eles estiveram aqui ontem  noite - disse o vice-
presidente, obviamente agitado. - Tinham de estar em algum 
lugar. - E indicou as prateleiras do alto. - Essa porcaria de 
lugar  como uma sala de concertos. Ele ligou para o 
procurador-geral e contou tudo.
- Isso  problema? - perguntou Hermann.
- Graas a Deus, no. Brent ser meu vice-presidente assim 
que tudo isso acontecer. Est cuidando das coisas em 
Washington enquanto eu fico fora. Pelo menos nesse ponto 
as coisas esto controladas.
- Esse a - disse Hermann, apontando para Thorvaldsen - 
seqestrou minha filha ontem. Fez isso antes de ouvir 
qualquer coisa ontem  noite.
O vice-presidente ficou mais agitado ainda.
- O que levanta um monte de perguntas. Alfred, eu no 
questionei o que voc estava fazendo aqui. Voc queria o 
Elo de Alexandria e conseguiu. Fui eu que resolvi isso. No 
sei o que voc fez com a informao e no quero saber, mas 
 bvio que se tornou um problema.
Hermann estava coando a lateral da cabea.
- Henrik, voc vai pagar muito caro por ter batido em mim. 
Ningum jamais fez isso.
Thorvaldsen no se impressionou.
- Talvez j fosse hora de isso acontecer.
- E voc, garoto.
Um n se apertou na garganta de Thorvaldsen. No havia 
planejado pr Gary em perigo.
- Alfred - disse o vice-presidente -, tudo est em 
movimento. Voc ter de cuidar dessa situao.
O suor brotou na testa de Thorvaldsen enquanto ele 
percebia o que essas palavras significavam.
- Esses dois jamais diro uma palavra do que sabem.
- Voc mataria o garoto? - perguntou Thorvaldsen.
- Voc mataria minha filha? E da? Sim, eu mataria o garoto. 
- As narinas de Hermann se abriram e seus olhos se 
eriaram com a fria que claramente o atravessava.
- No est acostumado com isso, no , Alfred?
- Me provocar no vai dar em nada.
Mas ganharia tempo para Thorvaldsen, e esse era 
praticamente o nico jogo que ele conhecia. Virou-se para o 
vice-presidente.
- Brent Green era um bom homem. O que aconteceu com 
ele?
- No sou o confessor dele; portanto, no sei. Presumo que 
tenha visto os benefcios de assumir meu cargo. A Amrica 
precisa de lideranas fortes, pessoas no poder que no 
tenham medo de us-lo. Brent  assim. Eu sou assim.
- E quanto a homens de carter?
- Esse  um termo relativo. Prefiro considerar que os Estados 
Unidos esto se associando  comunidade empresarial 
mundial para atingir objetivos de natureza mutuamente 
benfica.
- Voc  um assassino - disse Gary.
Uma batida fraca soou  porta e Hermann foi atender. Um 
dos seguranas do vice-presidente sussurrou para Hermann. 
Uma expresso perplexa surgiu no rosto do austraco, ento 
ele assentiu e o segurana foi embora.
- O presidente est ao telefone - disse Hermann. 
A surpresa inundou o rosto do vice.
- Que diabo  isso?
- Ele o rastreou at aqui, com o Servio Secreto. Seu pessoal 
informou que voc estava aqui comigo junto com mais duas 
pessoas, uma delas um garoto. O presidente quer falar com 
todos ns.
Thorvaldsen percebeu que eles no teriam escolha. O 
presidente obviamente sabia muita coisa.
- Tambm queria saber se eu tinha um viva-voz - disse 
Hermann enquanto ia at a mesa e apertava dois botes.
- Bom dia, senhor presidente - disse Hermann.
- Creio que no nos conhecemos pessoalmente. Aqui  
Danny Daniels, falando dos Estados Unidos.
-  verdade, senhor. No nos conhecemos.  um prazer.
- Meu vice-presidente est a?
- Estou, senhor presidente.
- E, Thorvaldsen, voc est a? Com o filho do Malone?
- Ele est aqui comigo - disse Thorvaldsen.
- Primeiro tenho uma notcia trgica. Ainda estou tentando 
me recuperar. Brent Green morreu.
Thorvaldsen captou o instante de choque no rosto do vice-
presidente. At Hermann se encolheu.
- Suicdio - disse Daniels. - Deu um tiro na cabea. Acabei 
de saber h alguns minutos. Medonho. Estamos trabalhando 
no material para a imprensa, antes que a histria venha a 
explodir.
- Como isso aconteceu? - perguntou o vice-presidente.
- No sei, mas aconteceu, e ele se foi. Alm disso, Larry 
Daley est morto. Bomba no carro. Nesse caso, no fazemos 
idia de quem so os culpados.
Mais consternao invadiu a expresso do vice-presidente, e 
seus ombros pareceram afrouxar alguns centmetros.
- A situao  a seguinte - disse Daniels. - Nas circunstncias 
atuais, no poderei viajar para o Afeganisto na semana que 
vem. O pas precisa de mim aqui, e preciso que o vice-
presidente v no meu lugar.
O vice permaneceu em silncio.
- H algum a? - perguntou Daniels em voz alta.
- Sim, senhor - respondeu o vice-presidente. - Estou aqui.
- Fantstico. Traga este rabo para c hoje e esteja pronto para 
viajar na semana que vem. Claro, se voc no quiser fazer 
essa viagem para ver as tropas, pode entregar a carta de 
renncia. A escolha  sua. Mas prefiro que faa a viagem.
- O que o senhor est dizendo?
- Esta no  uma linha segura. Portanto, duvido que voc 
queira que eu diga o que realmente acho. Deixe-me dizer 
usando uma histria. Uma histria que meu pai costumava 
contar. Havia um pssaro viajando para passar o inverno no 
sul, mas foi apanhado numa tempestade de gelo e caiu no 
cho. Congelou, mas veio uma vaca e cagou em cima dele. 
A bosta quente o descongelou, e ele gostou tanto que 
comeou a cantar. Um gato veio ver que balbrdia era 
aquela, perguntar se podia ajudar, viu que era uma refeio e 
comeu o pssaro. A moral  a seguinte: nem todo mundo 
que caga em voc  seu inimigo. Nem todo mundo que vem 
ajudar  amigo. E, se voc est quente e feliz, mesmo que 
numa pilha de bosta, fique de boca fechada. Fui claro?
- Perfeitamente - disse o vice-presidente. - Como o senhor 
sugere que eu explique minha renncia?
-  difcil usar as palavras populares Para passar mais tempo 
com minha famlia. Ningum em nossa posio renuncia 
por isso. Vejamos: o ltimo vice-presidente a renunciar 
estava diante de um indiciamento. No podemos usar essa. 
Claro, voc no pode contar a verdade, que foi apanhado 
cometendo traio. Que tal O presidente e eu no 
parecemos mais capazes de trabalhar juntos? Sendo o 
poltico consumado que voc , tenho certeza de que vai 
escolher as palavras com enorme cuidado, porque, se eu 
ouvir uma coisa da qual no goste, contarei a verdade. Fale 
de questes, discuta nossas diferenas, diga s pessoas que 
sou um babaca. Tudo bem. Mas nada que eu no queira 
ouvir.
Thorvaldsen ficou olhando para o vice-presidente. O sujeito 
parecia a fim de protestar, mas sensatamente percebeu que o 
esforo no adiantaria.
- Senhor presidente - disse Thorvaldsen. - Stephanie e 
Cassiopeia esto bem?
- Esto, Henrik. Posso cham-lo assim?
- Sem dvida.
- Elas foram fundamentais para levar as coisas a este final.
- E minha me e meu pai? - perguntou Gary.
- Esse deve ser o filho do Cotton. Prazer em conhec-lo, 
Gary. Sua me e seu pai esto bem. Falei com seu pai h 
alguns minutos. O que me leva ao senhor, Herr Hermann.
Thorvaldsen captou o desdm na voz do presidente.
- Seu homem, Sabre, encontrou a Biblioteca de Alexandria. 
Na verdade, Cotton fez isso para ele, mas ele tentou roub-
la. Sabre est morto. De modo que o senhor perdeu. Temos 
a biblioteca e garanto que nenhuma alma saber onde ela 
est. Quanto ao senhor, Herr Hermann,  melhor que 
Henrik e o garoto no tenham problema para sair de seu 
castelo, e no quero ouvir nenhuma palavra a seu respeito; 
caso contrrio, deixarei os israelenses e os sauditas saberem 
quem orquestrou tudo isso. Ento seus problemas estaro 
alm de qualquer compreenso. No haver lugar para o 
senhor se esconder.
O vice-presidente se deixou cair numa das cadeiras.
- Mais uma coisa, Hermann. Nem uma s palavra a Bin 
Laden e ao pessoal dele. Queremos encontr-los na semana 
que vem, enquanto esperam meu avio. Se no estiverem l, 
com os msseis preparados, mandarei minhas tropas 
pegarem o senhor.
Hermann no disse nada.
- Vou entender seu silncio como compreenso. Veja bem, 
isto  que  fantstico em ser o lder do mundo livre. Tenho 
um monte de gente disposta a fazer o que eu quero. Pessoas 
com uma ampla variedade de talentos. O senhor tem 
dinheiro. Eu tenho poder.
Thorvaldsen nunca havia se encontrado com o presidente 
americano, mas j gostava dele.
- Gary - disse o presidente. - Seu pai estar de volta a 
Copenhague dentro de dois dias. E, Henrik, obrigado por 
tudo o que fez.
- No sei se realmente ajudei.
- Ns vencemos, no foi? E  isso que importa nesse jogo. 
A linha ficou muda.
Hermann permaneceu em silncio. 
Thorvaldsen apontou para o atlas.
- Aquelas cartas so inteis, Alfred. Voc no pode provar 
nada.
- Saia.
- Com todo o prazer. 
Daniels estava certo. 
Fim de jogo.

OITENTA E SETE

WASHINGTON, D.C. 
DOMINGO, 10 DE OUTUBRO 
8H30

Stephanie estava sentada no Salo Oval. Estivera ali muitas 
vezes, na maioria delas sentindo-se desconfortvel. Mas 
hoje, no. Ela e Cassiopeia tinham vindo se encontrar com o 
presidente.
Brent Green fora enterrado na vspera, em Vermont, com 
honras. A imprensa havia elogiado seu carter e seus feitos. 
Democratas e republicanos disseram que sua falta seria 
sentida. O prprio Daniels fizera os elogios fnebres, um 
tributo comovente. Larry Daley tambm fora enterrado, na 
Flrida, sem fanfarras. Na presena de apenas alguns 
familiares e poucos amigos. Stephanie e Cassiopeia tinham 
comparecido.
Era interessante como ela havia interpretado mal os dois 
homens. Daley no era santo, de modo nenhum, mas no 
era assassino nem traidor. Havia tentado parar o que estava 
acontecendo. Infelizmente, o que estava acontecendo o 
havia parado.
- Quero voc de volta no Setor Magalhes - disse Daniels.
- Talvez o senhor ache isso difcil de explicar.
- No preciso explicar. Nunca quis que voc sasse, mas na 
poca no tinha escolha.
Ela queria o cargo de volta. Gostava do que fazia. Mas havia 
outra questo.
- E quanto ao suborno do Congresso?
- Eu lhe disse, Stephanie, que no sabia nada sobre isso. Mas 
a coisa acaba aqui e agora. Porm, assim como aconteceu 
com Green, o pas no vai se beneficiar com esse tipo de 
escndalo. Vamos acabar com isso e ir em frente.
Ela no tinha necessariamente certeza da falta de 
cumplicidade de Daniels, mas concordou. Era o melhor 
caminho.
- Ningum jamais saber o que aconteceu? - perguntou 
Cassiopeia. 
Daniels estava sentado atrs de sua mesa, os ps apoiados na 
beira, o corpo alto recostado na poltrona.
- Nem uma palavra.
O vice-presidente havia renunciado no sbado, citando 
diferenas quanto  poltica da administrao. A imprensa 
estivera implorando para entrevist-lo, at agora sem 
sucesso.
- Imagino - disse Daniels - que meu ex-vice tentar fazer 
nome. Haver algumas discusses pblicas entre ns sobre 
poltica, coisas assim. Ele at pode tentar a prxima eleio. 
Mas no tenho medo dessa luta. E, falando de lutas, preciso 
que voc fique de olho na Ordem do Velo de Ouro. Aquele 
pessoal  encrenca. Ns cortamos as pernas deles, mas eles 
vo se levantar de novo.
- E Israel? - perguntou Cassiopeia.
- Eles tm minha promessa de que nada da biblioteca jamais 
ser liberado. S Cotton e a ex-mulher sabem onde ela est, 
mas nem vou anotar isso em lugar nenhum. Que a coisa 
fique escondida. - Daniels olhou para Stephanie. - Voc e 
Heather fizeram as pazes?
- Ontem, no enterro. Ela realmente gostava do Daley. 
Contou umas coisas sobre ele que eu no sabia.
- Veja bem, voc no deveria julgar tanto. Green ordenou a 
morte de Daley depois de ter examinado aqueles pen drives. 
Eles apontavam para vazamentos na represa e ele tentou 
tap-los. Heather  uma boa agente. Faz o servio. Green e o 
vice-presidente teriam destrudo Israel. Eles no ligavam a 
mnima para nada, a no ser para si prprios. E voc achava 
que eu era problema. 
Stephanie sorriu.
- Estava errada em relao a isso tambm, senhor presidente. 
Daniels fez um gesto para Cassiopeia.
- Vai voltar para a construo do seu castelo na Europa?
- Fiquei ausente um bom tempo. Meus empregados devem 
estar se perguntando o que foi feito de mim.
- Se os seus forem como os meus, enquanto os cheques do 
pagamento estiverem chegando, estaro felizes. - Daniels se 
levantou. - Obrigado s duas pelo que fizeram.
Stephanie continuou sentada. Sentia alguma coisa.
- O que o senhor no est dizendo? 
Os olhos de Daniels brilharam.
- Provavelmente um monte de coisas.
-  a biblioteca. O senhor foi muito desdenhoso em relao 
a ela h pouco. No vai deixar que ela permanea escondida, 
no ?
- No sou eu que devo decidir. H mais algum encarregado 
disso, e todos ns sabemos quem .

Malone ouviu os sinos de Copenhague badalando alto para 
marcar 15 horas. A Hojbro Plads estava movimentada com a 
multido usual do meio de tarde. Ele, Pam e Gary estavam 
sentados a uma mesa ao ar livre, tendo acabado de almoar. 
Ele e Pam haviam retornado do Egito na vspera, depois de 
passar o sbado com os Guardies enquanto prestavam 
homenagens a George Haddad. 
Ele pediu a conta.
Thorvaldsen estava parado a 50 metros dali, supervisionando 
os reparos da loja de Malone, iniciados na semana anterior, 
enquanto eles estavam fora. Agora andaimes envolviam a 
fachada de quatro andares, e havia trabalhadores ocupados 
do lado de dentro e de fora.
- Vou me despedir do Henrik - disse Gary, e saiu correndo 
da mesa, passando pela multido.
- Foi um sbado triste com o George - disse Pam.
Malone sabia que ainda existia muita coisa na mente dela. 
No haviam conversado muito sobre o que acontecera na 
biblioteca.
- Voc est bem? - perguntou ele.
- Matei um homem. Era um merda, mas, mesmo assim, 
matei. Malone ficou quieto.
- Voc se levantou - disse ela. - Encarou o sujeito, sabendo 
que eu estava l atrs. Sabia que eu iria atirar.
- Eu no tinha certeza do que voc faria. Mas sabia que faria 
alguma coisa, e era s disso que eu precisava.
- Eu nunca tinha disparado uma arma antes. Quando Haddad 
me deu o revlver, disse para simplesmente apontar e atirar. 
Ele tambm sabia que eu iria fazer isso.
- Pam, no d para ficar pensando nisso. Voc fez o que 
tinha de fazer.
- Como voc, em todos esses anos. - Ela fez uma pausa. - 
Quero dizer uma coisa, e no  fcil.
Ele esperou.
- Peo desculpas. De verdade, por tudo. Eu nunca soube o 
que voc passava no mundo. Achava que era ego, coisa de 
macho. S no entendia. Mas agora entendo. Estava errada. 
Em relao a um monte de coisas.
- Ento somos dois. Tambm peo desculpas. Por tudo que 
deu errado em todos esses anos.
Ela levantou as mos num gesto de rendio.
- Certo, acho que  emoo suficiente para ns dois. 
Ele estendeu a mo.
- Paz?
Ela aceitou o gesto. 
- Paz.
Mas, em seguida, se curvou e beijou-o suavemente nos 
lbios. Ele no estava esperando aquilo, e a sensao gelou 
seus nervos.
- Por que isso?
- No arranje idias. Acho que ns dois estamos muito 
melhor divorciados, mas isso no quer dizer que eu no me 
lembre.
- Ento, que tal nenhum de ns esquecer?
-  justo. - Depois de uma pausa, ela acrescentou: - E o 
Gary? O que vamos fazer? Ele precisa saber a verdade.
Malone havia pensado no dilema.
- E saber. Vamos dar um pouco de tempo e depois ns trs 
teremos uma conversa. Tenho certeza de que no vai 
importar muito, pelo ponto de vista de nenhum de ns. Mas 
voc est certa, ele tem o direito de saber a verdade.
Pagou a conta e os dois foram at Thorvaldsen e Gary.
- Vou sentir falta do garoto - disse Henrik. - Ele e eu 
formamos uma boa equipe.
Malone e Pam tinham ouvido sobre tudo o que acontecera 
na ustria.
- Acho que ele j teve intrigas mais do que suficientes - disse 
Pam. 
Malone concordou.
- De volta  escola, voc a. J foi bastante ruim toda essa 
confuso em que entrou. - Viu que Thorvaldsen havia 
entendido o que ele queria dizer. Tinham conversado no dia 
anterior. E mesmo ficando chateado com a idia de Gary 
derrubar um homem armado, Malone secretamente sentiu 
orgulho. O sangue de Malone no corria nas veias do garoto, 
mas uma quantidade suficiente do pai havia passado ao filho 
para torn-lo seu, em todos os sentidos que importavam. -  
hora de vocs irem.

Os trs foram at o fim da praa, onde Jesper esperava com 
o carro de Thorvaldsen.
- Voc j teve intrigas suficientes tambm? - perguntou 
Malone a Jesper.
O sujeito apenas sorriu e confirmou com a cabea. No dia 
anterior, Thorvaldsen havia dito que dois dias com 
Margarete Hermann haviam sido praticamente o mximo 
que Jesper poderia suportar. Ela fora solta no sbado, quando 
Thorvaldsen e Gary viajaram de volta  Dinamarca. Pelo que 
Thorvaldsen contara sobre Hermann, o relacionamento 
entre pai e filha no era digno de inveja. O sangue ligava os 
dois, mas no muito mais que isso.
Malone abraou o filho e disse:
- Amo voc. Cuide da sua me.
- Ela no precisa disso.
- No tenha tanta certeza. 
Encarou Pam.
- Se precisar de mim, sabe onde estou.
- O mesmo para voc. No mnimo sabemos como cuidar das 
costas um do outro.
No haviam contado a Gary sobre o que acontecera no Sinai 
e jamais contariam. Thorvaldsen concordara em proteger os 
Guardies e fornecer verbas para a manuteno do mosteiro 
e da biblioteca. J havia planos para arquivar 
eletronicamente os manuscritos. Alm disso, aconteceriam 
alguns recrutamentos e as fileiras dos Guardies seriam 
restauradas a um nmero respeitvel. O dinamarqus ficara 
empolgado com a perspectiva de ajudar e estava ansioso para 
visitar o local em breve.
Mas tudo permaneceria em segredo.
Thorvaldsen havia garantido a Israel que o assunto estava 
contido e, com os Estados Unidos tambm fornecendo 
garantias, os judeus pareciam satisfeitos.

Pam e Gary subiram no carro. Malone assentiu enquanto o 
veculo desaparecia no trfego, indo para o aeroporto. Em 
seguida, abriu caminho pela multido at onde Thorvaldsen 
olhava operrios limpando o entulho de seu prdio.
- Tudo certo? - perguntou Henrik. 
Ele sabia o que o amigo queria dizer.
- O demnio se foi.
- O passado pode mesmo roer a alma da gente. 
Malone concordou.
- Ou ser seu melhor amigo.
Ele sabia o que Thorvaldsen queria dizer.
- Ser incrvel ver o que h na biblioteca.
- No podemos dizer quais tesouros esperam.
Ficou olhando os homens nos andaimes, limpando a vapor a 
fuligem do exterior do sculo XVI.
- Vai ficar to bom quanto antes - disse Thorvaldsen. - Fica 
por sua conta restaurar o estoque. H muitos livros para 
comprar.
Malone estava ansioso por isso. Era o que ele fazia. Era 
livreiro. Mas havia algo a dizer a partir das lies que tivera 
nos ltimos dias. Pensou de novo em como os trs Malone 
haviam sido ameaados, e no que realmente importava. 
Apontou para o prdio.
- Nada disso  to importante assim.
O dinamarqus deu-lhe um sorriso de compreenso.
- So apenas coisas, Henrik. S isso. Coisas.


NOTA DO AUTOR

Este livro implicou muitas viagens. Dinamarca, Inglaterra, 
Alemanha, ustria, Washington, D.C. e Portugal. O 
conceito bsico nasceu durante um jantar em Camden, 
Carolina do Sul, quando um dos anfitries, Kenneth Harvey, 
perguntou se eu tinha ouvido falar de um erudito libans 
chamado Kamal Salibi. Quando respondi que no, Ken me 
ofereceu quatro livros de Salibi. Cerca de um ano depois 
brotou a idia deste livro. Mas, como sempre, a histria final 
 uma mistura de fatos e fico.
Agora  hora de saber onde fica a linha divisria.
Quanto  nakba, como foi descrita no prlogo, foi uma 
tragdia real demais e continua assombrando as relaes no 
Oriente Mdio.
O monumento descrito nos captulos 8 e 34 baseia-se num 
caramancho de mrmore que existe na Shugborough Hall, 
na Inglaterra. O pessoal da Nova Era e das Teorias da 
Conspirao discutem seu significado h dcadas. A 
entrevista coletiva do captulo 8 aconteceu mesmo na 
Shugborough Hall, e as interpretaes dadas para o 
monumento so as que os especialistas expuseram. O 
conceito de as letras romanas serem um mapa  criao 
minha.
Como mencionei, a idia de o Velho Testamento ser um 
registro dos judeus antigos em outro lugar que no a 
Palestina no  minha. Em 1985, Salibi detalhou essa teoria 
num livro chamado The Bible Came from Arabia. Salibi 
exps suas idias em mais trs livros: Who Was Jesus (1988), 
Secrets of the Bible People (1988) e The Historicity of 
Biblical Israel (1988). As experincias de George Haddad ao 
notar uma conexo entre o oeste da Arbia e a Bblia, 
detalhadas no captulo 52, imitam as de Salibi. Alm disso, o 
governo saudita realmente arrasou povoados inteiros depois 
da publicao do primeiro livro de Salibi; at hoje os sauditas 
se recusam a permitir qualquer escavao cientfica em Asir.
Os mapas dos captulos 57 e 68 so da pesquisa de Salibi. A 
idia de que a terra prometida por Deus na aliana com 
Abrao fica numa regio muito distante do que 
consideramos como a Palestina , para dizer o mnimo, 
controversa. Mas, como notaram Salibi e George Haddad, a 
questo poderia ser facilmente comprovada ou refutada por 
meio da arqueologia. Uma observao sobre linguagem: 
durante todo o livro a expresso "hebraico antigo"  usada 
para se referir  lngua da Bblia hebraica original. Pouco se 
conhece sobre sua ortografia, gramtica, sintaxe ou idioma. 
Era uma linguagem de aprendizado, raramente falada, e que 
desapareceu do uso comum no sculo VI ou V antes de 
Cristo. "Hebraico antigo", e no hebraico bblico, ou 
rabnico, ou algum outro rtulo descritivo, foi escolhido 
simplesmente para facilitar a compreenso do leitor.
As incoerncias do Velho Testamento, observadas nos 
captulos 20, 23 e 57, no so nada de novo. Estudiosos 
debateram esses pontos durante sculos. Mas a Bblia , no 
mnimo, um documento fluido, e cada gerao parece deixar 
uma marca em sua interpretao.
A histria de David Ben-Gurion, no captulo 22,  acurada. 
O pai do moderno Estado de Israel mudou radicalmente sua 
poltica depois de 1965, tornando-se mais conciliador em 
relao aos rabes. A partir da, foi afastado da poltica 
israelense at sua morte, em 1973. Claro, sua visita  
biblioteca foi criao minha.
A histria de Nicolas Poussin, no captulo 29,  verdadeira. 
Sua vida tambm teve uma mudana dramtica. O destino 
do quadro Os pastores da Arcdia  contado de modo 
correto, e o trecho de uma carta descrevendo o que Poussin 
pode ter aprendido secretamente  real. Por que Poussin 
criou Os pastores da Arcdia II, a imagem reversa da 
primeira pintura (que foi cinzelada no monumento da 
Shugborough Hall),  um mistrio.
Os Guardies no so reais. Talvez, se existissem, a 
Biblioteca de Alexandria pudesse ter sido salva. A descrio 
fsica da biblioteca oferecida no captulo 21  a melhor que 
temos disponvel. Quanto ao modo como mais de meio 
milho de manuscritos desapareceram, as trs explicaes do 
captulo 21 so as melhores suposies dos especialistas. 
Todos os homens sbios descritos no captulo 32 existiram, 
mas, infelizmente, graas  destruio da Biblioteca de 
Alexandria, nenhum de seus escritos sobreviveu. O mapa de 
Piri Reis (captulo 32) ainda existe e oferece um rpido 
vislumbre do que pode ter se perdido.
A saga do heri  fictcia, adaptada de um misterioso 
manuscrito chamado The Red Serpent. Encontrei-o em 
Rennes-le-Chteau enquanto pesquisava O legado dos 
templrios.
A Ordem do Velo de Ouro foi uma sociedade medieval 
francesa criada como est detalhado no captulo 18. Uma 
ordem social com esse nome ainda existe na ustria, mas 
meu grupo fictcio no tem qualquer relao com ela. Os 
mantos e a ornamentao descritos para a Ordem foram 
inspirados na sociedade do sculo XV.
O mosteiro de Santa Maria de Belm fica em Lisboa. Visitei-
o duas vezes, e sua histria e sua magnificncia - descritas 
nos captulos 46, 48, 53 e 54 - so acuradas, ainda que parte 
da geografia interna do prdio tenha sido modificada.  um 
local notvel, assim como Lisboa.
O sacrrio que tem um papel fundamental na saga do heri 
fica no mosteiro em Belm. O modo como a luz do sol muda 
seu exterior de prata em ouro  um fenmeno notado h 
sculos. Hoje, para manter o efeito constante, refletores 
banham a prata. Claro, eles foram eliminados desta histria.
O Museu Nacional Aeroespacial  um dos meus lugares 
prediletos, e fico feliz por ele finalmente ter entrado numa 
das minhas narrativas. Kronborg Slot (captulo 9), Helsingor 
(captulos 11 e 14), a Baumeisterhaus em Rotemburgo 
(captulo 22) e o Vale do Reno e a ponte atravessando o rio 
Mosela no centro da Alemanha (captulo 27) so reais.
As cartas trocadas entre So Jernimo e Santo Agostinho 
(captulos 63 e 65) foram criadas por mim. Ambos eram 
homens sbios, ativos na formulao do incio da Igreja. As 
cartas mostram que a traduo do Velho Testamento feita 
por Jernimo, do hebraico para o latim, pode ter sido 
manipulada para servir aos objetivos da Igreja emergente. As 
incoerncias notadas na traduo de Jernimo so de Salibi, 
e no minhas, mas levantam questes fascinantes.
Nunca saltei de pra-quedas de um C130H, mas o coronel 
Barry King saltou - e me contou tudo a respeito.
A abadia no Sinai (captulo 72)  uma mistura de muitas que 
existem naquela regio desolada. Situar l a Biblioteca de 
Alexandria preservada, no subsolo (captulo 78), no est 
fora das possibilidades. Os egpcios antigos mineravam 
aquelas montanhas amplamente e seus tneis ainda 
existiriam depois da poca de Cristo.
A histria da Bblia do Sinai (captulo 63) aconteceu como 
foi apresentada. O Cdice de Alepo (captulo 32), datado de 
900 d.C., est em exposio em Jerusalm e continua sendo 
o manuscrito do Antigo Testamento mais antigo a 
sobreviver. Mas uma Bblia de um tempo antes de Cristo - 
como a citada no captulo 79 - certamente mudaria tudo que 
se sabe sobre o Velho Testamento.
O conflito no Oriente Mdio continua feroz.  espantoso 
como trs das principais religies do mundo - o judasmo, o 
islamismo e o cristianismo - optaram por venerar o mesmo 
local em Jerusalm. Durante dois mil anos, essas ideologias 
conflitantes batalharam pela supremacia, mas, como  dito 
no captulo 7, em seu nvel mais fundamental, essa luta no 
tem a ver com terra, liberdade ou poltica. Em vez disso,  
centrada numa coisa muito mais bsica. A Palavra de Deus.
Cada uma das trs religies possui sua prpria verso. Cada 
uma acredita fervorosamente que as outras duas esto 
erradas.
E isso, mais que qualquer coisa, explica por que o conflito 
continua.
